segunda-feira, 12 de outubro de 2009

VIOLÊNCIA GRATUITA


Aos que assistiram e aos que não assistiram: Alguns autores, como Glauber Rocha por exemplo, fazem questão de se colocar acima dos espectadores dizendo implicitamente com suas obras: "Sou inteligente, vejo mundo desta maneira e vocês que são burros que se danem. Não tenho obrigação de lhes dar explicações, nem me preocupo com suas opiniões". Como arte não se define, aos artistas tudo é permitido e a nós, mortais, só nos resta aceitar ou não, aplaudir ou não. Ficar falando sobre a obra do artista é imortalizá-lo. (Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!). Todos que comentamos fazemos o jogo dele, do autor. Por isso, o filme “Violência gratuita” (2007), remake da obra do próprio autor, Michael Haneke, entra no rol dos filmes que vieram para polemizar e acrescentar milhares de palavras ao currículo de Heneke, sem que os espectadores saiam da sala de cinema contentes com o que viram. O filme, como o nome em português explicita, trata do comportamento violento praticado por uma dupla de psicopatas que, valendo-se de desculpa fútil, adentram a casa de veraneio de uma família em férias, torturam e matam usando linguagem e gestos educados o tempo todo. Acrescente-se que o visual da dupla é o mais clean possível: bermudas, camisetas, luvas e tênis imaculadamente brancos, penteados e bem barbeados, em completo desacordo com estereótipos hollywoodianos de vilões, estes, geralmente mal encarados, mal vestidos, feios etc. Sintonizados com o atual momento da criminalidade humana mundial, os psicopatas do filme não apresentam justificativas para tamanha brutalidade. Pelo contrário, em determinada cena, eles fazem chacota dos motivos comumente apresentados pela sociedade para tentar justificar a violência de seus componentes. Brincam com as frases como ”eu sou assim porque fui abusado quando criança” ou “sou assim porque meu pai é alcoólatra e minha mãe prostituta” e assim por diante. E mais: com naturalidade cínica, tentam vender a idéia de que só estão sendo violentos porque foram obrigados a isso pela “falta de maneiras” das próprias vítimas. Algo assim: “Você não foi educado, não pediu ‘por favor’; fui obrigado a te matar”. Foi um dos piores filme que assisti nos últimos vinte anos, salvando as interpretações impecáveis de todo o elenco. Parece que a ideia de Haneke é mostrar que a platéia é cúmplice da violência, sente um desejo insano por sangue. Essa visão demonstra que atualmente, na pós modernidade, a agressividade se tornou um complemento da sociedade em sua brutalidade real do dia-a-dia e na forma crua como é retratada nas mídias, principalmente nos filmes. Só isso. No mais, não aconselho ninguém assisti-lo, passem longe do local ou do canal que estiver sendo exibido. O filme é uma violência gratuita à inteligência e sensibilidade do espectador. JAIR, Floripa, 12/10/09.

7 comentários:

Lídia Borges disse...

Já penso duas vezes, quando quero ir ao cinema.
De facto, há filmes que desprezam por completo a inteligencia do espectador e o "castigam" com cenas de uma brutalidade física e/ou psicológica inaceitáveis.

L.B.

Leonel disse...

Caro Jair: Tem horas que eu me encho com a idiotice e irresponsabilidade de alguns diretores de cinema!
Idiotice porque ofendem a inteligência do espectador com personagens que agem com extrema estupidez e tramas inverossímeis, isto em filmes que pretendem ser "realistas".
Irresponsabilidade porque jogam nas telas de todo o mundo a banalização da violência, sugerindo barbaridades a serem praticadas por indivíduos sem caráter, sem nenhum propósito.
Se a propaganda não fosse a alma do negócio, não se investiria tanto em propaganda! Isto significa que a propaganda funciona de fato na mente das pessoas. O ser humano normalmente tem certa barreira em fazer algo que não é costumeiro ou que ninguém ainda fez. Pois bem, no meu entender, quando alguns filmes sugerem violência e a banalizam (e não estou falando de filmes sobre fatos reais ou históricos), estão eliminando esta "barreira psicológica", tirando o ineditismo das barbaridades! Claro que mau-caráter é mau-caráter e age com maldade mesmo sem influência de nenhum filme, mas num contexto onde as barbaridades são vistas a toda a hora, elas acabam sendo "aceitáveis"!
Não sou favorável à censura, mas ao bom senso!
Acho que a arte pode muito bem passar sem essas aberrações!
Nós é que somos o público!
Cabe a nós a escolha!
Leonel

Kotta1947 disse...

O mercado cinematográfico está tão gasto de ideias que deitam cá para fora coisas estúpidas que só servem para instigar os jovens a copiar porque deliram com a violência e malvadez. Alguns filmes dão aulas de tudo quanto há de pior. Por isso a nossa sociedade está como está. kotta

Augusto Ouriques Lopes disse...

Não acho que a violência mostrada em filmes instiga violência no mundo aqui fora. Também não acho que mostrar brutalidade na grande tela compromete a qualidade de uma película. Cito clássicos extremamente violentos de um modo ou de outro:

- Laranja Mecânica (linchamento de um mendigo etc)
- O Poderoso Chefão (a cabeça do cavalo na cama etc)
- Apocalipse Now ("Adoro o cheiro de napalm pela manhã" etc)

Se este filme a que você se refere foi ruim, as causas podem ser muitas desde má direção até um roteiro mal escrito. Mas a violência em si não deveria afastar ninguém de um filme. Seu texto não entra nesta questão e pelo que entendi o filme é vagabundo por ser. Mas quis comentar isto aqui pois muitos cortam completamente filmes violentos de suas idas ao cinema e perdem obras de arte belíssimas (Já citei "Pulp Fiction"?).
Como nota final eu pessoalmente assisto e admiro bons filmes violentos desde o início da adolescência. E sou um cara que ao ver uma aranha dentro de casa, a pega com um papel e coloca no quintal.

Thi Perini disse...

O que me irrita, surpreende e entristece é que filmes como este e como "O Albergue" ou "Jogos mortais" são feitos justamente porque há demanda pra eles.
O público médio quer ver isso. Delicia-se com isso.

Simplesmente não dá pra entender!

Anônimo disse...

Caro Jair,
concordo com o seu texto.Mas o diretor do filme quis justamente demonstrar toda essa violência prazerosa que a platéia anda pedindo.Todos que assistem ao filme Violência Gratuita,consideram-o degradante e não prazeroso,até mesmo os que gostam de violência.O diretor do filme foi que as pessoas que logo que acabassem de ver o filme já pensassem: -Hei,violência não é bom,nem em filme.
Isso é a moral que o filme passa...
Abraços!

brunabora disse...

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