Mostrando postagens com marcador Cinofilia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinofilia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A SAGA DA FIDELIDADE




Publiquei um texto “A fidelidade” do qual extraí este trecho: “Sobre as ‘grandes palavras’ do vernáculo como: amor, ódio, esperança, virtude, honestidade, patriotismo etc, sempre podemos encontrar exemplos edificantes na história da humanidade, mas, para fidelidade nada, ninguém, nenhuma coisa, nenhum bicho, nenhum homem encarna tão perfeitamente e com tanta justiça o significado dela como o Cão”.

É sobre essa virtude canina elevada ao mais alto grau que trata este texto, baseado em notícias de jornais do Oregon da época. Em agosto de 1923, o collie Bobbie perdeu-se de seus donos enquanto estes viajavam por Indiana, EUA. O cão e a família Smith viviam no Oregon, estado situado a distância de 3700 quilômetros. Em fevereiro de 1924, ou seja, quase cinco meses depois, Bobbie pulou na cama onde seu dono dormia e lambeu-lhe alegremente o rosto. Ele estava esquelético, com as patas tão machucadas que era possível ver os ossos através das almofadas, mas sobrevivera. A Sociedade Humanitária do Oregon acabou rastreando, através de testemunhas, a rota percorrida pelo bicho, e descobriu que ele havia viajado quase cinco mil quilômetros para chegar em casa. O cachorro havia cruzado as Montanhas Rochosas, atravessado o rio Missouri e até mesmo dividido um cozido com legumes com um bando de mendigos, na sua saga. Deduziu-se que Bobbie caçava e comia coelhos, - hábito que ele adquiriu quando vivia com seus donos - e conseguiu evitar a morte certa por ter fugido da carrocinha em pelo menos duas cidades. O mais espantoso, é que no decorrer de sua jornada, não seguiu exatamente a rota que seus donos haviam feito, mas, ao invés disso, atravessou territórios que nunca vira antes, e dos quais não possuía conhecimento algum. Acabou sendo homenageado com uma coleira de ouro simbólica pela sua façanha, e nunca mais se separou de sua família.

Histórias como esta existem às centenas, quase sempre não comprovadas mas, de qualquer forma, interessantes e com certo mistério a ser resolvido. Como os animais conseguem orientar-se nesses deslocamentos? Há quem acredite que animais, mais que humanos até, possuem uma percepção extra-sensorial. Os mais céticos, como eu, admitem que os animais, sejam domésticos ou não, têm uma capacidade de orientação geral, uma espécie tosca de GPS orgânico que se guia pelo sol ou pelas linhas magnéticas da Terra, do tipo: “desloquei-me para direita donde me encontrava, logo, para voltar, tenho que andar para a esquerda”. Feito isso, o bicho vai, grosso modo, no sentido que deve e, por tentativa e erro, acaba chegando em região conhecida, que, geralmente é onde os cheiros lhes são familiares, daí é só “fazer sintonia fina” e achar o local onde mora. E o que o move, o que determina sua vontade de chegar é a fidelidade que dedica a seu dono.

Para ilustrar, uma experiência própria: Quando eu tinha uns doze anos, lá na minha Palmeira natal, recebi a incumbência de abandonar um gato de minha mãe que supostamente estava comendo pintinhos de uma vizinha. Essa história de comer pintinhos não estava bem contada porque o gato gostava mesmo de camundongos, e degustava também lagartixas e até cobras de pequeno porte que encontrava pelas redondezas. Não obstante, lá fui eu, com uma caixa de papelão na garupa da bicicleta onde havia colocado o assustado bichano. Pedalei até onde estava sendo construída uma estrada nos arredores da cidade e, considerando que estava “longe” de casa, soltei o animalzinho. Ele escafedeu-se, ganhou umas moitas de guanxuma ali perto e sumiu, não mais o vi. De volta para casa, pedalando calmamente, fui informar que havia cumprido a missão. Ao chegar, para espanto de todos, lá estava o gato alegre e cheio de saúde lambendo-se todo, sem aparentar qualquer trauma ou desconforto. Pela esperteza, o bicho deixou de ser punido novamente e, para felicidade de todos, não mais almoçou os pintinhos. Provavelmente o meu “longe” era apenas o quintal da casa do felino, daí ele ter voltado com tanta facilidade. Neste caso, a fidelidade do animal seria apenas ao lugar no qual encontrava abrigo e alimento e não a seus donos. JAIR, Floripa, 28/03/10.

sexta-feira, 12 de março de 2010

CÃES PASTORES


Assunto recorrente em meus textos, já publiquei vários posts sobre cães. Os canídeos foram aqui lembrados desde quando o homem domesticou os lobos asiáticos, depois, através de cruzamentos seletivos, criou variedades que atendessem sua necessidade de segurança e companhia até obter as centenas de “raças” atuais. Hoje quero falar sobre mais uma dessas interferências evolutivas humanas, a que criou os “Sheepdogs” ou cães pastores. Para meu propósito estou me valendo de observações de ninguém menos que Charles Darwin, publicadas no seu relato de viagem a bordo do Beagle ao redor mundo. Viagem que rendeu o fundamental, “A origem das espécies”, o qual revolucionou a maneira que o mundo via a vida no Planeta.
Se o objetivo do homem era criar um cachorro de guarda, por exemplo, ele selecionava entre as crias aqueles indivíduos robustos que apresentassem agressividade e fidelidade a seus donos e os cruzava até que, gerações depois, tivesse conseguido descendentes com aquelas qualidades. Se era outra a intenção, o cruzamento se fazia em outra direção, mas, sempre que necessário, havia treinamento no sentido de aperfeiçoar os dotes congênitos do animal. Pra se obterem cães pastores não é diferente.
Segundo Darwin, são escolhidos cães de certa raça pelas suas características físicas, que apresentem traços gregários, sejam fortes, resistentes ao frio e muito fiéis ao bando ao qual pertencem. Feita a seleção, inicia-se a educação que consiste em separar o filhote, ainda muito jovem, da mãe e acostumá-lo com seus futuros companheiros, ou seja, as ovelhas. Uma ovelha é oferecida ao filhotinho para que ele mame três ou quatro vezes ao dia, e um ninho de lã é feito junto as suas companheiras, de forma a integrá-lo completamente ao rebanho. Em nenhum momento lhe é permitido associar-se a outros cães. Além disso, o filhote é castrado para evitar que quando crescido tenha qualquer sentimento para com os da sua espécie. Como resultado dessa educação ele não desenvolve nenhum desejo de abandonar o bando de ovelhas, e como qualquer cachorro defende aquele que lhe é próximo, o Sheepdog defenderá sua “família”, as ovelhas. É interessante observar, quando algum estranho se aproxima das ovelhas, o cão imediatamente avança latindo, e as ovelhas todas se unem atrás deles, como se seguindo o chefe.
Esses cães também são treinados para trazer para casa, a determinada hora do dia, suas companheiras. Em geral, quando ainda muito novos, em treinamento, esses cachorros têm a tendência de brincar com ovelhas, como fariam com os da sua espécie, costume que desaparece com o tempo, mesmo porque as ovelhas não o estimulam.
O cão pastor vem todos os dias para casa para alimentar-se e, assim que come, retorna para companhia das ovelhas. Nessas ocasiões, seja pelo cheiro ou por outro motivo, os cães da casa tratam o Sheepdog como um estranho, um animal de espécie diferente, avançam sobre ele e o escorraçam. O cão pastor corre para seu bando e, chegando lá, imediatamente enfrenta seus perseguidores, protegido pelas companheiras ovelhas, os cachorros caseiros se veem em menor número e fogem. Do mesmo modo, até uma matilha de lobos se vê intimidada a atacar um rebanho protegido por apenas um cão que seja. Parece que as outras espécies estabelecem uma noção confusa de bando, se um cão bravo se julga fazendo parte de um rebanho de ovelhas, os demais também o fazem, julgam que o bando todo é composto de cães perigosos, assim, nenhum animal hostil se aproxima das ovelhas protegidas pelo Sheepdog.
Cientistas concordam que os animais facilmente domesticáveis consideram o homem um membro de sua própria sociedade e, assim, preenchem seu instinto de associação. No caso do cão pastor, ele coloca as ovelhas como suas iguais e assim ganha confiança; e os lobos, embora sabendo que as ovelhas individualmente não são cães, e que inclusive são apetitosas, acabam, no entanto, consentindo que elas adquirem um novo status, quando na companhia de um cão pastor, passam a ser cães honorários por assim dizer.
Neste ponto das observações Darwin não tira qualquer conclusão que possa nos trazer subsídio para entendermos melhor o que ele chama de seleção humana, seleção não natural que “força” cruzamentos para obter resultado desejado. Contudo, pelo que podemos deduzir de outros livros do mesmo autor, há uma evolução comportamental das espécies envolvidas no processo, de tal modo que a partir dessa seleção ocorrem novas relações entre os grupos, que se tornam comportamentos padrões. Embora seja discutível que os cães selecionados pelo homem se constituam raça, e não variedades como seria normal, os Sheepdogs estão entre os cães que mais diferem no tocante ao relacionamento com outros de sua espécie. Tornando-se racional inferir que cães pastores constituem os mais bem sucedidos exemplos de seleção não natural que deram certo. JAIR, Floripa, 12/03/10.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O SUPER VIRA-LATAS


Desde que o homem, provavelmente há mais de dez mil anos, domesticou o lobo asiático, convive com seus descendentes seja na forma de raças (selecionadas geneticamente) novas ou da raça original adaptada ao meio humano. O Dingo (Canis lupus dingo), canideo que vive no meio selvagem australiano, provavelmente é um cão doméstico que foi revertido para o estado selvagem há milhares de anos e hoje vive em grande parte independente dos seres humanos, na maioria de sua distribuição. Os Dingos são considerados os únicos grandes mamíferos placentários da Austrália, além dos seres humanos, e parecem semelhantes aos cães domésticos, mas sua adaptação ao meio selvagem é de tal ordem que considerá-los nativos não é estultice. Também sua origem ainda é assunto em aberto e sob muita especulação e debate desde o século 18. No entanto, estudos arqueológicos indicam sua introdução foi relativamente tarde, por volta de 5000 anos atrás, e há uma estreita relação com outros cães domésticos. Uma teoria amplamente aceita diz que dingos evoluíram ou foram criados a partir do lobo asiático em torno 6,000-10,000 anos atrás, teoria também aceita para todos os demais cães domésticos. No entanto análises genéticas indicam uma domesticação muito mais cedo. Dingos têm uma cabeça relativamente grande, um focinho pontudo, e orelhas eretas, mede em torno de 52-60 centímetros de altura nos ombros e o macho adulto chega a pesar 27 quilos. Os machos são normalmente maiores e mais pesados que as fêmeas da mesma idade. Sua pelagem é geralmente amarela, podendo variar de marrom avermelhado até o quase branco. As pernas são cerca de metade do comprimento do corpo e da cabeça juntos. Como todos os cães domésticos, os Dingos tendem para uma comunicação fonética, a a diferença é que eles usam principalmente gritos e choramingos e latem com menos freqüência do que outros cães. Foram registrados, oito classes de sons com 19 variações usadas em ocasiões diferentes. Dingos vivem hoje em todos os tipos de habitats, incluindo a coberto de neve florestas montanhosas do leste da Austrália, secos desertos quentes da Austrália Central, e as zonas úmidas de florestas tropicais do norte da Austrália. Alimentam-se de insetos, répteis, aves e mamíferos que normalmente caçam. Hoje, o Dingo é considerado como parte da fauna nativa da Austrália pelos ambientalistas, bem como os biólogos, especialmente porque já existiam no continente antes da chegada dos europeus, e uma adaptação mútua dos cães ao meio e deste aos cães havia ocorrido. No entanto, há também a opinião contrária, que dingos são apenas outro predador originário da Tailândia. Entretanto, sejam quais forem sua origem, idade de domesticação ou descendência, o que se tem que admitir é que são animais extremamente adaptados a um meio inóspito que não perdoa fraquezas e vacilos. O out back australiano, deserto vasto e hostil, não permite que sobreviva qualquer ser que não seja, pelo menos, particularmente resistente, tenaz e adaptável. A falta de água, a escassez de abrigos e a inclemência do clima selecionam as espécies, deixando que sobrevivam apenas as melhores. Considerando que vira-latas é aquele cão sem raça definida que se adaptou a viver e reproduzir-se com sucesso nas piores condições possíveis, o Dingo pode ser considerado um um super vira-latas. JAIR, Floripa, 12/11/09.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

KAFÚ



O lugar comum, “o cão é o melhor amigo do homem” ou a expressão, “fidelidade canina” não são suficientes para retratar o comportamento dos companheiros de quatro patas com relação aos humanos. Conta a mitologia que Ulisses, ao retornar de Tróia para onde fora guerrear e de onde retornara após vinte anos, encontrou seu cão, esperando-o. Ao chegar em casa disfarçado, velho, alquebrado, ninguém o reconheceu, nem sua esposa Penélope, nem os criados, somente seu velho e fiel Argos que, a vê-lo, tentou se levantar de onde se encontrava, mas só conseguiu abanar o rabo num aceno de boas vindas. Diga-se, Argos encontrava-se abandonado, doente e cheio de carrapatos, mas isso não o impediu render homenagem a seu dono mostrando-se feliz com seu retorno. Ulisses não resistiu: virou a cabeça de lado e chorou. Nem Poseidon, nem os troianos, nem os ciclopes gigantes, nem as bruxas dos mares bravios arrancaram lágrimas do herói. Argos, sim.
Kafú era um pastor alemão capa-preta de três anos buliçoso, saudável, inteligente e extremamente fiel. Veio dar em nossa casa em fins dos anos setenta, presente de um amigo que não tinha como acomodá-lo em seu pátio pequeno e gramado. Conquistou-nos desde o primeiro dia, nada exigia e procurava entender nossas ordens e preferências quanto à hierarquia dentro do pátio e da casa. Cachorro não entra em casa, primeira regra que ele assimilou e nunca transgrediu. O pátio não é lugar de fazer buracos nem necessidades fisiológicas. Para fazer cocô, terreno baldio ao lado, que ele alcançava depois de pular o muro de um metro e trinta. Nem sempre conseguia voltar pulando de fora para dentro, às vezes precisava de ajuda. Suportava com estoicismo o banho de mangueira com xampu e desinfetante todos os sábados, mas, depois de secar-se, procurava sujar-se quase imediatamente, parecia querer dizer: “submeti-me ao banho de acordo com a vontade vocês, agora me sujo de acordo com a minha, e estamos conversados”. Era afeiçoado ao nosso primeiro filho, de pouco mais de um ano, o qual respeitava e, apesar de ser maior e mais pesado, jamais o afrontou ou feriu, pelo contrário, permitia até que Augusto lhe tirasse comida da boca, em geral um osso de peito de boi, do qual ele gostava imensamente. De manhã para ir ao trabalho eu necessitava caminhar uns setecentos metros até o ponto de ônibus na avenida principal. Kafú me acompanhava até o ponto e lá ficava comigo até o ônibus chegar, depois que eu embarcava ele retornava para casa tranquilo, sem meter em encrencas com outros cães que abundavam na área. Numa dessas vezes teve a infelicidade de se atropelado por um ônibus, nada de muito grave, nenhum osso quebrado, apenas uma escoriação na coxa direita. Acontece que sentia dores, muitas dores e não conseguia dormir, ficava ganindo a noite. Solução: dávamos leite morno com trinta gotas de novalgina e ele dormia com os anjos. Isso até que o ferimento sarou e ele passou a não sentir as dores. Era um cão dócil que, estranhamente, tinha optado por apresentar hostilidade apenas se muito contrariado por pessoas desconhecidas, especialmente se estas portassem embrulho nas mãos. Ele veio ao mundo, como os demais cachorros que adotam os humanos, para fazer parte de uma família; para se integrar ao mundo dos seres que, às vezes, desprezam e maltratam outros animais; para trazer alegria e amizade descompromissada a todos que o cercavam; para transpor a fronteira das espécies, mostrando que animais, por diferentes que sejam, por mais distantes que suas heranças genéticas estejam, partilham um universo comum de afeto e lealdade; para dar exemplo de como se pode conviver sem atritos e tensões; para provar ao homem que este é apenas mais um ser da fauna do planeta e não superior a nenhum outro. Kafú viveu feliz, irradiou alegria e descontração para seus companheiros de viagem neste Planeta, e se foi para onde vão os cães depois que cumpriram sua missão na vida terrena. Deixou saudades em todos que o conheceram e tiveram a felicidade de compartilhar sua vida. Como os demais que convivem com os homens, foi o cão mensageiro da lealdade; foi escolhido pela natureza para estabelecer, com sua alegria de viver, harmonia onde houvesse discórdia, paz onde houvesse atritos e felicidade onde houvesse tristeza. JAIR, Floripa, 23/10/09.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CACHORRO VIRA-LATAS


Ao cão, quando abandonado pelo dono ou apenas sem moradia, costumamos chamá-lo de vira-latas. Mas o que é, realmente, um vira-latas? Na verdade e antes de tudo é um sobrevivente, é o animal que a despeito da fome, do frio, do calor, da chuva, da falta de vacinas e dos cuidados mais elementares, sobrevive, multiplica-se e se perpetua saudável se for deixado a vontade. É o animal que os veterinários costumam classificar como SRD – Sem Raça Definida – mas que tem os melhores requisitos genéticos para sobrevivência sob quaisquer condições, é o cão primordial. Desde que o homem, provavelmente há mais de dez mil anos, domesticou o lobo asiático, procurou desenvolver nos descendentes obtidos a partir das matrizes lupinas, características ou qualidades tais que cumprissem certos requisitos como tamanho, agilidade, força, beleza, inteligência ou resistência, os quais se destinavam a auxiliar o homo sapiens na sua difícil tarefa de sobreviver. Essa manipulação do cão original, o qual, pelas características, poderíamos chamar de vira-latas, originou as centenas de raças que conhecemos. Naturalmente em épocas e locais distintos, plantas as mais diversas e outros animais como o boi, o cavalo, o asno, a galinha, o porco e o peru também foram domesticados e utilizados como alimento, como fonte de matéria prima para vestimentas ou confecção de abrigos ou, ainda, como “ferramenta” nas mais diversas atividades relacionadas com a sobrevivência, construção da civilização ou com a guerra. Mas, afinal, o que é domesticar e como se obtêm espécimes diferenciados e úteis para os fins desejados? Domesticar significa, “adotar” o animal ou vegetal selvagem, criá-lo em condições controladas sob supervisão de modo a torná-lo dependente do ser humano para sobreviver, ao mesmo tempo em que se reproduz até com mais facilidade e fertilidade do que na natureza. Já, para se obter variedades de animais ou vegetais diferenciados e úteis para uso humano, usa-se o cruzamento seletivo. Dos descendentes nascidos de animais ou vegetais domesticados, escolhem-se aqueles indivíduos os quais têm as qualidades que desejamos. Assim, para exemplificar: de várias ninhadas de gatos, escolhemos aqueles que tem pelagem maior, mais abundante, os quais, supostamente, estão melhores aparelhados para enfrentar climas frios. Cruzando-se esses animais peludos, com o tempo, depois de muitas gerações sempre cruzando os mais peludos entre si, obtemos uma nova “raça” de gatos que chamaremos de Angorá, por exemplo. No paleolítico, quando as tribos humanas de caçadores/coletores começaram a fixar-se na terra tornando-se criadores/agricultores o fator domesticação não só esteve presente como foi fundamental para a criação dos primeiros aglomerados que se tornariam vilas e depois cidades, no decorrer. Da domesticação para a seleção genética ou cruzamento seletivo o passo foi quase automático, se impôs que os homens selecionassem os melhores dentre os disponíveis, ou seja, cruzavam-se os cavalos e éguas mais fortes; escolhiam-se para o plantio as sementes maiores das espigas mais robustas; plantavam-se as mudas mais resistentes ao inverno rigoroso; cruzavam-se plantas com características diferentes esperando obter-se uma variedade descendente melhor que os pais, por exemplo. Desses cruzamentos forçados e plantios escolhidos nasciam os rebentos que se tornariam as variedades predominantes e que atendiam melhor as necessidades humanas. E o homo sapiens viu que isso era bom. Será que, a longo prazo, era bom mesmo? Vejamos: O homem, sem saber, ao fazer a escolha de uma ou mais qualidades de uma espécie, estava selecionando os genes responsáveis por essas qualidades e negligenciando outros genes, ou seja, pode ser que ao selecionar a variedade de trigo que tem as sementes maiores e as espigas mais robustas, estará sacrificando a resistência à seca dessa mesma planta; o cavalo mais forte, aquele que puxa o arado o dia todo sem cansar, pode ser suscetível à gripe ou ser infértil; a galinha que põe todos os dias pode ser aquela que não resiste ao frio do inverno; e assim por diante. Na seleção genética não há almoço de graça, “ganha-se” de um lado e perde-se de outros, é como vender a alma ao Diabo. É facilmente compreensível essa assimetria entre as qualidades das espécies artificialmente escolhidas. Durante milhões de anos a natureza “escolheu” através da seleção dos mais aptos, os melhores elementos das espécies, de forma que esses indivíduos passaram seus genes para os descendentes sempre melhorando a linhagem; se um rebento da espécie não resiste ao calor, por exemplo, tende a morrer no verão e, geralmente, não deixa descendentes. Por muitos milhões de anos o frio, o calor, o sol, os ventos, as chuvas, as erupções vulcânicas, os movimentos sísmicos, as marés, a competição entre espécies, os solos áridos e fracos, os solos úberes, os microorganismos nocivos, os insetos, os predadores, as secas, moldaram as espécies existentes, que são as melhores porque estão perfeitamente aptas a viver e se reproduzir nas condições existentes, e não porque produzem a fruta maior e mais suculenta, ou porque têm altura exata para serem colhidas pelas colheitadeiras equipadas com GPS. A natureza dotou suas criações de um “pacote” genético com todas as melhores qualidades possíveis, criou o cachorro vira-latas de todas as criaturas da fauna e da flora. Já, a “melhoria” das espécies feitas pelo homem, que se desenvolveu e permeou a civilização do começo da sociedade até os dias modernos, nada mais é do que a fragmentação do “pacote” criado pela natureza, de modo a aproveitar algumas partes e descartar outras. Resulta que hoje são milhões de novas variedades de animais e vegetais muitíssimo produtivos, mas extremamente “especializados”, seres perfeitamente adaptados a um clima específico, a um solo específico, a um ciclo sazonal específico, a uma geografia específica. Mais ainda, nos anos sessenta do século vinte, o movimento científico “Revolução verde” iniciou o maior esforço mundial no sentido de desenvolver novas variedades adaptadas aos mais diversos climas, com o intuito de “debelar a fome” no planeta. Novas variedades de trigo, aveia, arroz, grão-de-bico, soja, centeio, sorgo, milho, tomate, batata e girassol foram criadas, milhares de cultivares artificiais dessas espécies inundaram as lavouras em todos os continentes. Se acabou com fome em algum lugar deve ser num planeta desconhecido, porque na Terra não foi. Acontece que, seja pela incúria e falta de visão da raça humana, seja porque a temperatura planetal está mudando para obedecer a uma apenas suspeitada oscilação climática natural que acontece a cada dezena de milhares de anos, muitas espécies criadas através da seleção genética estão morrendo, não têm capacidade adaptativa para enfrentar mudanças não programadas, as pequenas variações espúrias que estão ocorrendo no clima são o bastante para exterminar essas variedades ultra produtivas, mas “fracas” geneticamente, criadas pela mão do homem. Nos Estados Unidos, Austrália, Japão, Inglaterra e França já foram registrados inúmeros cultivares que não conseguem produzir, ou tem a produção reduzida por causa das mudanças climáticas e alterações na salinidade do solo. E não adianta desenvolver novas espécies a partir destas, estas não têm “memória” climática de longo alcance, os genes que as tornavam imunes às oscilações milenares de clima, perderam-se em algum ponto de sua história moderna a mercê da manipulação humana. Que fazer então? Procurar o CACHORRO VIRA-LATAS! Procurar aquelas espécies selvagens que deram origem a essas modernas, espécies que têm, na sua carga genética, todas as informações necessárias à sobrevivência de longo alcance em quaisquer condições climáticas e adversas. Existem vários órgãos civis preocupados com a perda definitiva das sementes antigas, botânicos, geneticistas e outros cientistas estão numa corrida dramática em busca de sementes das espécies selvagens em todo o mundo. Sementes que foram conservadas através das gerações pelo mundo afora, passando dos avós para os filhos, destes para os netos, dos vizinhos para outros vizinhos e assim por diante, as vezes por centenas de anos. Os cientistas esperam encontrar e preservar as amostras das sementes que puderem fornecer os traços genéticos necessários à luta contra a mudança do clima, do solo e ao ataque de doenças que causam extermínio. A Noruega inaugurou no arquipélago de Svalbard, no Ártico, aquilo a que chama a “Arca de Noé” do reino vegetal, para preservar a diversidade vegetal do planeta, ameaçada por catástrofes naturais, guerras e alterações climáticas. Escavado na rocha gelada, a mil quilômetros do Pólo Norte, este “cofre” pode guardar sementes congeladas por 200 anos, mesmo no pior cenário de alterações climáticas e se os sistemas mecânicos de refrigeração falharem. Jens Stoltenberg, primeiro-ministro norueguês, disse que esta medida defende “os blocos de construção da civilização” de forças que estão ameaçando a “diversidade da vida que sustenta o nosso planeta”. Mais de cem países já enviaram cem milhões de sementes para Svalbard: arroz, milho, trigo, alface, batatas, grão-de-bico, entre outras espécies. As sementes antigas encontradas nos mais esconsos lugares do planeta estão sendo divididas em três partes: uma vai para o plantio normal para preservação das espécies através da produção de mais sementes; outra é dirigida a laboratórios que estudarão sua herança genética e tentarão aproveitar suas qualidades hibridizando-as a outras variedades modernas, melhorando estas; a última destina-se à “Arca de Noé Botânica”, onde, espera-se que elas permaneçam preservadas por 200 anos, como uma espécie de depósito bancário de emergência, que será usado no caso de perda da diversidade biológica. Na verdade, o homem encontra-se olho-no-olho com o monstro de fauces escancaradas que criou. Uma catástrofe inimaginável que pode dizimar a civilização está para acontecer e o ser humano conta apenas com o CACHORRO VIRA-LATAS para salvá-lo. Isso, que nem falamos ainda das plantas geneticamente modificadas que podem vir a ser outra ameaça num futuro próximo! JAIR, Floripa, 23/04/09.