terça-feira, 21 de abril de 2009

PLANTANDO A MANDIOCA


No dia 22 de abril comemora-se o dia da mandioca. Essa fabulosa planta encontrava-se aqui no Patropi quando as caravelas de Cabral chegaram. Na história da ocupação dos continentes pelo homem paleolítico, vários fatores influenciaram na velocidade e delimitação dos deslocamentos, determinando a densidade populacional das tribos nômades que ocupavam uma nova terra. Clima e geografia do terreno eram fatores importantes para que os humanos resolvessem se estabelecer num local, contudo, os fatores fundamentais eram água, animais e plantas comestíveis disponíveis. De nada adiantava haver ótimo clima com terreno favorável se não houvesse o que comer e beber. Desde que as tribos de homens caçadores-coletores, oriundos da África, iniciaram o nomadismo motivados, talvez, pela busca de lugares mais favoráveis à perpetuação da espécie, a história humana é uma reprodução exata da história dos alimentos. Tão precisa é essa justaposição de histórias que existe até um ramo da ciência chamado etnobotânica que estuda as relações homem/planta em suas diferentes dimensões, que visa resgatar dos grupos humanos o saber quanto aos papéis que as plantas representam para os diferentes ambientes culturais e os significados que os grupos sociais lhes atribuem. Talvez com apenas uma exceção, a Austrália, todos os demais continentes e locais ocupados pelo homem primitivo eram úberes, isto é, possuíam meios abundantes de sobrevivência. Não é por acaso que a civilização humana surgiu primeiro no chamado Crescente Fértil, região da então Mesopotâmia e entorno, hoje Síria, Irã, Iraque, Egito, Jordânia, Israel e parte da Turquia. A Mesopotâmia caracterizava-se, claro, pela abundância de água fornecida pelos rios Tigre e Eufrates e pela existência das primitivas gramíneas que, domesticadas, deram origem ao trigo, ao centeio e a cevada. Provavelmente o Asno é oriundo dessa região, onde foi domesticado contribuindo também para a fixação dos homens primitivos. As tribos primitivas continuaram se deslocando e fixando-se em todos os continentes habitáveis sempre que as condições fossem benévolas, indícios paleontológicos indicam que há vinte mil anos o homem, depois de ocupar o leste da Ásia, atravessou o estreito de Bhering e adentrou as Américas por onde hoje é o Alasca. Vindo para o sul onde o clima era mais favorável, os primitivos foram se fixando e formando nações em áreas nas quais havia alimento na forma de animais e plantas domesticáveis. Portanto, não é surpresa alguma que os impérios Inca e Asteca tenham se desenvolvido no Peru e no México, locais onde havia as plantas que deram origem à batata e ao milho. A equação abundância de alimento disponível + água + clima = civilização, se fechava novamente. A leste da cordilheira dos Andes surgiram inúmeras nações, mais uma vez atraídas pela uberdade das terras. Não é a toa que tornou-se célebre a frase de Caminha, “em se plantado tudo dá”. Havia em abundância frutas tropicais, peixes, aves, mamíferos, e, principalmente, mandioca. A mandioca, Manihot esculenta Crantz, é uma planta perene, arbustiva, pertencente à família das Euforbiáceas. Na sua origem a planta é uma falsa trepadeira, falsa porque as verdadeiras possuem gavinhas, coisa que a mandioca não tem. A parte mais importante da planta está sob a terra, os tubérculos. Rica em fécula, utilizada na alimentação humana e animal ou como matéria prima para diversas indústrias. Originária provavelmente do Brasil, a mandioca era cultivada pelos índios, por ocasião da descoberta do país. No Nordeste, ela é conhecida como macaxeira. No sul, como aipim. Mas tem ainda muitos outros nomes: candinga, castelinha, maniva, mandioca-brava, xagala, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniveira, moogo, mucamba, pão-da-américa, tapioca, pão de pobre, macamba, uaipi e pau de farinha. Mandioca, palavra de origem tupi batiza, com mais freqüência, essa planta da qual somos, orgulhosamente, o maior produtor do mundo, trinta por cento da produção do planeta podem ser postos na nossa conta. Lendo os cronistas que andaram pelo Brasil por diferentes épocas e regiões, percebe-se que as técnicas do plantio da mandioca por eles descritas, sofriam pequenas variações, levando-nos a crer que essa quase uniformidade em tais costumes de lidar com a terra e manejo com as mudas denuncia uma origem comum, tanto das diversas variedades da planta como dos povos que as descobriram. A mandioca, depois de conhecida dos portugueses, passou a ser considerada por Portugal um elemento de fundamental importância para o desenvolvimento de suas atividades relacionadas não só às conquistas de novas terras, como ao desenvolvimento do tráfico negreiro. Dessa forma, tal importância recaía no valor nutricional desses tubérculos que permitiam alimentar não só os portugueses que iam se fixando nos pontos da costa africana onde eram instaladas feitorias, como também servia de alimentação dos escravos, tanto nos navios como nos diferentes pontos do Brasil, onde eram negociados e levados por seus compradores para diferentes áreas do país. O componente nutricional mais importante do tubérculo da mandioca é a fécula (amido), cujo teor nas raízes frescas varia de 25 a 35%. Dependendo do vegetal de origem, o amido possui uma denominação: Amido (propriamente dito) - Reservado para o de origem de sementes ou grãos como milho, trigo, arroz. Fécula - Quando extraído de raízes, tubérculos e rizoma. Sagu - O verdadeiro sagu é obtido da parte central ou da medula de certas palmeiras. A fécula, amido da mandioca, é mais conhecida como polvilho ou goma, extraído com a decantação da água de lavagem da mandioca ralada. Vários tipos de farinha são obtidos da mandioca, a farinha branca de mesa, puba, tapioca (transformação do polvilho) e outros, além de bolos, caldos e o tucupi, líquido extraído durante a produção da farinha e polvilho, originariamente típicos da culinária indígena. A mandioca também é usada como forragem na alimentação animal, as folhas, ramas e restos de casca ou os desperdícios industriais do processamento da mandioca dão ótima ração. Através de processos de fermentação e ação enzimática, além de outras reações químicas, as indústrias extraem da mandioca vários produtos químicos dentre os quais o principal é o álcool combustível. Ao contrário dos cereais considerados nobres como o trigo e a cevada, a mandioca não é listada como alimento de importância mundial, no entanto, nós tupiniquins sabemos que sem esse vegetal a história de nosso país provavelmente teria sido muito diferente, e até o anedotário nacional sofreria algum dano, seria mais pobre. Lembrando que a forma cilíndrica do tubérculo torna óbvia sua comparação com o membro masculino, a gaiatice brasileira criou inúmeras anedotas explorando essa conotação. Vejamos uma conhecida piada, que por ser velha não deixou de ser boa: “Você sabe qual a melhor lua para plantar a mandioca?”. A lua-de-mel, é claro! JAIR, Floripa, 21/04/09.

5 comentários:

Olegário disse...

Parabéns pelos textos e um abraço.

Alegário

Daniel Caron disse...

Excelente texto seu Jair. Obrigado por nos receber aqui na sua varanda. Estou lendo a respeito das relações entre homens e plantas, um livro do etnobotanico Terence McKenna. Aproveito para contar que o nosso dia-a-dia do fotojornalismo na capital paranaense está agora em um blog: fotojornalismocuritiba.blogspot.com

Saudações seu Jair!

MATULEVICIUS disse...

Grande JJ, cumpre informar que não é somente na Lua de Mel o dia plantar Mandioca , Macaxeira etc e sim também nos dias de chuva.....rsrsrsrrs..........esperando revê-lo em breve, meus Parabéns
Matú

Ruy disse...

Jair, esse texticulozinho mandiocal (pô que trocadilho mais infame,“seo” Ruy!) prima pela maneira que você conseguiu concatenar a evolução do primitivo “bixo hômi” com a disponibilidade de flora e fauna domesticáveis, aliados ao ambiente propício à sedentarização. Esse, a meu ver, é o xis dessa equação que você tão bem discorreu sobre.
Grande abraço,
Ruy,

Adri disse...

Que saudades de comer uma mandioquinha frita...