sexta-feira, 27 de novembro de 2009

MINI CONTO



PRÁ AMÉLIA NENHUMA BOTAR DEFEITO

Desde que levantou tratou de arrumar a cama, varrer a casa, esfregar, tirar pó, lavar banheiros, polir, limpar vidros, jogar lixo, lavar, secar e passar roupas, bater tapetes, aguar as plantas, dar comida ao peixinho dourado, limpar cocô do cachorro, ir ao supermercado, arrumar a geladeira, fazer comida (sem esquecer da sobremesa), não parou um minuto sequer. Para não desleixar a aparência, malhou na academia por duas horas, tomou banho, escovou e penteou os cabelos, cuidou das unhas e da pele, maquiou-se, perfumou-se, calçou meias e sapatos finos e colocou vestido adequado. Feito isso, checou se todos os detalhes estavam perfeitos, de acordo com a vontade dele. Cinco minutos antes dele chegar, acomodou-se silenciosa e imóvel num canto da sala, e, confundindo-se com a decoração, mimetizou-se em indistinta peça da mobília. Orgulha-se de ser a perfeita mulher-objeto. JAIR, Floripa, 22/11/09.

RESTAURE-SE A IGUALDADE OU ABANDONEMOS A CIVILIZAÇÃO


Recebi mensagem, - a qual, por ser extensa, reproduzo apenas parte abaixo - de um amigo gay reclamando da deturpação que se está fazendo do propósito do projeto de lei que quer acabar com a discriminação contra as minorias, entre elas, os homossexuais:
“Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?” Desde que a enquete apareceu no site do senado, faz umas semanas, evangélicos de todo o país iniciaram uma cruzada via internet, pelo direito de ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo. Uma senhora chamada Rosemeire, por exemplo, expondo num blog seu temor de que a lei seja aprovada, disse que vivíamos “O início da Ditadura Gay no mundo!”. Se você acha que Rosemeire exagerou, é porque não leu o blog de Rozângela Justino, cristã, psicóloga e indignada: “Se este Projeto (palavrão impublicável) for aprovado, estaremos institucionalizando em nosso país o sistema de castas e todos aqueles que não forem homossexuais serão considerados cidadãos de segunda classe.”

Minha Opinião:
Caros,

Enquanto existirem pessoas como essas Rosemeires e Rozângelas Justino, o mundo será um pouco mais pobre, bem mais injusto e totalmente alheio aos verdadeiros valores que devem nortear nossas vidas, como honestidade, respeito ao próximo e solidariedade, por exemplo. Quando julgamos as pessoas pelas suas preferências sexuais, pela cor da pele ou pela orientação religiosa estamos mostrando a pior face do ser humano, aquela que julga que uns são melhores que outros. Já vimos isso na Alemanha nazista e o resultado todos sabemos. Não sou homossexual, mas entendo que somos todos iguais e devemos ter o mesmo tratamento, quaisquer que sejam nossas opções. Não consigo compreender que em pleno século XXI possa existir gente indo contra a corrente histórica que deve nos conduzir para um mundo melhor, onde a igualdade será a cláusula pétrea que alicerçará a sociedade. Abraços, a todos, JAIR. Floripa, 27/11/09.

sábado, 21 de novembro de 2009

MINI CONTO



É NATAL NO SHOPPING CENTER
Consegui! Graças à minha barba espessa e branca fui contratado. Até me aconselharam colocar enchimento na barriga para parecer mais gordo. Ótimo! Domingo estarei ilhado por dezenas de pais, mães e seus malditos rebentos. A carnificina que seguirá a explosão da bomba em minha cintura, tenho certeza, será cinematográfica. SANTA KLAUS, Natal de 2009.

MINI CONTO


INFINDÁVEL CURIOSIDADE
Oito ou mais horas por dia, de sol a sol, trabalho bruto e cansativo que se repete todos os dias e todas as horas; semanas e meses consecutivos, sempre. Cavar buracos de certa dimensão que devem acolher corpos daqueles que, por algum motivo, deixaram esta atribulada existência terrena. Coveiro por necessidade, a morte lhe proporcionava os meios de vida. Os infindáveis desfiles de cadáveres que sumiam nas covas que cavava, não lhes eram indiferentes, faziam-no pensar, sentir-se curioso. Para onde iam? O que lhes esperava além? Seriam felizes? Estarão melhores lá, do que eu aqui? A curiosidade e o cansaço convenceram-no. Deitou-se na cavidade que acabara de criar e deixou-se cobrir de terra. JAIR, Floripa, 21/11/09.

MINI CONTO


LINHA DIRETA PARA O COLO DO CAPETA
Iníquo, mau cidadão, marido infiel, gatuno ardiloso, foi alçado do anonimato por outro homem público, este maculado pelas falcatruas mais abjetas, ladravaz impune; seguiu-lhe os passos; refugiou-se na política onde as leis da vala comum não se aplicam; onde a impunidade é linha mestra que conduz homens da aviltante pobreza ao pináculo das fortunas não explicadas; onde existe uma zona cinzenta de desonestidade que é moeda de troca entre mãos sujas. Cometeu os maiores roubos do dinheiro dos contribuintes; rapinou verba que seria empregada em hospitais, salvaria vidas; praticou pilhagem obscena do erário público; amealhou milhões; enquanto pilhava, escarneceu da sociedade e colocou-se acima das leis dos homens, zombando também das regras divinas. Arrogante, julgou-se imortal e intocável. O câncer, às vezes instrumento de justiça invisível e cruel, corroeu-lhe as entranhas e conduziu-o ao inferno, onde deverá queimar para sempre. JAIR, Floripa, 21/11/09.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

MINI CONTO



REFLEXÃO FINAL
Sentado na pedra à beira do deserto, sentia-se compelido a refletir sobre sua vida tão curta ainda, e prestes a findar em algumas horas apenas. Sacrifício extremo a que se expunha em nome de ideologia que lhe fora empurrada goela abaixo, e que não digerira o suficiente para entender: “Quando explodisse junto às pessoas que estavam condenadas por não partilhar suas crenças, iria para o paraíso, isso ele entendia. Mas, e essas pessoas? Elas também têm uma crença; elas acreditam que ao morrerem suas almas vão para o céu, e lá serão felizes. Então, se eu eliminá-las, estou, na verdade, causando-lhes um bem; estou lhes concedendo a oportunidade de viverem no paraíso como desejam. Se meu gesto, como me foi ensinado, é de vingança, é para lhes causar mal, não vejo como pode ter sentido matá-las”. Foi seu último pensamento antes de premir o detonador da bomba afixada em seu corpo. JAIR, Floripa, 20/11/09.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

MINI CONTO


DECEPÇÃO NO HIPÓDROMO
A megera mostrara o tufo de pêlos afirmando tratar-se de pêlos do animal castanho, de nome Glifo, que competiria no quarto páreo. Verdadeira barbada, afirmava ela. O DNA não deixara dúvidas, era, de longe, fisicamente o melhor cavalo; o que reunia as melhores condições genéticas do hipódromo deste, ou de qualquer outro dia. Acreditei nela, apostei tudo e perdi. Perdi porque havia acreditado no resultado da análise daquele tufo de pêlos que, no fim, mostrou-se apenas barbada velhaca dela, aquela desnaturada. JAIR, Floripa, 18/11/09.