sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sandices vitais



O Homo sapiens desde que pisou no Planeta sentiu necessidade de encontrar explicações para as coisas, sua bisbilhotice é atávica. Sempre atento a tudo que o cerca, com imensa curiosidade que todo animal parece ter, tenta compreender como as coisas funcionam, como se originaram, qual seu lugar na ordem da natureza, que tipo de utilidade podem ter, se os fenômenos existem independentes uns dos outros ou se estão ligados de alguma maneira. Esse questionamento agudo o levou às descobertas, invenções e procedimentos que tornaram a civilização possível e o nascimento das ciências um imperativo categórico. As perguntas não respondidas conduziram às religiões e ao misticismo em caráter menos ou mais provisório dependendo da capacidade da ciência de encontrar as respostas na medida em que evolui. Mais perguntas respondidas correspondem à luz que implode o obscurantismo das superstições. Contudo, ainda que o conhecimento tenha conduzido a humanidade à senda clara de respostas que iluminam, existe uma pergunta por enquanto irrespondível: o que é a vida? Essa indagação permite conjeturas e especulações filosóficas (Cogito, ergo sum, como cogitou Descartes provavelmente com seus botões), místicas, religiosas, metafísicas e fisiológicas, e é sob essa ótica que faço minhas observações.
Afinal, qual a diferença fundamental entre um ser vivo e um aparentemente desprovido de vida ativa como uma pedra, por exemplo? Será que presença ou ausência de movimento presumem vida e não-vida? A faculdade de replicação é suficiente para definirmos quem está vivo e quem não está? Aliás, será que pedra é um ser vivo que tem o período vital tão dilatado, na ordem de bilhões de anos talvez, que nem sequer percebemos que ela está viva? As respostas, se é que existem, com toda certeza não são encontráveis ali na esquina, ou seja, a partir de simples observação das coisas que nos cercam, o que vemos é apenas constatação que existem seres de uma e de outra natureza, não como e porque eles são o que são. A diferença não reside seguramente nos átomos que os constituem.
Não existe qualquer diferença entre os átomos de carbono de nossos corpos e os da ponta do lápis com o qual escrevemos, ou os do diamante que vemos na joalheria; ou entre o ferro que existe em nossas células e o ferro da panela na qual cozinhamos; ou entre o oxigênio de nosso organismo e o da água que nos banhamos, e assim por diante, em qualquer relação com o material de seres vivos e não vivos. Os blocos constituintes básicos – como tijolos de uma construção - de todos os agregados materiais, tanto vivos como não, pensantes ou não, replicantes ou não, são exatamente os mesmos: átomos. Então não é por aí, não existem átomos vivos e átomos inanimados. O que será então que provoca a diferença? A eureca parece ser as combinações entre os átomos: moléculas de arranjos extremamente mais complexos entre os seres vivos e de complexidade menos acentuada entre os não vivos. Só que essa suposição não se sustenta, falta algo: Um rato vivo e um morto tem as mesmas combinações atômicas e moleculares e, no entanto, não são a mesma coisa, a um deles falta vida. Então, como ficamos? Ficamos a ver a navios, para usar uma frase surrada na falta de outra melhor.
Na verdade, essa falha fundamental da ciência, essa fenda indiscreta na couraça do monstro científico, é o rasgo por onde entram as “explicações” dos fundamentalistas religiosos, vale dizer, dos criacionistas. Funciona mais ou menos assim: “Viu como vocês não conseguem explicar? Então nós o faremos: tudo foi criado por uma força superior que sempre existiu e existirá”. Eles admitem que um ser superior soprou num andróide de barro e este criou vida, assim, a vida seria algo fora do alcance da ciência e da compreensão humana. E ainda afirmam que a mulher foi confeccionada a partir da costela do primeiro homem. Não dá pra ser mais néscia essa conclusão. Empurrar com a barriga quando não se sabe a resposta é uma característica de ignorantes que se conformam com suas ignorâncias. Assim, as superstições continuam prosperando em pleno século vinte e um, o que é lamentável. A estupidez de encontrar uma explicação para a criação de vida humana e deixar os outros animais de lado, já é motivo suficiente para mostrar os becos sem saída que os criacionistas inventam.
Já alguns cientistas (apenas alguns, porque a maioria não quer arriscar sua carreira num assunto tão sem definição) acham que conhecem o processo de criação da vida. Chutam que a vida surgiu a partir de um grau de organização da matéria primordial que existia. Conjeturam que processos fortuitos, mas inevitáveis, teriam criado uma espécie de “sopa primeva” que os cientistas crêem ter constituído os oceanos cerca de 3,7 bilhões de anos atrás. As substâncias orgânicas concentravam-se localmente, talvez em gotículas em suspensão, ou espuma que secava nas margens dos mares. Sob a influência da energia dos raios ultravioleta do sol, combinavam-se em moléculas maiores e mais complexas. Pode-se perguntar por que isso não ocorre hoje. Moléculas assim seriam rapidamente absorvidas, degradadas ou devoradas por bactérias e outros seres vivos. Entes que só apareceram tardiamente no planeta. Naqueles tempos as grandes moléculas orgânicas podiam boiar livremente no caldo cada vez mais denso sem serem molestadas. Num dado momento formou-se por acidente, uma molécula notável, uma molécula que podia replicar-se, estava criada a vida. Sandices, essas suposições são baseadas em muitos “ses”: se isto, se aquilo.
Pois é, acredito que absolutamente ninguém racional neste planetinha azul, pode jactar-se de saber a definição definitiva do que é vida sob o ponto de vista fisiológico. Tampouco se pode afirmar que a ciência já tenha desvendado parte desse mistério, que já tenha algum “caminho andado” na direção de onde se encontra as tábuas da verdade sobre a vida. Os avanços das ciências biológicas, cada vez mais, acrescentam palavreado técnico cheio de firulas, mais com intuito de mostrar serviço, mas que confundem mais do que esclarecem sobre o que se sabe a respeito do que é vida e como ela se originou. O mistério continua até o próximo capítulo. JAIR, Floripa, 12/02/12.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sandices mórbidas




Vou repetir: “A morte é o único evento absolutamente inevitável e que alcança a totalidade dos seres vivos, mas nós não temos familiaridade com ela, procuramos certa distância dela como se fôssemos eternos”. Na verdade, a morte nos acompanha desde o momento exato da concepção, iniciamos o processo de moriência quando passamos a viver, e a morte passa, literalmente, a nos acompanhar durante nossa existência. Mas, parece que o Homo sapiens faz questão de viver como se ela não existisse.
Algumas culturas antigas como os egípcios do tempo dos Faraós, queriam “burlar” a morte por meio de rituais e processos de conservação corporal, obviamente sem perceberem que a ceifadeira é irrefragável. O mistério da falência corporal decorrente de doenças, acidentes ou velhice, que resulta na morte, era e é incompreensível para a maioria da humanidade. Esse mistério resultou na criação das religiões. Já que deixávamos de viver na Terra, “tinha” que haver alguma compensação na forma de vida depois da morte, seja em algum lugar edênico onde os bons serão compensados pelas suas ações, ou até num ambiente de punição por imperfeições cometidas em vida. Mais uma vez a ignorância acerca do fenômeno mais natural da existência era usada para criar explicações e soluções.
Contudo, por mais intrigante que fosse, a morte sempre cercou o homem, os primitivos sabiam que para se alimentar de animais precisam matá-los ou encontrá-los mortos; sabiam que os inimigos ou as feras podiam causar-lhes a morte; então, apesar de não compreendê-la e de temê-la mais do que qualquer coisa, os homens conviviam com ela e sabiam que, muitas vezes, era a razão de continuarem vivendo. Uns morriam para outros sobreviverem, uma verdade bem cedo descoberta.
Mais ainda, devido ao modus vivendi humano, que em suas aglomerações uns entravam em conflito com outros por disputa de fontes de alimentos, ou por razões de colisão de interesses vitais, o homem acabou inventando as brigas, rixas, batalhas, recontros e guerras nas quais venciam aqueles que matassem seus oponentes. A morte de outros significava a vida de uns e continuidade de suas comunidades e culturas. A guerra tornou a morte um meio de se chegar a um fim, mas sempre envolta na aura do ignoto.
Veio a civilização e explosão demográfica que tornou todos os cantos do Planeta habitados e a morte continuou ceifando vidas cada vez com mais intensidade, pestes, epidemias e guerras tinham mais material humano para apresentarem serviço, os números de óbitos se contavam aos milhões, enquanto nos primórdios havia sido em centenas ou milhares. A palavra genocídio ganhou dimensão absurdamente grande e trágica na primeira metade da década de quarenta do século passado, por delírios racistas de Hitler.
Mas, na mesma medida que os meios causadores de morte evoluíam a ciência tentava agora reverter o quadro, descobrindo ou inventando modos e medicamentos que adiassem o fim inevitável. Se mais gente morria de acidentes e guerras, mais gente sarava de doenças antes letais, graças aos avanços da ciência em especial a ciência médica.
Ao tempo que se encarava a morte como inevitável mas, em certos casos, passível de ser adiada, sandices foram desenvolvidas em torno da possibilidade de vida eterna, ou algo próximo disso. Essa tal existência perene não se referia, como as religiões apregoavam, a uma vida eterna da alma, mas sim a possibilidade de que o corpo pudesse viver producente por centenas de anos, dentro de certas condições. Por enquanto, besteira pura.
Contudo, especula-se que dado o avanço da cibernética, será possível dentro de uns dois ou três séculos, “casar” mecanismos mecatrônicos com cérebros humanos criando ciborgues virtualmente eternos. Considerando que um sonho louco como esse dependa apenas de desenvolvimentos tecnológicos que já se veem no horizonte e que trezentos anos seja tempo suficiente para se chegar a coisas inimagináveis por enquanto, essa futurologia não é de todo descartável.
Por outro lado, retrocedendo ao tempo dos Faraós que queriam seus corpos conservados para ressuscitarem algum dia, a ciência moderna inventou a criogenia que é a técnica de manter organismos ou partes deles em congelamento sem prazo de validade para ressuscitá-los um dia. Essa técnica já é empregada com sucesso em embriões: óvulos fecundados podem permanecer em congeladores especiais por anos com grandes chances de sobreviver a um descongelamento sob controle num futuro não muito distante – calcula-se que cerca de sessenta por cento deles consegue manter-se em condições de originar um bebê. Por esse motivo, existe muita gente que acredita na possibilidade de seres humanos inteiros possam ser congelados e, num futuro distante descongelados aptos a viverem normalmente. Essa estranha esperança deu azo à criação de uma indústria de criogenia que congela corpos ou cabeças de quem tenha duzentos mil dólares disponíveis e queira apostar essa grana contra a morte. Pelo que se sabe, até o momento mais de cem pessoas colocaram suas fichas nesse jogo de regras incertas e término ignorado.
A técnica é a seguinte: imediatamente após a morte do candidato a vida eterna, os médicos retiram seus fluidos corporais e os substituem por um líquido que não congela, depois o colocam num tanque de nitrogênio líquido mantido a -196 ºC, temperatura em que todo material orgânico não deteriora. É aí que entra a aposta no ignoto. Supõe-se que daqui a uns cinco ou seis séculos, os cientistas descobrirão um jeito de combater a doença que causou a morte do candidato picolé e este será curado, descongelado e viverá normalmente. Futurologia da mais alta qualidade!
Contudo, afirma o físico americano Robert Ettinger um dos maiores divulgadores da criogenia: "Os próprios métodos usados para congelar uma pessoa podem causar danos às células que só poderiam ser reparadas por tecnologias que ainda não existem". Por isso, a criogenia é uma aposta cega contra a morte com toda feição de ser um tiro na água, mas que tem um número de adeptos bem expressivo.
De qualquer forma, a morte não perdeu seu potencial de horror, mistério e porque não dizer de fascínio, ela nos alcançará em algum momento e será sempre mal vinda, não queremos morrer. JAIR, Floripa, 10/02/12.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Sandices geológicas

Tenho notado, quando escrevo textos ou falo sobre temas que beliscam a geologia, que boa parte de meus leitores e ouvintes ignora quase tudo sobre rochas e suas origens. Também estou longe de ser um expert em pedras e afins, porém, de certa forma, tenho curiosidade a respeito do assunto desde que, criança lá no Paraná, colecionava pedras as mais diversas até que minha mãe me deu um ultimato e expulsou minha coleção do quarto onde já não cabia quase mais nada. As pedras se foram, coloquei-as debaixo do assoalho, deixei de colecionar, mas continuei cada vez mais interessado. De modo que sempre que algum livro sobre o tema me cai sob os olhos, leio sem piscar. Em consequência, possuo alguma literatura sobre geologia e pedras preciosas também.
Praticamente todas as rochas encontráveis no Planeta podem ser classificadas em apenas três categorias, e essa classificação obedece à maneira como se formaram. Assim, rochas sedimentares são compostas por sedimentos carregados pela água ou pelo vento, acumulados em áreas mais baixas onde geralmente formam camadas que se solidificam. É comum encontrá-las em locais que já foram fundo de lagos e rios, agora extintos. Correspondem a oitenta por cento da área dos continentes e é nelas que se encontra a maior parte do material fóssil, em geral os animais ou vegetais que se fossilizaram estão impressos entre as camadas das sedimentares como entre páginas de um livro. Existem muitas rochas sedimentares, mas algumas são mais conhecidas como: arenito, calcário e dolomita. Um exemplo magnífico de rocha sedimentar são as formações de arenito em Vila Velha no Paraná, próximo a Ponta Grossa. Os monumentos geológicos encontrados em Vila Velha são constituídos por rochas de arenito, chamado Arenito Vila Velha, formado pela compactação e endurecimento de camadas sucessivas de areia há mais de 300 milhões de anos e pertence à unidade geológica denominada Grupo Itararé que vai desde o oeste do Rio Grande do Sul até Itararé em São Paulo. Mas as maiores formações de arenito do Planeta se situam na Austrália, O Uluru é um monólito de arenito, tem 338 metros de altura, três quilômetros de extensão e, segundo os geólogos, mais dois mil e quinhentos metros sob a terra, o que o torna o segundo monólito do planeta em tamanho, o primeiro chama-se Monte Augustus, e também se situa na Austrália.
Já, rochas metamórficas são aquelas formadas por transformações físicas ou químicas sofridas por outras rochas, quando submetidas ao calor e à pressão do interior da Terra, num processo denominado metamorfismo. As rochas metamórficas são o produto da transformação de qualquer tipo de rocha levada a um ambiente onde as condições físicas (pressão e temperatura) são muito distintas daquelas onde a rocha se formou. São exemplos de rochas metamórficas: mármore, pedra sabão, e xisto. O xisto betuminoso explorado pela Petrobrás em São Mateus do Sul no Paraná é um bom exemplo do potencial econômico existente nessa rocha. Há estudos afirmando que o xisto betuminoso não explorado existente no Planeta, pode representar fontes de combustíveis fósseis muito maiores que todas as reservas conhecidas de petróleo. Enquanto o mármore, desde a antiguidade foi aproveitado para confecção de construções e estátuas, sua beleza, dureza e propriedades mecânicas, recomendam sua utilização como estruturas e adornos duráveis e altamente decorativos. Os gregos e romanos antigos construíram a maioria de seus monumentos de mármore. O mármore de Carrara - comuna italiana da região da Toscana - é famoso desde a Roma Antiga, quando foi utilizado para construir o Panteão. Muitas esculturas do renascimento, como por exemplo, David de Michelangelo também foram esculpidas com esse mármore que é de uma beleza ímpar. Aliás, sabemos muito sobre as culturas antigas como a egípcia, por exemplo, porque elas foram erigidas em mármore, se o fossem em madeira provavelmente estaríamos a ver navios. No Brasil, o mármore é abundante no Espírito Santo e representa a maior fonte de exportação de pedras ornamentais do país. Curioso é que num mesmo afloramento de mármore são encontradas as mais variadas cores, granulações e desenhos, de forma que o mineiro cortador da pedra pode deparar-se com uma surpresa ao dinamitar a jazida.


O último grupo constitui as rochas ígneas, rochas magmáticas ou rochas eruptivas. A formação das rochas ígneas vem do resultado da consolidação devida ao resfriamento do magma derretido ou parcialmente derretido. Não é surpresa, portanto, que as ígneas sejam rochas associadas às erupções vulcânicas, sejam estas recentes ou se percam na poeira dos éons. O magma pode ser obtido a partir do derretimento parcial de rochas pré-existentes no manto ou na crosta terrestre, ou seja, as rochas ígneas são forjadas pelo calor interno do Planeta, a partir de outras rochas. As rochas ígneas mais conhecidas são: granito, basalto e obsidiana. Neste país talvez não exista exemplo mais emblemático, cujo potencial turístico reflete em todos os cantos do Planeta, do que o Pão-de-açúcar. O Pão-de-Açúcar no Rio de Janeiro é um exemplo típico de monólito de rocha ígnea, neste caso, um bloco único de granito rosa. Também a maioria das ruas calçadas com pedra no Brasil, o é com granito - como acontece aqui em Floripa onde granito é abundante. Outra coisa, considerando que o granito é composto de apenas três substâncias, feldspato, quartzo e mica, não deixa de ser surpreendente que existam tantas cores e granulações dessa rocha. Já o basalto, pela sua dureza, era usado pelos silvícolas para confecção de instrumentos cortantes, e hoje escultores fazem dele uma das matérias primas de suas criações, por sua beleza depois de polido.
Sem sequer nos darmos conta, estamos cercados por pedras de todos os tipos no nosso dia-a-dia, desde o batente da porta de entrada do apartamento até as pias, passando pelos pisos do lobby do edifício, as mais variadas rochas decorativas nos servem e continuam ali por dezenas, talvez centenas de anos depois que nós não estivermos mais por aqui. Assim, esse texto é uma pincelada sobre rochas que me achei obrigado a fazer, frente à curiosidade de alguns dos meus leitores. JAIR, Floripa, 08/01/12.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sandices cósmicas



A teoria do Big bang explica que há aproximadamente quatorze bilhões de anos houve uma perturbação no que seria um espaço extremamente denso e estupidamente quente, e este iniciou uma expansão súbita que dura até hoje e não se sabe se algum dia terá fim. Assim teria sido criado o universo. Em decorrência dessa explosão cataclísmica tudo que existe foi criado, assim, curto e grosso. A matéria e o tempo surgiram a partir do Big bang. Galáxias se formaram e foram “reunidas” em aglomerados monstruosos que tem bilhões de anos luz de extensão e estão se distanciando umas das outras em velocidades estúpidas e impossíveis de serem medidas com os meios que dispomos. O que se sabe é que existem bilhões, muitos bilhões na verdade, de galáxias e cada uma delas possui bilhões de estrelas. No cosmo todos os números são de ordens de grandeza assustadoras e a maioria só pode ser intuída, jamais medida, É delirante, para não dizer descabelado.
Esse portento, esse universo de dimensões descabeladas como eu disse, para complicar ainda mais as coisas, está se expandindo de forma acelerada, isto é, com o passar do tempo a velocidade de deslocamento das galáxias aumenta! Havia uma linha de pensamento que admitia (e até torcia) que a velocidade de expansão deveria diminuir com tempo (estamos falando de bilhões de anos, não esqueçamos que os números cósmicos são astronômicos na acepção da palavra), mas contrariando esse raciocínio, a velocidade que já é absurdamente grande continua aumentando e torna o problema de compreender o mecanismo cósmico muito mais complexo, para não dizer macarrônico ao extremo e agonizante para mentes especulativas como o são as dos cientistas.
A coisa está no seguinte pé: uma das quatro forças fundamentais da natureza que se conhece, e de maior alcance que as demais, é a gravidade – antes que o leitor pergunte, as outras três forças são: eletromagnetismo, força nuclear fraca e força nuclear forte. Cada uma no seu quadrado, mas se houver uma janela em outro trecho explicarei o que cada uma delas faz ou representa. Pois então, a gravidade é a “cola” que não deixa os astros saírem erráticos e sambando a esmo aí pelo cosmo; não deixa que o universo se torne um mundo caótico e anárquico tipo “cada um por si”. Porque o universo pode ser grande, aberrante e agressivamente enorme na verdade, mas não é bagunçado, seus componentes (aglomerados, galáxias, estrelas, quasares, cometas, planetas e outros bichos) não ficam se mexendo aleatoriamente como as partículas num movimento browniano, todos estão sob a ação da gravidade e obedecem-na com escrúpulo, se é que se pode atribuir tal sentimento aos astros. Mas, descobrir-se que, apesar da força gravitacional, a velocidade que afasta as galáxias aumenta, contraria o bom senso, não dá para compreender a lógica desse fato a não ser que se admita que exista algo que contrarie a gravidade.
Então ficamos assim: a “cola” gravidade, que é uma formidável força que deveria unir as galáxias, está sendo contrariada por outra força desconhecida, descomunal e assustadora. Os astrônomos estão arrancando os cabelos, supondo que eles ainda os tenham, para atinar onde se encontra o fulcro desse problema. Como é possível esse fenômeno? Daí vem alguns e afirmam, baseados em cálculos que só os supercomputadores conseguem realizar, que existe uma tal de força escura que contraria a gravidade, e que essa força está espalhada por todo o espaço conhecido, desconhecido, imaginado e inimaginável. Agora engrossou o caldo, se já era depressivo imaginar um universo sempre em expansão ou parando a expansão em algum ponto e iniciando uma contração, imagine agora uma força que contraria a gravidade e não se sabe o que poderá causar ao universo. Ainda bem que quando acontecer alguma coisa, qualquer coisa, não estaremos mais aqui para presenciar. Não estaremos nós a humanidade, não eu e você, pois a coisa vai acontecer em escala de tempo cósmica, lembram?
A coisa tá feia! Feia mesmo, pois cálculos ferozes, extremados e absurdos sugerem que há, no “vazio” entre as galáxias, uma matéria que se convencionou chamar de matéria escura. Essa convenção foi adotada por dois motivos: 1- não se pode ver essa matéria; e 2 – ela tem propriedades enigmáticas, desconhecidas e mais assustadoras que a força escura, pois esta, supõe-se, contraria a gravidade, mas a matéria negra ninguém sabe do que ela é capaz. Sinceramente, até eu que nada entendo de astronomia e seus badulaques, e sei que essa matéria escura não vai interferir na minha vida de aposentado, fico um pouco apreensivo. Imagine aqueles cientistas os quais têm que explicar essa barbaridade.
Então, quem tem o ofício (vive disso) de desembrulhar os pacotes temáticos do universão velho de guerra, está se atolando cada vez mais no brejo cósmico, encontra mais perguntas que respostas cada vez que se depara com “novidades”. Correndo o risco de perder o leitor, mas não deixando a piada passar batida, eu diria que os astrônomos e cosmólogos estão “se atolando-se” até o pescoço, devido a gravidade do problema. Ô vidinha perebenta! Deve ser mais que frustrante procurar soluções e só encontrar indagações!
Para não ficar só nessas teorias, suposições, conjeturas e chutes calculados vamos colocar o pé na Terra (com maiúscula mesmo, pois trata-se do Planeta mesmo, e não do chão que pisamos). Lá num cantinho anônimo e quase despercebido dessa máquina gigantesca que se expande e não fornece respostas aos cientistas, existe uma estrela que nem sequer é das maiores e mais brilhantes, também não é das mais novas ou das mais velhas, mas que, por alguma ordenação cósmica oculta ao nosso conhecimento, possui quase uma dezena de bolotas de vários tamanhos girando ao seu redor, chamadas planetas.
Num desses planetas – o terceiro a contar do Sol – existe vida. Essa vida já acontece nesse planeta desde há 3,4 bilhões de anos e, por isso, teve tempo de se diversificar e ocupar todos os cantos das terras e dos mares. Dentre as milhões de espécies, existe um bípede falante que tomou para si a incumbência de desvendar os mistérios do universo. E é por isso que esta matéria foi escrita, não tenho nada a ver com isso mas, infelizmente, faço parte dessa espécie. JAIR, Floripa, 27/01/12.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sandices animais





Para fins didáticos os homens costumam dividir a natureza em três reinos básicos: mineral, vegetal e animal. Existem reinos como os das moneras e outros mais, mas não é disso que vamos falar, então fiquemos com os três iniciais. Já toquei na vida das plantas em meu texto “Sandices botânicas”, portanto agora é vez de falar dos animais.
A maioria dos homens por ser pretensiosa, arrogante e ignorante costuma não se enquadrar na mesma categoria dos outros animais, parece querer dar a impressão de pertencer a um reino a parte. Até a bíblia no livro de Gênesis faz menção que os animais foram criados para “servir ao homem”. Santa ignorância! Homens e ratos são seres do mesmo reino e um é tão evoluído quanto o outro. São diferentes sim, talvez tão diferentes entre si quando o é um cão de um gato, por exemplo, mas a diferença termina aí. Então vejamos, para aqueles que se julgam muito superiores a esses mamíferos, veio-me à mente que, a propósito do término do "Projeto Genoma", o qual depois de consumir milhões de dólares e milhares de horas das cabeças pensantes mais poderosas do planeta e, de tempos em tempos, movimentar a mídia com notícias sensacionais a respeito de descobertas fantásticas, chegou à conclusão que: contados todos os genes do homem, estes não passam de uns meros trinta mil, o mesmo número de genes do rato. Para a ciência, que achava que os genes do homem chegariam à casa dos cem mil, foi um balde de água fria esta conclusão, pois, se depender dos genes, o arrogante bicho-homem é apenas um rato que fala.
Então, preconceitos e arrogância a parte, o Homo sapiens e centenas de outros animais estabeleceram uma convivência, nem sempre muito pacífica e sem estresse, há milhares de anos e continuam essa relação nos tempos atuais, o mais das vezes com prejuízo para os outros e visível “ganho” para nós a parte “inteligente” do relacionamento.
Mas, como se deu esse consórcio entre o bípede falante e os bichos, em geral, de quatro – alguns, como as abelhas e o bicho da seda têm seis, as aves têm duas e as bactérias e os peixes não têm - patas? Começou há pelo menos dez mil anos quando os primeiros humanos que até então eram nômades caçadores-coletores, resolveram “sossegar o pito”, ou seja, estabeleceram os primeiros assentamentos semi permanentes, ou fixos de fato. Portanto, a relação homem-cão, por exemplo, é muito antiga, isto é, praticamente desde os primeiros alvores do que chamamos civilização. Sabe-se que os homens primitivos domesticaram o lobo asiático e dele, através de seleção genética, foram criando as primeiras “raças” que acabaram dando a origem às centenas que conhecemos na atualidade. Assim, também o onagro (espécie de burrico), o cavalo, reses como cabras, vacas e ovelhas foram sendo introduzidos nas aglomerações semi urbanas. É razoável supor que os primeiros aglomerados humanos produziam rejeitos que atraiam os animais, principalmente em épocas de escassez. Ossos e restos de comida deviam ser convidativos aos lobos famintos, roças e plantações domésticas atraíam os comedores de plantas. Uma vez que os animais se aproximavam, os mais mansos podiam ser capturados e mantidos em cativeiro, ou mesmo apenas dentro do perímetro da aldeia onde recebiam alimentos, se sentiam seguros e podiam procriar sem problema. Deve-se sempre levar em conta que, mesmo na natureza, os animais estão sempre em busca de segurança, alimento e oportunidade de reprodução, e era isso que os homens lhes proporcionavam, daí domesticá-los tornou-se uma consequência da proximidade e da utilidade efetiva ou potencial que representavam.
Mais a civilização avançava rumo à modernidade, mais animais eram incorporados ao já numeroso contingente desses “auxiliares” e às vezes escravos das pessoas. Desde os maciços elefantes asiáticos, passando por renas, cavalos, vacas, coelhos, perus, galinhas, canários, peixes e até bactérias, todos se tornaram parte integrante do cenário civilizatório. Homens e seus animais domesticados construíram a civilização.
Assim, animais antes selvagens agora domesticados atrelados aos homens erigiram o piramidal edifício que suporta a civilização, na maioria das vezes com enorme prejuízo para aqueles e benefícios para estes. Os bichos carregaram gente e as mais diversas cargas no lombo; forneceram suas carnes para alimentação, pele e ossos para roupas abrigos, utensílios e armas; foram e são usados como cobaias nos mais diversos experimentos laboratoriais para obtenção de novos produtos e medicamentos; são sacrificados para uso de seus hormônios como fixados de perfumes e seus lipídios para fabricação de cosméticos; servem para recreação humana desde corridas de cavalos e cães, até brigas de peixes e galos; alem de serem caçados por lazer, como os são veados, gamos, felinos africanos, rinocerontes, bisões e dezenas de espécies de aves.
Enquanto homens exercerem domínio neste Planeta, enquanto continuarem se achando melhores e mais dotados que outros animais, estes estarão sempre na iminência de desaparecer para sempre. Atualmente há registro de milhares de animais que foram extintos, alguns não chegaram nem a ser estudados e conhecidos. Entre estes se encontra o Tilacino, conhecido por Tigre da Tasmânia, um marsupial carnívoro no formato de um cão grande que foi dizimado por caçadores australianos sob a alegação de que comia ovelhas, fato nunca comprovado. O último espécime conhecido foi filmado em cativeiro em 1936, ano em que morreu.
Outro animal, o moa, vivia muito bem nas ilhas neozelandesas só tendo como inimigo a águia haast, ave imensa que era predadora de seus ovos, filhotes e de adultos velhos ou feridos, até que, por volta de 1300 dC, o povo maori chegou e todos os gêneros de moa foram levados ao risco de extinção. Por volta do ano 1400 quase todos os moa são considerados ​ extintos, juntamente com a águia haast que tinha confiado neles como alimento. Alguns relatos confiáveis têm confirmado que alguns espécimes continuaram persistindo nos cantos mais remotos da Nova Zelândia até os séculos 18 e mesmo 19, quando foram sistematicamente caçados pelos colonizadores e definitivamente extintos. No confronto da fauna nativa como os homens estes sempre saem “ganhando” para prejuízo do Planeta. JAIR, Floripa, 26/01/12

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sandices eletrônicas



Há bilhões e bilhões de anos o universo se formou ou não, para nossa abordagem não interessa se ele sempre existiu ou passou a existir a partir de um Big bang inicial. O fato é que esse universo cuja existência beira a eternidade e cujo tamanho resvala no infinito, possui leis imutáveis que regem toda sua composição, dinamismo e concepção, o universo é uma máquina bem ajustada que está funcionamento há muito, muito tempo. Já se sabe que ele se compõe de bilhões de aglomerados galácticos, os quais possuem bilhões de galáxias que são compostas de bilhões de estrelas, sendo que trilhões dessas estrelas possuem potencial para formar um sistema planetário como o nosso.
Então cá estamos, num sistema de planetas que gira em torno de uma humilde estrela que foi batizada de Sol pelos humanos. É desses seres que quero falar. Por algum motivo ainda ignorado, no terceiro planeta a contar do sol desenvolveu-se há aproximadamente três e meio bilhões de anos, seres replicantes que possuem a capacidade de passar para seus descendentes suas características. Por muitas centenas de milhões de anos esses seres vivos se multiplicaram e divergiram em milhões de espécies e, virtualmente ocuparam todos os cantos do Planeta. Por alguma razão ainda não sabida, numa das espécies – chamada primatas – desenvolveu-se um ser com capacidades diferenciadas de seus congêneres, um primata que se autodenomina Homem.
Extremamente curioso e com cérebro elástico o suficiente para acomodar novos conhecimentos sem perder o que já sabia, o homem faz conjeturas sobre tudo que os olhos veem, que os ouvidos sentem, que o paladar percebe, que o tato detecta e que o nariz cheira, além disso, tem a capacidade de descobrir coisas além desses cinco sentidos. Por causa dessa versatilidade, o homem descobriu, inventou, pensou, reformulou ou passou a usar praticamente tudo que a natureza é capaz de fornecer: astronomia, física, química, medicina, metalurgia, eletricidade, botânica, zoologia, arquitetura, engenharia, eletrônica, hidrologia e milhares de outras zonas de conhecimento.
Mas, o mais importante, desde os primórdios, através de observação, experimentação, tentativa e erro, ele consegui perceber que existem leis que regem todas as manifestações naturais. Desde os movimentos dos astros no cosmo até a mais ínfima partícula de poeira, passando pelos complexos organismos animais, tudo é regido pelas mesmas leis imutáveis e lógicas.
O homem construiu a civilização usando em seu proveito essas leis imutáveis, ainda que em certas ocasiões estivesse a ponto de destruir essa mesma civilização com o uso dessas mesmas leis. As bombas nucleares têm essa capacidade. Pois é, uma das descobertas que mais contribuíram para erigir o que chamamos de civilização moderna, foi a eletricidade. Depois que o homem a descobriu tratou de “domesticá-la” para usos os mais diversos, hoje praticamente tudo que se move está relacionado à eletricidade.
Mas aí, numa decorrência natural, cientistas observaram que, sob certas condições, a eletricidade que sempre fluía num sentido e no outro só dependendo da fonte, deixava de fazê-lo. Mais ou menos assim: em condições especiais os elétrons passavam num sentido e deixavam de fazê-lo no sentido oposto. Estava descoberta a eletrônica. Era inicio do século vinte e a eletrônica só fez progredir e se tornar cada vez mais complicada. Na medida em que aparelhos que antes usavam válvulas passaram a usar transistores suas dimensões foram diminuindo na mesma proporção.
Aí surgiu o tal Chip que transformou objetos pequenos em minúsculos. Hoje um circuito eletrônico de última geração do tamanho da unha do dedo mínimo equivale a milhões de circuitos integrados de segunda geração que já equivaliam a milhares daquelas antigas válvulas dispendiosas de energia. Como hoje quase tudo que nos cerca é eletrônico ou se serve da eletrônica para nos prestar algum tipo de serviço, desde o prosaico relógio de pulso até este PC que digito, somos beneficiários e vítimas da eletrônica aplicada ao cotidiano.
A eletrônica permeia e comanda toda a vida civilizada, quem não percebe isso é porque está imerso nesse universo e não consegue ver além, aquém e lateralmente, a imersão bloqueia seus sentidos. Que somos beneficiários ninguém é capaz de duvidar, mas vítimas? Como assim? Meu amigo, você sabia que existe gente que não consegue ver as horas a não ser em relógios digitais sem ponteiros; que caixas de supermercados e bancos não sabem nem somar dois números de três algarismos quando o “sistema está fora”? Que muita gente, como eu, senta à frente dessa maquininha por horas fio e não se dá conta nem que é hora de comer? Pois é, nós somos as vítimas mencionadas.
É fácil inferir que se houver um bastante improvável apagão eletrônico, o mundo pára e a chamada civilização vai desmoronando imediata e irreversivelmente. A jaula de ouro eletrônica que nos fascina e prende, e da qual a maioria nem se dá conta, é uma realidade onipresente, multipoderosa e escravizante, estamos sob seu poder. E o pior, o homem queimou as pontes, isto é, não criou alternativas válidas para substituir o “sistema que está fora”. Alguém já tentou pagar uma conta ou retirar dinheiro num banco que está off line? Particularmente, não consegui nem comprar a dinheiro numa Loja Americana que ficara off line naquele momento.
Vejamos, o universo eletrônico é extremamente confiável e não estamos a beira de algum apagão, apenas cogito o quando estamos a mercê dele enquanto usuários por imersão. Isso significa uma pressão contínua para deixamos de exercer a faculdade de pensar, de esforçar-nos para obter resultados, e até de aprender através da leitura, por exemplo. Tudo está pronto na bandeja, é só esticar o braço e apanhar. Será que o Homo eletronicus num futuro próximo vai se tornar apenas um apêndice do mundo informatizado, cibernético, internético, bloguético e plugado nas redes sociais. Não sei, mas hoje colei a bunda nesta poltrona e não saí daqui por muitas horas, minha vida doméstica está me tornando um dependente eletrônico desta droga viciante e por enquanto não substituível, estou até com certo receio. Agora levanto, vou tomar um banho e depois retorno ao teclado, até já. JAIR, Floripa, 25/01/12
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sandices médicas

Para falarmos leigamente sobre medicina convém lembrar que Hipócrates, asclepíade (equivalente a curandeiro ou médico de nossa época) grego que por suas obras escritas (cerca de setenta) e por seu trabalho, é considerado o Pai da Medicina. Aliás, caso único, a mãe da medicina é desconhecida. Bem, para citar esse asclepíade famoso, não podemos deixar de lembrar o seu inescapável juramento que faz parte das formaturas de todos os médicos do Planeta na atualidade: “Eu juro, por Apolo, médico, por Asclépio, Higia e Panacea e por todos os deuses e deusas, a quem conclamo como minhas testemunhas, juro cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto aos meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça”.
Sinceramente? Como leigo, vivendo antenado em pleno século vinte e um, relativamente ilustrado no conhecimento das coisas e medianamente informado, gostaria de propor uma redução e algumas modificações nesse juramento que alguns até chamam jocosamente de “Hipócrita”. Minha sugestão visa torná-lo mais compreensível, realista e mais curto. Primeiro vamos esquecer Apolo, Higia, Asclépio e Panacea, afinal nem os médicos sabem quem são esses personagens de literatura grega! Só se algum médico antes de estudar medicina estudou a fundo a mitologia grega, mas daí ele é a exceção que confirma regra. Outra coisa, vamos jogar no lixo as partes que ninguém cumpre mesmo por serem apenas “enchimento de lingüiça” como: “ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração”. Peraí mermão, sem remuneração? O que é isso? Ninguém, principalmente os médicos, faz qualquer coisa de graça, então fora com essa mentira!
Também: “Eu juro... estimar, tanto quanto aos meus pais, aquele que me ensinou esta arte”. Desde quando todos os filhos estimam seus pais? Como esse amor compulsório não acontece sempre, este trecho está prejudicado, não pode permanecer no texto. Fora com ele!
Outro trecho: “Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva”. Fora com isso! Vivemos num tempo que o aborto é permitido ou tolerado na maioria dos países, então para que continuar com essa restrição? O mundo mudou desde a Grécia antiga, sim para o aborto, mesmo porque a maioria dos médicos o aprova.
“Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado"; Esta é fácil, aqui está explicitando que médicos não podem praticar cirurgia. Como? Vamos eliminar os cirurgiões? Não! Vamos eliminar esse trecho, isto sim!
Aqui está outra parte que, por impraticável, deve ser eliminada: “Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados”. Se médicos não puderem transar com suas mulheres, não se reproduzirão e daí a classe tende a desaparecer. Se médicos gays estiverem proibidos de transar com outros do mesmo sexo poderão perder o gosto pela profissão e daí também teremos uma redução nos quadros da medicina. Fora essa parte!
Então é isso, um juramento antigo, inaplicável por que contém várias aberrações, confuso, antiquado e tão longo que ninguém consegue lembrá-lo, e totalmente ultrapassado por causa dos avanços, nem digo da medicina, avanços da sociedade na qual vivemos mesmo, deve ser compulsoriamente substituído por algo mais “leve”, funcional e palatável.
Assim, depois de muito matutar e observar, consegui conceber um juramento que deverá satisfazer médicos e pacientes sem ferir a ética e sem cometer bizarrices como aquelas observadas no hipocrático juramento já criticado. O juramento clean que sugiro é este: “Juro que no exercício da minha profissão farei esforço, dentro daquilo que aprendi, para curar pessoas doentes. Meus honorários serão honestos e se o paciente for de todo destituído, procurarei atendê-lo assim mesmo. Na minha vida particular me conduzirei com higidez para servir de exemplo, e não praticarei arrogância em nenhum momento. A humildade será o mote de minha conduta”
Vejamos, este é um juramento ajustado, simples e fácil de ser lembrado e cumprido, por que não adotá-lo? Será a pompa e o pedantismo daquela descumprida e hipocrática afirmação de deveres e intenções são tão atrativos que eles vão continuar a desfiá-lo nas formaturas e esquecê-lo cinco minutos depois, e para toda vida?
Queridos médicos meus amigos e conhecidos, adotem ainda que apenas Ab imo pectore meu juramento por que sei que da boca para fora os senhores ainda se verão obrigados a hipocraticar aquela lenga-lenga démodé e mentirosa. Adotem do fundo do coração esse juramento e serão mais felizes, seremos mais felizes, a humanidade será mais feliz. A bola está com os senhores! Abraços, JAIR, Floripa, 26/01/12.