domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sandices eletrônicas



Há bilhões e bilhões de anos o universo se formou ou não, para nossa abordagem não interessa se ele sempre existiu ou passou a existir a partir de um Big bang inicial. O fato é que esse universo cuja existência beira a eternidade e cujo tamanho resvala no infinito, possui leis imutáveis que regem toda sua composição, dinamismo e concepção, o universo é uma máquina bem ajustada que está funcionamento há muito, muito tempo. Já se sabe que ele se compõe de bilhões de aglomerados galácticos, os quais possuem bilhões de galáxias que são compostas de bilhões de estrelas, sendo que trilhões dessas estrelas possuem potencial para formar um sistema planetário como o nosso.
Então cá estamos, num sistema de planetas que gira em torno de uma humilde estrela que foi batizada de Sol pelos humanos. É desses seres que quero falar. Por algum motivo ainda ignorado, no terceiro planeta a contar do sol desenvolveu-se há aproximadamente três e meio bilhões de anos, seres replicantes que possuem a capacidade de passar para seus descendentes suas características. Por muitas centenas de milhões de anos esses seres vivos se multiplicaram e divergiram em milhões de espécies e, virtualmente ocuparam todos os cantos do Planeta. Por alguma razão ainda não sabida, numa das espécies – chamada primatas – desenvolveu-se um ser com capacidades diferenciadas de seus congêneres, um primata que se autodenomina Homem.
Extremamente curioso e com cérebro elástico o suficiente para acomodar novos conhecimentos sem perder o que já sabia, o homem faz conjeturas sobre tudo que os olhos veem, que os ouvidos sentem, que o paladar percebe, que o tato detecta e que o nariz cheira, além disso, tem a capacidade de descobrir coisas além desses cinco sentidos. Por causa dessa versatilidade, o homem descobriu, inventou, pensou, reformulou ou passou a usar praticamente tudo que a natureza é capaz de fornecer: astronomia, física, química, medicina, metalurgia, eletricidade, botânica, zoologia, arquitetura, engenharia, eletrônica, hidrologia e milhares de outras zonas de conhecimento.
Mas, o mais importante, desde os primórdios, através de observação, experimentação, tentativa e erro, ele consegui perceber que existem leis que regem todas as manifestações naturais. Desde os movimentos dos astros no cosmo até a mais ínfima partícula de poeira, passando pelos complexos organismos animais, tudo é regido pelas mesmas leis imutáveis e lógicas.
O homem construiu a civilização usando em seu proveito essas leis imutáveis, ainda que em certas ocasiões estivesse a ponto de destruir essa mesma civilização com o uso dessas mesmas leis. As bombas nucleares têm essa capacidade. Pois é, uma das descobertas que mais contribuíram para erigir o que chamamos de civilização moderna, foi a eletricidade. Depois que o homem a descobriu tratou de “domesticá-la” para usos os mais diversos, hoje praticamente tudo que se move está relacionado à eletricidade.
Mas aí, numa decorrência natural, cientistas observaram que, sob certas condições, a eletricidade que sempre fluía num sentido e no outro só dependendo da fonte, deixava de fazê-lo. Mais ou menos assim: em condições especiais os elétrons passavam num sentido e deixavam de fazê-lo no sentido oposto. Estava descoberta a eletrônica. Era inicio do século vinte e a eletrônica só fez progredir e se tornar cada vez mais complicada. Na medida em que aparelhos que antes usavam válvulas passaram a usar transistores suas dimensões foram diminuindo na mesma proporção.
Aí surgiu o tal Chip que transformou objetos pequenos em minúsculos. Hoje um circuito eletrônico de última geração do tamanho da unha do dedo mínimo equivale a milhões de circuitos integrados de segunda geração que já equivaliam a milhares daquelas antigas válvulas dispendiosas de energia. Como hoje quase tudo que nos cerca é eletrônico ou se serve da eletrônica para nos prestar algum tipo de serviço, desde o prosaico relógio de pulso até este PC que digito, somos beneficiários e vítimas da eletrônica aplicada ao cotidiano.
A eletrônica permeia e comanda toda a vida civilizada, quem não percebe isso é porque está imerso nesse universo e não consegue ver além, aquém e lateralmente, a imersão bloqueia seus sentidos. Que somos beneficiários ninguém é capaz de duvidar, mas vítimas? Como assim? Meu amigo, você sabia que existe gente que não consegue ver as horas a não ser em relógios digitais sem ponteiros; que caixas de supermercados e bancos não sabem nem somar dois números de três algarismos quando o “sistema está fora”? Que muita gente, como eu, senta à frente dessa maquininha por horas fio e não se dá conta nem que é hora de comer? Pois é, nós somos as vítimas mencionadas.
É fácil inferir que se houver um bastante improvável apagão eletrônico, o mundo pára e a chamada civilização vai desmoronando imediata e irreversivelmente. A jaula de ouro eletrônica que nos fascina e prende, e da qual a maioria nem se dá conta, é uma realidade onipresente, multipoderosa e escravizante, estamos sob seu poder. E o pior, o homem queimou as pontes, isto é, não criou alternativas válidas para substituir o “sistema que está fora”. Alguém já tentou pagar uma conta ou retirar dinheiro num banco que está off line? Particularmente, não consegui nem comprar a dinheiro numa Loja Americana que ficara off line naquele momento.
Vejamos, o universo eletrônico é extremamente confiável e não estamos a beira de algum apagão, apenas cogito o quando estamos a mercê dele enquanto usuários por imersão. Isso significa uma pressão contínua para deixamos de exercer a faculdade de pensar, de esforçar-nos para obter resultados, e até de aprender através da leitura, por exemplo. Tudo está pronto na bandeja, é só esticar o braço e apanhar. Será que o Homo eletronicus num futuro próximo vai se tornar apenas um apêndice do mundo informatizado, cibernético, internético, bloguético e plugado nas redes sociais. Não sei, mas hoje colei a bunda nesta poltrona e não saí daqui por muitas horas, minha vida doméstica está me tornando um dependente eletrônico desta droga viciante e por enquanto não substituível, estou até com certo receio. Agora levanto, vou tomar um banho e depois retorno ao teclado, até já. JAIR, Floripa, 25/01/12
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11 comentários:

Professor Alexandre disse...

Eu sempre gostei de eletronica; Cheguei a fazer aquele curso do Instituto Universal Brasileiro, por correspondencia, no inicio dos ano 90...
Parabéns pela postagem simples, direta e informativa!

Cristiano Marcell disse...

Não há mais como sobriviver na sociedade vigente sem aparatos eletrônicos.Imagine que até mesmo nossa alma esteja um dia vinculada a isso. Pense só, enciclopédico amigo, na seguinte situação:

_Caro Fulano, você por seus atos heróicos e integridade moral tem direito a ir para o Céu, no entanto, como o sistema está fora do ar, terá de aguardar no purgatório durante algumas dezenas de anos.
Estamos trabalhando para melhor atende-lo!

(rsrsrs)

Cristiano Marcell disse...

_SACro, boa noite!
_Quero saber quando sairei daqui desse purgatório?
_Eu vou passá-lo para o setor responsável!
_Ah, não! Já é milésima centésima oitava vez...

JG Costa disse...

A tecnologia veio para ficar. Se não ocorrer nenhum dos desastres atômicos ou fictícios que Stephen King detalha tão bem em seus livros, provavelmente sucumbiremos à essa tecnologia que, tal a Matrix, nos domina.

Creio que devamos nos manter equilibrados e buscar outros meios de interagir, de pensar, de se divertir, mas é fato que se não estivermos "antenados" ao sistema, sempre estaremos menos informados que o colega ao lado...

Abraços renovados!

R. R. Barcellos disse...

Um apagão de quatro horas já é exasperante, e eu já sofri um de quatro dias...
Abraços.

Leonel disse...

Show de bola, Jair!
Realmente, cada vez mais vejo que colocamos todos os ovos na mesma cesta, e se algo acontecer, vamos ficar sem omelete, pois não há alternativas!
Me lembra um conto de Isaac Asimov, onde um ser humano adulto age como um bebê, alimentado e mantido por um robô!
A frase "o sistema caiu" virou desculpa para tudo, desde má vontade para resolver uma situação até a simples e pura incompetência!
Excelente blogada!
Abraços!

Attico CHASSOT disse...

Jair, muito douto poeta-cientista,
se tua blogada de hoje não tivesse outo texto que a admirável frase de abertura: “o universo cuja existência beira a eternidade e cujo tamanho resvala no infinito!” por si só teria valido a pena.
Que síntese para dizer do Universo.
Sobre eletrônica: ainda hoje tenho na memória o espanto que tive quando vi um primeiro humano com um rádio portátil ‘falando’, maior que um tijolo, a tiracolo.
Eu que esperava sempre impaciente ‘esquentar’ as válvulas do Telefunken da casa paterna.
Um mais cumprimentos pela síntese admirável: “o universo cuja existência beira a eternidade e cujo tamanho resvala no infinito!”
attico chassot

Milla Pereira disse...

E eu espero que vc volte logo pra nos dar a alegria de leituras como essa, Jair. Parabéns, abraços

Júllio Machado disse...

Caro Jair esse texto dá o que pensar e o que não pensar...
Concluí, não é de hoje, que somos a bem dizer: robô-computador, dentro de uma problemática máquina metálica oxidante. Vivemos, no agora, a simular a liberdade informatizada.
Mas essa busca, na verdade, às vezes, nos acorrenta. (o que não pode) Imagino, que do jeito que a coisa caminha, é possível , um dia , haver uma revolução niilística; contra tudo que é avançadamente tecnológico. Isso rende até um filme. Na real todo esse aparto que aí se encontra tem seus altos e baixos. O negócio a gente saber aproveitar; dosar da melhor maneira possível.

Muito bom a sua exposição.
Abraços!

Luci disse...

Muito interessante o texto e os comentários também..Lembrei da frase: É mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha,do que um rico entrar no reino dos céus... Por muito tempo pensei no buraquinho da agulha por onde passa o fio...,depois descobri o real sentido da "agulha".Comparando com um ship,onde cabe informações a perder de vista , será que,num momento, não explodirá como um big-bang ,com tantas informações? Estas se perderão inevitavelmente e, quem sabe, haverá um recomeço com novas alternativas, com uma vida mais saudável, sem esta escravidão que afeta os glúteos...Luci

Ponto de Escuta disse...

Muito bom !