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terça-feira, 13 de março de 2012

Sandices felídeas



A prodigalidade da natureza, desde muitas centenas de milhões de anos, abriu um leque enorme onde distribui milhões de espécies animais. Dado as profundas e variadíssimas condições ambientais do planetinha azul é compulsório se esperar que uma multiplicidade de seres o habitassem. Assim, através de experimentações, a evolução das espécies foi cobrindo terras e mares com seres animais e vegetais que se adaptaram, através dos milênios, aos ambientes disponíveis. É bem verdade que nem todas as espécies que foram criadas sobreviveram, algumas extinções em massa (sete, no mínimo) foram observadas através dos fósseis que deixaram como prova.
A verdade é que o Planeta já passou por diversas extinções em massa, algumas de proporções megalodônticas, levando ao desaparecimento completo da maioria das espécies, e outras menores, nas quais foram extintos apenas alguns grupos de seres vivos. De qualquer forma, as extinções de grandes proporções marcam a mudança de um período a outro da história da Terra. Por exemplo, a extinção há 500 milhões de anos, chamada do Cambriano, marcou a passagem do período Cambriano para o Ordoviciano.
De certa forma, fica mais ou menos evidente que natureza “aproveita” as extinções - normalmente causadas por convulsões naturais, já que a Terra é um ser vivo – para renovar o plantel. O seja, depois de um grande cataclismo que provoque uma mortandade numerosa, os espaços vazios deixados pelos extintos, vão sendo ocupados por novas espécies que surgem e se desenvolvem. A natureza tem horror ao vácuo. Assim se deu depois que há 65 milhões de anos um asteróide do tamanho do Everest colidiu com a região onde hoje é o golfo mexicano e extinguiu os dinossauros, os quais viviam no Planeta há, pelo menos, 150 milhões de anos. Os bichos eram bem sucedidos evolucionariamente, mas, ao contrário dos crocodilianos que continuam existindo até hoje, não tiveram jogo de cintura para agüentar as mudanças climáticas surgidas em consequência do impacto. Foram para o brejo e deram chance para que os mamíferos que já existiam ocupassem os nichos deixados pelos bichos de sangue frio, o Homo, seja o sapiens ou qualquer uma das outras quatro espécies conhecidas, é produto dessa reengenharia. Porém, antes que alguém ache que essa foi a última extinção registrada, é bom que se diga, há dez mil anos os mamutes foram extintos, talvez com alguma ajudinha humana, mas, provavelmente, por mudanças climáticas de monta.
Então, extintos os dinossauros, os mamíferos puderam soltar a franga e se reproduzir em grande diversidade ocupando todos os cantos do Planeta. Não só os espaços físicos foram reorganizados, como a cadeia alimentar passou a ter nova dinâmica. Plantas eram alimentos de insetos, aves e mamíferos herbívoros, que serviam de alimento aos predadores carnívoros e aos carniceiros. Lembrando que carniceiros em geral não matam as presas, alimentam-se de restos de carcaças mortas por carnívoros ou acometidas de morte natural. Urubus e hienas são exemplos de carniceiros bem sucedidos dos tempos atuais, mas existem muitos outros. Como disse acima, a cadeia alimentar se reorganizou, daí espécies antes inexistentes passaram a ocupar o topo dessa cadeia. Os felinos foram as espécies que mais se destacaram nessa corrida ao pico do Everest, comem os de baixo e ninguém acima se alimenta deles.
Pois então, desde a extinção dos dinossauros, com os mamíferos praticamente dominando o meio campo; muitas espécies se destacando em seus ambientes, como os ursos no hemisfério norte e os grandes herbívoros na África, os felinos ocupando o alto do pódio alimentar, alguns desses animais estão entre os mais belos do Planeta. O felino é animal muito bonito antes de tudo. Mas, além disso, é forte, ágil, extremamente elegante, rápido, flexível e persistente. Existem felinos nas Américas, na África e na Eurásia, mas são inexistentes na Oceania, lá predominam os marsupiais.
Há registros históricos bem recentes – registros feitos pelo Império Romano – os quais dão conta que leões e tigres eram abundantes na Europa, Ásia e África. Hoje temos leões na África, tigres e leões na Ásia, mas a Europa está destituída deles graças à caça e ocupação e desmate de áreas em que viviam. Nas Américas temos linces no hemisfério norte, onças pintadas no hemisfério sul e puma, leão da montanha, suçuarana, onça parda ou cugar nos dois hemisférios. O puma é um felino tão bem sucedido – talvez melhor que qualquer outro - que ocupa espaços desde a fria Patagônia argentina até o frio estado de Oregon nos EUA, passando pelas florestas tropicais da América do Sul e da América Central e pelas montanhas rochosas do nosso irmão do norte. Talvez por isso seja conhecido por tantos nomes.
Mas, dentre todos os belos felinos do Planeta, os tantos que existem na África e até nossa belíssima onça pintada pantaneira, o mais espetacular é o guepardo, bicho parecido com o leopardo, porém mais esguio e com dois riscos verticais na cara como fossem lágrimas. Esse bicho de pelagem pintalgada é o animal terrestre mais rápido Planeta, chega a alcançar mais de 100 quilômetros por hora. Sua estratégia de caça consiste em avaliar a presa de longe e atacar correndo para alcançá-la. É um animal predador, preferindo uma estratégia simples: caçar as suas presas através de perseguições a alta velocidade, em vez de tácticas como a caça por emboscada ou em grupo, mas por vezes, pode caçar em dupla. Consegue atingir velocidades de 115 a 120 km/h, por curtos períodos de cada vez (ao fim de 400 metros de corrida), sendo o mais rápido de todos os animais terrestres, porém, em certa ocasião, avistou-se um guepardo que correu atrás de sua presa por 73 metros em 2 segundos, o que dá uma média de 130 quilômetros horários. Essa maravilhosa máquina de músculos é como um bólido esportivo, é o Lamborghini do reino animal.
Lembremos também que o gato doméstico, Felis catus, provavelmente descendente do Felis silvestri, é um felino como os demais, ou seja, primo dos leões, das jaguatiricas, das onças e até do formidável guepardo. As pessoas que gostam de gatos, na verdade apreciam a independência e a serenidade desses bichos, na natureza eles também são assim. JAIR, Floripa, 04/03/12.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sandices animais





Para fins didáticos os homens costumam dividir a natureza em três reinos básicos: mineral, vegetal e animal. Existem reinos como os das moneras e outros mais, mas não é disso que vamos falar, então fiquemos com os três iniciais. Já toquei na vida das plantas em meu texto “Sandices botânicas”, portanto agora é vez de falar dos animais.
A maioria dos homens por ser pretensiosa, arrogante e ignorante costuma não se enquadrar na mesma categoria dos outros animais, parece querer dar a impressão de pertencer a um reino a parte. Até a bíblia no livro de Gênesis faz menção que os animais foram criados para “servir ao homem”. Santa ignorância! Homens e ratos são seres do mesmo reino e um é tão evoluído quanto o outro. São diferentes sim, talvez tão diferentes entre si quando o é um cão de um gato, por exemplo, mas a diferença termina aí. Então vejamos, para aqueles que se julgam muito superiores a esses mamíferos, veio-me à mente que, a propósito do término do "Projeto Genoma", o qual depois de consumir milhões de dólares e milhares de horas das cabeças pensantes mais poderosas do planeta e, de tempos em tempos, movimentar a mídia com notícias sensacionais a respeito de descobertas fantásticas, chegou à conclusão que: contados todos os genes do homem, estes não passam de uns meros trinta mil, o mesmo número de genes do rato. Para a ciência, que achava que os genes do homem chegariam à casa dos cem mil, foi um balde de água fria esta conclusão, pois, se depender dos genes, o arrogante bicho-homem é apenas um rato que fala.
Então, preconceitos e arrogância a parte, o Homo sapiens e centenas de outros animais estabeleceram uma convivência, nem sempre muito pacífica e sem estresse, há milhares de anos e continuam essa relação nos tempos atuais, o mais das vezes com prejuízo para os outros e visível “ganho” para nós a parte “inteligente” do relacionamento.
Mas, como se deu esse consórcio entre o bípede falante e os bichos, em geral, de quatro – alguns, como as abelhas e o bicho da seda têm seis, as aves têm duas e as bactérias e os peixes não têm - patas? Começou há pelo menos dez mil anos quando os primeiros humanos que até então eram nômades caçadores-coletores, resolveram “sossegar o pito”, ou seja, estabeleceram os primeiros assentamentos semi permanentes, ou fixos de fato. Portanto, a relação homem-cão, por exemplo, é muito antiga, isto é, praticamente desde os primeiros alvores do que chamamos civilização. Sabe-se que os homens primitivos domesticaram o lobo asiático e dele, através de seleção genética, foram criando as primeiras “raças” que acabaram dando a origem às centenas que conhecemos na atualidade. Assim, também o onagro (espécie de burrico), o cavalo, reses como cabras, vacas e ovelhas foram sendo introduzidos nas aglomerações semi urbanas. É razoável supor que os primeiros aglomerados humanos produziam rejeitos que atraiam os animais, principalmente em épocas de escassez. Ossos e restos de comida deviam ser convidativos aos lobos famintos, roças e plantações domésticas atraíam os comedores de plantas. Uma vez que os animais se aproximavam, os mais mansos podiam ser capturados e mantidos em cativeiro, ou mesmo apenas dentro do perímetro da aldeia onde recebiam alimentos, se sentiam seguros e podiam procriar sem problema. Deve-se sempre levar em conta que, mesmo na natureza, os animais estão sempre em busca de segurança, alimento e oportunidade de reprodução, e era isso que os homens lhes proporcionavam, daí domesticá-los tornou-se uma consequência da proximidade e da utilidade efetiva ou potencial que representavam.
Mais a civilização avançava rumo à modernidade, mais animais eram incorporados ao já numeroso contingente desses “auxiliares” e às vezes escravos das pessoas. Desde os maciços elefantes asiáticos, passando por renas, cavalos, vacas, coelhos, perus, galinhas, canários, peixes e até bactérias, todos se tornaram parte integrante do cenário civilizatório. Homens e seus animais domesticados construíram a civilização.
Assim, animais antes selvagens agora domesticados atrelados aos homens erigiram o piramidal edifício que suporta a civilização, na maioria das vezes com enorme prejuízo para aqueles e benefícios para estes. Os bichos carregaram gente e as mais diversas cargas no lombo; forneceram suas carnes para alimentação, pele e ossos para roupas abrigos, utensílios e armas; foram e são usados como cobaias nos mais diversos experimentos laboratoriais para obtenção de novos produtos e medicamentos; são sacrificados para uso de seus hormônios como fixados de perfumes e seus lipídios para fabricação de cosméticos; servem para recreação humana desde corridas de cavalos e cães, até brigas de peixes e galos; alem de serem caçados por lazer, como os são veados, gamos, felinos africanos, rinocerontes, bisões e dezenas de espécies de aves.
Enquanto homens exercerem domínio neste Planeta, enquanto continuarem se achando melhores e mais dotados que outros animais, estes estarão sempre na iminência de desaparecer para sempre. Atualmente há registro de milhares de animais que foram extintos, alguns não chegaram nem a ser estudados e conhecidos. Entre estes se encontra o Tilacino, conhecido por Tigre da Tasmânia, um marsupial carnívoro no formato de um cão grande que foi dizimado por caçadores australianos sob a alegação de que comia ovelhas, fato nunca comprovado. O último espécime conhecido foi filmado em cativeiro em 1936, ano em que morreu.
Outro animal, o moa, vivia muito bem nas ilhas neozelandesas só tendo como inimigo a águia haast, ave imensa que era predadora de seus ovos, filhotes e de adultos velhos ou feridos, até que, por volta de 1300 dC, o povo maori chegou e todos os gêneros de moa foram levados ao risco de extinção. Por volta do ano 1400 quase todos os moa são considerados ​ extintos, juntamente com a águia haast que tinha confiado neles como alimento. Alguns relatos confiáveis têm confirmado que alguns espécimes continuaram persistindo nos cantos mais remotos da Nova Zelândia até os séculos 18 e mesmo 19, quando foram sistematicamente caçados pelos colonizadores e definitivamente extintos. No confronto da fauna nativa como os homens estes sempre saem “ganhando” para prejuízo do Planeta. JAIR, Floripa, 26/01/12

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Por que guerra?


A verdade é que o “evento” guerra representa, no decurso da história do Homo sapiens, algo inseparável de sua evolução social rumo à civilização, e também o leitmotiv da maioria de suas conquistas, territoriais, sociais e científicas. O que intriga os antropólogos, sociólogos e historiadores modernos é o porquê da guerra, onde está a origem dessa aparente anomalia de comportamento social a qual contraria o próprio curso natural das coisas: A preservação da vida.

De acordo com os conhecimentos convencionais das origens do homem, tudo que diz respeito à violência humana – aqui entendida como qualquer tipo de violência, não só as guerras – é explicado como uma consequência da longa fase pré-histórica em que homens foram caçadores de animais, e muitas vezes caçados por estes. Foi a vontade de comer carne e a necessidade de matar para consegui-la que supostamente nos diferenciaram de outros primatas, fazendo com que sejamos ao mesmo tempo inteligentes e cruéis, sociáveis e dominadores, desejosos de matar e capazes de repartir a caça. Ou seja, somos uma espécie de predadores – “assassinos por natureza” – que mantivemos o costume de lutar até quando nos tornamos agricultores-pastores.

Com a revolução neolítica – período no qual inventamos armas e utensílios de pedra e dominamos animais que nos facilitaram a vida – a caça de mamíferos selvagens já não era prioridade, tornou-se eventual e complementar aos alimentos obtidos através do pastoreio e agricultura. Contudo, um sentido de “propriedade” substituiu o nomadismo errático e fez com que tribos se estabelecessem em regiões que podiam ser contestadas como áreas de caça de outras tribos, gerando conflitos. À procura de animais abatíveis, tribos “invadiam” esses territórios para caçar e esse ato, não raramente, gerava antagonismos armados com mortos e feridos, que hoje podemos chamar de guerras. Assim, nasceu o culto da guerra, esta se tornou, de certa forma, algo acima da simples disputa, algo sagrado que, em última análise, dizia respeito à sobrevivência própria e ao extermínio de outrem, se necessário fosse. Algo como: para eu viver é necessário que outros morram, então devo matá-los, porque não há sentido em que eu morra.

Há consenso que, grande parte da “natureza humana” foi estabelecida nos cerca de dois milhões e quinhentos mil anos em que o Homo viveu em pequenos bandos e tribos, alimentando-se de animais e plantas. Acredita-se que nossa relação peculiar e contraditória com a violência tem origem na experiência primordial que mantivemos como espécie inteligente que tinha que se manter viva a custa de sacrifícios de outras vidas. Como disse anteriormente, essa experiência não era só de caçar para sobreviver, era de ser caçado e prover sobrevivência a outros, que no início eram só animais selvagens, depois evoluiu para “caçar” e se “caçado” por outros homens. Acredita-se que o surgimento da guerra e sua incorporação como fato cultural não foram bolados e projetados de propósito por um predador arrogante que se via acima de outros viventes. Foi, antes, uma consequência direta e natural da duríssima luta de um ser fraco mas inteligente, pela sobrevivência. Por paradoxal que pareça, a violência, ao invés de ameaçar a existência do homem, permitiu que este sobrevivesse e dominasse o Planeta, mesmo a custa da morte de seus oponentes pela guerra. Guerra e civilização têm tudo a ver, a humanidade deve a seus atos violentos e à guerra, sua atual posição privilegiada na fauna do Planeta. Isso não quer dizer que todos os atos modernos de guerra sejam justificáveis, apenas explica como nasceu a arte e a técnica de matar a granel e com justificativa, o quê, em última análise é a guerra.

Na verdade, como e porque a guerra foi incorporada ao modus vivendi do homem, não importa. O fato é que ela se espalha, propaga-se através do tempo e do espaço com mesma aterradora firmeza de um animal que abocanha a presa. A guerra se espalha e se perpetua numa dinâmica própria que, às vezes, parece virtualmente dissociada da vontade humana. Ou, como costumamos dizer de coisa que não entendemos direito, a guerra tem “vida própria”. Ainda que vivamos num dia-a-dia sob guerras constantes espalhadas pelo Planeta, a análise das guerras modernas requer uma vida inteira para elaborá-la, e não sou eu quem vai fazer isso, me faltam fôlego e conhecimentos. JAIR, Floripa, 18/11/10.