quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sandices mórbidas




Vou repetir: “A morte é o único evento absolutamente inevitável e que alcança a totalidade dos seres vivos, mas nós não temos familiaridade com ela, procuramos certa distância dela como se fôssemos eternos”. Na verdade, a morte nos acompanha desde o momento exato da concepção, iniciamos o processo de moriência quando passamos a viver, e a morte passa, literalmente, a nos acompanhar durante nossa existência. Mas, parece que o Homo sapiens faz questão de viver como se ela não existisse.
Algumas culturas antigas como os egípcios do tempo dos Faraós, queriam “burlar” a morte por meio de rituais e processos de conservação corporal, obviamente sem perceberem que a ceifadeira é irrefragável. O mistério da falência corporal decorrente de doenças, acidentes ou velhice, que resulta na morte, era e é incompreensível para a maioria da humanidade. Esse mistério resultou na criação das religiões. Já que deixávamos de viver na Terra, “tinha” que haver alguma compensação na forma de vida depois da morte, seja em algum lugar edênico onde os bons serão compensados pelas suas ações, ou até num ambiente de punição por imperfeições cometidas em vida. Mais uma vez a ignorância acerca do fenômeno mais natural da existência era usada para criar explicações e soluções.
Contudo, por mais intrigante que fosse, a morte sempre cercou o homem, os primitivos sabiam que para se alimentar de animais precisam matá-los ou encontrá-los mortos; sabiam que os inimigos ou as feras podiam causar-lhes a morte; então, apesar de não compreendê-la e de temê-la mais do que qualquer coisa, os homens conviviam com ela e sabiam que, muitas vezes, era a razão de continuarem vivendo. Uns morriam para outros sobreviverem, uma verdade bem cedo descoberta.
Mais ainda, devido ao modus vivendi humano, que em suas aglomerações uns entravam em conflito com outros por disputa de fontes de alimentos, ou por razões de colisão de interesses vitais, o homem acabou inventando as brigas, rixas, batalhas, recontros e guerras nas quais venciam aqueles que matassem seus oponentes. A morte de outros significava a vida de uns e continuidade de suas comunidades e culturas. A guerra tornou a morte um meio de se chegar a um fim, mas sempre envolta na aura do ignoto.
Veio a civilização e explosão demográfica que tornou todos os cantos do Planeta habitados e a morte continuou ceifando vidas cada vez com mais intensidade, pestes, epidemias e guerras tinham mais material humano para apresentarem serviço, os números de óbitos se contavam aos milhões, enquanto nos primórdios havia sido em centenas ou milhares. A palavra genocídio ganhou dimensão absurdamente grande e trágica na primeira metade da década de quarenta do século passado, por delírios racistas de Hitler.
Mas, na mesma medida que os meios causadores de morte evoluíam a ciência tentava agora reverter o quadro, descobrindo ou inventando modos e medicamentos que adiassem o fim inevitável. Se mais gente morria de acidentes e guerras, mais gente sarava de doenças antes letais, graças aos avanços da ciência em especial a ciência médica.
Ao tempo que se encarava a morte como inevitável mas, em certos casos, passível de ser adiada, sandices foram desenvolvidas em torno da possibilidade de vida eterna, ou algo próximo disso. Essa tal existência perene não se referia, como as religiões apregoavam, a uma vida eterna da alma, mas sim a possibilidade de que o corpo pudesse viver producente por centenas de anos, dentro de certas condições. Por enquanto, besteira pura.
Contudo, especula-se que dado o avanço da cibernética, será possível dentro de uns dois ou três séculos, “casar” mecanismos mecatrônicos com cérebros humanos criando ciborgues virtualmente eternos. Considerando que um sonho louco como esse dependa apenas de desenvolvimentos tecnológicos que já se veem no horizonte e que trezentos anos seja tempo suficiente para se chegar a coisas inimagináveis por enquanto, essa futurologia não é de todo descartável.
Por outro lado, retrocedendo ao tempo dos Faraós que queriam seus corpos conservados para ressuscitarem algum dia, a ciência moderna inventou a criogenia que é a técnica de manter organismos ou partes deles em congelamento sem prazo de validade para ressuscitá-los um dia. Essa técnica já é empregada com sucesso em embriões: óvulos fecundados podem permanecer em congeladores especiais por anos com grandes chances de sobreviver a um descongelamento sob controle num futuro não muito distante – calcula-se que cerca de sessenta por cento deles consegue manter-se em condições de originar um bebê. Por esse motivo, existe muita gente que acredita na possibilidade de seres humanos inteiros possam ser congelados e, num futuro distante descongelados aptos a viverem normalmente. Essa estranha esperança deu azo à criação de uma indústria de criogenia que congela corpos ou cabeças de quem tenha duzentos mil dólares disponíveis e queira apostar essa grana contra a morte. Pelo que se sabe, até o momento mais de cem pessoas colocaram suas fichas nesse jogo de regras incertas e término ignorado.
A técnica é a seguinte: imediatamente após a morte do candidato a vida eterna, os médicos retiram seus fluidos corporais e os substituem por um líquido que não congela, depois o colocam num tanque de nitrogênio líquido mantido a -196 ºC, temperatura em que todo material orgânico não deteriora. É aí que entra a aposta no ignoto. Supõe-se que daqui a uns cinco ou seis séculos, os cientistas descobrirão um jeito de combater a doença que causou a morte do candidato picolé e este será curado, descongelado e viverá normalmente. Futurologia da mais alta qualidade!
Contudo, afirma o físico americano Robert Ettinger um dos maiores divulgadores da criogenia: "Os próprios métodos usados para congelar uma pessoa podem causar danos às células que só poderiam ser reparadas por tecnologias que ainda não existem". Por isso, a criogenia é uma aposta cega contra a morte com toda feição de ser um tiro na água, mas que tem um número de adeptos bem expressivo.
De qualquer forma, a morte não perdeu seu potencial de horror, mistério e porque não dizer de fascínio, ela nos alcançará em algum momento e será sempre mal vinda, não queremos morrer. JAIR, Floripa, 10/02/12.

12 comentários:

Volúzia disse...

Ninguém quer morrer, todos vamos morrer. Essa é uma obviedade tão ululante (como dizia Nelson Rodrigues) que torna-se estranho não falarmos ou escrevermos sobre ela. Teu texto supre essa falta. Gostei.

Tais Luso disse...

Jair:

O ser humano sempre precisou acreditar na perpetuação da vida através do espírito. Confesso que eu ainda não sei de nada; só sei que desde sempre o homem procurou acreditar em algo extremamente superior à nós, divino, sobrenatural. E sempre foram em busca de um Deus, seja em Cristo ou venerando o Sol, a Lua, enfim, a vários elementos onde um Ser Superior pudesse ser representado com grandeza e perfeição para atenuar nosso morrer ou nossa 'passagem'. O certo é que queremos a perpetuação, pois não admitimos que logo-logo tudo acaba. Quem aceita isso? Então está aí a medicina para ir nos presenteando com mais anos; em breve alcançaremos 150 anos.

Sabemos que os povos antigos construíam grandes sepulturas, passavam pela processo da mumificação, seus pertences e sua fortuna eram enterrados juntos, pois acreditavam que 'dali iriam pra outra'. Se foram pra outra, não sei. Aí entra a questão da fé, algo bastante polêmico pra muitos.

Mas cheguei ao estágio de ver nosso morrer com mais naturalidade. Lendo muito o meu poeta preferido - Mario Quintana -, talvez tenha aprendido um pouco com ele ao falar da morte com mais poesia e aceitá-la melhor. Seus poemas consolam. Aprendi que um dia, quando a morte chegar de mansinho e disser: 'Anda, vem dormir...' Talvez eu já esteja mais preparada, e não tão aflita... Só lastimo e tenho certeza que não voltarei 'Passarinho'...

Mas bota assunto bom nisso; é um tema que não cabe num comentário, daria várias crônicas para comentar tudo o que você abordou. E muito bem!
Abraços
Tais

Leonel disse...

A morte é uma coisa que a mente humana ainda detesta ter que admitir, apesar de seu caráter inevitável.
Mas, acho que antes de pagar aqueles duzentos mil dólares para ser congelado, eu faria melhor uso empregando-os em coisas prazeirosas enquanto vivo!
Abraços, Jair!

Rui Palmela disse...

Caro amigo Jair,

Li com muita atenção seu texto e a conclusão que tirei é que vc desconhece que a morte é apenas uma mudança para outra fase de vida com padrões e dimensões diferentes das que vivemos neste Planeta.

A Ciência e Parapsicologia tem confirmado tal facto através de estudos que comprovam aquilo que as Religiões têm aludido ao longo dos tempos embora distorcendo essa realidade com seus próprios dogmas e superstições, cada uma fazendo da verdade as mais diversas interpretações.

Porém, hoje já existe informação suficiente para quem quiser ter a certeza de que afinal a morte não existe tal como muita gente pensa, pois o que perece não é a pessoa em si mas sim seu invólucro físico através do qual se manifesta neste mundo.

Há no entanto várias aspectos a considerar como por exemplo a forma como cada um vive e o que faz aqui na Terra ao longo de sua existência, pois disso depende a forma como se liberta, com mais ou menos sofrimento, de seu corpo físico, seja por doença ou acidente, ou velhice, sendo este último aspecto o mais natural que permite fazer uma passagem mais tranquila para a vida espiritual.

Fica aqui este meu comentário sobre a morte que deixará de ser tão temida no dia em que as pessoas souberem e tiverem a certeza de que a vida se perpétua na Eternidade e não se limita a uma curta existência física no mundo da efemeridade.

Um abraço

Rui Palmela

Cristiano Marcell disse...

Enciclopédico amigo, boa noite!

Seu texto, assim como os que o antecederam, é muito bom!
Sua opinião sobre a morte transcorreu de maneira bem apropriada, sem mencionar fatos não comprovados, tais como a reencarnação!

Devemos ter bom censo ao escrver coisas do tipo e citar somente ideias e opiniões fundamentadas, que não deixam margem para o Kardecista dizer que iremos para o umbral, o Protestante afirmar que comeremos o maná no reino dos céus, o umbandista encontrar Olorum...

Você o faz com primazia!

Parabéns!

R. R. Barcellos disse...

Caro Jair, o teu talento para desenterrar temas polêmicos é tal que eu diria que transcende o limiar da morte, se não o da concepção. Mas qualquer que seja a resposta, ela estará numa dimensão superior às quatro corriqueiras do universo Einsteniano, vale dizer: externa ao TEMPO.
Abraços metafísicos.

Milla Pereira disse...

Jair, Passei para matar saudades e lhe desejar um FELIZ CARNAVAL, com muitas alegrias. Eu vou descansar tds os dias! Beijo imenso!

Professor Alexandre disse...

Muito interessante esse seu 'apanhado' geral sobre a morte em diversos momentos 'distintos'...
Parabéns pela alta qualidade da postagem...
Abraços!

Luci Joelma disse...

Bom dia amigos: Jair e Bran!
Jair, tomei a iniciativa de fazer o comentário através de email,já que "forças ocultas", deletaram imediatamente após o que escrevi.
Pergunta: "Você é um robô?", apareceu a seguir 3 símbolos: uma seta em curva, uma caveira e um ponto de interrogação.cliquei na caveira e, lá se foi meu comentário. Que raiva! sei que é um sentimento negativo, mas é uma violência, e de onde ela vem? não sei te responder.
Leia o meu desabafo, se quiser pode copiá-lo no comentário do texto sobre a morte:

Jair!
Estou indignada.Fiz o comentário sobre o seu texto sobre a morte, e pude ampliar o conceito desta, a partir
de um ato de violação.Sim, como escritor, você sabe e sente o grau de concentração mental para produzir e criar um texto. Sua energia, sua intuição estão ali presentes no ato da criação, na parição das idéias. Imagine , que ao final do registro, através da linguagem escrita, ao ler e sentir a finalização,simplesmente te dão um código e deletam todo um processo...Matam a tua inspiração. Assim, a morte se manifesta através de um instrumento novo, no dito mundo virtual, aqueles códigos apresentados com letras, números...Agora surgiu uma novidade: alguns símbolos e, perguntas tipo: você é um robô? querem a tua identificação para a publicação da nossa escrita,Considero violento este ato,um abuso à tua privacidade-deletar.
A morte também é isso... um apagão,seja da vida física por qualquer tipo de instrumento: uma metralhadora, um revólver, uma moto, um carro, uma droga...agora o controle remoto de um computador,seja um racker, um virus ou alguma arma secreta poderosa! Imagine o futuro do mundo! Dizem que este será destruído por um computador gigante. Deve ser gigante na quantidade de informações armazenadas, não no tamanho, porque os chips estão cada vez mais reduzidos,mas, na capacidade do armazenamento das verdades universais.Manipulação não! Estamos cada vez mais expostos a isto, porque todos os seus dados pessoais estão numa vitrina cibernética. Quero vida e privacidade. Se, aquela inspiração do momento que
mataram a minha criação, vier à tona, repetirei a façanha de proferi-la pessoalmente e não virtualmente. Luci.

Rui Palmela disse...

"Sua opinião sobre a morte transcorreu de maneira bem apropriada, sem mencionar fatos não comprovados, tais como a reencarnação"! (Cristiano Marcell)

Você está enganado com o que diz acima, caro Cristiano Marcell, pois a Reencarnação já está comprovada cientificamente. Leia estudos efectuados pelo Dr. Ian Stevenson da Universidade de Virginia dos EUA que relata inúmeros casos com minúcia em seus ttrabalhos publicados na obra Twenty Suggestive Cases Of Reincarnation.

Direi mais que a Reencarnação é o "elo perdido do Cristianismo", pois no tempo de Jesus Cristo era muito comum a crença até ao momento em que ela foi suprimida no ano 553 d.C. por ordem do Imperador Justiniano que obrigou o Papa a convocar um Concílio (de Contantinopla) para isso, influenciado pela sua mulher Teodora. Se quiser saber toda a história leia esta minha página:

http://www.novaera-alvorecer.net/a_lei_do_renascimento.htm

Attico CHASSOT disse...

Muito estimado Jair,
não vou aderir ao bastião trazido pelo ‘reencarnacionista’ Rui Palmela. Acho a hipótese ( e dizer que esta está comprovada é um exagero) palatável e fonte de consolo para aqueles que ficam. Pena que o filme “Nosso lar’ abestalhou a proposta de ‘outra’ vida.

attico chassot

Rui Palmela disse...

O sr. Attico é livre de discordar e não acreditar na questão da Reencarnação comprovada já cientificamente conforme referi pelo Dr. Ian Stevenson da Universidade de Virginia dos EUA, se não quiser enveredar pela via do Espiritismo e Esoterismo.

É pena que com sua idade ainda não tenha alcançado melhor conhecimento do que aquele que possui.