sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sandices vitais



O Homo sapiens desde que pisou no Planeta sentiu necessidade de encontrar explicações para as coisas, sua bisbilhotice é atávica. Sempre atento a tudo que o cerca, com imensa curiosidade que todo animal parece ter, tenta compreender como as coisas funcionam, como se originaram, qual seu lugar na ordem da natureza, que tipo de utilidade podem ter, se os fenômenos existem independentes uns dos outros ou se estão ligados de alguma maneira. Esse questionamento agudo o levou às descobertas, invenções e procedimentos que tornaram a civilização possível e o nascimento das ciências um imperativo categórico. As perguntas não respondidas conduziram às religiões e ao misticismo em caráter menos ou mais provisório dependendo da capacidade da ciência de encontrar as respostas na medida em que evolui. Mais perguntas respondidas correspondem à luz que implode o obscurantismo das superstições. Contudo, ainda que o conhecimento tenha conduzido a humanidade à senda clara de respostas que iluminam, existe uma pergunta por enquanto irrespondível: o que é a vida? Essa indagação permite conjeturas e especulações filosóficas (Cogito, ergo sum, como cogitou Descartes provavelmente com seus botões), místicas, religiosas, metafísicas e fisiológicas, e é sob essa ótica que faço minhas observações.
Afinal, qual a diferença fundamental entre um ser vivo e um aparentemente desprovido de vida ativa como uma pedra, por exemplo? Será que presença ou ausência de movimento presumem vida e não-vida? A faculdade de replicação é suficiente para definirmos quem está vivo e quem não está? Aliás, será que pedra é um ser vivo que tem o período vital tão dilatado, na ordem de bilhões de anos talvez, que nem sequer percebemos que ela está viva? As respostas, se é que existem, com toda certeza não são encontráveis ali na esquina, ou seja, a partir de simples observação das coisas que nos cercam, o que vemos é apenas constatação que existem seres de uma e de outra natureza, não como e porque eles são o que são. A diferença não reside seguramente nos átomos que os constituem.
Não existe qualquer diferença entre os átomos de carbono de nossos corpos e os da ponta do lápis com o qual escrevemos, ou os do diamante que vemos na joalheria; ou entre o ferro que existe em nossas células e o ferro da panela na qual cozinhamos; ou entre o oxigênio de nosso organismo e o da água que nos banhamos, e assim por diante, em qualquer relação com o material de seres vivos e não vivos. Os blocos constituintes básicos – como tijolos de uma construção - de todos os agregados materiais, tanto vivos como não, pensantes ou não, replicantes ou não, são exatamente os mesmos: átomos. Então não é por aí, não existem átomos vivos e átomos inanimados. O que será então que provoca a diferença? A eureca parece ser as combinações entre os átomos: moléculas de arranjos extremamente mais complexos entre os seres vivos e de complexidade menos acentuada entre os não vivos. Só que essa suposição não se sustenta, falta algo: Um rato vivo e um morto tem as mesmas combinações atômicas e moleculares e, no entanto, não são a mesma coisa, a um deles falta vida. Então, como ficamos? Ficamos a ver a navios, para usar uma frase surrada na falta de outra melhor.
Na verdade, essa falha fundamental da ciência, essa fenda indiscreta na couraça do monstro científico, é o rasgo por onde entram as “explicações” dos fundamentalistas religiosos, vale dizer, dos criacionistas. Funciona mais ou menos assim: “Viu como vocês não conseguem explicar? Então nós o faremos: tudo foi criado por uma força superior que sempre existiu e existirá”. Eles admitem que um ser superior soprou num andróide de barro e este criou vida, assim, a vida seria algo fora do alcance da ciência e da compreensão humana. E ainda afirmam que a mulher foi confeccionada a partir da costela do primeiro homem. Não dá pra ser mais néscia essa conclusão. Empurrar com a barriga quando não se sabe a resposta é uma característica de ignorantes que se conformam com suas ignorâncias. Assim, as superstições continuam prosperando em pleno século vinte e um, o que é lamentável. A estupidez de encontrar uma explicação para a criação de vida humana e deixar os outros animais de lado, já é motivo suficiente para mostrar os becos sem saída que os criacionistas inventam.
Já alguns cientistas (apenas alguns, porque a maioria não quer arriscar sua carreira num assunto tão sem definição) acham que conhecem o processo de criação da vida. Chutam que a vida surgiu a partir de um grau de organização da matéria primordial que existia. Conjeturam que processos fortuitos, mas inevitáveis, teriam criado uma espécie de “sopa primeva” que os cientistas crêem ter constituído os oceanos cerca de 3,7 bilhões de anos atrás. As substâncias orgânicas concentravam-se localmente, talvez em gotículas em suspensão, ou espuma que secava nas margens dos mares. Sob a influência da energia dos raios ultravioleta do sol, combinavam-se em moléculas maiores e mais complexas. Pode-se perguntar por que isso não ocorre hoje. Moléculas assim seriam rapidamente absorvidas, degradadas ou devoradas por bactérias e outros seres vivos. Entes que só apareceram tardiamente no planeta. Naqueles tempos as grandes moléculas orgânicas podiam boiar livremente no caldo cada vez mais denso sem serem molestadas. Num dado momento formou-se por acidente, uma molécula notável, uma molécula que podia replicar-se, estava criada a vida. Sandices, essas suposições são baseadas em muitos “ses”: se isto, se aquilo.
Pois é, acredito que absolutamente ninguém racional neste planetinha azul, pode jactar-se de saber a definição definitiva do que é vida sob o ponto de vista fisiológico. Tampouco se pode afirmar que a ciência já tenha desvendado parte desse mistério, que já tenha algum “caminho andado” na direção de onde se encontra as tábuas da verdade sobre a vida. Os avanços das ciências biológicas, cada vez mais, acrescentam palavreado técnico cheio de firulas, mais com intuito de mostrar serviço, mas que confundem mais do que esclarecem sobre o que se sabe a respeito do que é vida e como ela se originou. O mistério continua até o próximo capítulo. JAIR, Floripa, 12/02/12.

7 comentários:

Volúzia disse...

Vida e morte, duas postagens que se complementam e mostram a versatilidade do blogueiro. Sinceramente, este é o melhor blogue da web.

Leonel disse...

Só posso concordar com a sua visão de que não parece existir neste grãozinho de poeira galáxica alguém capaz de explicar o que seria esta "anima", que diferencia um ser vivo de um outro da mesma espécie, morto!
Isto iguala creacionistas e evolucionistas no mesmo nível de ignorância.
Trata-se um assunto que transcende uma simples discussão de tendências...
Coisas para pensar olhando a fumaça do cachimbo...
Uma boa virada de mesa mental!
Belo texto, Jair!

Attico CHASSOT disse...

Prezado Jair,
mesmo que ‘aparentemente’ dês munições fabulosas aos criacionistas (v.g., na composição do rato morto e do rato vivo, adiro a inexplicável ‘anima’ do Leonel.
O assunto realmente é difícil para este período momesco.
Faça uma blogada com confetes e serpentinas
attico chassot

Anônimo disse...

Ínteressante o que você causa no leitor... Irradia o espirito investigativo,faz buscar o dicionário para compreender a tal "sopa primeva", gera curiosidade no leitor sobre os comentários postados,cria uma energia que gera movimento: a mente fervilha e quer saber...De qualquer forma estamos vivos neste planeta azul nos movimentando para amar,sonhar,idealizar,rebelar,revelar e tantos outros verbos que se façam carne e habitem entre os homens!!!Luci

Luci Joelma disse...

Ínteressante o que você causa no leitor... Irradia o espirito investigativo,faz buscar o dicionário para compreender a tal "sopa primeva", gera curiosidade no leitor sobre os comentários postados,cria uma energia que gera movimento: a mente fervilha e quer saber...De qualquer forma estamos vivos neste planeta azul nos movimentando para amar,sonhar,idealizar,rebelar,revelar e tantos outros verbos que se façam carne e habitem entre os homens!!!Luci

R. R. Barcellos disse...

Orgânico e inorgânico são conceitos opostos e excludentes no Espaço e no Tempo. Vida e morte são opostos mas não são excludentes no Tempo, e se aplicam somente a entidades orgânicas. Quando se diz que uma estrela está morta, é apenas uma figura de linguagem - ao contrário do rato morto.
Abraços.

Professor Alexandre disse...

Muito interessante seu texto!
Ja pensou em lançar um livro só com 'sandices'? Faria sucesso... Fica a sugestão ^^

Abraços!