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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sandices humanas





Se observarmos a natureza – e não precisa nem ser através de olhares científicos – uma coisa que salta aos olhos é a diversidade de formas dos corpos dos animais (óbvio demais) e a relação da forma com a classificação do animal dentro do reino. Assim, mamíferos quase sempre têm quatro membros, insetos sempre têm seis membros, aves sempre têm duas pernas, por exemplo. Claro, não só o número de membros relaciona-se com o animal do qual falamos, outras características anatômicas também são notáveis: mamíferos não têm asas exceto os morcegos; peixes não têm sangue quente exceto os atuns, e por aí vai.
Dentre os mamíferos, aquele que mais nos chama atenção e que mais nos preocupa é o Homo sapiens, por razões mais que naturais. Esse complexo bicho – não mais complexo que o rato ou o ornitorrinco – é classificado segundo Lineu como: Domínio - Eucarionte - Os eucariotas são os organismos vivos unicelulares ou pluricelulares constituídos por células dotadas de núcleo, distinguindo-se dos procariotas, cujas células são desprovidas de um núcleo bem diferenciado; Reino – Animal – Também chamado Animália, o reino animal é composto por seres vivos pluricelulares, heterotróficos, cujas células formam tecidos biológicos, com capacidade de responder ao ambiente que os envolve ou, por outras palavras, pelos animais; Filo – Cordato; Classe – Mamífero; Ordem – primata; Família – Homideo; Gênero – Homo; Espécie – Homo sapiens. Havendo quem ainda classifique o bípede falante como uma subespécie, sapiens sapiens, o que não é muito sapiens por parte de quem assim pensa, pois para existir um duplo sapiens deveria existir um sapiens simples diferente de nós, o que não acontece. Somos os únicos sapiens que se conhece.
Pois bem, aqui está esse primo chegado de primatas arbóreos como o chimpanzé, o orangotango e o gorila, todo refestelado andando sobre duas pernas e tendo os membros superiores livres para praticar suas artes. E, justamente, essas artes as quais pratica é o que o diferenciam de seus parentes peludos, pois se olharmos nossa constituição genética temos menos de meio por cento de diferença com os chimpanzés. Não somos tão especiais assim, tivemos apenas a sorte de sermos providos com mãos hábeis ao invés de pernas anteriores, e isso nos tornou arrogantes e metidos.
Mas, o que realmente nos torna especiais, é pensar que somos especiais, é fácil imaginar que se moscas se acham especiais lá naquele cérebro tão diminuto quanto desconhecido pelo homem, elas são especiais ao modo delas. Quem pode contestar isso? As moscas – ou a lesmas, ou as bactérias – têm tanto direito de nos julgar quanto nós o temos de julgá-las. Será que as formigas não riem de nós – riso de formiga, é claro – achando que somos tronchos, vagos e bestunsófilos sísmicos? Lembrando que bestunsófilo é termo formigal que tem significado claro para elas, mas é completamente intraduzível para qualquer idioma humano. Já, sísmico, é isso que entendemos mesmo: causador de abalos. É só lembramos que quando pisamos num formigueiro deve haver abalo bem significativo na escala Endopterigota delas. Inferindo ainda que essa escala usada pelas formigas pode medir magnitudes de 01 a 100.000 endos, sendo o menor índice, 01 o abalo causado por uma pisada de besouro e 100.000 a pisada de um elefante, ficando a pisada do homem entre os cinco e dez mil endos.
Então vaga o bicho homem, arrogante, pelos espaços disponíveis do Planeta, “se achando”. Julgando-se o ápice da criação, criando em sua mente privilegiada até um Ente Supremo que a tudo criou e tudo controla e que, na sua sabedoria primordial, trouxe á luz um ser a Sua imagem e semelhança. Da para acreditar em tamanha presunção?
Pois é, esse ser “especial” criado a semelhança do Criador, pensa que é melhor que a formiga a qual esmaga sem piedade com seus pés maldosos. Esse ser que é um animal como qualquer outro e não é especial no sentido de ter privilégios. A marcha da natureza, - isso os cientistas já provaram – faz com que de tempos em tempos sejam eliminados da face da Terra, seres incompetentes ou que não se adequaram com perfeição a novos ambientes ou novos climas. Comprovadamente a natureza já se livrou sete vezes dos menos adaptados. Se o Homo sapiens for realmente sapiens e tiver um cagagésimo de humildade lhe será fácil verificar que está em rota de colisão direta com sua própria extinção. Se a arrogância do homem não lhe tolher a capacidade de julgamento e não turvar sua visão, ele será capaz de enxergar um futuro próximo do Planeta, onde ainda existirão milhares de espécies animais em pleno gozo de suas existências profícuas, sem qualquer ser humano até onde a vista puder alcançar. Poderá ver algo como o paraíso na Terra, onde animais e vegetais interagem e uns servem de alimento aos outros em troca de insumos que os comensais dejetam para os comidos.
Se a natureza fosse uma grande e complexa orquestra, poderíamos atribuir a cada membro, vegetal, mineral ou animal, uma função dentro dessa orquestra, menos para o homem. O homem seria a nota dissonante dentro da harmonia dessa imensa organização. Agora podemos perguntar: Porque esse animal racional e falante não se enquadra? Por que é o único ser que “rema contra a maré” por assim dizer? Parece que esse animal bípede não se acostumou devidamente com seu cérebro grande e criativo de concepção ainda recente. É razoável supor que depois que o cérebro humano se desenvolveu e deu ao seu portador esse imenso poder, essa capacidade tão grande quanto desconhecida de criar e deduzir coisas, o homem ainda não tenha “se acostumado” a usá-lo devidamente, não saiba controlá-lo para obter dele eficiência e trabalho produtivo de longo prazo. Algo assim como colocar um carro de fórmula um na mão de um neófito que mal sabe dirigir. É de se esperar que nada de bom saia dessa combinação: amador & máquina potente. Daí, podemos inferir que se não nos destruirmos nos próximos milênios e consigamos sobreviver apesar de nossa bisonha manipulação do cérebro “fórmula um” que temos, teremos, enfim, lucidez para perceber nossos erros e nos redimirmos. Só então, como o astronauta David do filme “2001 Uma odisséia no espaço”, renasceremos (como espécie e não como indivíduos) em nós mesmos e viveremos em paz e harmonia com a natureza. JAIR, Natal, 29/03/12.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Rio




Verte da terra pequeno filete tímido que escorre lento entre galhos e folhas num leito de areia fina. Ainda meio sem destino avança nos desvãos de pedras e raízes formando pequenas poças e ganhando corpo com eventuais chuvas ou adição de pequenas nascentes que se lhe somam. Assim percorre algumas centenas de metros. Aos poucos, desviando-se de calhaus, elevações e pedras maiores, vai formando remansos onde haja depressões e correndo mais solto nos pequenos vales. Já, agora, ainda uma criança travessa e sem uma direção precisa, coleante como cobra preguiçosa costuma ser chamado de sanga, córrego, riacho, ribeirão ou outra denominação que os homens tenham como costume nomear pequenos cursos de água corrente. Pode também, apresentar leito rochoso se esta for a geologia do terreno o qual atravessa; nesta altura, peixinhos como lambaris e barrigudinhos podem viver em suas águas limpas e oxigenadas; se não ocorrer que atravesse região povoada por humanos, certamente a vida de insetos aquáticos e outros seres pequenos poderá atrair peixinhos variados em busca de fartura alimentar. Se atravessar terreno acidentado, pequenas corredeiras e quedas minúsculas lhe proporcionarão uma sonoridade muito ao gosto de poetas e outros sonhadores. Será marulhante, buliçoso, terá borbulhas e movimentos hipnóticos para àqueles que contemplem suas águas. Já, então, forma bacias remansosas que permitem banhos refrescantes de crianças e adultos; todo mundo gosta de banho de rio, e ele é uma espécie de piscina de águas correntes límpidas e convidativas. Se outros pequenos regos lhe forem tributários, encorpa e toma nome menos pomposo e mais de acordo com sua natureza: rio. Mas, seu curso ainda apresenta meandros, não é forte o suficiente para retificar seu avanço.
Então, agora percorridos muitos quilômetros, já não lembra aquele fiozinho de água que fluiu meio temeroso oriundo de lençol freático que aflorou à superfície, pois se tornou uma corrente decidida, meio majestática que corrói margens, transporta galhos e troncos e já tem direito a pequenas ilhas formadas a partir de elevações contornadas por ambos os lados. Já não pode ser transposto a vau, e nadadores deverão ser mais que meramente bisonhos para transpô-lo a força dos braços, barcos de porte médio já serão vistos a subir e descer suas águas muitas vezes tumultuosas. Tornou-se, ele próprio, um acidente geográfico de monta, nas suas margens surgem cidades que adotam seu nome como patronímico, e adjetivos como caudaloso, profundo e perigoso lhe são atribuídos sem pejo. Agora seus afluentes não mais serão pequeninos fluxos, rios de porte médio lhe reforçarão a corrente e contribuirão para que inche, se alargue e apresente funduras respeitáveis. Não se vê mais ninguém tomando banho sem preocupação em suas entranhas meio misteriosas. Os peixes que habitam corredeiras e remansos, agora serão considerados “comerciais” pelos pescadores. Se houver depressões no terreno, estas serão preenchidas e formarão lagos portentosos, cachoeiras também se formarão em trechos acidentados. Até pedras de porte poderão ser arrastadas pelas águas impetuosas, quase nada resiste a seu efeito aríete que tende a empurrar obstáculos antes contornados. Seu curso passa a ser quase reto, obtuso, determinado. Novos rios veem aos seus pés entregar-lhe águas que colorirão as suas e lhe darão mais força, passou a ser um grande e respeitável rio cujo presença invoca pontes majestosas se quiserem atravessá-lo. Navios e grandes barcos singram-no com receio de seus humores e redemoinhos traiçoeiros. Também, se chuvas mais intensas atingirem seus tributários, poderá causar enchentes em regiões mais baixas onde prejuízos advirão por imprevidência dos homens.
Veloz, fluido, personalíssimo, têm nome, sobrenome e cava seus próprios vales, a orografia lhe é subserviente. Se homens quiserem domá-lo para dele tirar a força motriz que alimenta a civilização, deverão empregar esforços hercúleos e enormes somas de numerários; um grande rio não se vence com trinta dinheiros. Se represas lhe forem impingidas, formará lagos oceânicos que farão inveja a muitos lagos naturais. Suas águas fluirão com ímpeto dos vertedouros construídos nas barragens. Agora poderá ter nomes locais que exaltarão a importância que tem para a cultura e tecnologia humana, será mencionado nos livros escolares como aquele que provê tantos milhares quilovates para abastecer tantas cidades e tantos milhões de habitantes. Claro que essa importância que lhe é atribuída não impede que os ímpios humanos deixem de lhe despejar dejetos poluidores e usar seu leito como depósito de lixo, mas, se lhe derem espaço, ele se auto limpará, suas águas tem o poder de tornarem-se límpidas novamente.
Talvez centenas de quilômetros tenham sido vencidos desde aquela nascente despretensiosa, seus tantos feitos ao longo do percurso o tornaram manso e cansado apesar de alargado, aproxima-se da foz. Desceu o tempo todo, mas se encontra na planície que precede o litoral. Agora resta apenas a expectativa do encontro com aquelas de outra natureza, águas que pela quantidade reduzirão as suas a “gotas no oceano” se a expressão não for redundante. Ao chegar àquele oceano indomado e de origem outra que não a sua, tenta, num primeiro momento, empurrar aquelas águas barulhentas com gosto estranho. Sabe que não conseguirá vencer tal imensidão, mas continua lançado catadupas que mais parecem alfinetes na pele de elefante naquela massa cinética e imperiosa. Suas águas de cor diferente colorem as do oceano como uma mensagem de herói que sabe que vai morrer, mas quer deixar sua marca. Vence alguns quilômetros talvez, mas o mar é maior, sua cor e sabor são consumidos naquele ambiente salgado milenar, dinâmico e muito poderoso, o rio deixa de existir. Foi uma vida plena que marcou tudo por onde passou, mas teve um final glorioso, pois mesmo tendo sido diluído, um dia terá evaporado com outras águas e formará nuvens que verterão chuvas que poderão formar enxurradas e rios novamente. O rio não sumiu, apenas mudou de forma, e assim é e será por milhões de anos. JAIR, Floripa, 06/01/12
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Hipopótamos


Não havia praias, em Palmeira a gurizada tinha como opções de divertimentos aquáticos apenas os “tanques” como chamávamos as águas represadas por açudes construídos pelas indústrias madeireiras. Nós costumávamos nadar especialmente no Tanque dos Querubins, local adequado para aprender as primeiras braçadas, circundado por densa mata atlântica cheia de mistérios. O verão nos chamava à água de forma que era quase compulsório quem habitava nas proximidades comparecer àquele tanque todas as tardes depois das aulas. Claro que existiam outros locais apropriados às brincadeiras e folguedos da gurizada, mas nosso tanque era insuperável.

Foi numa tarde meio chuvosa, na qual o tanque estava deserto quando chegamos eu e meu primo Joel para nadar. Até o momento que entramos na água nada de anormal, a temperatura tépida estava convidativa e demos umas boas braçadas por alguns minutos e depois sentamos na margem e ficamos conversando. Foi aí que a coisa aconteceu, uma manada (não sei manada é o termo correto) de hipopótamos surgiu do meio da mata, atravessou aquelas águas profundas e se dirigiu, sem sequer olhar para nós, bisonhos nadadores amedrontados, para os lados da chácara dos Bacila. Sei que pode parecer estranho, mas, de fato, os bichos não tomaram conhecimento de nossa presença. Parece que eles estavam mais preocupados em sair da floresta e deslocar-se para lugar mais aprazível onde podiam comer peras madurinhas a vontade.

Foi a primeira vez que os encontramos, mas não a última. Em outra ocasião, desta vez eu estava sozinho, entrei na mata para procurar um bom local para lançar a linha com isca de minhoca no anzol, com fito de fisgar alguns lambaris quando, ouvi antes de ver, com certeza o mesmo grupo daquela primeira vez. Os bichos estavam chafurdando num laguinho lamacento não maior que um campo de futebol de salão, contei-os eram quatorze. Se da primeira vez a surpresa nos fez ficar extáticos, desta, parei, escondi-me atrás de moita espinhosa que havia ali e fiquei espiando em silêncio. Os enormes bichos se comportavam com tranquilidade e pareciam tão a vontade que tive certeza serem nativos, isto é, não se tratava de animais exóticos nem tão pouco de criaturas em trânsito pelo local. Diante da certeza que os bichos moravam naquela mata, tomei a resolução de nada contar para outras pessoas, não mencionar nem en passant o que havia visto.

Depois que contei ao meu primo sobre o ocorrido, tomamos a decisão de protegê-los dos adultos se preciso fosse. Minha primeira providência foi procurar nas bibliotecas toda literatura possível que informasse sobre os bichos, hábitos grupais, como procriavam, o que comiam, se podiam ser perigosos ou como poderíamos protegê-los. Felizmente a biblioteca do Ginásio Estadual tinha extensa coleção sobre animais que era especialmente generosa a respeito dos hipopótamos. Confesso que agora não lembro quase nada do que aprendi naqueles livros, mas, na ocasião, uma informação contrariava o que estava acontecendo. Lembro que os livros diziam que os animais eram vegetarianos, de hábitos noturnos, gregários e territoriais, e o mais impressionante, os textos referiam que hipopótamos só existiam em estado selvagem na África. Parecia a coisa mais estúpida essa informação. Como, só na África? Estávamos vendo os bichões ali na nossa mata, saudáveis, comendo, brincando e, pelo jeito, se reproduzindo sem problemas. Agora, é bom que se esclareça para que não haja mal entendidos: Era década de cinquenta, não havia televisão, Discovery Channel então, nem pensar; éramos pobres e as informações nos vinham através de pouquíssimos livros e revistas disponíveis, então não estranhem que não sabíamos muito sobre hipopótamos. Se vocês estivessem na minha condição também não saberiam. Para nós, crianças imaginosas, não parecia estranho animais daquele porte na nossa floresta, estranho era alguém achar que eles só vivessem na África! Registre-se que salvar os hipopótamos passou a ser prioridade vital para nós, estávamos dispostos a ir até onde fosse possível para preservar a vida daqueles cavalos de rio.

Depois de sabermos que era inviável pensar em removê-los para outro lugar onde pudessem viver discretamente, resolvemos que a permanência no local era crucial para suas sobrevivências. Procuramos saber a quem pertenciam aquelas terras, para isso, tínhamos um colega de aulas, o Alex, que era contínuo no cartório de registro de imóveis e poderia nos ajudar. Acabamos descobrindo que as terras onde se situavam as matas eram de um tal Gregório, milionário que não estava nem ai para terras improdutivas, de topografia irregular, sem benfeitorias e fora do perímetro urbano da cidade. A maneira como chegamos a ele e o convencemos a conceder, ao nosso tio, “comodato” da propriedade é meio complicada e não cabe aqui. Mas, como nosso tio era solteiro, trabalhava não muito longe dali e ia ao trabalho de bicicleta, o arranjo foi bom para ele e para o proprietário, pois a proposta era que tio Beto cuidasse da mata que estava sendo invadida por caçadores e lenhadores, conforme havíamos contado ao seu Gregório, embora não fosse bem verdade. O homem até mandou construir uma casa de madeira para nosso tio morar.

O terreno enorme era retangular com três lados cercados de arame farpado bem resistente, um dos lados menores do retângulo não tinha cerca e era por onde passávamos para acessar o tanque. Como o local onde nadávamos situava-se na extremidade do terreno, não foi difícil convencer seu Gregório a fazer uma cerca um pouco recuada de forma a deixar a parte nadável fora do cercado. Assim, “nossos” hipopótamos ficaram protegidos depois que meu tio colocou avisos de “Proibido entrar. Propriedade particular” em toda extensão da cerca. Naquele tempo avisos dessa natureza eram respeitados.

Pois bem, essas providências salvaram os hipopótamos das prováveis interferências humanas que lhes seriam prejudiciais, e nós passamos a visitá-los na mata todas as semanas. Nosso tio nunca ficou sabendo por que havíamos feito aquele arranjo tão conveniente para ele. Sabia que teria que viver naquele terreno e cuidar que ninguém o invadisse, mas nunca viu ou soube da existência dos hipopótamos, nós não lhe contamos, era um segredo só nosso. Aliás, nunca ouvi falar que alguém mais tenha visto os bichões, acho que eles eram esquivos demais. O que eu soube pela minha prima Patrícia, freqüentadora tardia daquela mata, foi que anos mais tarde, por volta dos anos oitenta, quando nosso tio já havia mudado de lá e a mata estava abandonada, foram avistados bandos (?) de capivaras no local onde os hipopótamos costumavam ficar. Acho que os bichos se mudaram e as capivaras tomaram conta do lugar. Nunca se sabe. JAIR, Floripa, 06/01/11.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

As inter-relações


Se quisermos entender o universo que nos cerca, e do qual fazemos parte intrínseca, é necessário que olhemos em volta, é fundamental que olhemos com o olhar da mente aberta para o vasto panorama de sistemas que se interpõe e se cruzam de modo complexo onde as vidas dos seres mais insuspeitados se inter-relacionam. Sua arquitetura e conexões constituem uma unidade majestosa.

A matéria e a energia são somente aspectos diferentes da mesma realidade fundamental, mas em todas suas incontáveis manifestações obedecem às leis cósmicas inexoráveis, imutáveis e cartesianas. E mais, os efeitos dessas leis através da infinita variedade de materiais e energia geram uma unidade implícita e observável: o equilíbrio dinâmico das forças biológicas, mantidas em suas direções e fórmulas por restrições e imposições dos mais variados tipos. Ou seja, o que vale para a bactéria, vale para o homem, o que vale para a planta, vale para o animal, não há leis aplicáveis a uns e não a outros.

Há um sistema unificado e impositivo em todo o cosmo; e, no frigir dos ovos, tudo é energia. As grandes massas, vamos dizer assim, são os aglomerados galácticos; depois vêm as galáxias com seus sistemas solares; planetas e satélites compõe conjuntos menores; os reinos naturais, mineral, animal e vegetal vêm em seguida; tecidos, sistemas, órgãos, rochas, água, moléculas complexas e simples compostas de átomos seguem até o âmago das partículas elementares, prótons, elétrons, nêutrons e as demais. Sob todas as formas de matéria inerte e manifestações de vida, palpita a energia, se comportando de acordo com as leis da física e da química. Ainda que saibamos que tudo é energia, não deixa de nos maravilhar que esta se desdobra numa variedade incrível de coisas materiais, como também produz padrões de vida de uma complexidade ainda maior: Desde o suposto Big bang que a tudo deu início, até a minúscula célula individual e desde esta até suprema complexidade do cérebro dos humanos, em cujo interior bilhões de neurônios podem contar com algo em torno de 270.000 conexões diretas com seus vizinhos.

Dentro de nosso Planeta, as inter-relações entre as unidades viventes maiores e os minúsculos seres como as bactérias, constituem a própria essência da existência. Não há qualquer vida isolada, parafraseando o poeta John Donne eu diria: “Nenhum ser vivo é uma ilha”. E mais, toda e qualquer alteração, por mínima que seja em um ambiente, reflete no todo, o Efeito Borboleta não é só uma expressão linguística vazia. A origem da vida no nosso Planeta, como sabemos, vem do Sol, este emite luz e calor com uma generosidade descabida, ilimitada até. Contudo, sabemos que o produto final da energia doada pela nossa estrela particular, as folhas da plantas, os seres microscópicos como algas e bactérias e suas posições na cadeia alimentar que permitirão sistemas vivos mais complexos, não são ilimitados nem perenes. Se removermos as coberturas vegetais do solo fértil, este se transformaria num deserto; se destruirmos as florestas e submetermos os pastos a um pastoreio excessivo, as terras produtivas se extinguirão; se sobrecarregarmos as correntes naturais, os lagos e oceanos com esgotos e poluentes químicos, a vida aquática deixaria de existir com consequências inimagináveis.

Em virtude de existirem efetivamente milhares de caminhos para o ponto de “não retorno”, onde os efeitos sobre os biomas são irreversíveis; onde os ciclos de auto-regeneração, sobre os quais repousa toda a dinâmica da vida, rompem como um elo fraco da corrente, devemos observar que é nossa responsabilidade, como sócios “inteligentes” do Planeta, fazer tudo ao nosso alcance para minorar os efeitos deletérios de nossas ações sobre a natureza.

E isso nos conduz a uma reflexão decorrente. A íntima e inescapável inter-relação que existe entre os seres vivos envolve certa reciprocidade dinâmica, certa cumplicidade implícita. O enfraquecimento ou destruição dessa estabilidade libera as amarras que impedem a destruição da vida, com resultados terríveis. Os arranjos naturais dos ciclos de vida asseguram a seus “sócios” o alimento e as condições de reprodução que necessitam. A maioria desses arranjos exige que uns sejam alimentos de outros, a chamada cadeia alimentar. A introdução de espécies que não pertencem a esses sistemas, ou a alteração física ou química, em geral constituem o que de mais pernicioso pode acontecer. Na Austrália, a introdução do sapo cururu, oriundo do México, para comer as pragas que atacavam o canavial, constitui um exemplo basilar dessa “quebra de decoro” recorrente que o Homo sapiens pratica. Além de não comerem as pragas das canas, os sapos passaram a atacar a fauna local e estão desequilibrando a ecologia de forma incontrolável, se alimentam de ovos de pássaros, filhotes de cobras e lagartos, além de serem extremamente venenosos a ponto de matarem as cobras que por desventura abocanhem alguns deles. Introdução de ratos pelos navios, de gatos para dizimar os ratos, de coelhos e raposas para caça esportiva, de camelos para transporte nos desertos, tem sido uma dor de cabeça piramidal para os australianos. É bom que se diga que TODOS os mamíferos australianos são marsupiais, qualquer placentário que por lá se encontre é alienígena, até o famoso Dingo, o qual foi introduzido pelos aborígines cerca de vinte mil anos atrás. A Ilha da Páscoa é outro exemplo clamoroso da incúria humana. Depois de terem destruído todas as árvores os Rapa Nui desintegraram-se como povo, perderam sua coesão cultural, suas tradições e laços sociais, tudo que restou foram uns poucos indivíduos desnorteados e sem raízes. No Brasil, na ilha Fernão de Noronha onde foi introduzido o lagarto teiú, houve a extinção dos pássaros que lá nidificavam porque os lagartos comeram seus ovos, o equilíbrio ecológico se rompeu.

Então, para não dizer que nada fiz a respeito, fica meu grito no deserto: De um lado, a inteligência humana lhe faculta a capacidade de “domar” a natureza para seu beneficio, de outro, sua ganância cega queima as pontes que lhe permitiriam retornar a um lugar seguro antes da catástrofe, de modo que, se a humanidade tem planos para o futuro, terá que parar por dez segundos e repensar suas estratégias de sobrevivência. Disso dependerá se o Planeta do porvir será dominado por seres humanos ou se tornará um “Planeta dos macacos”. JAIR, Floripa, 06/12/10.