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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Hipopótamos


Não havia praias, em Palmeira a gurizada tinha como opções de divertimentos aquáticos apenas os “tanques” como chamávamos as águas represadas por açudes construídos pelas indústrias madeireiras. Nós costumávamos nadar especialmente no Tanque dos Querubins, local adequado para aprender as primeiras braçadas, circundado por densa mata atlântica cheia de mistérios. O verão nos chamava à água de forma que era quase compulsório quem habitava nas proximidades comparecer àquele tanque todas as tardes depois das aulas. Claro que existiam outros locais apropriados às brincadeiras e folguedos da gurizada, mas nosso tanque era insuperável.

Foi numa tarde meio chuvosa, na qual o tanque estava deserto quando chegamos eu e meu primo Joel para nadar. Até o momento que entramos na água nada de anormal, a temperatura tépida estava convidativa e demos umas boas braçadas por alguns minutos e depois sentamos na margem e ficamos conversando. Foi aí que a coisa aconteceu, uma manada (não sei manada é o termo correto) de hipopótamos surgiu do meio da mata, atravessou aquelas águas profundas e se dirigiu, sem sequer olhar para nós, bisonhos nadadores amedrontados, para os lados da chácara dos Bacila. Sei que pode parecer estranho, mas, de fato, os bichos não tomaram conhecimento de nossa presença. Parece que eles estavam mais preocupados em sair da floresta e deslocar-se para lugar mais aprazível onde podiam comer peras madurinhas a vontade.

Foi a primeira vez que os encontramos, mas não a última. Em outra ocasião, desta vez eu estava sozinho, entrei na mata para procurar um bom local para lançar a linha com isca de minhoca no anzol, com fito de fisgar alguns lambaris quando, ouvi antes de ver, com certeza o mesmo grupo daquela primeira vez. Os bichos estavam chafurdando num laguinho lamacento não maior que um campo de futebol de salão, contei-os eram quatorze. Se da primeira vez a surpresa nos fez ficar extáticos, desta, parei, escondi-me atrás de moita espinhosa que havia ali e fiquei espiando em silêncio. Os enormes bichos se comportavam com tranquilidade e pareciam tão a vontade que tive certeza serem nativos, isto é, não se tratava de animais exóticos nem tão pouco de criaturas em trânsito pelo local. Diante da certeza que os bichos moravam naquela mata, tomei a resolução de nada contar para outras pessoas, não mencionar nem en passant o que havia visto.

Depois que contei ao meu primo sobre o ocorrido, tomamos a decisão de protegê-los dos adultos se preciso fosse. Minha primeira providência foi procurar nas bibliotecas toda literatura possível que informasse sobre os bichos, hábitos grupais, como procriavam, o que comiam, se podiam ser perigosos ou como poderíamos protegê-los. Felizmente a biblioteca do Ginásio Estadual tinha extensa coleção sobre animais que era especialmente generosa a respeito dos hipopótamos. Confesso que agora não lembro quase nada do que aprendi naqueles livros, mas, na ocasião, uma informação contrariava o que estava acontecendo. Lembro que os livros diziam que os animais eram vegetarianos, de hábitos noturnos, gregários e territoriais, e o mais impressionante, os textos referiam que hipopótamos só existiam em estado selvagem na África. Parecia a coisa mais estúpida essa informação. Como, só na África? Estávamos vendo os bichões ali na nossa mata, saudáveis, comendo, brincando e, pelo jeito, se reproduzindo sem problemas. Agora, é bom que se esclareça para que não haja mal entendidos: Era década de cinquenta, não havia televisão, Discovery Channel então, nem pensar; éramos pobres e as informações nos vinham através de pouquíssimos livros e revistas disponíveis, então não estranhem que não sabíamos muito sobre hipopótamos. Se vocês estivessem na minha condição também não saberiam. Para nós, crianças imaginosas, não parecia estranho animais daquele porte na nossa floresta, estranho era alguém achar que eles só vivessem na África! Registre-se que salvar os hipopótamos passou a ser prioridade vital para nós, estávamos dispostos a ir até onde fosse possível para preservar a vida daqueles cavalos de rio.

Depois de sabermos que era inviável pensar em removê-los para outro lugar onde pudessem viver discretamente, resolvemos que a permanência no local era crucial para suas sobrevivências. Procuramos saber a quem pertenciam aquelas terras, para isso, tínhamos um colega de aulas, o Alex, que era contínuo no cartório de registro de imóveis e poderia nos ajudar. Acabamos descobrindo que as terras onde se situavam as matas eram de um tal Gregório, milionário que não estava nem ai para terras improdutivas, de topografia irregular, sem benfeitorias e fora do perímetro urbano da cidade. A maneira como chegamos a ele e o convencemos a conceder, ao nosso tio, “comodato” da propriedade é meio complicada e não cabe aqui. Mas, como nosso tio era solteiro, trabalhava não muito longe dali e ia ao trabalho de bicicleta, o arranjo foi bom para ele e para o proprietário, pois a proposta era que tio Beto cuidasse da mata que estava sendo invadida por caçadores e lenhadores, conforme havíamos contado ao seu Gregório, embora não fosse bem verdade. O homem até mandou construir uma casa de madeira para nosso tio morar.

O terreno enorme era retangular com três lados cercados de arame farpado bem resistente, um dos lados menores do retângulo não tinha cerca e era por onde passávamos para acessar o tanque. Como o local onde nadávamos situava-se na extremidade do terreno, não foi difícil convencer seu Gregório a fazer uma cerca um pouco recuada de forma a deixar a parte nadável fora do cercado. Assim, “nossos” hipopótamos ficaram protegidos depois que meu tio colocou avisos de “Proibido entrar. Propriedade particular” em toda extensão da cerca. Naquele tempo avisos dessa natureza eram respeitados.

Pois bem, essas providências salvaram os hipopótamos das prováveis interferências humanas que lhes seriam prejudiciais, e nós passamos a visitá-los na mata todas as semanas. Nosso tio nunca ficou sabendo por que havíamos feito aquele arranjo tão conveniente para ele. Sabia que teria que viver naquele terreno e cuidar que ninguém o invadisse, mas nunca viu ou soube da existência dos hipopótamos, nós não lhe contamos, era um segredo só nosso. Aliás, nunca ouvi falar que alguém mais tenha visto os bichões, acho que eles eram esquivos demais. O que eu soube pela minha prima Patrícia, freqüentadora tardia daquela mata, foi que anos mais tarde, por volta dos anos oitenta, quando nosso tio já havia mudado de lá e a mata estava abandonada, foram avistados bandos (?) de capivaras no local onde os hipopótamos costumavam ficar. Acho que os bichos se mudaram e as capivaras tomaram conta do lugar. Nunca se sabe. JAIR, Floripa, 06/01/11.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

CAPIVARAS NO ASFALTO


A respeito do comentário do Joel ao meu texto sobre o jacaré, o que surpreende é a obstinação que tem a vida em continuar se mantendo a despeito das múltiplas condições adversas as quais, dentro do que supõe a ciência, tornam impossível sua existência. O homem, na sua arrogância e egoísmo, deteriora ou ocupa todos os ambientes possíveis de modo a torná-los extremamente hostis ou inabitáveis para os demais seres, animais ou vegetais. Assim, os seres que não se extinguem ou não se mudam têm que se adaptar aos novos ambientes criados por esse concorrente irracional e covarde. São Paulo, a maior metrópole do país, é exemplo claro dessa lambança humana e da versatilidade que as demais espécies são obrigadas a ter para não sumirem da face da terra. O Tietê é considerado um dos mais poluídos rios do planeta e, no entanto, além de jacarés que, vez ou outra lá são encontrados, também é habitado por capivaras e sou testemunha desse fato. Não longe do aeroporto de Guarulhos existe um pequeno riacho, chamado rio Jequié, que é tributário do Tietê e, como tal, é tão poluído como ele. Pois bem, sobem pela calha desse riacho CAPIVARAS, (Hydrochoerus hydrochoeris) famílias numerosas delas, vindas, comprovadamente, do Parque Ecológico do Tietê, às suas margens ali perto. Como próximo ao aeroporto existem pequenos lagos remanescentes da época em que ali eram numerosas as olarias, esses lagos nada mais são do que buracos cheios d'água deixados por essas fábricas de tijolos. As capivaras oriundas do parque adotam esses laguinhos como lares, ficam pastando nas margens e são visíveis para quem passa para o Aeroporto ou vem de lá. Como não são perturbadas e não possuem predadores naturais na área, multiplicam-se de maneira assombrosa, a ponto da INFRAERO, através de seu Departamento de Controle Animal, ter que, periodicamente, "despovoar" parcialmente os locais, porque os animais oferecem perigo aos pousos e decolagens de aeronaves. Antes que algum defensor da natureza mais exaltado vá com quatro pedras para cima da INFRAERO explico: despovoar significa capturar e transferir os roedores para lugares próprios onde eles fiquem longe dos humanos e seus afazeres. Numa ocasião, de madrugada como sempre fazíamos, estávamos indo do hotel para o aeroporto num ônibus pequeno quando, subitamente, sofremos um tranco, como se tivéssemos atropelado alguém ou alguma coisa; o motorista parou de imediato assustado: - Atropelei um cachorro! Descemos para verificar e ficamos surpresos. Ele havia atropelado uma capivara que, depois de pesada, constatou-se ter sessenta e poucos quilos, uma capivara bem grande! Lembrando de nossa infância lá no interior do Paraná, no meio dos "mato" como se dizia, onde nunca vimos uma capivara; onde apenas se ouvia falar desse bicho que era selvagem e extremamente raro, que, na nossa concepção só existia no Mato Grosso, fica ainda mais estranho encontrá-las em plena maior metrópole do país. Significa que esses animais conseguiram resolver satisfatoriamente a equação adaptar-se versus extinguir-se; conseguiram, com um tão desconhecido quanto inusitado jogo de cintura, adaptar seu modus vivendi para um ambiente tão adverso que até do seu criador, o Homo sapiens, ele cobra um preço elevadíssimo pela sobrevivência. Capivaras no asfalto são uma realidade, se não houver uma interferência cruel do homem, esses animais vão continuar por muito tempo a tocar suas vidas de zoofavelados urbanos ao nosso lado. Quem viver verá! JAIR, Floripa, 28/02/09.