sábado, 31 de março de 2012

Sandices meteorológicas



Meteorologia, taí um assunto que ocupa a mente do homem desde sempre e que, em tempos atuais, ocupa a memória dos mais potentes super computadores já construídos por esse mesmo homem. É razoável supor que os fenômenos climáticos foram os primeiros eventos a impressionar os primitivos bípedes falantes. Chuva, vento, neve, granizo, raios, nuvens, estações do ano e todas as manifestações associadas ao tempo não só marcavam presença nas tribos primevas, como determinavam o ritmo de suas vidas. Também há entre os paleontólogos, antropólogos e outros estudiosos da pré história consenso que o fogo, descoberto por volta de duzentos mil anos atrás, segundo algumas evidências de restos de fogueiras encontradas, foi observado primeiro em algum tronco que ardia devido incidência de raio, daí a história da civilização começou.
No dia-a-dia das comunidades primitivas tudo que devia ser feito rolava em função do tempo, não o cronológico, mas o tempo meteorológico. Se chovia limitava os deslocamentos, geralmente esfriava e forçava o homem a procurar abrigo. Aliás, deve ter sido decorrência das chuvas e das nevadas a construção da primeira oca, ou a procura da primeira caverna. O frio, sem qualquer dúvida, conduziu nossos ancestrais à confecção das primeiras vestimentas, fossem de pele de animais ou de fibras vegetais. O vento, com o ainda hoje fazem caçadores do Calahari na África, tinha que ser considerado durante as caçadas, sua direção era importante tanto para sentir o cheiro da caça como para impedir que o animal visado sentisse o odor do caçador. Povos que viviam às margens de rios e lagos se serviam desse discípulo de Éolo para impulsionar seus barcos.
Mas, parece que mais importante que os fenômenos menos previsíveis e mais “imediatos” como sol e chuva e dia e noite, seriam as estações do ano. Mesmo que os Homo não tivessem a noção exata de quando uma estação começava e outra havia terminado, eles – principalmente na fase de caçadores-coletores – tinham que sintonizar suas andanças em busca de alimento com as mudanças de clima ao longo ano, ainda que não existisse o ano formal calendárico a que estamos acostumados. Se era tempo de certa fruta em tal lugar, ou se animais passíveis de serem caçados se deslocavam em tal estação para tal área, era fundamental que eles soubessem dessas mudanças sob o risco de passarem fome e, quem sabe, até esta ou aquela comunidade que não fez o deslocamento certo e a tempo, se extinguir. A meteorologia era o maestro que regia os movimentos humanos.
Bem, estou me referindo ao passado pré histórico, mas nos dias de hoje qual é a importância do clima para a civilização? Essa é fácil: importância fundamental. Mesmo porque, ao longo do desenvolvimento de nossas culturas, o clima no sentido mais amplo, e o tempo localizado no sentido mais restrito, deram as cartas para que formulássemos praticamente todas as atividades que desenvolvemos. Podemos citar como exemplo as atividades ao ar livre que deixam de ser realizadas quando chove. Quem não ouviu algo mais ou menos nesses termos: “O desfile de sete de setembro será realizado na avenida tal se não chover”. Ou algo mais drástico, do tipo: “A aeronave Discovery teve seu lançamento adiado por causa da ameaça de furacão na costa da Flórida nos próximos três dias”. Ou alguma coisa bem mais permanente como: “Os edifícios altos construídos na costa leste americana são projetados para suportar ventos de até duzentos quilômetros horários sob risco de serem destruídos por furacões que abundam na região”. Até o Japão, depois do tsunami acontecido em 2011, está planejando reconstruir suas áreas sujeitas a esse fenômeno com conceitos inovadores que evitem a maioria dos danos causados pelas paredes de água que adentram a terra. Como se trata de japoneses dá para acreditar em quase tudo que se diga com respeito a tecnologias, até em casas que se elevem sobre pilastras super potentes à aproximação das ondas gigantes invadindo a terra firme. Coisa de louco!
Fora essas considerações naturais e extremamente importantes, existem ainda outras que determinaram a ocupação territorial do Planeta, e que deram feição à civilização como a conhecemos. Por exemplo, os primeiros primitivos que atravessaram o estreito de Bering da Ásia para as Américas e resolveram, talvez por cansaço ou preguiça, guinar para o norte mesmo, não puderam desenvolver tecnologias sofisticadas porque na região só existe gelo e neve, o que não permite nem o desenvolvimento de árvores, daí os inuit – que algumas pessoas chamam de esquimós – só poderem construir abrigos de gelo cortado (iglus) ou de peles de animais estendidas sobre ossos de baleia a título de caibros e vigas, coisa frágil e de pouca duração devido aos ventos. Enquanto povos que se fixaram em locais com muitos recursos naturais decorrentes da bonança do clima, construíram civilizações sólidas não só em edificações perenes, como também em saberes que deixaram como legado para a posteridade. O tão polêmico calendário maia está aí para corroborar o que digo.
Pois então, fica patente que o bicho homem está à mercê do tempo, mas isso não significa que ele não se opõe às condições impostas pelo clima, sempre que estas lhe sejam muito desfavoráveis ou dificultem sua lidas. Além disso, “involuntariamente” a humanidade está influindo de maneira decisiva no comportamento meteorológico em consequência de suas atividades. Consumo de combustíveis fósseis libera gases que tem efeitos desconhecidos, mas preocupantes, sobre a camada de ozônio e formação de nuvens, cujo albedo é de suma importância para controlar o aquecimento atmosférico como resultado da radiação solar.
Em alguns momentos, os cientistas tomam a si a incumbência de controlar o clima sem muito sucesso, diga-se a bem da verdade, borrifando nuvens com solução alcalinas ou nitrato de prata. Ou com sucesso relativo construindo represas que formam lagos em zonas áridas com a finalidade de aumentar a umidade e provocar chuvas. Um exemplo doméstico é a formação do lago Paranoá em Brasília, o qual tem, entre outras, a finalidade de umedecer o micro clima do planalto em que cidade se situa. Nos EUA, o lago Mead, formado pela represa Hoover sobre o rio Colorado tem tripla finalidade: melhorar o clima do deserto de Nevada, canalizar água para plantações e ser usado como fonte de água potável para cidades situadas no deserto como Las Vegas.
O clima, por fim, é tão complexo e tão importante que, como eu disse no primeiro parágrafo, foram construídos super computadores só para entendê-lo e, se possível, domesticá-lo. Mas, parece, querer transformar a meteorologia em ciência exata, é mais um sonho de uma noite de verão que uma realidade viável por enquanto. JAIR, Floripa, 18/02/12
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6 comentários:

Cristiano Marcell disse...

Um tsumnami de boa informação num texto muito bom! Um forte abraço, enciclopédico amigo!

Leonel disse...

A necessidade de saber a época e o clima adequado para as plantações e colheitas levou os povos antigos a criar os primeiros planetários.
Atualmente, mesmo com os tais supercomputadores, as previsões meteorológicas ainda deixam muito a desejar...Hoje, por exemplo, era para ter chovido o dia inteiro aqui no Rio, mas nada disso aconteceu...
Mas, seu texto arrasou com o tempo!
Abraços, Jair!

Luci Joelma disse...

Quanto ao tempo,muito interessante a reflexão!De fato, ambos os conceitos, meteriológico e medida, se fundem para a compreensão dos fenomenos atmosféricos ou não.Observe a quilometragem horária dos furacões,tornados,tsunames...são rápidos e devastadores.
Pensei na ampulheta, enquanto os espaços vazios se enchem numa proporção,muita coisa pode acontecer! E o ser humano? Assustado
corre atrás do prejuizo e novas alternativas.Diante das previsões dos acontecimentos futuros é melhor arrumar a casa interior,revisitar a ética, a moral...para fluir uma nova e boa energia no cosmos.Luci.

Tais Luso disse...

Você me passou uma verdadeira história da meteorologia, das suas previsões e fenômenos. Alargou meus conhecimentos.

Mas existe, há muito tempo, algo muito engraçado sobre as previsões: a gente confia tanto que fica na espera do que disseram, e quando não acontece, derrubamos o trabalho dos técnicos, dos computadores, enfim, dos mais modernos aparelhos para este fim, em segundos.

E dizemos com toda a sabedoria, lá do alto de nossos conhecimentos: '...é, esses caras não dão uma a dentro; disseram que ia dar sol e olha o toró!' rsrs
Nada é 100% certo, as coisas podem mudar de curso, ora.
Mas uma coisa é muito boa: quando não se tem papo com alguém, a meteorologia nos salva: líquido e certo em papo de elevador! Melhor do que um silêncio sepulcral...

Abraços, Jair.
tais

Professor Alexandre disse...

Meteorologicamente interessante ... ^^
Eu que sabia pouco sobre o assunto, aprend muito!
Parabéns!

Abraços...

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
a relação de nossos ancestrais com a natureza, foi provavelmente ;; mais densa / interrogante / amedrontada que hoje. Trago duas situações: um anoitecer com trevas em dia que não houvesse luar e o temor que o sol não aparecesse no dia seguinte.
Outra a aproximação do equinócio de inverno, onde a cada por do sol a noite chegava mais cedo, acompanhado do temor que o sol estivesse indo embora.
Por outro lado deixemos o homem primevo e nos olhemos como homens pós-modernos: quanta insegurança meteorológica, mesmo com tantas descobertas na área da climatologia: ‘¿Será que vai chover amanhã?
Imagino quando dominarmos as chuvas e tivermos chuvas cadenciadas, apenas das 2h às 5h, cada dia.
Espero que meu sonho não seja amaldiçoado por nenhum acionista de fábrica de guarda-chuvas.
Uma semana que terá o plenilúnio mais ‘sagrado’ do ano.
Com admiração

attico chassot
http://mestrechassot.blogspot.com