segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pescarias e diamantes


Tenho escrito sobre as pescarias que fazia quando garoto, contudo, sempre me refiro àquelas as quais eram empreendidas pela gurizada nos riachos que cortavam o centro urbano de Palmeira, ou o circundavam a pouca distância, onde costumávamos pescar lambaris. Agora quero falar sobre pescarias de adultos, feitas pelo meu pai e seus companheiros de trabalho com petrechos próprios para abordar rios de porte como Iguaçu e Tibagi.

Primeiro devemos reportar que o município de Palmeira é separado do de Ponta Grossa a noroeste pelo Rio Tibagi o qual é o segundo em extensão no estado. Suas nascentes localizam-se entre os municípios de Campo Largo, Palmeira e Ponta Grossa, no centro-sul do estado; Depois o rio Iguaçu, afluente do rio Paraná e o maior rio do estado, formado pelo encontro dos rios Iraí e Atuba na parte leste de Curitiba junto à divisa deste com os municípios de Pinhais e São José dos Pinhais, e passa ao sul de Palmeira no município de Porto Amazonas.

Pois é, as pescarias dos adultos eram programadas para esses rios de forma que demandavam aparatos, víveres e meios de locomoção necessários para grande distância, vários dias e peixes maiores e mais variados. Meu pai e seus companheiros haviam construído um bote de madeira leve (cedro) que, inicialmente era impelido por remos e que depois lhe foi adicionado um motor de popa; Muniam-se de lona dimensionada para servir como barraca; Um caminhão cedido pelos Malucelli para transporte das comidas, linhas, anzóis, caniços, redes, lanternas, panelas e tudo o mais necessário ao acampamento de pesca. Os homens iam ao Porto Amazonas, atravessavam o rio numa balsa, porquanto não havia ponte naquele trecho, e se dirigiam ao Furadinho, local à jusante onde meandros abandonados do rio eram muito piscosos. Traíras, bagres, cascudos e carás eram abundantes e colhidos com rede de arrasto. Eu acompanhava meu pai em algumas dessas incursões. Vale dizer que na década de cinquenta quando aconteciam essas aventuras, o Iguaçu era navegável e tinha uma linha de barcos que ligava Porto União mais a oeste, com Porto amazonas onde pescávamos. Tive oportunidade de assistir várias vezes o “Vapor Iguassu” da empresa Conrado Burher, azul e branco, impelido à roda de madeira na popa, subindo resfolegando com suas caldeiras a pleno, enquanto vencia a custo as turbulentas águas do rio que descia. Era um espetáculo inesquecível que hoje faz parte de um passado romântico irrepetível, o rio deixou de ser navegável por assoreamento depois do abate criminoso de suas matas ciliares.

Há que se acrescentar que o acesso ao Iguaçu também podia ser feito por trem, pois o comboio passava por Palmeira, Porto Amazonas e a localidade seguinte, à montante, chamada Caiacanga, (corruptela de Kaingangue, tribo da qual meu avô materno era originário) na margem esquerda do rio. De forma que o acesso de trem a esse local permitia outra “modalidade” de pesca de adulto. Consistia esta em tomar o trem em Palmeira muito cedo, às seis horas da manhã, desembarcar na estação de Caiacanga e retornar ao Porto pescando de caniço ao longo da caminhada pela margem. No Porto tomávamos o trem de volta à Palmeira, às 17 horas. Espetacular! Ao tempo que era uma caminhada ecológica, saudável, pescávamos e curtíamos aquela paisagem bucólica. Levávamos um almoço preparado na véspera pela minha mãe, o qual consistia de galinha ensopada com farofa de farinha de milho. As galinhas eram de nossa criação caseira. Nessas pescarias sempre acompanhava meu pai um amigão seu chamado João Maidl, descendente de alemães, gente muito fina, o qual eu gostava de ouvir contar “causos”. Pois entre Caiacanga e Porto Amazonas, havia alguns trechos de corredeiras onde, quando o rio estava baixo, o leito de arenito ficava exposto. Nesses trechos o arenito apresentava “panelas”, ou cavidades que a água havia produzido através dos milhões de anos de passagem rápida em voluteios carregada de seixos e areia. Seu Maidl, mais do que pescar, gostava de garimpar nessas panelas. Debruçava-se e retirava a areia depositada no fundo com as mãos. Ciscava a areia e os seixos miúdos com cuidado à procura de diamantes. Me fascinava a concentração e o desvelo que ele dedicava a esse mister, exótico a meus olhos. Intrigado, perguntei como saberia se encontrasse um diamante? Seu Maidl me respondeu que nunca havia visto um diamante bruto, não sabia como era, mas tinha certeza que a pedra se destacaria no meio da areia e dos seixos, e ele saberia de imediato do que se tratava. João Maidl, pelo que sei, nunca encontrou a tão sonhada gema preciosa, faleceu algum tempo depois. Era o mais velho da turma, enquanto meu pai tinha menos de quarenta, seu Maidl estava entrado nos sessenta.

Passado muito tempo, já nos anos oitenta, visitando meus parentes em Palmeira durantes as férias, meu tio convidou-me a ir pescar justamente no Caiacanga. Movido por saudosismo e certa curiosidade aceitei o convite. Fomos de jipe rebocando um bote a motor e levamos os petrechos necessários no bagageiro. No local que acampamos, logo abaixo das corredeiras onde seu Maidl se entregara a seus devaneios diamantíferos, havia agora uma casa onde antes ninguém morava. Meu tio disse que ali funcionava um garimpo, o dono da lavra vivia naquela casa e era seu conhecido. À tarde fomos à casa do garimpeiro que por sinal era um sujeito simpático e bom de papo. Chimarrão, conversa vai e conversa vem, ficamos sabendo que o garimpo era de diamantes e que estava temporariamente parado por quebra de maquinário e falta de dinheiro. Curioso, perguntei se realmente havia as tais pedras no local e se ele possuía alguma que pudesse me mostrar. Jesuino, era o nome do carinha, trouxe umas quatro ou cinco num guardanapo branco. Pela primeira vez vi as pedrinhas brutas. Realmente, como, não sei, mas seu Maidl tinha razão nas duas assertivas: Existiam diamantes nas corredeiras do Caiacanga e as pedras brutas se destacavam, não poderiam ser confundidas com seixos ou areia. Causou-me tristeza pensar que ele nunca as tenha encontrado. JAIR, Floripa, 27/01/11.

10 comentários:

Leonel disse...

Mais um pouco de magia e nostalgia resgatada pelo Jair, dos velhos e bons tempos antigos...
O seu Maidel, provavelmente, devia saber de algum ocasional achado de diamantes e por isto alimentava essa esperança de encontra-los. E, afinal, eles estavam mesmo lá!
Valeu, amigo, por mais estas linhas que me transportaram através dos tempos.
Abraços!

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Olá,
Adorei esta parte:
"Tive oportunidade de assistir várias vezes o “Vapor Iguassu” da empresa Conrado Burher, azul e branco, impelido à roda de madeira na popa, subindo resfolegando com suas caldeiras a pleno, enquanto vencia a custo as turbulentas águas do rio que descia."
Ao ler esta passagem, podia sentir a sua alegria por lá estar vivendo aquele momento. Parabéns pelo texto,
Beijos da nora,

Adri disse...

Pai,
Me lembrei das nossas aventuras de garimpo aqui na Australia… onde encontramos varias Safiras..

Tereza disse...

Se é verdade que a vida continua em outra dimensão, tio Ananias está muito feliz pelas homenagens recebidas de seu filho ilustre. Nós, seus leitores, só no devaneio e recordação.

Beijos,
TM

R. R. Barcellos disse...

- Lembranças como essa são uma riqueza inestimável. Abraços, amigo.

Maria Emilia Xavier disse...

Como você escreve fácil, parece que está conversando. Esta é uma das características da classe a que você pertence, a dos bons Escritores.Parabéns, seu texto faz a gente sentir saudades do que já vivemos e foi bom.

JoeFather disse...

Belíssima narrativa meu amigo! Coloca-nos dentro de suas recordações!

Grande abraço renovado!

Anônimo disse...

Partilho do mesmo sentimento do velho alemão amigo de seu pai, e por causa deste sentimento cheguei a esta crônica.
E como é bom ler algo sobre Porto Amazonas e matar um pouco a saudade daquela terra abençoada.
Sempre que posso vou para lá ver se acho diamantes nestas corredeiras.
Parabéns

Anônimo disse...

Ahh, meu nome é Dimas Rocha e moro atualmente em Joinville.
jeemah@hotmail.com

Paulo Rogério Jasiocha disse...

Impressionante, lendo o seu relato sobre o caiacanga tive a oportunidade de reviver meus tempos de aventureiro de outrora. Deus lhe abençoe por tudo que você nos diz através de suas belas historias.