quarta-feira, 27 de junho de 2012
Sujando os mares
sábado, 12 de novembro de 2011
O Lambari

O tamanho médio de um espécime adulto varia desde cinco centímetros até mais de quinze e essa variação se deve a - além de fatores genéticos - duas causas que afetam todos os peixes: peixes crescem menos ou mais dependendo da quantidade de alimentos disponíveis; e, ao contrário da maioria dos vertebrados, eles crescem a vida toda, não há uma “maioridade” na qual eles deixem de desenvolver-se, assim, num mesmo local sob as mesmas condições, um peixe maior é quase certamente mais velho que um menor. Como prova desse crescimento ininterrupto, já vi um excepcional exemplar conservado em formol pesando seiscentas gramas, enquanto a maioria dos lambaris “grandões” não passa de cem gramas. O lambari possui corpo prateado, nadadeiras e cauda com cores que variam conforme as espécies, sendo mais comuns os tons amarelados, avermelhados ou tendentes a preto.
O fato de esse peixe ser o mais disseminado e, também, por ser onívoro, isto é, gastrônomo generalista que come qualquer coisa vegetal ou animal, faz com que seja apreciado como objeto de pesca artesanal e amadora. Praticamente todo garoto do interior já teve a oportunidade de, munido com um caniço de bambu, linha, anzol e uma lata de minhocas, pescar nos riachos, açudes, lagoas ou rios disponíveis nas proximidades de sua cidade. Não conheço ninguém de minha geração que não o tenha feito, é um “esporte” nacional muito barato e prazeroso, embora o peixe não possua qualquer valor comercial. Não foram poucas as ocasiões durante minha infância e adolescência que, com maior ou menor sucesso, percorri quilômetros ao longo dos riachos palmeirenses lançando a linha em suas águas corredeiras, frias e piscosas em busca desse prêmio cobiçado.
Pois bem, a pesca amadora do peixinho quase sempre se reveste também do consequente prazer culinário. O lambari em geral é frito em óleo quente até apresentar cor dourada e consistência crocante. Neste caso é apreciado com grande satisfação pelos pescadores como aperitivo, e consumido com cerveja. A única inconveniência para seu consumo deve-se ao trabalho em prepará-lo para a fritura. Descamá-lo, cortar a cauda e nadadeiras e eviscerá-lo é uma tarefa que a muitos pode parecer não valer a pena: muito trabalho para um petisco tão pequeno! A realidade é que o prazer de degustar um acepipe tão saboroso está além da trabalheira de prepará-lo. Só quem já teve oportunidade de fazê-lo sabe a delícia que é.
Além do uso culinário consagrado, o peixe também tem outras utilidades reconhecidas. Para pescadores praticantes de pesca de peixes maiores, o lambari é isca de ótima qualidade. Para usá-lo como engodo eficiente, colocasse-o vivo ou morto num anzol grande para atrair jundiás, traíras e outros peixes carnívoros. Mas, a utilização mais inusitada e curiosa que sei do peixinho, vi num programa de televisão, num “Globo rural”. Uma pequena comunidade no interior do Mato Grosso, pega grande quantidade com uma peneira confeccionada de bambu, e cozinha em água os peixinhos numa panela grande até os corpos se desmancharem restando somente escamas, ossos e uma camada grossa de gordura na superfície da fervura. Essa gordura, depois de separada dos restos, é chamada de manteiga de lambari e é utilizada na culinária em substituição aos óleos de cozinha. Segundo o programa televisivo, essa “manteiga” não tem cheiro e acrescenta um ótimo sabor à comida, além de não ser onerosa para o orçamento familiar de famílias de baixa renda, é claro.
Assim, a pesca do peixinho mais abundante da fauna brasileira, torna-se, além de ótimo passatempo para a gurizada do interior, uma fonte de proteínas para populações de baixa renda e uma alternativa culinária de ótimo resultado e até alguma sofisticação para comunidades onde lambaris existem em quantidades apreciáveis. Por tudo isso, está longe de ser um despropósito eleger o nobre lambari – que já tem uma cidade em Minas batizada com seu nome - como o peixe fluvial mais notável e importante para a população brasileira que não aparece nas colunas sociais e tampouco sabe o que é salmão. JAIR, Floripa, 25/10/11.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Os peixes

Nos anos setenta as contestações eram a moda, in era contestar e out conformar-se às regras, proibido proibir, era a palavra de ordem, a juventude paz e amor fazia questão de dizer-se contra, não importava ao quê. Eu também era jovem àquela época e me parecia normal que a geração baby boom, ou seja, os nascidos logo após a segunda guerra, estivesse cansada das restrições a que seus pais e avós foram submetidos, e as quais engessavam a criatividade, a liberdade de agir e pensar sem barreiras, sem ideologias tacanhas. Contudo, o que nossa juventude não enxergava é que nossa sociedade não existiria com liberdade total, a qual é uma utopia que só serve para teses de sociólogos deslumbrados ou para literatura engajada, como se diz.
Pois bem, desde que o homem, ente social que não consegue sobreviver a não ser em ajuntamentos com os seus, passou a compor tribos e depois aglomerados maiores como cidades, viu necessidade de regras que permitissem uma convivência se não harmoniosa, pelo menos com pouco atrito entre as pessoas. Não há alternativa, ou o homem cria as regras e autoridades que as façam cumprir, ou é o caos, a anarquia incontrolável que dissolve a própria sociedade. Aliás, não haver regras já é uma regra, portanto, torna-se um paradoxo: impor uma proibição que proíbe imposições é racionalmente incongruente. A respeito de uma civilização sem regras já escrevi sobre a Colônia Cecília, utópica sociedade anarquista que foi criada em minha cidade, Palmeira, no final do século dezenove, e que foi para o vinagre em pouco tempo depois que os pretensos anarquistas se desentenderam.
Então, todas as instituições sejam laicas ou religiosas têm suas regras, seus dogmas e regulamentos a que seus membros devem seguir e acatar sob pena de tornarem-se párias sociais ou de serem punidos. Principalmente as religiões são pródigas em não pode isso, não pode aquilo, e por aí vai.
Com o advento da semana santa e a proibição da igreja a seus seguidores de ingestão de carne, mas a liberdade de comer peixe, me fez lembrar de uma ocorrência em Angola no século XVIII. O interessante caso, o encontrei num livro que tratava das conquistas portuguesas na África. O padre Afonso Meira de Carvalhosa, pároco da freguesia de Caluquembe, encontrava-se frente a um dilema que lhe afligia sobremaneira e, para não incorrer em possível heresia que condenaria ao inferno sua alma imortal e as dos seus paroquianos, resolveu consultar autoridade maior sobre o assunto, para isso escreveu para o bispo, seu superior, em Portugal. Tratava-se da proibição ou não de os nativos convertidos poderem comer carne de hipopótamos na semana santa. Veja bem, HIPOPÓTAMOS! A resposta do Bispo português Dom Antonio Cintra foi que não haveria qualquer restrição: hipopótamos, ou cavalos d'água como eram chamados esses mamíferos pelos lusos, podiam sim ser degustados na semana santa, porque eram PEIXES! Afinal viviam na água, não é mesmo? Pode parecer piada antilusófona de brasileiro, mas a verdade é que está registrado como fato por um patrício, o autor do livro é português. JAIR, Floripa, 25/04/11.
sábado, 12 de março de 2011
Traíra, o peixe

Em outros textos aludi às pescarias que costumava fazer na minha infância e adolescência, pescarias de lambaris nos riachos e regatos da periferia da cidade e de peixes maiores quando se tratava de rios caudalosos como Iguaçu e Tibagi. Nestes havia, além dos peixes mais comuns como carás, jundiás, cascudos e mandis, traíras que eram peixes mais “nobres”, por assim dizer. Traíras têm carne branca e, apesar de não serem peixes de grande valor comercial, seu filé é delicioso, e estão entre os mais saborosos, mas possuem muitos espinhos o que as torna quase impraticáveis de se serem degustadas.
Considerada pelos estudiosos e pelos pescadores, o peixe mais tipicamente tupiniquim, porquanto existe desde o Oiapoque até o Chuí, ou seja, habita todas as bacias hidrográficas do país; tem condições de viver em qualquer rio, riacho, represa, lagoa ou cursos d'água que existem no território nacional. Embora, como se sabe, apareça também nos países vizinhos como Argentina, Paraguai, Uruguai, Guiana, Bolívia e outros.
Não é peixe de piracema ou de águas agitadas, ao contrário, é territorial e prefere viver e se reproduzir em lagoas e ambientes de águas paradas mas, eventualmente, pode ser encontrado em rios com pouca correnteza onde costuma se alimentar de peixes menores. Seu hábitat por excelência são os meandros abandonados dos rios onde, eventualmente, durante as cheias, as águas do rio invadem trazendo grande quantidade de alevinos que lhe servem de alimento. É um predador voraz e seu método de ataque, fazendo uma analogia com mamíferos, é como o do tigre que fica de tocaia e ataca a vítima de repente, não como o leopardo que corre até alcançar a presa. Também, diferente da maioria dos peixes, a traíra é ovípara e se reproduz por desova parcial, ou seja, com várias posturas por ano, com produção alta de alevinos dos quais cuida com grande zelo ao mesmo tempo em que defende seu território com firmeza, ataca até peixes maiores quando está cuidando da prole. Pode ser pescada tanto com iscas naturais como artificiais, desde que estas sejam movimentadas na água a guisa de animal vivo se debatendo.
Por ser um animal extremamente primitivo, (uma espécie de celacanto da água doce) - calcula-se que exista há mais de duzentos milhões de anos, aliás, tenho um fóssil de 150 milhões de anos desse peixe, oriundo da serra do Araripe – tem aparência um pouco estranha e agressiva: Peixe de escamas; corpo cilíndrico; boca grande; dentes acúleos bastante afiados; olhos grandes; e nadadeiras arredondadas, exceto a dorsal. A cor é marrom esverdeada ou preta manchada de cinza. Chega a alcançar cerca de 60 cm de comprimento e até mais de 2kg. Para a ciência as traíras têm importância fundamental, pois além de conservar até hoje suas características primitivas, podem viver e se reproduzirem em ambientes muito poluídos, águas paradas com pouca oxigenação. Também gostam de aquecer-se ao sol em águas rasas, o que as torna alvo fácil de pescadores que usam arpões ou fisgas. Podem deslocar-se no seco, migrando de uma poça para outra e, até viver enterradas no barro na época da seca por meses, graças a uma reserva de água guardada no corpo.
Por sua aparência desagradável e agressiva, as traíras, o mais das vezes não são consideradas importantes ou úteis. Por possuírem dentes cortantes, pontiagudos e salientes, são acusadas indevidamente de destruir os cardumes de alevinos, o que não passa de falta de informação. Na realidade, como predadores do topo da cadeia alimentar, esses peixes melhoram a qualidade genética de suas presas, comem e exterminam os exemplares mais fracos e menos aptos, deixando que os melhores se reproduzam. Portanto, são necessários à evolução das espécies que a sábia natureza criou.
Lembro-me que pegar algumas traíras em nossas incursões pesqueiras, era proeza digna de festa, elas eram esquivas e nem um pouco abundantes naqueles rios do Paraná. Contudo, principalmente pelo fato de serem avis rara, sempre foram objeto de cobiça até dos mais canhestros pescadores, entre os quais me incluo. Peguei uma meia dúzia “no susto” em toda minha vida de pescador bisonho, não posso me gabar de ter sido um exterminador de traíras. Mesmo levando em conta as dificuldades de pescá-las, não era muito raro acontecer que pescadores como meu pai aparecerem com alguns bonitos espécimes depois de dois ou três dias de insistência na margem de algumas lagoas formadas pelo Iguaçu nas enchentes periódicas. Chegados em casa, os peixes deveriam ser deglutidos porque eram fonte de proteínas, mas, mais importante, porque eram deliciosos. A abundância de espinhos era o óbice para prepará-los, não havia como se livrar daquelas agulhas bifurcadas perigosas que podiam causar sérios danos à garganta do comensal incauto. Como preparar o peixe de modo a comê-lo sem muito perigo? Existiam alguns “macetes” como cortá-lo em fatias muito finas a moda de salame para fritá-lo em seguida, mas não havia uma maneira perfeitamente segura de prepará-lo, isso todo mundo sabia.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Pescarias e diamantes

Tenho escrito sobre as pescarias que fazia quando garoto, contudo, sempre me refiro àquelas as quais eram empreendidas pela gurizada nos riachos que cortavam o centro urbano de Palmeira, ou o circundavam a pouca distância, onde costumávamos pescar lambaris. Agora quero falar sobre pescarias de adultos, feitas pelo meu pai e seus companheiros de trabalho com petrechos próprios para abordar rios de porte como Iguaçu e Tibagi.
Primeiro devemos reportar que o município de Palmeira é separado do de Ponta Grossa a noroeste pelo Rio Tibagi o qual é o segundo em extensão no estado. Suas nascentes localizam-se entre os municípios de Campo Largo, Palmeira e Ponta Grossa, no centro-sul do estado; Depois o rio Iguaçu, afluente do rio Paraná e o maior rio do estado, formado pelo encontro dos rios Iraí e Atuba na parte leste de Curitiba junto à divisa deste com os municípios de Pinhais e São José dos Pinhais, e passa ao sul de Palmeira no município de Porto Amazonas.
Pois é, as pescarias dos adultos eram programadas para esses rios de forma que demandavam aparatos, víveres e meios de locomoção necessários para grande distância, vários dias e peixes maiores e mais variados. Meu pai e seus companheiros haviam construído um bote de madeira leve (cedro) que, inicialmente era impelido por remos e que depois lhe foi adicionado um motor de popa; Muniam-se de lona dimensionada para servir como barraca; Um caminhão cedido pelos Malucelli para transporte das comidas, linhas, anzóis, caniços, redes, lanternas, panelas e tudo o mais necessário ao acampamento de pesca. Os homens iam ao Porto Amazonas, atravessavam o rio numa balsa, porquanto não havia ponte naquele trecho, e se dirigiam ao Furadinho, local à jusante onde meandros abandonados do rio eram muito piscosos. Traíras, bagres, cascudos e carás eram abundantes e colhidos com rede de arrasto. Eu acompanhava meu pai em algumas dessas incursões. Vale dizer que na década de cinquenta quando aconteciam essas aventuras, o Iguaçu era navegável e tinha uma linha de barcos que ligava Porto União mais a oeste, com Porto amazonas onde pescávamos. Tive oportunidade de assistir várias vezes o “Vapor Iguassu” da empresa Conrado Burher, azul e branco, impelido à roda de madeira na popa, subindo resfolegando com suas caldeiras a pleno, enquanto vencia a custo as turbulentas águas do rio que descia. Era um espetáculo inesquecível que hoje faz parte de um passado romântico irrepetível, o rio deixou de ser navegável por assoreamento depois do abate criminoso de suas matas ciliares.
Há que se acrescentar que o acesso ao Iguaçu também podia ser feito por trem, pois o comboio passava por Palmeira, Porto Amazonas e a localidade seguinte, à montante, chamada Caiacanga, (corruptela de Kaingangue, tribo da qual meu avô materno era originário) na margem esquerda do rio. De forma que o acesso de trem a esse local permitia outra “modalidade” de pesca de adulto. Consistia esta em tomar o trem em Palmeira muito cedo, às seis horas da manhã, desembarcar na estação de Caiacanga e retornar ao Porto pescando de caniço ao longo da caminhada pela margem. No Porto tomávamos o trem de volta à Palmeira, às 17 horas. Espetacular! Ao tempo que era uma caminhada ecológica, saudável, pescávamos e curtíamos aquela paisagem bucólica. Levávamos um almoço preparado na véspera pela minha mãe, o qual consistia de galinha ensopada com farofa de farinha de milho. As galinhas eram de nossa criação caseira. Nessas pescarias sempre acompanhava meu pai um amigão seu chamado João Maidl, descendente de alemães, gente muito fina, o qual eu gostava de ouvir contar “causos”. Pois entre Caiacanga e Porto Amazonas, havia alguns trechos de corredeiras onde, quando o rio estava baixo, o leito de arenito ficava exposto. Nesses trechos o arenito apresentava “panelas”, ou cavidades que a água havia produzido através dos milhões de anos de passagem rápida em voluteios carregada de seixos e areia. Seu Maidl, mais do que pescar, gostava de garimpar nessas panelas. Debruçava-se e retirava a areia depositada no fundo com as mãos. Ciscava a areia e os seixos miúdos com cuidado à procura de diamantes. Me fascinava a concentração e o desvelo que ele dedicava a esse mister, exótico a meus olhos. Intrigado, perguntei como saberia se encontrasse um diamante? Seu Maidl me respondeu que nunca havia visto um diamante bruto, não sabia como era, mas tinha certeza que a pedra se destacaria no meio da areia e dos seixos, e ele saberia de imediato do que se tratava. João Maidl, pelo que sei, nunca encontrou a tão sonhada gema preciosa, faleceu algum tempo depois. Era o mais velho da turma, enquanto meu pai tinha menos de quarenta, seu Maidl estava entrado nos sessenta.
Passado muito tempo, já nos anos oitenta, visitando meus parentes em Palmeira durantes as férias, meu tio convidou-me a ir pescar justamente no Caiacanga. Movido por saudosismo e certa curiosidade aceitei o convite. Fomos de jipe rebocando um bote a motor e levamos os petrechos necessários no bagageiro. No local que acampamos, logo abaixo das corredeiras onde seu Maidl se entregara a seus devaneios diamantíferos, havia agora uma casa onde antes ninguém morava. Meu tio disse que ali funcionava um garimpo, o dono da lavra vivia naquela casa e era seu conhecido. À tarde fomos à casa do garimpeiro que por sinal era um sujeito simpático e bom de papo. Chimarrão, conversa vai e conversa vem, ficamos sabendo que o garimpo era de diamantes e que estava temporariamente parado por quebra de maquinário e falta de dinheiro. Curioso, perguntei se realmente havia as tais pedras no local e se ele possuía alguma que pudesse me mostrar. Jesuino, era o nome do carinha, trouxe umas quatro ou cinco num guardanapo branco. Pela primeira vez vi as pedrinhas brutas. Realmente, como, não sei, mas seu Maidl tinha razão nas duas assertivas: Existiam diamantes nas corredeiras do Caiacanga e as pedras brutas se destacavam, não poderiam ser confundidas com seixos ou areia. Causou-me tristeza pensar que ele nunca as tenha encontrado. JAIR, Floripa, 27/01/11.
