sábado, 12 de fevereiro de 2011

As Polacas




Sempre achei fascinante a miscigenação, a mescla, casais com cores de peles contrastantes, ou visivelmente de “raças” diferentes, mistureba que se vê todos os dias nas ruas desse Brasil moreno, amálgama de povos de três continentes. Europeus colonizadores que encontraram índios aqui e trouxeram pessoas negras da África, fizeram o “mix” que deu início ao brasileiro, produto final amorenado. O grande afluxo de imigrantes europeus e asiáticos posterior também contribuiu para formar o brasileiro típico.

Sou oriundo de uma região, centro-sul do Paraná, onde o elemento europeu branco é muito numeroso, russos, poloneses, italianos, alemães, ucranianos, são tantos que gente amorenada e negra é minoria. Quando entrei na FAB em 1964, minha turma consistia de 83 soldados, e eu era o mais escuro. Tão escura era minha pele em contraste com os Woicekoski, Grigorovski, Upitz, Bay, Kravetz, Capriglione, Klingenfuss, Della Barba e outros tantos com consoantes demais e vogais de menos nos sobrenomes, que alguns colegas de farda me chamavam carinhosamente de negrão. Nada ofensivo, suponho, acho que me sentia meio a cereja em cima do bolo no meio daqueles branquelos azedos todos.

Bem, na minha cidade, Palmeira, a proporção de descendentes dos imigrantes era muito grande também, de modo que gente branca, genericamente tratada como “polacos”, predominava nas ruas e em todos os setores da sociedade. Não lembro que houvesse alguma discriminação maldosa entre os branquelos e nós outros, acontecia apenas que alguns hábitos dos “polacos” eram, por vezes, um pouco estranhos, e isso dava azo a algumas gozações que podiam ser interpretadas, à luz de atitudes politicamente corretas atuais, como perversidade de baixo impacto. Por exemplo, os poloneses e seus descendentes eram exclusivamente agricultores e, como tal, vinham à cidade vender seus produtos nas feiras quinzenais. Tinham como hábito sempre carregar consigo um guarda-chuva, fazendo sol, chuva, vento ou qualquer outro tempo. Em decorrência, os guarda-chuvas deles logo acabavam ficando rotos, em pandarecos, como se dizia. Desse hábito que detonava os guarda-chuvas nasceu o adágio: “mais bombardeado que guarda-chuva de polaco” para qualificar objeto que estivesse muito maltratado pelo uso, ou pessoa muito cansada, exaurida. Não sei o que os “polacos” achavam do ditado, mas para nós parecia normal usá-lo. Aliás, só não o faço mais por falta de contexto, não tem sentido citar um adágio e ter que explicá-lo.

Pois é, a sociedade palmeirense movia-se daquele jeito que só as cidades do interior conseguem, muito devagar quando não estavam regredindo. Mas, sem chance de mudar as coisas, nós continuávamos insistindo em viver lá contra todos os prognósticos contrários, afinal desistir não era opção. Quando completei quatorze anos passei a estudar à noite, trabalhava durante o dia. A classe da qual fazia parte tinha quinze garotos e três garotas, duas loiras, nenhuma estranheza, portanto. Apenas fazendo um esclarecimento, loiras ou “polacas” naquele contexto eram pessoas de pele branca, em geral olhos claros e cabelos naturalmente loiros, não oxigenados como as loiras de televisão dos tempos atuais. Então, como dizia Vinicius: “A vida é a arte de encontros e desencontros”, e num desses encontros, a loira Nelci e eu nos tornamos namorados, foi minha primeira namorada e fui o primeiro dela também. Nada excepcional, apenas a miscigenação se tornava uma possibilidade, a força que movia pólos opostos a se atraírem estava, mais uma vez, cumprindo seu papel. Pois é, nosso romance de adolescentes teve todos os níveis possíveis de emoções envolvidas até que acabou acabando, exauriu-se por razões que jamais viemos a saber. Depois de uma seca de algumas semanas, lá estava o “experiente” Jair as voltas com outra “polaca”, desta feita o andar das coisas fez com que conhecesse Lourdes de sobrenome Hass, denotando ascendentes alemães. Diferença dela para Nelci apenas de intensidade, a loirice de Lourdes a colocava no patamar da garota mais branquela da cidade, sem qualquer falsa concessão, até suas sobrancelhas eram loiras, hoje talvez fosse chamada de loiraça. O casal de namorados Lourdes e Jair marcou o período pelo contraste das epidermes, das cores dos cabelos e pela intensidade do envolvimento que tiveram até o dia em que este escriba saiu da cidade e partiu para as fileiras da FAB e as coisas acabaram esfriando.

Se houve outras loiras em minha vida? Com certeza, mas apenas essas duas foram citadas porque, tempo e espaço bem definidos construíam uma realidade totalmente diferente de outros tempos e outros lugares por onde acabei passando e, finalmente, me fixando. As polacas da minha vida fazem parte daquela juventude desprendida e meio irresponsável dos anos dourados. Esta é apenas uma homenagem que a elas faço, sem quaisquer intenções segundas ou motivos escusos, mesmo porque, casei e vivo com a mesma mulher, (loira, mas não tão polaca) há mais de trinta anos. Hoje, elas, senhoras entradas em anos como eu, vivem as vidas que escolheram, as quais nada têm a ver comigo ou com nossos namoros no passado. Lourdes e Nelci sejam felizes! JAIR, Floripa, 14/01/11.

11 comentários:

Anônimo disse...

Дорогой, посмотри, что совпадение. Существует много я соответствуют через Интернет с бразильской дама, по имени Мария де Лурдес и Хасс живет в Pontal сделать Парана (Южная). Было бы то же лицо?мир на самом деле мало. Приветствия

Raknikov

JAIRCLOPES disse...

Supondo que fosse autêntico, o comentário acima, feito em russo, traduzido googlemente para o português ficaria assim:
"Querido, olha que coincidência. Há muitos que encontro pela Internet com uma senhora brasileira, chamada Maria de Lourdes e Hass vive em Pontal do Paraná (Sul). Seria a mesma pessoa? "O mundo é realmente pequeno. Saudações"

Raknikov
Ainda supondo que esse tal Raknikov existisse, minha resposta a pergunta dele seria: SIM.

Leonel disse...

Velhas lembranças...muito bem contadas!
Acho que só mesmo quem viveu estas experiências pode entender o seu significado e consequências...
Eu me lembro de algumas situações que tive que enfrentar lá no sul...
Deixa pra lá...
Abraços!

Augusto Ouriques Lopes disse...

Sempre conto esta estoria que meu pai jah foi negro. Muito boa.

Ruy disse...

Caro manonovo, Jair:



Muito prazeroso me foi ler esse textículo sobre as Polacas. Mais ainda porque percebi que vc consegui superar uma fase, cuja vc sempre me disse impedia-o de sequer conversar comigo, seo mano, sobre coisas “mais ou menos íntimas”. Lembro que malemar vc me falou que namorou essa duas “polaquinhas” e mais não avançou porque não havia, segundo vc afirmou, condições pra explicitar as coisas. Achei ótimo o texto e a forma como vc adentrou essa faceta da tua vida pregressa. Penso que agora te será mais fácil manejar com esses “causos” autobiográficos que estão emperrados no fundo da gaveta memorial. E, te confesso, que pra mim tbm não foi nada fácil da primeira vez que resolvi escrever sobre fatos da minha infantojuventude atlética palmeirense, mas, uma vez que consegui dar a partida, hoje já não tenho mais problemas ou barreiras íntimas que me impeçam de escrever sobre isso ou aquilo.

Marly disse...

Jair,que delícia ler este texto täo simpático!
Fiquei com gostinho de quero mais...
Beijos no casal querido!

Marly

I. L. B. disse...

Aqui em Curitiba, temos uma grande concentração de migrantes poloneses, austro-hungaros e italianos...
Gostei do que escreveu tenho e muitos amigos "polacos". Espero com tempo escrever um pouco mais sobre a minha cidade!

R. R. Barcellos disse...

- Jair, sua autobiografia - ou seja lá o que for - está prometendo! Abraços.

Maria Emilia Xavier disse...

É sempre muito agradável ler textos de lembranças, de casos reais, principalmente quando bem relatados.

Luciana Vieira Peres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana Vieira Peres disse...

Muito bom, me chamavam de Polaca, um termo hoje aqui em São Paulo que não é usado e se o fosse, teria que explica-lo..rs #Cultura #regiãoSul #Saudades #mate