sábado, 25 de setembro de 2010

A paranóia



Previsivelmente, em 1949, a União soviética explodiu sua primeira bomba atômica, iniciava-se assim a era da paranóia do ocidente, e, em particular dos EUA, que via no evento indícios claros de vazamentos de seus esforços no Projeto Manhattan, cujo trabalho, que envolveu os maiores cientistas nucleares do Planeta, culminara na confecção dos artefatos que haviam destruído Hiroxima e Nagazaki. Para aplacar a justa ira da sociedade que antevia bombas explodindo sobre suas cabeças em cidades americanas, a justiça condena Julius e Ethel Rosemberg à cadeira elétrica por espionagem.

Para gente antenada nos novos tempos, a história da civilização havia sofrido uma ruptura definitiva, deixara de ser linear, obtusa em direção ao futuro, havia sofrido uma guinada, tropeçara num divisor de águas. O futuro imediato agora representava a aterrorizante possibilidade de autodestruição da espécie humana. A humanidade jamais estivera sob tal ameaça. Até o pai da bomba, Robert Oppenheimer, num mea culpa tardio como soem ser todos os arrependimentos, se pronunciou: “A única defesa contra essa arma maldita é sua eliminação”.

O século vinte havia inaugurado um aprofundamento do iluminismo, as conquistas sociais, políticas e principalmente científicas, haviam levado a civilização a um patamar de satisfação, longevidade e conforto inimaginável um século antes. Sob estes aspectos o século vinte era o “Século das Luzes” até então. Só que a mesma ciência que nos havia brindado com tantas conquistas na área da medicina, da física e química, mostrava-se um monstro que escancarava as fauces e prometia nos engolir para sempre, parecia sim, o “Século das Trevas” o que se pronunciava.

O terror do final dos tempos, sem dúvida, permeava o cotidiano das pessoas comuns que se perguntavam: Por que deve ser assim? Qual o futuro disso tudo que vemos? Haverá um amanhã? Parece que o perigo esconso e imediato torna as pessoas meio filosóficas. Seria até risível se não fosse trágico.

Mas o medo maiúsculo, medonho e aterrorizante surgiu com a chamada “Crise dos Mísseis em Cuba” em 1962. A União Soviética, inteirada de sua desvantagem flagrante no campo nuclear frente aos Estados Unidos, resolveu instalar quarenta plataformas de lançamento de mísseis em Cuba, o que, segundo estimativas posteriores, aumentaria em 70% sua capacidade ofensiva, tendo em vista a proximidade dos alvos. A inteligência americana, baseada em fotos tiradas pelo avião espião U2, descobre a tramóia russa e o governo reage decretando o bloqueio da ilha e exigindo a retirada imediata dos mísseis.

Durante treze dias, o Planeta suspendeu a respiração diante da possibilidade de uma guerra nuclear entre as duas superpotências. É até incompreensível que história oficial dedique tão pouco espaço para esse que foi o momento mais paranóico que nossa geração viveu. Hoje sabemos que nunca estivemos tão próximos do Armagedon, a guerra total e definitiva. Se nossos esfíncteres lassearam e chegamos a borrar as cuecas não lembro, mas que o desconforto foi angustiante, isso foi.

Tanto Kennedy quanto Kruschev, estimulados por suas máquinas de guerra, se viram forçados a se encararem olhos nos olhos para ver quem piscava primeiro. Felizmente, para alívio da humanidade, Kruschev, ciente de sua inferioridade técnica e estratégica, botou o galho dentro. Mandou retirar os mísseis, e a adrenalina do Planeta baixou para níveis compatíveis com a vida normal do dia-a-dia. A paranóia, se não abandonou o andamento normal da sociedade, pelo menos não subiu a ponto de causar taquicardia e noites em claro a partir de então. JAIR, Floripa, 25/09/10.

6 comentários:

Leonel disse...

Jair, li com muita emoção a sua brilhante e objetiva sinopse sobre aqueles tempos de medo.
Apenas comentaria que os russos relutaram bastante em aceitar a insistente oferta de Fidel Castro para instalar as plataformas de mísseis no território cubano. Como eu já falei em outras ocasiões, a U.R.S.S. de forma alguma queria o confronto direto com os americanos, pois tinha ciência da sua desvantagem estratégica e do "gatilho ligeiro" dos caubóis. Assim, quando viram que as coisas evoluiam para o confronto, tiveram o bom senso de virar o leme de seus navios e regressar. A humanidade agradeceu!
Depois disso, apesar dos esforços do líder cubano em "exportar" sua revolução, enviando tropas até para a África, o apoio russo declinou e passou a ser mais criterioso. Por isto mesmo Allende ficou esperando sentado o armamento e os conselheiros russos. Os soviéticos, prudentemente, deram tempo ao tempo até a derrubada do líder chileno, o que resolveu o problema deles. Tudo o que eles não queriam era outro caudilho fanfarrão, comprando brigas e quebrando o boteco dos americanos para eles bancarem a despesa! Tomara que Chavez saiba disto.
Abraços, amigo!

leonel disse...

Boa tarde Jair: Já tenho seguido o seu blog e muitas das vezes no final de ler fico pensativo, isto não é um blog que pensa, mas sim um homem com sabedoria que nos vai dando mais um pouco da história do mundo que andava escondida,ou então passava ao lado por despercebida .
Abraço Leovalquaresma

R. R. Barcellos disse...

- Quando os noticiários radiofônicos divulgaram o ultimato de Keneddy, eu estava no meio de uma pequena multidão, na barca que fazia a travessia Niterói-Rio. Muitos passageiros, ouvindo seus rádios-transistores, começaram a conversar entre si, externando seus receios quanto à eclosão de uma eventual guerra nuclear. Pude sentir nitidamente um início de paranóia no ar...

Anônimo disse...

Olha, lembro desse acontecimento, na minha casa rezávamos para ter uma morte rápida e indolor. Não sei bem porque, mas meus pais, religiosos que eram, achavam que estavam preparados para o fim do mundo, e este se aproximava. Eram crentes e conformados.

Leonel disse...

Jair, acho que o blog deu um "trampo"! Quando eu fui enviar o primeiro comentário, deu um engasgo, e agora, vejo que o comentário seguinte, do Leoval, veio com o meu nome!

JAIRCLOPES disse...

Leonel,
Por coincidência, o nome do cidadão também é Leonel. Leonel Valquaresma, para ser exato. Daí a inferência que podia ser uma repetição acidental do teu nome. Abraços, JAIR.