sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Especiarias



Lembro do tempo da escola fundamental quando, nas aulas de história do Brasil, as professoras se referiam ao “comércio com as Índias” que teria impulsionado as grandes navegações portuguesas que resultaram nos grandes descobrimentos. Vasco da Gama teria chegado às Índias contornando o Cabo da Boa esperança e navegado pelo oceano Índico até a “terra das especiarias”.
Bem, tudo facilmente assimilado até certo ponto, mas, quando surgia a palavra especiarias a coisa empacava, meio que os textos se tornavam herméticos, as professoras mal sabiam o que eram as tais especiarias e se limitavam a dizer que eram cravo, canela e pimenta do reino. Ora, esses conhecidos temperos eram usados em doses parcimoniosas na culinária daquela época; eram obtidos no comércio local, embora nem sempre muito baratos, mas não havia como entender que tais complementos pudessem ser objeto de caríssimas, longas e complicadas viagens através do mundo para obtê-los. A mim parecia que ninguém tinha conhecimento ou capacidade para explicar essa engenharia comercial que resultou nas mudanças que formaram o mundo no qual vivíamos.
Especiarias? Temperos culinários movendo o mundo? O que é isso? Vivi com essas indagações incrustadas no cérebro por anos a fio. A coisa ainda ficava mais interessante quando a gente percebia que a palavra especiaria só era usada nos livros de história, não havia registro em outros lugares a não ser em dicionários. Ninguém dizia: “Vai ali na venda do seu Zé comprar duzentas gramas de especiaria para o almoço”; Não havia referências como: “Aqui se vendem especiarias”, ou “Grande liquidação de especiarias”. Guardadas as diferenças especiaria era como “de onde vêm os bebês”. Todo mundo sabia, mas ninguém dizia. Limitavam-se a cegonhas e outros que tais.
Pois, passados muitos anos, quando já nem mais me lembrava do termo, lendo um livro sobre a história do sal, encontro lá as melhores explicações sobre as tais especiarias. Pimenta do reino, canela, cravo, noz moscada e macis (óleo que se extrai da noz moscada) eram os substitutos do sal na conservação da carne. O sal era artigo de luxo, caro e raro, portanto, numa época que inexistia geladeira, as especiarias serviam como conservantes naturais das carnes a serem consumidas dias após o abate. Contudo, o grande óbice para seu consumo é que eram cultivadas “nas Índias”, na verdade Indonésia, Singapura e adjacências, não exatamente na Índia atual. Daí, foram empreendidas as grandes navegações depois que os turcos conquistaram Constantinopla e passaram a controlar o comércio por terra. Os portugueses foram os primeiros a aportar em Calicute, mas em seguida holandeses, franceses e ingleses formaram frotas próprias para a busca incansável e milionária dos temperos que permitiram europeus comerem carne conservada ao invés de pútrida como vinham fazendo a séculos.
Os condimentos referidos não eram usados porque adicionavam sabor especial à carne e seus derivados, e sim porque possuem óleos essenciais que tem efeito biocida impedindo a proliferação de bactérias que deterioram o alimento. Por exemplo, o óleo de cravo, produzido por um processo de extração, é constituído basicamente, por eugenol (70 a 80%). O eugenol é um composto aromático com efeito anestésico e anticéptico comprovado cientificamente.
Então aí está, temperos, condimentos ou especiarias tiveram influência crucial na história da humanidade, não dá para subestimar o poder de coisas aparentemente tão banais. JAIR, Floripa, 17/08/12. 

13 comentários:

Nadine Granad disse...

Uau *-* adorei!

Sempre sinto-me uma pitadinha mais inteligente quando leio seus textos, rs...

Ly Cintra disse...

Adorei o Post Jair!
Aqui na Biblioteca do Senac, onde trabalho, existe um livro com a história do sal :)
Seria o mesmo que o seu?
- Sal:Uma Historia Do Mundo de Mark Kurlansky.

:*

JAIRCLOPES disse...

Sim Ly, é esse o livro a que me refiro. Abraços, JAIR.

Professor Alexandre disse...

Especial esse seu texto sobre especiarias!
Parabéns...

Leonel disse...

Muito interessante...
Eu nunca tinha entendido muito bem essa história das tais "especiarias", que, no meu entender, só seriam acessíveis para a nobreza.
Mas, seu emprego como material estratégico para conservar as carnes e manter alimentação rica em proteínas em estoque deve ter beneficiado a todos e desenvolvido a tradição dos defumados e embutidos!
Show de aula!
Abraços, Jair!

R. R. Barcellos disse...

O gado de corte era abatido em massa antes da entrada do inverno, e era preciso conservar a carne... e garantir o cravo e a canela do Jorge Amado, e a pimenta para o chocolate da Globo.
Abraços.

Cristiano Marcell disse...

Sua escrita cheio de tempero deixou a história bem mais saborosa!!!!

Muita paz!

vendedor de ilusão disse...

Olá amigo,
Sou-lhe agradecido por ter enviado seu poema. Em breve lhe passarei a programação do evento.
Ao seguir seu blog notei que tens obras editadas, se for do seu interesse entre em contato para eu divulgá-las.
Um abraço.

regina ragazzi disse...

Muito interessante e informativo seu texto jair. Adorei. Abraços.

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
Ao ler o título de texto, logo surgiram duas evocações: as aulas de história e seu capítulo ‘As causas das grandes navegações’ que era como descreveste. A outra a cozinha de minha mãe onde havia especiarias locais: folhas de louro e manjerona para o feião e colorau (o araticum, que ainda entrei no sábado em Parintins).
Obrigado por avivares lembranças tão grata

attico chassot

Zilani Célia disse...

OI JAIR!
QUE AULA HEM?
MAS, ACHO QUE ESTA DÚVIDA ACOMPANHOU MUITOS DE NÓS, "ESPECIARIAS"?
abrçs

zilanicelia.blogspot.com.br/
Click AQUI

Portal de blogs Teia disse...

Olá.
Post divulgado no Portal Teia

vendedor de ilusão disse...

Olá Jair,
Venho trazer meu abraço e, mais uma vez, agradecer sua participação no 1º Prosas Poéticas; muito obrigado pelo apoio e pelo prestigio.
Aproveito para reiterar minha disposição em divulgar sua obra; entre em contato para eu lhe dizer o que preciso para fazer a divulgação.
Um abraço.