terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sobre sono



Li em algum lugar declaração de um estudioso do mundo de Hipnos (deus do sono. Morfeu, ao contrário do que muita gente pensa, é deus do sonho) a qual dizia que algumas pessoas precisam dormir oito ou nove horas por noite, e outras apenas cinco ou seis horas já seriam suficientes para restaurar suas energias. Me encontro enquadrado na relação dos que dormem pouco, enquanto minha mulher, se não a perturbarem, dorme tranquilamente nove ou dez horas.
Na verdade, os seres humanos passam praticamente um terço da vida dormindo e esse fato já dá a dimensão e a importância do fenômeno sono. O corpo dos animais, e não esqueçamos que o homem é um animal, consome energia nos afazeres comuns do dia-a-dia, vale dizer, no simples ato de viver, portanto, necessita de repouso para que seus sistemas descansem, retornem a um nível ótimo de equilíbrio metabólico, psíquico e emocional para isso o sono se faz necessário. O sono, numa linguagem coloquial, “recarrega a pilha” fisiológica animal.
Experiências em laboratório provaram que um organismo privado de sono deixa de funcionar, isto é, morre. Os sistemas e órgãos de ratos impedidos de dormir por quatro ou cinco dias, entram em colapso e morrem. Em 1962, o radialista Rick Michaelis foi submetido a experiência de privação de sono mais radical que se tem notícia, ele ficou sem dormir durante 213 horas. Supervisionado e monitorado por uma equipe médica que o acompanhou em revezamento, Rick passou períodos de delírios, agressividade, surtos de demência e quase veio a falecer quando sua pressão baixou a níveis incompatíveis com a vida normal. Os médicos colocaram um fim na provação quando perceberam que ele corria risco de bater as botas.
Como escrevi acima, durmo pouco, porém, por alguma razão que desconheço e que mesmo a medicina não soube dar uma explicação satisfatória, passei por um período de meses com uma grave e ruinosa insônia. Minhas noites se resumiam a três ou quatro horas de sono de má qualidade, o que tornava os dias pesados de suportar e pouco produtivos. Sono de má qualidade é quando não conseguimos atingir os níveis mais profundos de inconsciência, o chamado nível quatro, o qual é particularmente restaurador. E também não sonhamos ou sonhamos pouco, o sonho é indispensável para uma vida saudável, ainda que a ciência não saiba por quê.
O médico gaúcho, Denis Martinez, talvez a maior autoridade brasileira em tratamento de problemas referentes à qualidade do sono, escreveu vários livros sobre a matéria, inclusive o “Como vai seu sono?” um verdadeiro tratado sobre esse universo tão necessário e tão pouco conhecido, mas no qual todos mergulhamos pelo menos uma vez por dia durante a vida toda. Assim, me fiz paciente da Clínica do Sono depois de ter lido o livro de Martinez. Na clínica é necessário passar uma noite dormindo monitorado por uma câmera e acoplado a aparelhos de leitura de ondas cerebrais, de movimentos dos olhos e dos membros, através de dezenas de eletrodos colocados em pontos determinados desde as têmporas até as pernas. Onde se realiza um estudo polissonográfico com paciente dormindo numa cama confortável, num quarto escuro e silencioso. Onde são monitorados e registrados em um computador os parâmetros eletrofisiológicos e cardio-respiratórios, fluxo oro nasal, movimento de tórax, movimento do abdômen e movimento dos membros, além de saturação de oxigênio e posição no leito.
O diagnóstico dos distúrbios que estão deteriorando a qualidade de nosso estado repouso repositor de energias será feito pelo médico especializado, que indicará ou não medicamento ou atitudes que deverão melhorar o estado do paciente.
Feito o diagnóstico que pode conter termos como arousals e despertares, bruxismo, terror noturno e apnéia, o paciente passa pela fase de tratamento que pode incluir medicamentos, máscara de oxigênio para casos graves de apnéia e aparelho para facilitar a respiração em caso de roncopatia severa. O livro de Martinez relaciona duas dezenas de síndromes, chamadas distúrbios do sono, que podem perturbar o descanso do ser humano. Dessas tantas fui contemplado com cinco, por causa das quais me encontro em tratamento.
O curioso da busca por tratamento nessas clínicas, é que quem mais as procuram são mulheres porque... seus maridos roncam. Segundo os médicos da área, é normal as mulheres procurarem as clínicas porque não conseguem dormir devido ao ronco de seus maridos. Soluções como, desde dormir em quartos separados até tratamentos clínicos da roncopatia dos maridos, melhoram o sono das mulheres. Cura-se um para o outro dormir.
O fato concreto é que, muito provavelmente, a maioria dos distúrbios do sono está relacionada com a vida moderna. O estresse, as preocupações, os horários, os ruídos, os estímulos visuais, as refeições pouco digeríveis ou em horários inadequados, a televisão no quarto, as muitas informações que devemos “digerir” diariamente e as maneiras de dormir, afetam desfavoravelmente nossa qualidade do sono. Estamos a mercê de dezenas de agentes contrários ao bom dormir. Então, a maioria dos médicos prefere descobrir o que está nos causando os desconfortos e nos aconselha a proceder de modo diferente ou mudar o que está nos atrapalhando. Medicamentos ou aparelhos só em ultimo caso. Seguindo “dicas” profissionais quase sempre fáceis de serem seguidas e cuidando da saúde podemos adentrar o mundo de Hipnos e lá permanecer por algumas horas agradáveis todas as noites. Bom sono para todos! JAIR, Floripa, 26/08/11.

13 comentários:

Luci disse...

Bom dia amigo! gosto dos seus vôos
temáticos, cada giro de 360 graus... Só para quem é aviador!...andava sempre nas alturas, acho que isso não o estressava,seria uma causa?Bem, dá para fazer umas acrobacias mentais,na superfície litorânea,desde que não prejudique o sono.Já fiz a polissonografia e fiz cirurgia do palato... Não resolveu o problema;rsrs.. ronco em mulher também tem... Luci

Professor Alexandre disse...

Ótimo texto meu amigo... Sinceramente em determinadas noites simplesmente não consigo dormir antes da hora de acordar e em outras durmo até demais, por isso gostei de seu texto, acabei me identificando...
Parabéns!

Abraços Fraternos!

Paulo Sempre disse...

«O estresse, as preocupações, os horários, os ruídos, os estímulos visuais, as refeições pouco digeríveis ou em horários inadequados, a televisão no quarto, as muitas informações que devemos “digerir” diariamente e as maneiras de dormir, afetam desfavoravelmente nossa qualidade do sono.»

Concordo!!!
Todavia, se as pessoas se aceitassem tal como são e se se interessassem pelas pequenas , mas interessantes, coisas da vida, teriam uma melhor qualidade do sono.

Abraço
Paulo

Tais Luso disse...

Este texto está tão bom que pouco resta para se falar. Realmente é no sono que nosso cérebro faz com que tudo se ajuste, se refaça, se equilibre. Nosso organismo é uma máquina onde as peças estão sincronizadas, e cada peça depende da outra para que tudo funcione perfeitamente. Problemas emocionais, hormonais, estresse geram grandes disfunções, também. Como você falou, uns precisam de poucas horas, outros de mais. Resta saber o porquê de um sono sem qualidade. Procurar a causa, individualmente, é a grande questão para os médicos. E falando da insônia... Tá no mesmo pacote: qualidade. Mas da insônia ainda tiro proveitos: escrevo e leio, não ligo muito pra ela. Na noite seguinte durmo bem.

Muito bom.
Abraços, Jair.

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Olá,

Penso que exercício e uma boa alimentação podem ajudar. Depois que comecei a me exercitar mais, notei a mudança. Estou cada vez mais me aproximando da tranquilidade de sono que meu marido consegue atingir! Um dia chego lá! Beijos da nora,

R. R. Barcellos disse...

Falou tudo sobre Hipnos e muito pouco sobre Morfeu. Posso apostar que em breve seremos brindados com algum artigo que aborde a fase REM (Rapid Eyes Movements) do sono e a curiosa distorção do espaço-tempo em nossos sonhos - entre outras coisas.
Parabéns, Jair.

Leonel disse...

Pois é, eu antes dormia até oito horas sem problemas, mas ultimamente, estou alcançando um máximo de seis, a sete horas de sono.
Mas, logo que me deito, durmo quase imediatamente.
Mas, se durante o dia, me sentar em um ônibus ou numa sala de espera, tiro logo um cochilo.
Fora aqueles os que eu cometo nas postagens...
Ótima abordagem, Jair!
Abraços!

Carlos Atanagildo disse...

Fico espantado com a tua versatilidade, tu abordas com elegância e clareza os mais diversos assuntos. Este texto sobre sono está primoroso. Como durmo muito pouco e tenho vários distúrbios de sono, invejo aquelas pessoas que dormem como um bebê. Quisera eu dormir apenas uma vez na vida, oito horas. Quando muito, durmo cinco horas. Vou procurar um médico desses. Boa postagem.

Rejane Bruck disse...

Muito bom o texto!Sou como tua mulher que, se deixarem, durmo de 9 a 10 horas seguidas e quase todas as vezes lembro dos sonhos que tive que, em geral, são cheios de detalhes!
Beijo!

Cícero disse...

Preciso no mínimo de oito horas para dormir, o que nunca acontece pois minha mulher dorme bem menos e gosta de conversar pela manhã. Como amo muito minha mulher, sigo o resto do dia cansado mas muito feliz.

Daniela disse...

Adorei o texto, ainda mais por ser um tema que é a minha paixão: dormir, dormir e dormir!! Sempre me perguntei, e nunca entendi por que algumas pessoas necessitam dormir mais do que outras para terem disposição similares no dia-a-dia! Mas depois que li o texto (link abaixo), compreendi melhor: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI148505-17770,00-QUEM+DORME+ATE+TARDE+NAO+E+VAGABUNDO+DIZ+CIENCIA.html
Tem até um teste: http://www.crono.icb.usp.br/cronotipo
Bom, só sei que dormir bem e bastante é realmente um sonho!!! :)

Maria disse...

Adorei a leitura até porque ando a dormir mesmo muito mal, ou melhor para conseguir adormecer é um grande problema e depois só ficam poquinhas horas para poder dormir. Enfim, é realmente o que falava no texto, o tipo de vida que levamos, muito stress, muita correria, muitas preocupações e pouco descanso, por tudo isto o nosso cérebro fica tão ativo, que quando deitamos ele não consegue desligar!
Tenho de mudar o meu ritmo, não sei é como!
Beijinhos
Maria

Alexandre Taissum disse...

Meu amigo sabe que você tem razão? Eu sofro disso desde criancinha, quase não durmo, é comum virar uma noite direta sem dormir e em algumas vezes chego a virar duas noites seguidas. Acho que meu caso é gravíssimo, pelo que captei em seu texto.
Normalmente durmo no máximo três horas por noite, geralmente me deito às quatro da manhã e acordo às sete horas. Minhas atividades me parecem normais e o sono só me pega no meio do caminho se eu ficar a toa ou olhando pra ontem, tipo: na onda da preguiça... Já até escrevi alguma coisa sobre o meu escasso sono no Blog.
Esse negócio da falta do meu sono é hereditário, pois minha mãe (74 anos) dorme muito pouco, meu filho mais velho quando bebê e não queria dormir muitas vezes o colocava no carro, dava umas voltas e só retornava quando ele pegava no sono (ele parecia brigar contra a idéia de dormir), agora, passados vinte e tantos anos, as minhas netas (uma com seis meses e outra com dois meses) se irritam quando colocadas para dormir, não gostam e quando alguém consegue “trapaceá-las”, acordam em breve tempo e irritadíssimas...
Pelo visto teremos que fechar uma dessas clínicas e hospedar a família toda.
Quanto a minha esposa, não sente muita perturbação em seu sono por causa do meu ronco, pois vou pra cama quando ela está preste a sair... É quase um encontro casual. Mas enfim...
Excelente o seu texto, valeu muito a leitura da revelação que você fez.
Um grande abraço e boas horas de sono, porque eu vou ficando por aqui, acordado...