terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sobre monogamia



No mundo animal constituído por famílias de um só casal de pais, é quase sempre as fêmeas que ficam tomando conta do bebê, porque, na corrida para sair em busca de outros parceiros, elas, em geral, ocupam o segundo lugar. Quem tem aquário e já viu a reprodução dos caracídeos, sabe que as principais exceções são encontradas no mundo aquático dos peixes, e a razão não é difícil de entender. À semelhança dos sapos, os peixes ovíparos soltam suas células sexuais dentro d’água, onde ocorre a fertilização. Contudo, considerando-se que o esperma dos machos é muito leve, ele corre o perigo de se desviar de seu rumo se for depositado antes que os óvulos, bem mais pesados, cheguem a eles. Dessa forma, para não desperdiçar seus espermatozóides, eles têm que esperar até que as fêmeas deem sua contribuição para que eles façam a sua parte. Em virtude dessa sequência de eventos, a fêmea pode agarrar a sua chance e abandonar seu companheiro, deixando-lhe todo o trabalho a ser feito para assegurar a boa e satisfatória nutrição da ninhada. O acará bandeira de nossa fauna amazônica é um exemplo perfeito dessa atitude evolutiva. O macho é apanhado numa armadilha cruel, porque ele poderia decidir desertar também, mas nesse caso não haveria nenhuma descendência e seus genes estariam perdidos. Portanto, não é de se espantar que a seleção natural tenha favorecido a evolução da afeição paterna no caso de muitos peixes.
A coisa toda se transformou quando os animais se transferiram para terra firme, houve decadência do status das fêmeas. Nas condições mais hostis da terra seca, os animais não podiam deixar as células nuas e fertilizadas expostas ao ar, pois elas ressecariam e morreriam rapidamente. Então, os ovos surgiram como uma resposta ao novo ambiente. Novamente, o investimento da fêmea no embrião é enorme, se comparado com o do macho, porque ela fabrica a superestrutura do ovo e depois tem que envolvê-lo com substâncias nutritivas para sustentar o embrião em desenvolvimento. Entre os pássaros, o peso do ovo de uma fêmea equivale, algumas vezes, a um quarto do peso do corpo, um investimento muito caro, na verdade. Além disso, o fato de a fêmea fabricar o ovo dentro do seu corpo após a fertilização fornece aos pássaros machos oportunidade de desertar e lançar suas sementes em outro lugar. Contudo, a maioria deles não o faz: cerca de noventa por cento das espécies de pássaros é constituída por monógamos, normalmente durante uma estação de acasalamento pelo menos. E a razão disso é que o grau de esforço requerido para se criar um filhote é grande demais para apenas um adulto se desincumbir da tarefa; a incubação prolongada e a subseqüente tarefa contínua de colher alimentos para a prole voraz exigem cooperação de dois adultos. Então, se em determinada situação um macho fosse abandonar sua companheira fertilizada, as chances seriam de que os filhotes potenciais viriam a morrer; isto não é biologicamente sensato para o macho, e esta é a razão de ele cooperar com os deveres da família. Neste caso, a monogamia não é uma opção, é uma imposição evolutiva.
O estado de monogamia entre as aves é responsável principalmente pela plumagem espetacular que espalha cores vivas e brilhantes pelos nossos campos e matas afora, particularmente durantes o cio dos pássaros: os machos estão competindo uns com os outros pelos favores das fêmeas; porque a posse dos recursos alimentícios pode significar que nem todas as fêmeas serão capazes de procriar e que um macho precisa despender ainda maiores esforços para atrair uma fêmea, se ele pretende ter alguma chance de deixar descendentes. E também deseja ter a certeza de adquirir a melhor companheira possível, em vez de se contentar com apenas uma fêmea fraca e magra, que não faria justiça ao seu investimento genético. Seu casaco brilhante e seu elaborado galanteio têm a finalidade de impressionar a fêmea, demonstrando-lhe o desejo de tê-la como companheira. É quase compulsório transpormos esse jogo para o mundo dos humanos com seus machos próceres escolhendo as “melhores” fêmeas através de seus carrões caros e vistosos e de suas lanchas e mansões. No mundo das aves, a fêmea, que eventualmente pode ser deixada com uma ninhada de ovos em maturação, precisa estar convencida de que o macho é não somente adequado como pai (para produzir crias saudáveis), mas também como marido (para permanecer com ela a fim de criar a ninhada).
A escolha de companheiros entre pássaros é responsabilidade das fêmeas, como geralmente ocorre no mundo animal, sendo que os machos competem com entusiasmo para sobrepujar uns aos outros. Em muitas espécies de pássaros monogâmicos, as fêmeas declinam de seus favores conjugais até que o solícito companheiro potencial tenha construído um ninho que seja considerado adequado para abrigar seus futuros filhotes. Esse tipo de atividade, até certo ponto, iguala o investimento dos pais no filhote ainda por ser fertilizado: a fêmea fabrica o ovo e o macho constrói o ninho. A corte é decisiva para o macho, não somente para conquistar para si uma mãe potencial para sua descendência, mas também para sua satisfação própria, porque se ela é formosa e saudável será capaz de dar contribuição efetiva na criação da ninhada. Contudo, mais do que isso, os machos precisam estar seguros de que não estão sendo enganados e induzidos a ficar com uma parceira que foi fertilizada por outro macho que tenha dado no pé desde então.
Os avestruzes não são monógamos, um macho cruza com várias fêmeas e as induz pôr seus ovos num ninho comunitário que ele cuida até a eclosão. Acontece que as fêmeas nem sempre são fiéis, elas costumam “pular a cerca” enquanto o macho está cuidando dos ovos, e põem ovos fertilizados por outros machos no ninho que o “marido” está cuidando. Essa estratégia permite uma variação genética que não seria possível dentro da monogamia, mas está plenamente justificada, porque supostamente o macho sempre cruza com as mesmas fêmeas de modo que as escapadas de algumas delas renovará o estoque de genes sem que o macho saiba.
Fora isso, e mais alguns poucos exemplos de poligamia, a natureza cuida para que as mais bem sucedidas espécies sejam monógamas, e isso inclui o primata bípede pelado chamado homem. Qualquer desvio de conduta humana visando a reprodução não monogâmica está em desacordo com a ordenação natural estabelecida pela evolução. JAIR, Floripa, 13/06/11.


12 comentários:

Professor Alexandre disse...

Muito bom ^^ Como sempre, um texto leve, claro e muito reflexivo... Parabéns meu amigo!

Vida Longa e Próspera!

Cícero disse...

Agora entendo o motivo da minha fidelidade. Achava que era apenas uma questão ideológica. Abs

Francisco Simões disse...

"Amigo Jair, aprendi muito com a leitura deste seu excelente texto. Como sabe também temos uma bonita convivência aqui em casa com a Natureza, em especial com os pássaros. Concordo com o que diz sobre eles e sempre aprendo mais os observando também. Parabéns, amigo. Abraço do Francisco Simões (www.franciscosimoes.com.br)"

Leonel disse...

É, amigo, infelizmente, a espécie humana sai por demais do seu caminho natural e toma outros rumos, com resultados por vezes trágicos...
Mas, saber que as avestruzes pulam a cerca foi desalentador...
Abraços, Jair!

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Olá,
Gostei do texto.
Eu que sou uma defensora da monogamia, achei muito interessante a dinâmica entre os animais descritos. Uma pena que as fêmeas de avestruses ficam saracuteando por aí. Depois que me mudei para os EUA, comecei a observar que monogamia acontece mais em país desenvolvido (generalizando). Quem sabe o Brasil chega lá um dia! Beijos da nora,

estranhasedução2012 disse...

Nossa Jair, muuitíssimo obrigada! Eu tenho um trabalho sobre as Aves para apresentar em biologia, e peguei várias curiosidades do seu texto. Muito interessante a dos ovos. Parabéns pela forma bem fácil de entendimento que voce colocou no seu texto. Beijos, e boa semana.
Duda.

R. R. Barcellos disse...

Fidelidade, traição, ciúmes, poligamia e poliandria... Isso parece novela da Globo, amigão.
Abraços.

CANTACLARO disse...

Excelente texto.

Saludos,

Ana Lucía

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elvira carvalho disse...

Actualmente a espécie humana anda muitas vezes pulando a cerca. Pelo menos os mais jovens que eu graças a Deus tenho um casamento fiel de 45 anos.
Um abraço e um bom dia

Luci disse...

Pois é Jair!Acho que na espécie humana a questão econômica pesa muito... No momento que a fêmea partiu para auxiliar no sustento da prole e também para a auto sustentação, outras variáveis interferiram nos parâmetros das comparações,desde fidelidade,anticonceptivos,
abortos ,complexo de Cinderela...
Será que isso é evolução? Luci

Daniela disse...

Excelente aula de biologia e de vida a dois!!!

Zilda Santiago disse...

Excelente o texto com um final brilhante.Vim ler pensando que seria apenas com relação ao homem,mas o final coroou!!!Bjs na alma.