segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O MAL DO MILÊNIO SERÁ A BARRIGA



Segundo a OMS, pela primeira vez na história, a morte por excesso superou a morte por falta. Explico, hoje oitocentos milhões de pessoas passam fome, enquanto um bilhão estão acima do peso. O que significa que nunca houve tanta gente barriguda no Planeta.
Por milênios, as tribos caçaram e coletaram sementes, como o homem o fizera por toda sua história. Cerca de treze mil anos atrás, o clima no planeta tornou-se frio e seco durante vários séculos. O frio levou as pessoas a plantarem e selecionarem melhor os grãos ao invés de apenas coletá-los. Quando o termômetro subiu novamente, os grãos tiveram mais facilidade de germinar e a agricultura recrudesceu de modo exponencial. O chamado Crescente Fértil passou a abrigar inumeráveis tribos de lavradores. Uma quantidade maior de grãos passou a significar maior disponibilidade de comida e um tempo maior para variar a dieta com caça e pesca e domesticação de animais. A variedade e a quantidade de alimentos vegetais e animais permitiu que pessoas produzissem mais filhos e que tribos se tornassem núcleos de vilarejos e futuras cidades. A civilização cresce o quanto come.
As técnicas de cultivo e seleção genética das espécies vegetais e animais mais produtivas e nutritivas, praticadas pelos lavradores e criadores antigos, foram substituídas por técnicas científicas, agora desenvolvidas em laboratórios. Esse novo enfoque produziu muitas variedades de plantas e animais que, pela primeira vez na história, cresceram mais que o crescimento populacional. A biologia moderna transformou a criação de animais e a agricultura. A procriação planejada – ou cruzamento seletivo – levou a um enorme retraimento no esforço necessário para obtenção de alimentos.
Para a maioria das pessoas, a escassez cedeu lugar à fartura e, especialmente para cidadãos do primeiro mundo, a comida é virtualmente gratuita, - dado o peso relativo de seu custo no orçamento doméstico de famílias abastadas e de classe média. Os benefícios dessa combinação de relativa abundância e preço baixo são questionáveis. O preço real do açúcar, do amido e da gordura – comestíveis altamente energéticos e de qualidades nutritivas discutíveis – de fato, despencou, não tendo ocorrido o mesmo com as proteínas. Resultado, a fome com cara de fartura se espalhou pelo Planeta. É fácil observar que a faixa mais pobre da população urbana tem aspecto obeso. As pessoas estão comendo mais e errado.
Uma evolução na agricultura permitiu, há dez mil anos, que a sociedade se desenvolvesse, agora a evolução tecnológica está fazendo com que essa mesma sociedade se deteriore, regrida. Uma nova onda globalizada, uma combinação perversa de junk food (Mac Donald e congêneres) com preços baixos, está fazendo o império da obesidade se expandir. Ainda, segundo estudos da OMS, desde 1980 o estômago das sociedades ocidentais começou a se dilatar e não demonstra sinal algum de retrocesso. Há indícios que vinte anos antes, ou seja, pelos anos sessenta, apesar dos preços reais da comida terem baixado, não se via sinais de barrigas salientes que se aproximavam. Hoje, o mundo foi acometido por uma explosão de gordura, e seus habitantes estão pagando o tributo em forma de barrigão.
Cientistas afirmam que não é preciso muito para aumentar o diâmetro da cintura de uma nação. Segundo estudos, o aumento da barriga dos americanos pode ser atribuído a uma garrafa a mais de refrigerante por dia. Calcula-se que, no ritmo atual, dois terços dos americanos e quase metade dos ingleses estarão acima do peso em 2025. Desta equação, obviamente, estão fora muitos países da África e da América Latina como o Haiti. No Reino Unido, 30 mil mortes prematuras por ano se devem a um diâmetro aumentado da cintura e, nos EUA – onde, em 2005, a obesidade ultrapassou o fumo como principal causa de mortalidade passível de prevenção, - esse número é dez vezes maior. Estarrecedor mas verdade: Nos Estados Unidos enquanto o gasto com comida em relação à receita nacional caiu pela metade, no mesmo período as despesas com saúde foram multiplicadas por três. Na Europa oriental, onde o consumismo substituiu o comunismo, perde-se mais anos de vida em virtude da obesidade mórbida que na Inglaterra. Há fortes indicações que a atual geração mais velha – a qual não consumiu o lixo comestível durante seu crescimento – será a mais longeva da história. Seus (nossos também) filhos, geração hambúrguer, batata frita e coca-cola, têm expectativa de vida diminuída em relação aos pais.
A medicina há muito sabe o quão perigoso é esse aumento da cintura. Até Hipócrates já dizia: “A corpulência (parece que ele gostava de eufemismos) não é apenas uma doença em si mesma, mas a precursora de outras”. Milhares de pessoas morrem precocemente de doença cardíaca, AVC, diabetes e câncer, as quatro pragas que mais atacam os obesos. Muitas outras sofrem de gota, artrite, problemas da bexiga, fertilidade e outras patologias que afetam mais gordos que magros.
O que preocupa as autoridades médicas é que o efeito mais grave da comilança é o corpo adquirir forma de maçã ao invés de pêra, pois alguns centímetros adicionais na cintura são mais prejudiciais que uma bunda grande. Até as mulheres que, tradicionalmente tem mais gordura nas nádegas, estão se tornando maçãs. Um mundo de homens e mulheres maçãs é um mundo cuja civilização está em decadência, um mundo com um futuro que não queremos e o qual devemos evitar enquanto é tempo. JAIR, Floripa, 01/02/10.

7 comentários:

R. R. Barcellos disse...

É, Jair... Tem gente que come para viver e tem gente que vive para comer. Mas há também a pressão de uma sociedade que não nos deixa tempo para uma alimentação adequada. Houve tempo em que o jantar em família era um ritual de tranquilidade; hoje é "fast food" até nos domingos.

Adri disse...

Interessante a comparacao dos frutos das nacoes..... Um abracao
Adri

Leonel disse...

Só tem um lado bom essa história: tampar a boca dos políticos demagogos que vivem levantando a bandeira de dar comida aos miseráveis.
Hoje, os integrantes das classes de renda mais baixa, talvez por desinformação, são os que tem barrigas mais proeminentes. O problema já não é mais a falta da comida, mas sua qualidade.
Até quando come mais, o pobre sempre leva a pior!

Leonel disse...

Em tempo: espero que a barriga da foto não seja a sua!

JAIRCLOPES disse...

Leonel,
Não tenho barriga, como você pode ver na foto de perfil que ilustra esta página. Continuo pesando 72 quilos, meu peso há mais de trinta anos. Abraços, JAIR.

Voluzia disse...

Ou acabamos com nossa barriga, ou ela acaba com a gente... Parabéns pelas inferências inteligentes e esclarecidas sobre o tema.

lila rizzon disse...

Oi, Jair!
Nossa, que legal esse post. Adoro passar aqui e dar alimento pro meu pensamento com seus textos inteligentes. Grande abraço, amigo!