quarta-feira, 24 de abril de 2013

Fezes e flores



Na década de sessenta do século passado, em Nice, na França, numa área litorânea, com intuito de construir um conjunto residencial, faziam-se escavações quando os operários se depararam com o que parecia ser restos de edificações muito antigas. Foram então chamados paleontólogos e arqueólogos do Instituto Histórico Francês para fazer a identificação do sítio e pesquisas que determinassem o possível valor do achado.
Feitas escavações dirigidas e recolhidos diversos restos de cerâmica, armas e utensílios, depois de testes de carbono 14 nas cinzas de fogueiras que por lá havia, constatou-se que o acampamento pertencera a homens que viveram há 400 mil anos. Mas entre o que se recolheu para estudo havia uma “pedra” bastante peculiar. Após um exame minucioso constatou-se que a pedra era o que os paleontólogos chamam de coprólito. Pois é, esses tais coprólitos são fezes fossilizadas, excrementos que por ação do tempo e por mineralização se transformaram e objetos endurecidos como pedra e que contém informações valiosas sobre a dieta alimentar do ser que obrou aquele dejeto. Vale dizer que é possível fazer um exame de fezes de um animal que já tenha falecido há milhares de anos.
Tenho lido muito sobre botânica e encontrei num livro “A prodigiosa vida das plantas” um bocado de informações interessantes, entre elas, a que fala sobre pólen. O pólen, grosso modo, pode ser comparado ao gameta masculino (espermatozóide) dos animais, ele contém a mensagem genética do pai planta que irá fecundar o ovário da mãe planta e formar a semente. No Planetinha azul existem catalogadas em torno de 250 mil plantas que produzem flores, isto é que se utilizam da fecundação para reproduzir-se. Como os veículos que transportam o pólen – ventos, insetos, aves, roedores e morcegos - de uma flor a outra não o sabem que estão polinizando, foi necessário encontrar um meio seguro para evitar que o pólen de uma espécie polinize espécie diferente. Então cada uma dessas 250 mil plantas produz um grão de pólen absolutamente único, impossível de ser confundido com qualquer outro. Como nossas impressões digitais ou DNA dos seres vivos, com o pólen pode-se identificar a planta que o produziu sem qualquer erro. Imaginemos que se não existisse tal mecanismo, que na sua concepção é bem simples, haveria um caos no reino vegetal de tal forma que seria impossível a procriação sexuada das plantas.
Agora lembremos que os grãos de pólen são microscópicos, eles flutuam nos ares e nós os ingerimos involuntariamente pela boca e pelo nariz quando falamos, comemos, bebemos e até respiramos. Talvez neste momento tenhamos milhares de grãos de pólen no nosso interior sem que o percebamos. Existe até uma doença conhecida como “febre do feno” que semelha-se a uma alergia nas mucosas aéreas ou um resfriado associado à febre que é resultado da inspiração do pólen de gramíneas.
Pois então temos uma flora formidável em trânsito por nosso organismo e a possibilidade de identificar sem erro qualquer tipo de pólen das 250 mil plantas que o produzem. Impressionante, não é mesmo?
Depois do recolhimento dos objetos da escavação em Nice, os cientistas franceses especializados em coprólitos, utilizando os conhecimentos botânicos de seus congêneres especializados em flora, estavam com os pólens e as fezes na mão. Graças a esses cruzamentos de saberes, os homens de ciência, como detetives modernos, puderam estabelecer o flora que dominava a região na qual aqueles homens viveram há 400 mil anos.
Fecha-se o círculo, fezes como adubo fornecem os elementos essenciais à vida das plantas e, quando estas desaparecem, talvez para sempre, os mesmos dejetos podem trazer gravado em suas composições os sinais que identificam as plantas floríferas que viveram na região que o animal produtor daquelas fezes viveu. JAIR, Floripa, 15/04/2013.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O escravo

Caricatura feita através de fotografia por Cícero, grande cartunista de Brasília. 

Quaisquer definições que se deem à escravidão e escravo, estarão sempre se referindo a falta de liberdade de agir, ir e vir ou pensar, o trabalho sem ou com escassa remuneração ou aquelas condições políticas nas quais um déspota, sob qualquer linha ideológica, impõe sua vontade sobre outro(s) ser(es) humano(s). O regime da Coreia do Norte sob o jugo de Kim Jong-um é um exemplo típico de escravidão e seus cidadãos de escravos.
Pois bem, feito o prolegômeno, quero contar é que já fui escravo. Sim, é isso mesmo já fui escravo.
Nasci e vivi os primeiros dezessete anos de minha vida na cidade de Palmeira no Paraná. Como já escrevi antes, aquela cidade a partir dos anos quarenta até os anos setenta era eminentemente madeireira, isto é, empresários do ramo das madeireiras se travestiam de gigolôs de floresta e exploravam as abundantes matas de Araucárias existentes naquelas paragens. Palmeira, depois de ter passado por uma fase de algum progresso econômico com exploração da erva-mate, agora havia optado pelo desmatamento desmesurado dos pinheiros para que alguns enriquecessem ao preço do empobrecimento da região e a escravidão de gente pobre como meu pai e seus contemporâneos.
Todas as famílias de operários das madeireiras criavam um vínculo de dependência com seus patrões, de modo que não só os pais, mas os filhos quando atingiam quatorze anos também passavam a trabalhar naquelas empresas. Não foi diferente comigo. Quando completei quatorze anos meu pai incontinenti – sem se importar se eu queria ou não – inscreveu-me para me tornar operário braçal na Emilio Malucelli & Irmãos, madeireira na qual ele era empregado há mais de vinte anos. Trabalhei dos 14 aos 18 anos, quando então saí para servir na FAB e lá fiquei.
Até ai tudo bem, afinal como diz o ditado: ninguém morre de trabalhar. Ainda que se aceite isso como verdade verdadeira, talvez não seja bem assim. Operários das fábricas alemãs morriam de tanto trabalho escravo durante o regime nazista.
Bem, no meu caso foi um pouco diferente. Quando, muitos anos mais tarde precisei levantar meu anos de trabalho para fins de aposentadoria, descobri que não havia absolutamente nada provando que algum dia trabalhei na Madeireira Malucelli. Meus quatro anos lá trabalhados jamais foram registrados para fins de previdência, imagino que o produto $$$ do meu trabalho foi destinado a um caixa dois que aumentou os lucros daqueles patrões tiranos. Acresça-se a isso que minhas atividades no labor eram exatamente as mesmas que os adultos faziam, mas eu ganhava apenas metade do salário mínimo porque era de menor. Ainda mais, nunca me foram concedidas férias remuneradas. As possíveis horas extras que, por lei, deveriam ser pagas para trabalho noturno, nunca o foram, podia-se trabalhar a noite inteira – o que costumava acontecer com frequência – mas pagava-se horas normais. Além de tudo trabalhei em local insalubre onde o nível de ruído era algo terrível sem qualquer dispositivo de segurança – tampões de ouvido, por exemplo. Hoje tenho uma deficiência auditiva por traumatismo acústico que devo atribuir àquela maldita fábrica e seus ruídos ensurdecedores. O ambiente de trabalho além de insalubre era perigoso, todos os anos dezenas de menores se mutilavam nas máquinas mal projetadas e mal operadas por falta de segurança.
Resumindo. Trabalhar como adulto e receber metade de salário mínimo; trabalhar sem registro em carteira; trabalhar em local insalubre; não ter direito a férias. É ou não é trabalho escravo? Hoje sei o que sentem os cidadãos coreanos do norte. Hoje sei que aqueles algozes que se diziam empresários das madeiras ficaram ainda mais ricos com meu suor, meu tempo de vida e minha saúde. E eles ainda posavam de altruístas, pois que, segundo seu modo de ver as coisas, se eles não nos empregassem nós não teríamos onde trabalhar e possivelmente nos tornaríamos mendigos.
Como ilustração, coloquei uma caricatura de uma foto minha para lembrar que vivi uma caricatura de vida por alguns anos. Se houver justiça neste país, vou invocar a Lei Áurea e pedir indenização pelos danos a mim impingidos na minha adolescência. JAIR, Floripa, 14/01/2013. 

domingo, 14 de abril de 2013

Primeiro texto


De posse de um novíssimo MacBook Pro da Apple, que deverá substituir o Itautec bem anoso e super usado (está com tecla on/off quebrada) que tem aturado minhas idiossincrasias de escrevinhador por mais de cinco anos, faço aqui esta primeira tentativa de produzir um texto.
Somando às dificuldades inerentes a uma máquina a qual não tenho intimidade alguma; deixei de escrever qualquer coisa que preste em meados de novembro passado. Então não deverá ser surpresa se este primo textus, por assim dizer, sair sem qualquer qualidade, digamos, palatável.
Como acredito que o talento (ou a falta dele) não se perde por aí por falta de uso, coloco minhas fichas todas neste jogo: “o texto sairá tão bom – ou ruim – como os demais antes do recesso”. Então aí vai.
Depois que parei de escrever voluntariamente descobri que meu cérebro se recusa a ficar ocioso, ele exige de mim algum esforço que o desafie. Na falta desse esforço o cérebro vagabundo tende a tornar-se pernicioso, tende a insanidade. Vale o adágio, “cabeça vazia é oficina do diabo”, ou coisa semelhante.
Então, sobrando tempo, e certo espaço vazio no cérebro, me propus estudar entomologia, sim, resolvi adentrar o estranho mundo dos Tisanuros (traças), Odonatas (libélulas), Ortópteros (gafanhotos, grilos e baratas), Isópteros (cupins), Coleópteros (besouros), Lepidópteros (borboletas e mariposas) e milhares de outras famílias, gêneros e espécies que povoam o Planetinha azul desde muitos milhões de anos antes do Homo chamado sapiens sequer “pensar” em aparecer por aqui para encher o saco dos outros viventes.    
Tomada a decisão, adquiri livros didáticos sobre o tema e estou me enfronhando com empenho nesse novo metier. A coisa é particularmente medonha, a quantidade de representes dessa fauna é, para dizer o mínimo, piramidal, e  as dificuldades com o latim são indescritíveis, de modo que só depois de cinco anos estarei “formado” na matéria, acredito com otimismo.  
Se minha previsão se confirmar, faço nova incursão nas ciências e passo a estudar botânica, o qual é outro assunto que me fascina desde muito.
Posto isso, considero que minha reestreia está concluída e nada prometo daqui prá frente. JAIR, Floripa, 14/04/2013.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

É nosso?


Monteiro Lobato, o famoso escritor de sobrancelhas hirsutas, bigode chapliniano e ideias racistas, criador do Sítio do Pica-pau amarelo, foi um nacionalista ferrenho e defendeu desde a década de trinta do século passado um política petrolífera para o país onde todas as etapas de produção, desde a prospecção, passando pelo refino e transporte até a distribuição, fossem dominados e aproveitados por empresas nacionais. Chegou até lançar em 1931, sua Companhia Petróleos do Brasil, que em apenas quatro dias teve metade de suas ações subscritas. A companhia de Lobato foi pioneira em extração de petróleo em solo brasileiro. Em 1936, a 250 metros de profundidade vê irromper o primeiro jato de gás de petróleo do poço São João, em Riacho Doce, em Alagoas. Infelizmente, o governo Vargas e os interesses das grandes companhias multinacionais não se coadunavam com o nacionalismo lobatiano, de modo que, apesar de grande futuro que apresentava, sua companhia viu-se boicotada e teve que fechar as portas. Em 1950, inspirados no exemplo de Monteiro Lobato, os partidos políticos de esquerda e os movimentos sociais lançaram a campanha de rua em defesa do petróleo. A campanha "O Petróleo é nosso", empolgou o país e serviu de pretexto para que o Congresso Nacional aprovasse a legislação sobre o Petróleo que, na última hora, recebeu uma emenda que criou o monopólio da Petrobrás. Pois bem, “O petróleo é nosso” foi uma campanha de conscientização que fez o Brasil lembrar que tudo que existe no subsolo pertence à NAÇÃO. Veja bem, pela Constituição, quem compra um pedaço de terra de qualquer tamanho, não se adona do que existir abaixo do solo – solo é aquela fina camada agriculturável que você pode até cavar para fazer um poço, mas se encontrar uma mina de diamantes, por exemplo, estes não são seus, são da NAÇÃO, está na Constituição. Então, ficou patente desde então que o que existe no subsolo do Paraná, do Pará, da Paraíba, do Acre, ou da fazenda do senhor Sérgio Cabral no interior do Rio de Janeiro, é da NAÇÃO e não de pretensos donos. Não há razão para brigas, disputas, bate bocas ou baixarias pelo que se tem embaixo da terra, ponto. Essa gritaria babaca de políticos babacas por causa de royalties de petróleo encontrado na plataforma continental do País não tem qualquer sentido, está na Constituição também que somos uma República Federativa, isto é, uma Nação que se divide em estados administrativos subordinados à Federação, estados que sequer têm autonomia legislativa plena e que dependem do poder federal em vários níveis. Ou seja, sem o poder federal os estados federados não existem. Então, cambada de energúmenos, vão fazer alguma coisa útil como cortar a grama, lavar o carro ou tirar cera do ouvido e deixem de falar bobagem! JAIR, Floripa, 18/12/12. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Yraima


A jovem cientista Yraima Moura Lopes Cordeiro é membro da Academia Brasileira de Ciências. Doutora em ciências biológicas, hoje é professora adjunta do Departamento de Fármacos da Faculdade de Farmácia da UFRJ, universidade pela qual se graduou em ciências biológicas / modalidade médica e obteve os títulos de mestre e doutora, Summa cum laude, em química biológica.
Lembrando que a ABC é uma entidade que congrega os melhores e mais expressivos cientistas do país. Em paralelo, poderíamos dizer que a ABC representa para a ciência pátria o que a ABL representa para a literatura brasileira, mas com uma importante ressalva. Enquanto a ABL reúne em sua irmandade esdrúxulas indicações políticas como José Sarney e Marco Maciel, por exemplo, e outras inexplicáveis como Arnaldo Niskier e Ivo Pitanguy, a ABC utiliza critérios estritamente técnicos, de modo que seus membros são todos laureados com, no mínimo, doutorado. Além disso, grande maioria dos velhinhos membros da ABL, se limita a tomar chá nas reuniões modorrentas das quintas feiras e se auto louvar pelas obras que produziu. Enquanto a ABC é conhecida pela atuação firme e produtiva de seus membros nas suas respectivas áreas de trabalho.
Yraima foi uma garotinha perfeitamente normal para época e lugar onde nasceu e cresceu. Nasceu no Rio de Janeiro na década de 70, exatamente dois minutos após sua irmã Naiana, a qual também é doutora, mas em outra área.
O que faz uma garota em tudo normal se tornar sumidade em alguma área? A meu ver, seus pais e o ambiente saudável que a envolveu. Heloisa e Ruy, além de pais convencionais na educação de seus rebentos, sempre foram leitores vorazes e seletivos, na casa deles nunca estiveram ausentes bons livros de todas as áreas, bem como horas regulares de leituras diárias. As gêmeas, e mais o garoto Aimberê que veio depois, tiveram como referência e “habitat” um ambiente em que livros faziam parte do mobiliário e eram lidos e manuseados com familiaridade todos os dias. Assim, quando Yraima ingressou na escola, nunca se sentiu “obrigada” a estudar, nunca achou que livros e estudos eram chaturas pelas quais tinha que passar como um sacrifício de vestal, pelo contrário, a cultura livresca fazia parte de seu DNA familiar e ela nunca teve necessidade se esforçar muito para adquirir conhecimento. Vale lembrar também que sua infância foi povoada de aventuras e seres fantásticos, como gnomos, que habitavam o sítio de seu avô nas noites de verão iluminadas de pirilampos e sonorizadas por grilos e outros terríveis bichos talvez alienígenas que comiam cérebros de crianças. Como se vê, uma infância perfeitamente saudável, que ela, a irmã e o irmão aproveitavam nadando numa piscina natural do sítio, mesmo quando a temperatura invernal desaconselhava essa prática. Aliás, Yraima é exímia nadadora desde praticamente o berço, aprendeu a nadar antes de deixar as fraldas.
As férias quase sempre incluíam dias vividos intensamente em Visconde de Mauá onde rios, cachoeiras e mata atlântica de transição se conjugam na forma de um quase santuário de natureza preservada povoada com gente que sabe respeitá-la.
Pois é, instrumentada com uma infância prenhe de fantasias, espaços e brincadeiras saudáveis; tendo pais disciplinados que davam valor ao hábito da leitura e aos estudos; boa aluna que estudou numa escola montessoriana; tendo facilidade para aprender idiomas – é fluente em várias línguas, inclusive alemão; e tendo gosto pela ciência desde muito cedo, é plausível e compreensível que hoje esteja ente os luminares que compõem o plantel da ABC.
Então, Yraima, ao contrário dos advogados deste Patropi, que ao passar nas provas da OAB passam a se auto intitular “doutores”, como se tivessem defendido alguma tese, é doutora De facto e De Jure, pois defendeu tese frente uma banca, tendo feito pesquisas para seu trabalho até em alemão na própria Alemanha.
Parabéns para essa guria que engrandece a ciência do país e que, por acaso, é minha sobrinha. JAIR, Floripa, 02/12/12. 

sábado, 10 de novembro de 2012

Dinheiro



Acabo de ler “Família, afeto e finanças”, livro escrito por meu amigo Olegário e sua mulher Angélica. Trata-se de escorreita cartilha persuasiva e didática que nos esclarece sobre como nós e nossas famílias podemos nos relacionar com o dinheiro e seu poder.
Angélica, psicóloga renomada e esclarecida, nos conduz com maestria pelos tortuosos caminhos que a psique humana costuma trilhar para acolher ou rejeitar os benefícios, desafios ou bonificações que esse bem essencial, dinheiro, nos pode trazer.
Olegário, de formação técnica excelente como aviador, além de ser consultor financeiro, explicita através de gráficos e argumentos sólidos, pormenorizadamente, todos os meios que podemos utilizar para otimizar o dinheiro e as finanças para o futuro de nossa família.
A feliz combinação de psicologia aplicada e fundamentos econômicos é um caminho seguro para entendermos que dinheiro e seu uso podem trazer felicidade sim, ao contrário do que diz o adágio. Não importa quanto temos ou quanto podemos ter, a busca de um futuro feliz e com disponibilidade de caixa para realizar sonhos é possível e desejável.
Do livro depreende-se que dinheiro tem um aspecto dualista: é ferramenta e produto. Como ferramenta ou instrumento, pode semelhar-se a um martelo, por exemplo, podemos usá-lo para pregar coisas úteis, para construir, ou podemos dar uma martelada no dedo, o que não é agradável. Como produto ele tem preço, mercado, liquidez e lucro ou prejuízo. Podemos “vendê-lo” bem fazendo aplicações que dão lucro (juros), ou podemos “comprá-lo” a preços mais baixos.
Uma coisa que fica evidente é que famílias disfuncionais, tendo muito ou pouco dinheiro, sempre têm uma má relação com ele, e isso se reflete em todo “modus vivendi” que essas famílias assumem. Para haver harmonia entre membros da família e um possível futuro confortável é preciso que se desmistifique os preconceitos que rondam o dinheiro em toda sua história. Ele não é intrinsecamente bom ou ruim, o uso que dele fazemos é que trará resultados bons ou ruins, e pronto.
Recomendo a leitura de “Família, afeto e finanças” como o melhor livro sobre o tema disponível por aí. Boa leitura! JAIR, Floripa, 10/11/12. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Cenote

Turistas nadando no Cenote Ik-Kil
Próximo à cidade em que vim ao mundo, Palmeira, existe um enorme formação rochosa de arenito que, onde aflorou, deu origem a Vila Velha, monumentos rochosos naturais esculpidos por água e ventos; e, onde não é visível, permite a existência de rios subterrâneos que, eventualmente, formam cavernas, uma das quais descobri juntamente com meu primo Joel e já a descrevi neste blogue. Pois bem, os rios subterrâneos tendem a corroer o arenito formando a ditas cavernas e, em alguns casos, o teto desmorona dando forma a buracos redondos que lá chamamos de furnas. Bem próximo a Vila Velha existem três furnas, sendo a mais impressionante um poço circular de oitenta metros de diâmetro com mais de cem metros de profundidade e cinquenta metros de água.
Na península de Yucatán acontece algo semelhante, mas em escala centenas de vezes maior e mais espetacular. A península de Yucatán é uma planície calcária e não possui córregos ou rios de superfície. Contudo, por ser calcária – e o calcário é rocha menos resistente que o arenito – há uma profusão de rios subterrâneos. Mais do que no Paraná os rios da península formam cavernas em maior número e estas, também em maior número, tendem a desmoronar formando poços arredondados e profundos, lá chamados cenotes. Esses cenotes – mais de oitocentos - estão espalhados por toda a península, mas o mais importante chama-se cenote sagrado de Chichén Itzá e está localizado junto ao sítio arqueológico maya Chichén Itzá que numa tradução livre quer dizer "boca do poço do Itza".
Os mayas consideravam que o cenote sagrado era uma das três entradas para o paraíso dos mortos. Eles acreditavam que podiam se comunicar com os deuses e ancestrais, oferecendo sacrifícios no cenote. Os Mayas costumavam rezar por colheitas abundantes, chuvas boas e fortuna. Depois do “descobrimento” até padres coletavam água do cenote que eles julgavam ser sagrado, para eles a água era benta. Os sacerdotes mayas lançavam oferendas em forma de cerâmica, peças de ouro e prata e, eventualmente, prisioneiros sacrificados ao cenote.
Porque a água dos cenotes é altamente alcalina costuma preservar até objetos perecíveis. Objetos de madeira, por exemplo, que em outro meio teriam desaparecido, foram encontrados em boas condições naquela água. A possível existência de valiosos tesouros no fundo do cenote sagrado aguçou a ganância de exploradores desde que se descobriu Chichén Itzá. Assim, em 1904, Edward Herbert Thompson, vice-cônsul dos EUA no México, comprou a área de Chichén Itzá com o único intuito de prospectar o fundo do cenote sagrado em busca de tesouros mayas. Para isso usou um sistema de roldanas acionado por motor a vapor que incluía uma série de grande baldes numa corrente, os quais, como uma draga, iam retirando a lama do fundo e vertendo-a numa depressão próxima. Em seguida pesquisava-se a lama que acabou oferecendo uma grande variedade de objetos de madeira, incluindo armas, cetros, ídolos, ferramentas e jóias. Jade foi a maior categoria de objetos encontrados seguido de têxteis. A presença de jade, ouro, cobre no cenote oferece uma prova da importância das Chichén Itzá como um centro cultural. Nenhuma dessas matérias-primas é nativa do Yucatán, supondo que pessoas (outros mayas) viajaram para Chichén Itzá de outros lugares da América Central, a fim de adorar os deuses. Pedra, cerâmica, ossos humanos e conchas também foram encontrados no cenote. Arqueólogos descobriram que muitos objetos mostram evidências de serem intencionalmente danificados antes de serem jogados no cenote, denotando uma ritualidade não muito clara do porquê dessa atitude.
A maioria das principais descobertas do cenote feitas sob a supervisão de Edward Herbert Thompson ele vendeu. Oitenta por cento do resultado dessa busca de Thompson pode ser encontrado no Museu Peabody da Universidade de Harvard, os restantes vinte por cento foram vendidos para o governo mexicano e se encontram no Museu Maya na Cidade do México.
Em 1909, Thompson decidiu mergulhar no cenote para explorar o fundo. Apesar da pouca visibilidade ele encontrou uma camada de cinco metros de lama que continha vários objetos de ouro. Em 1961, William Folan, um diretor de campo para o Instituto Nacional de Antropologia e Historia (INAH), ajudou a lançar outra expedição ao cenote.
Algumas das suas descobertas notáveis incluíram um osso com inscrições e uma faca de obsidiana com cabo de ouro, revestida numa bainha de madeira com mosaico de jade e turquesa. Em 1967, Román Piña Chán fez outra expedição. Ele tentou dois novos métodos que muitas pessoas tinham sugerido por um longo tempo: o esvaziamento da água do cenote e clarificação da água. Ambos os métodos foram apenas parcialmente bem sucedidos. Apenas cerca de quatro metros de água puderam ser removidos, o cenote é alimentado por rio subterrâneo que impede seu esvaziamento total. Também a água foi clarificada por apenas um curto período de tempo.
Depois dessas incursões não muito produtivas, o governo mexicano proibiu quaisquer prospecções no local e o definiu como patrimônio histórico nacional. Tive oportunidade de visitar o Cenote Ik-kil que está liberado para natação para os turistas. Para isso, foi construída uma “rampa” em forma de túnel em espiral que dá acesso ao espelho d’áqua a quase trinta metros de profundidade. Atualmente, mergulhadores especializados em cavernas costumam explorar outros cenotes do Yucatán onde têm encontrado ossos de animais pré históricos e algumas ossadas humanas eventualmente, mas nunca tesouros. JAIR, Floripa, 07/10/12.