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terça-feira, 19 de abril de 2011

Cachorros

Acredito que nossa vida diária, além de constituir-se daquilo que aprendemos, daquilo que construímos e das escolhas que fazemos, é marcada por aqueles animais que nos acompanharam, em algum momento, nas boas e más horas. Cães, como animais de companhia ou de guarda, partilham a vida de muitas pessoas desde sempre, parece que o homem domesticou o lobo asiático, e o converteu nas centenas de variedades que o acompanham no processo civilizatório, para fazer do cão mais do que um bicho de estimação. Lembremos que, além de guarda e de companhia, o cachorro serviu e ainda serve para alguns povos como fonte de proteínas (Chineses versus Shar-pei) e, em alguns casos, para aquecer as pessoas durante o inverno. Praticamente todos nós somos marcados por episódios, eventos, períodos ou simples acasos que relacionaram nosso cotidiano com esses animais tão amigos e tão fiéis.

Como não sou diferente de ninguém tenho, desde muito pequeno, passagens em que os cães partilharam dos meus dias. Lembro que desde que nasci, ou melhor, logo depois que vim ao mundo, meu pai adquiriu um filhote de cão SRD (sem raça definida, eufemismo para vira-latas), pequeno, bem peludo, de coloração castanha que se assemelhava com um Spaniel. Zuque era o nome do bichinho, ficou velho em nossa casa e, como eu havia me criado sempre com ele, me parecia que o Zuque fazia parte do mobiliário; que era um membro da família que sempre estivera ali. O dia que morreu num triste acidente doméstico, me fez entender que cães não vivem para sempre, são seres inexplicavelmente mortais. Ele e eu tínhamos por volta de dez anos e o meu companheiro de todas as horas, Zuque, foi enterrado no quintal. Não muito tempo depois veio o Urso, outro vira-latas, só que com ares de Basset, tinha as pernas curtas. Urso era um cão malandro, gostava de rua, gostava passear pelo bairro e por lugares mais distantes, parece que fazia amizade com outros cães e ia visitá-los vez ou outra. Pobre Urso, costumava sair com meu pai para pescarias e caçadas que duravam o fim de semana, as vezes até três ou quatro dias, numa dessas excursões jamais voltou, nunca ficamos sabendo o que lhe aconteceu, mas pode ter se perdido ou ter sido mordido por cobra e morrido. Foi-se para sempre um cachorro esperto e muito querido.

Cresci e saí de minha cidade natal e, pelo que sei, em minha casa só existiam gatos, animais preferidos de minha mãe. Quando casei minha mulher ficava sozinha as vezes vários dias, então vimos necessidade de ter um cachorro para lhe fazer companhia e cuidar da casa. O ônus caiu sobre as costas do Rin-tim, cachorro viralatês puro que vivia com a família dela já há alguns anos. O Rin-tim era um animal buliçoso e meio rebelde, mas fazia a guarda da casa com eficiência, depois que enlacei ao redor do imóvel um anel de arame onde atrelei sua corrente. Ele podia rodear a casa 360 graus, e o fazia com grande energia. O Rin-tim foi devolvido à família dela depois que ganhamos o Kafu, pastor alemão capa preta. Kafu foi meu melhor cão, até mereceu um texto especial onde digo: “Suportava com estoicismo o banho de mangueira com xampu e desinfetante todos os sábados, mas, depois de secar-se, procurava sujar-se quase imediatamente, parecia querer dizer: “submeti-me ao banho de acordo com a vontade vocês, agora me sujo de acordo com a minha, e estamos conversados”. Era afeiçoado ao nosso primeiro filho, de pouco mais de um ano, o qual respeitava e, apesar de ser maior e mais pesado, jamais o afrontou. Morreu de “saudade” porque mudamos de cidade e o deixamos com outra família.

Num gesto ousado, em desacordo com meu orçamento doméstico, comprei por alto preço uma cadela Boxer com pedigree, Sandra Bréia. Mas nos papéis seu nome constava com sendo Nadja de Abatiá. Sobre essa boxer tenho a dizer duas coisas: meu filho mais velho era bebezinho e, contrariando o que se espera, a primeira palavra que pronunciou foi Bréia; A cadela veio a falecer de uma doença de pele que a deixava em carne viva, a pobre cachorrinha morreu ainda muito jovem. Depois veio a Rainha, a Collier mais buraqueira que já vi. Estragou todo o jardim o qual nós cuidávamos com desvelo, com suas escavações inconsequentes, parecia um autêntico cão-tatu se é que esse bicho existe. Em resultado desse comportamento foi doada a um amigo que gostava muito dela.

Já morando no Rio de Janeiro tivemos um Pastor dinamarquês do porte de um bezerro que viveu com a gente por dois anos até que o doamos para o Diniz, um amigo que tinha casa de praia em Piratininga e adorava cães grandes. Por último, na casa de Higienópolis onde havia uma quadra de vôlei e bastante espaço, trouxemos o Zimbo, vira-latas um quarto de Basset, filho da Xixa, uma meio Basset do meu irmão Ruy. Quis o destino, mais uma vez, que nos mudássemos de casa térrea para apartamento, daí o Zimbo foi morar com amigo meu, colega de trabalho. Acontece que o cãozinho era endiabrado, saía correndo em qualquer direção sem olhar onde, foi atropelado na Estrada do Galeão e acabou-se a história de cães adotados na minha vida.

Para finalizar, existe a Sissi, cadela Schnauzer do meu amigo Adson, a qual está apaixonada por mim, toda vez que me vê se derrete como manteiga aquecida. Ambos meus filhos têm histórias de cachorros em suas vidas, Adriano tinha uma cadela chamada Jess que era o animal mais inteligente que já vi. O Augusto possuía um Chiuauha, Zeeco que sofreu um acidente fatal depois que sua ex namorada o colocou no ombro de maneira irresponsável.

De qualquer forma, praticamente todos temos, tivemos ou vamos ter um cachorro na nossa vida, é uma decorrência natural depois que ambos, Homo sapiens e Canis Familiares caímos nos braços um do outro há dez mil anos e, pelo jeito, para sempre. JAIR, Floripa, 21/01/11.