sábado, 21 de julho de 2012
Dingo
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Cachorros II

Mas, a relação homem-cão é muito antiga, remonta há dez mil anos quando as primeiras tribos humanas começaram a deixar o nomadismo de caçadores-coletores e passaram a se fixar na terra tornando-se pastores-agricultores, isto é, praticamente desde os primeiros alvores do que chamamos civilização. Sabe-se que esses homens primitivos domesticaram o lobo asiático e dele, através de seleção genética, foram criando as primeiras “raças” que acabaram dando a origem às centenas que conhecemos na atualidade.
Para nós pode parecer estranho que os Homo daquele tempo tenham domesticado o lobo, contudo, devemos lembrar que o animal – selvagem ou não – procura fundamentalmente duas coisas: alimento e segurança. Portanto é razoável supor que os primeiros aglomerados humanos produziam rejeitos que atraiam os animais, principalmente em épocas de escassez. Ossos e restos de comida deviam ser convidativos aos lobos famintos. Uma vez que os animais se aproximavam, os mais mansos podiam ser capturados e mantidos em cativeiro, ou mesmo apenas dentro do perímetro da aldeia onde recebiam alimentos, se sentiam seguros e podiam procriar sem problema. E, como não existe almoço grátis, os homens obtinham uma fonte de proteínas segura para os dias difíceis e usavam os animais como fonte de calor nas noites invernais, além de contar com eles como sentinelas de suas casas. Era uma simbiose perfeita em que ambos ganhavam e que continua existindo em certas sociedades primitivas até hoje.
Pois bem, sempre chamou-me a atenção a irresistível atração entre populações pobres e os cães. Onde existe gente pobre existe cachorros em quantidades significativas. Mendigos atraem cães e são atraídos por eles também. Morei aqui em Floripa num condomínio recém formado em um bairro de classe média baixa. Ao me mudar não havia muitos moradores no condomínio, de modo que havia bem poucos cachorros ainda. Fiquei observando como evoluiria a população canina então. Não foi preciso esperar muito, a comunidade tinha duzentas casas e quando umas cento e cinquenta estavam ocupadas já havia uma quantidade de cães que empatava com o número de ocupações. E daí para frente o número de cachorros só fez aumentar. Não sei como está hoje, porque de lá me mudei, mas garanto que quando saí havia mais cães que famílias.
Para contrariar minha assertiva que cães e pobres se atraem como pólos opostos de imãs, conto que quando estive em Cuba há cinco anos, esperava encontrar muitos cachorros nos bairros pobres de Havana, enganei-me. Apesar da extensa e visível pobreza das classes operárias de Cuba, pude observar que os canídeos eram quase inexistentes pelas ruas e casas. Sempre que visito outros países costumo escrever minhas impressões primeiras sobre o que vejo de peculiar, exótico, curioso ou mesmo comum na sociedade. Em virtude, produzi um texto meio jocoso: “Donde están los perros?” quando voltei daquela Ilha Caribenha. Confesso que não me atrevi a publicá-lo por que poderia parecer meio preconceituoso com as pessoas de lá, mas, principalmente, preconceituoso com os cachorros. Não tenho dúvidas que não sou habilitado a falar sobre o regime político da Ilha. E mais ainda, é impossível escrever qualquer coisa sobre Cuba sem acrescentar uma opinião política a tudo que disser, e política não é minha praia.
Mas, sem qualquer ranço ou viés político, os cães são os animais sem os quais a humanidade não teria tomado o rumo que tomou no decurso civilizatório que nos tornou o que somos hoje. Os cães sofreram um processo evolutivo artificial que os tornou, cada vez mais, seres adaptados às necessidades e idiossincrasias humanas em todos os níveis e consoantes todas nossas exigências do dia-a-dia. Desde o cãozinho ornamental cheio de fitinhas e laçarotes das madames até os cães pastores que contribuem para a segurança de rebanhos em qualquer parte do mundo, passando por sentinelas e condutores de deficientes visuais, ou, nas guerras onde eles foram condicionados a levar explosivos para baixo de tanques inimigos, como fizeram os russos, canídeos dão uma contribuição fundamental para quase tudo que fazemos. Até mais que isso, os cães são nossas companhias e nossos cúmplices em toda nossa história, nós e eles partilhamos uma vida comum e não há como referir-se a cultura dos povos e nações sem fazer referência a importância que eles tiveram e tem no rumo da civilização que construímos. Estejamos certos, se um dia o homem conquistar o espaço sideral e conseguir explorar outros planetas, o cão estará ao seu lado. Viva nossos fiéis companheiros de jornada! JAIR, Floripa, 21/09/11.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Cachorros
Acredito que nossa vida diária, além de constituir-se daquilo que aprendemos, daquilo que construímos e das escolhas que fazemos, é marcada por aqueles animais que nos acompanharam, em algum momento, nas boas e más horas. Cães, como animais de companhia ou de guarda, partilham a vida de muitas pessoas desde sempre, parece que o homem domesticou o lobo asiático, e o converteu nas centenas de variedades que o acompanham no processo civilizatório, para fazer do cão mais do que um bicho de estimação. Lembremos que, além de guarda e de companhia, o cachorro serviu e ainda serve para alguns povos como fonte de proteínas (Chineses versus Shar-pei) e, em alguns casos, para aquecer as pessoas durante o inverno. Praticamente todos nós somos marcados por episódios, eventos, períodos ou simples acasos que relacionaram nosso cotidiano com esses animais tão amigos e tão fiéis.
Como não sou diferente de ninguém tenho, desde muito pequeno, passagens em que os cães partilharam dos meus dias. Lembro que desde que nasci, ou melhor, logo depois que vim ao mundo, meu pai adquiriu um filhote de cão SRD (sem raça definida, eufemismo para vira-latas), pequeno, bem peludo, de coloração castanha que se assemelhava com um Spaniel. Zuque era o nome do bichinho, ficou velho em nossa casa e, como eu havia me criado sempre com ele, me parecia que o Zuque fazia parte do mobiliário; que era um membro da família que sempre estivera ali. O dia que morreu num triste acidente doméstico, me fez entender que cães não vivem para sempre, são seres inexplicavelmente mortais. Ele e eu tínhamos por volta de dez anos e o meu companheiro de todas as horas, Zuque, foi enterrado no quintal. Não muito tempo depois veio o Urso, outro vira-latas, só que com ares de Basset, tinha as pernas curtas. Urso era um cão malandro, gostava de rua, gostava passear pelo bairro e por lugares mais distantes, parece que fazia amizade com outros cães e ia visitá-los vez ou outra. Pobre Urso, costumava sair com meu pai para pescarias e caçadas que duravam o fim de semana, as vezes até três ou quatro dias, numa dessas excursões jamais voltou, nunca ficamos sabendo o que lhe aconteceu, mas pode ter se perdido ou ter sido mordido por cobra e morrido. Foi-se para sempre um cachorro esperto e muito querido.
Cresci e saí de minha cidade natal e, pelo que sei, em minha casa só existiam gatos, animais preferidos de minha mãe. Quando casei minha mulher ficava sozinha as vezes vários dias, então vimos necessidade de ter um cachorro para lhe fazer companhia e cuidar da casa. O ônus caiu sobre as costas do Rin-tim, cachorro viralatês puro que vivia com a família dela já há alguns anos. O Rin-tim era um animal buliçoso e meio rebelde, mas fazia a guarda da casa com eficiência, depois que enlacei ao redor do imóvel um anel de arame onde atrelei sua corrente. Ele podia rodear a casa 360 graus, e o fazia com grande energia. O Rin-tim foi devolvido à família dela depois que ganhamos o Kafu, pastor alemão capa preta. Kafu foi meu melhor cão, até mereceu um texto especial onde digo: “Suportava com estoicismo o banho de mangueira com xampu e desinfetante todos os sábados, mas, depois de secar-se, procurava sujar-se quase imediatamente, parecia querer dizer: “submeti-me ao banho de acordo com a vontade vocês, agora me sujo de acordo com a minha, e estamos conversados”. Era afeiçoado ao nosso primeiro filho, de pouco mais de um ano, o qual respeitava e, apesar de ser maior e mais pesado, jamais o afrontou. Morreu de “saudade” porque mudamos de cidade e o deixamos com outra família.
Num gesto ousado, em desacordo com meu orçamento doméstico, comprei por alto preço uma cadela Boxer com pedigree, Sandra Bréia. Mas nos papéis seu nome constava com sendo Nadja de Abatiá. Sobre essa boxer tenho a dizer duas coisas: meu filho mais velho era bebezinho e, contrariando o que se espera, a primeira palavra que pronunciou foi Bréia; A cadela veio a falecer de uma doença de pele que a deixava em carne viva, a pobre cachorrinha morreu ainda muito jovem. Depois veio a Rainha, a Collier mais buraqueira que já vi. Estragou todo o jardim o qual nós cuidávamos com desvelo, com suas escavações inconsequentes, parecia um autêntico cão-tatu se é que esse bicho existe. Em resultado desse comportamento foi doada a um amigo que gostava muito dela.
Já morando no Rio de Janeiro tivemos um Pastor dinamarquês do porte de um bezerro que viveu com a gente por dois anos até que o doamos para o Diniz, um amigo que tinha casa de praia em Piratininga e adorava cães grandes. Por último, na casa de Higienópolis onde havia uma quadra de vôlei e bastante espaço, trouxemos o Zimbo, vira-latas um quarto de Basset, filho da Xixa, uma meio Basset do meu irmão Ruy. Quis o destino, mais uma vez, que nos mudássemos de casa térrea para apartamento, daí o Zimbo foi morar com amigo meu, colega de trabalho. Acontece que o cãozinho era endiabrado, saía correndo em qualquer direção sem olhar onde, foi atropelado na Estrada do Galeão e acabou-se a história de cães adotados na minha vida.
Para finalizar, existe a Sissi, cadela Schnauzer do meu amigo Adson, a qual está apaixonada por mim, toda vez que me vê se derrete como manteiga aquecida. Ambos meus filhos têm histórias de cachorros em suas vidas, Adriano tinha uma cadela chamada Jess que era o animal mais inteligente que já vi. O Augusto possuía um Chiuauha, Zeeco que sofreu um acidente fatal depois que sua ex namorada o colocou no ombro de maneira irresponsável.
De qualquer forma, praticamente todos temos, tivemos ou vamos ter um cachorro na nossa vida, é uma decorrência natural depois que ambos, Homo sapiens e Canis Familiares caímos nos braços um do outro há dez mil anos e, pelo jeito, para sempre. JAIR, Floripa, 21/01/11.
