
Em 1860 as relações entre o Império brasileiro e o inglês não eram assim tão cordiais, os ingleses, por puro interesse comercial, exerciam pressão política para que o Brasil abolisse a escravidão no país. Inclusive, o “Império onde o sol nunca se põe” não hesitava em usar sua extraordinária armada que cobria “os sete mares” para exercer pressão do mais forte sobre o mais fraco, esperando manter e até ampliar seu mercado consumidor no território brasileiro com a criação de uma classe de trabalhadores assalariados. Além disso, com o capitalismo industrial se expandindo pela Europa, havia agora concorrentes que abocanhavam fatias de mercado antes pertencentes aos ingleses, e estes lutavam com todos os meios para não perderem consumidores. Até na América do Sul, o Paraguai com suas indústrias de tecidos era visto como uma ameaça ao comércio inglês, e isto era imperdoável, segundo a visão mercantilista do império dono dos mares.
A tensão entre os dois países aumentou quando, em abril de 1861, um navio britânico, o Prince of Wales, encalhou em Albardão, localidade no sul do Rio Grande do Sul. A região de Albardão é conhecida com cemitério de navios porque possui litoral em forma de rampa, traiçoeiros bancos de areia e fortes ventos que empurram os navios para a costa, onde encalham. E, barcos encalhados, passam a ser objeto de saque por parte dos habitantes da região, conhecidos como piratas de terra, que, à noite, costumavam fazer sinais de luzes para atrair os navios. Provavelmente foi assim que o Prince of Wales encalhou. O barco inglês foi depenado de sua carga e dezesseis de seus tripulantes foram trucidados. Os sobreviventes procuraram o cônsul inglês que residia na cidade de Rio Grande, e este se deslocou até o local do encalhe onde encontrou os corpos do capitão, sua esposa e dois filhos.
O incidente era gravíssimo, e a Rainha Vitória que não estava propensa a levar desaforo para casa, ameaçou com sua poderosa marinha se o Brasil não pedisse desculpas e indenizasse o navio saqueado. Mas o Imperador Don Pedro II, com arrogância de monarca ofendido se recusou a qualquer atitude que, remotamente, desse a impressão de submissão. Disse, lá com seus botões, que não pagaria coisa alguma e não pediria desculpas.
No ano seguinte, a situação agravou-se ainda mais. Marinheiros ingleses bêbados, de folga na zona portuário do Rio de Janeiro, entraram em luta corporal armada com cidadãos brasileiros por causa de prostitutas e foram presos. O embaixador inglês, William Dougal Christie, cheio de empáfia que lhe impunha o cargo de embaixador da maior potência marítima do Planeta, exigiu a soltura de seus marinheiros e insistiu na indenização do navio saqueado, no pedido de desculpas oficial e na punição dos policiais envolvidos na prisão. Don Pedro, como seu homólogo bíblico, negou pela segunda vez reconhecer as reivindicações inglesas.
Acontece que a Inglaterra se sentia (e era) tão poderosa que se recusava até a que seus cidadãos se submetessem à justiça brasileira, e, para isso, havia instituído um tribunal no Rio de Janeiro para julgar os britânicos que infligissem as nossas leis.
Em 1863, numa retaliação às inadmissíveis atitudes do Brasil, a poderosa esquadra britânica abordou e arrestou vários navios da nossa frota em alto mar, além de ameaçar bombardear a capital do Império, o Rio de Janeiro. Diante dessa agressão, o Imperador brasileiro se viu ofendido e rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, bem como solicitou intermediação do rei Leopoldo da Bélgica, sobre a “Questão Christie” que já se arrastava por dois anos. O surpreendente é que, mesmo sendo tio da rainha Vitória, o rei Leopoldo deu ganho de causa para o Brasil, mas, a essa altura, o embaixador Christie já havia obrigado o Monarca a pagar a indenização exigida pela potência maior. Ficou no prejuízo o Imperador que havia, por duas vezes, se negado a reconhecer a exigência dos ingleses.
O insólito desse quid pro quo é que as relações entre o Brasil imperial e seus vizinhos paraguaios se deterioravam dia a dia insuflados pela Inglaterra, de modo que Don Pedro, deglutindo o batráquio, se viu obrigado a reatar relações com os ingleses, sem as quais não poderia adquirir armas para a guerra que se avizinhava. E, a Albion, que não prega prego sem estopa, forneceu armas para as quatro nações beligerantes e ficou assistindo de camarote o desfecho que, qualquer que fosse, lhe seria favorável. E tudo continuou com dantes no quartel d’Abrantes. JAIR, Floripa, 12/02/10.
A tensão entre os dois países aumentou quando, em abril de 1861, um navio britânico, o Prince of Wales, encalhou em Albardão, localidade no sul do Rio Grande do Sul. A região de Albardão é conhecida com cemitério de navios porque possui litoral em forma de rampa, traiçoeiros bancos de areia e fortes ventos que empurram os navios para a costa, onde encalham. E, barcos encalhados, passam a ser objeto de saque por parte dos habitantes da região, conhecidos como piratas de terra, que, à noite, costumavam fazer sinais de luzes para atrair os navios. Provavelmente foi assim que o Prince of Wales encalhou. O barco inglês foi depenado de sua carga e dezesseis de seus tripulantes foram trucidados. Os sobreviventes procuraram o cônsul inglês que residia na cidade de Rio Grande, e este se deslocou até o local do encalhe onde encontrou os corpos do capitão, sua esposa e dois filhos.
O incidente era gravíssimo, e a Rainha Vitória que não estava propensa a levar desaforo para casa, ameaçou com sua poderosa marinha se o Brasil não pedisse desculpas e indenizasse o navio saqueado. Mas o Imperador Don Pedro II, com arrogância de monarca ofendido se recusou a qualquer atitude que, remotamente, desse a impressão de submissão. Disse, lá com seus botões, que não pagaria coisa alguma e não pediria desculpas.
No ano seguinte, a situação agravou-se ainda mais. Marinheiros ingleses bêbados, de folga na zona portuário do Rio de Janeiro, entraram em luta corporal armada com cidadãos brasileiros por causa de prostitutas e foram presos. O embaixador inglês, William Dougal Christie, cheio de empáfia que lhe impunha o cargo de embaixador da maior potência marítima do Planeta, exigiu a soltura de seus marinheiros e insistiu na indenização do navio saqueado, no pedido de desculpas oficial e na punição dos policiais envolvidos na prisão. Don Pedro, como seu homólogo bíblico, negou pela segunda vez reconhecer as reivindicações inglesas.
Acontece que a Inglaterra se sentia (e era) tão poderosa que se recusava até a que seus cidadãos se submetessem à justiça brasileira, e, para isso, havia instituído um tribunal no Rio de Janeiro para julgar os britânicos que infligissem as nossas leis.
Em 1863, numa retaliação às inadmissíveis atitudes do Brasil, a poderosa esquadra britânica abordou e arrestou vários navios da nossa frota em alto mar, além de ameaçar bombardear a capital do Império, o Rio de Janeiro. Diante dessa agressão, o Imperador brasileiro se viu ofendido e rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, bem como solicitou intermediação do rei Leopoldo da Bélgica, sobre a “Questão Christie” que já se arrastava por dois anos. O surpreendente é que, mesmo sendo tio da rainha Vitória, o rei Leopoldo deu ganho de causa para o Brasil, mas, a essa altura, o embaixador Christie já havia obrigado o Monarca a pagar a indenização exigida pela potência maior. Ficou no prejuízo o Imperador que havia, por duas vezes, se negado a reconhecer a exigência dos ingleses.
O insólito desse quid pro quo é que as relações entre o Brasil imperial e seus vizinhos paraguaios se deterioravam dia a dia insuflados pela Inglaterra, de modo que Don Pedro, deglutindo o batráquio, se viu obrigado a reatar relações com os ingleses, sem as quais não poderia adquirir armas para a guerra que se avizinhava. E, a Albion, que não prega prego sem estopa, forneceu armas para as quatro nações beligerantes e ficou assistindo de camarote o desfecho que, qualquer que fosse, lhe seria favorável. E tudo continuou com dantes no quartel d’Abrantes. JAIR, Floripa, 12/02/10.