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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A QUESTÃO CHRISTIE, ou COMO O IMPÉRIO BRASILEIRO ENGOLIU UM SAPO BRETÃO


Em 1860 as relações entre o Império brasileiro e o inglês não eram assim tão cordiais, os ingleses, por puro interesse comercial, exerciam pressão política para que o Brasil abolisse a escravidão no país. Inclusive, o “Império onde o sol nunca se põe” não hesitava em usar sua extraordinária armada que cobria “os sete mares” para exercer pressão do mais forte sobre o mais fraco, esperando manter e até ampliar seu mercado consumidor no território brasileiro com a criação de uma classe de trabalhadores assalariados. Além disso, com o capitalismo industrial se expandindo pela Europa, havia agora concorrentes que abocanhavam fatias de mercado antes pertencentes aos ingleses, e estes lutavam com todos os meios para não perderem consumidores. Até na América do Sul, o Paraguai com suas indústrias de tecidos era visto como uma ameaça ao comércio inglês, e isto era imperdoável, segundo a visão mercantilista do império dono dos mares.
A tensão entre os dois países aumentou quando, em abril de 1861, um navio britânico, o Prince of Wales, encalhou em Albardão, localidade no sul do Rio Grande do Sul. A região de Albardão é conhecida com cemitério de navios porque possui litoral em forma de rampa, traiçoeiros bancos de areia e fortes ventos que empurram os navios para a costa, onde encalham. E, barcos encalhados, passam a ser objeto de saque por parte dos habitantes da região, conhecidos como piratas de terra, que, à noite, costumavam fazer sinais de luzes para atrair os navios. Provavelmente foi assim que o Prince of Wales encalhou. O barco inglês foi depenado de sua carga e dezesseis de seus tripulantes foram trucidados. Os sobreviventes procuraram o cônsul inglês que residia na cidade de Rio Grande, e este se deslocou até o local do encalhe onde encontrou os corpos do capitão, sua esposa e dois filhos.
O incidente era gravíssimo, e a Rainha Vitória que não estava propensa a levar desaforo para casa, ameaçou com sua poderosa marinha se o Brasil não pedisse desculpas e indenizasse o navio saqueado. Mas o Imperador Don Pedro II, com arrogância de monarca ofendido se recusou a qualquer atitude que, remotamente, desse a impressão de submissão. Disse, lá com seus botões, que não pagaria coisa alguma e não pediria desculpas.
No ano seguinte, a situação agravou-se ainda mais. Marinheiros ingleses bêbados, de folga na zona portuário do Rio de Janeiro, entraram em luta corporal armada com cidadãos brasileiros por causa de prostitutas e foram presos. O embaixador inglês, William Dougal Christie, cheio de empáfia que lhe impunha o cargo de embaixador da maior potência marítima do Planeta, exigiu a soltura de seus marinheiros e insistiu na indenização do navio saqueado, no pedido de desculpas oficial e na punição dos policiais envolvidos na prisão. Don Pedro, como seu homólogo bíblico, negou pela segunda vez reconhecer as reivindicações inglesas.
Acontece que a Inglaterra se sentia (e era) tão poderosa que se recusava até a que seus cidadãos se submetessem à justiça brasileira, e, para isso, havia instituído um tribunal no Rio de Janeiro para julgar os britânicos que infligissem as nossas leis.

Em 1863, numa retaliação às inadmissíveis atitudes do Brasil, a poderosa esquadra britânica abordou e arrestou vários navios da nossa frota em alto mar, além de ameaçar bombardear a capital do Império, o Rio de Janeiro.
Diante dessa agressão, o Imperador brasileiro se viu ofendido e rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, bem como solicitou intermediação do rei Leopoldo da Bélgica, sobre a “Questão Christie” que já se arrastava por dois anos. O surpreendente é que, mesmo sendo tio da rainha Vitória, o rei Leopoldo deu ganho de causa para o Brasil, mas, a essa altura, o embaixador Christie já havia obrigado o Monarca a pagar a indenização exigida pela potência maior. Ficou no prejuízo o Imperador que havia, por duas vezes, se negado a reconhecer a exigência dos ingleses.
O insólito desse quid pro quo é que as relações entre o Brasil imperial e seus vizinhos paraguaios se deterioravam dia a dia insuflados pela Inglaterra, de modo que Don Pedro, deglutindo o batráquio, se viu obrigado a reatar relações com os ingleses, sem as quais não poderia adquirir armas para a guerra que se avizinhava. E, a Albion, que não prega prego sem estopa, forneceu armas para as quatro nações beligerantes e ficou assistindo de camarote o desfecho que, qualquer que fosse, lhe seria favorável. E tudo continuou com dantes no quartel d’Abrantes. JAIR, Floripa, 12/02/10.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E O IMPÉRIO AMERICANO VAI BEM, OBRIGADO.



Os grandes impérios tinham por característica constituírem colônias em países e nações ocupados, geralmente depois de guerras de conquistas bem sucedidas, ou de "descobrimentos" seguidos de desembarques nem sempre pacíficos. Foi assim com os impérios: português, espanhol, britânico, francês, otomano e todos os demais, a exceção do americano. Este, de modo sintomático e compreensível, sempre preferiu estados-satélite ou protetorados a colônias formais, exemplos: Filipinas, Porto Rico, Ilhas Virgens Americanas e Cuba, (esta apenas até 1959, ano em que Fidel derrubou Batista e tornou-se ditador vitalício) incorporados ao império após guerra com a Espanha em 1898, sem contar que o Panamá foi “criado” a partir da Colômbia em 1903, só para satisfazer o desejo americano de construir um canal que ligasse o Atlântico ao Pacífico. Ao contrário das colônias tradicionais que compulsam o uso de manu militari para manter a ferro-e-fogo governos títeres sem representação, e completa submissão a seus patrões, estados-satélite e protetorados são versões mais "light" de colônias, porquanto permitem governos autônomos, constituições próprias, alguma autodeterminação e certa autonomia administrativa e econômica. Entre os problemas que se encontram neste tipo de território controlado estão o alinhamento automático político-militar e, muito mais importante, o atrelamento cultural e consumista à matriz: "O que é bom para os EUA, é bom para...". A primeira guerra mundial converteu os EUA numa potência. O fato de o país estar geograficamente distanciado do conflito e, ao mesmo tempo, engajado econômica, militar e politicamente ao lado dos vencedores, deu aos americanos oportunidade de desenvolvimento e influência econômica desmedida e potencialmente vantajosa. Depois da segunda guerra, - ocasião em os Estados Unidos, mais uma vez, havia desenvolvido suas indústrias a serviço dos aliados vencedores – o país se viu envolvido na chamada Guerra Fria, em que o “outro lado” impunha limitações ao expansionismo tácito que era seu “destino manifesto”, segundo o pensamento de William H. Seward, secretário de Estado de Lincoln, que pressionou o Congresso Americano para comprar o Alasca da Rússia. O destino manifesto e a força econômica americana, contudo, impuseram um expansionismo do império na Europa, no Japão e ilhas do Pacífico, onde bases militares floresceram e o American way of life virou referência para as nações ocupadas. Além disso, o Plano Marschall, um oportuno aprofundamento da Doutrina Truman, conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Européia, foi o principal plano dos EUA para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Claro que, ao lado da ocupação militar e da recuperação estrutural das indústrias, toda uma ideologia capitalista e um modus vivendi americano eram impostos implícita e compulsoriamente aos cidadãos. Mac Donald, Coca-cola e Wall Mart são só alguns exemplos. Com o fim da Guerra Fria, os óbices que limitavam a influência americana no mundo ruíram como havia ruído o muro de Berlim. Numa tese bem ao do gosto dos anunciadores da pós modernidade, Francis Fukuyama, filósofo nipo-americano, proclamou o “fim da história”, ou seja, o triunfo universal e definitivo do modus operandi político e econômico da sociedade capitalista. Não mais haveria dois pólos ideológicos puxando brasas para suas respectivas sardinhas, as chamadas “zonas de influência” deixavam de existir e, onde a cortina de ferro havia caído, uma terra ninguém ávida por provar o gostinho do capitalismo temperado com democracia, havia surgido para o júbilo dos neo expansionistas americanos. Ao mesmo tempo, a formidável e insuperável superioridade militar dos EUA e sua liberdade de ação após a desintegração da União Soviética encorajaram uma ambição desmedida num estado grande de poderoso o bastante para acreditar-se capaz de dominar o Planeta incontestável e cabalmente, coisa impensável para o Império Britânico, mesmo em seus tempos áureos. E, de fato, no início deste século, os Estados Unidos ocupavam uma posição histórica única e sem precedentes de poder e influência globais. No momento, levando em conta critérios tradicionais de política internacional, são a única grande potência; são hegemônicos. Todas as grandes potências e impérios da história sabiam que não estavam sozinhos, e nenhum deles almejava genuinamente dominar o mundo. Conheciam suficientemente de história para estarem cientes da impossibilidade do sonho. Mesmo o império chinês em seu auge estava ciente da possibilidade de ser conquistado e desintegrado, de assistir a queda de suas dinastias. No quadro atual, talvez não surpreenda que os políticos americanos sejam tentados pela ilusão de onipotência. A “nova ordem mundial” no período pós Guerra Fria parece ser uma hegemonia americana ampliada, ainda que seus detalhes não estejam claros. Mesmo a custa de sapatadas, as guerras de Bush indicam claramente que o momento é propício para o Império Americano colocar o pé definitivamente em locais onde antes não seria possível pela “ordem mundial” então vigente. E o Império Americano vai bem, obrigado. JAIR, Floripa, 06/11/09.