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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Caixa preta

Numa flagrante contradição, alguns cientistas costumam afirmar que o cérebro humano é mais complexo que o universo, como se fosse possível o conjunto maior ser mais simples que seu conteúdo. Fazendo uma analogia barata: um automóvel é tão ou mais complexo que seu mais complicado componente. Não dá para ser diferente. De qualquer forma, mesmo não sendo mais intrincado e ignoto que o universo que nos contém, o cérebro que foi definido como “carne pensante”, é uma máquina que fascina a todos e que ainda não conseguiu ter suas funções plenamente desvendadas.
Então vejamos, o conhecimento sobre esse componente essencial da maioria dos seres do reino animal está sendo acumulado ao longo de centenas de anos. Na medida em que a tecnologia vai se desenvolvendo, é comum as pessoas compararem o cérebro ao que há de mais “avançado” no campo das invenções e descobertas, assim, ele já foi comparado às máquinas a vapor quando estas estavam no auge; a centrais telefônicas e até a motores a explosão interna. Hoje, como não podia ser diferente, o cérebro é comparado a um computador. Mas quanto dessa comparação pode ser verdade?
A aproximação mais evidente que se faz é dizer que a massa cinzenta que compõe nosso cérebro seria o hardware e as experiências e os saberes acumulados seriam o software. Nada mais lógico para que tem necessidade de “enquadrar” o cérebro em algo que conhece e do qual faz uma avaliação positiva. Contudo, ainda que comparado com o que há de mais adiantado tecnologicamente em nosso Planeta, a comparação torna-se essencialmente anódina se levarmos em conta que computadores são projetados - e não poderia ser de outra forma – como uma linha de montagem: as ações seguem uma linha lógica, não há errância, isto é, o computar não divaga, não percorre atalhos e não toma decisões “erradas”. Já o maravilhoso cérebro funciona mais como uma caótica cidade grande com seu tráfego, suas pessoas indo e vindo e todas as implicações boas ou más da interação entre tudo que se move e todos os “obstáculos” que impedem ou dificultam o livre fluxo. Têm que se levar em conta que no cérebro, como na cidade grande, nem tudo dá certo o tempo todo. Imaginar que o cérebro sempre faz a coisa certa é uma estultice que o próprio cérebro produz, e, talvez, aí resida o grande óbice porque não conseguimos desvendar todos os mistérios dessa extraordinária caixa preta biológica.
Agora vem minha opinião. Como quem nos comanda; quem dá as cartas em todas nossas ações e escolhas; quem conduz nossa civilização, é o cérebro, a ele poderia ser atribuído o poder de não se “desvendar” não se expor em todos os seus mistérios. Digamos que o cérebro se auto preserva ao não permitir que tenhamos pleno conhecimento de como funciona. O mecanismo de defesa desse órgão é, justamente, não delegar ao homem o poder do conhecimento, algo assim como: você só poderá saber até onde eu permitir. O homem é prisioneiro de seu cérebro egoísta, não lhe é dada a faculdade de conhecê-lo em profundidade.
Essa possibilidade me faz lembrar o conto de Arthur C. Clark, “Os nove bilhões de nomes de Deus”, no qual ele conta a história de cientistas contratados por excêntricos monges tibetanos para fazer uso de um super computador para analisar todas as possibilidades de permutações de letras e chegar aos definitivos nove bilhões de nomes de Deus. Quando todos os nomes forem encontrados, o mundo acabará, pois o propósito do Universo terá sido alcançado. Assim, antecipando-se à criatividade do genial Clark, nosso cérebro faz tudo para não ser desvendado, pois se um dia isso acontecer, o propósito do Universo terá sido atingido e não mais haverá motivo para continuarmos existindo, será o fim da humanidade. O cérebro nos terá, mais uma vez, vencido então. JAIR, Floripa, 05/01/12.