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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sobre Colombo




Quando do “descobrimento” e colonização do Novo Mundo é senso comum e plenamente aceito que Pizarro e Cortez foram dois desumanos conquistadores que dizimaram sem a menor contemplação os nativos do México e do Peru. Sabe-se por relato dos próprios espanhóis as atrocidades que esses senhores cometeram contra os Astecas e Incas naquelas regiões, mas nada se diz sobre os primeiros contatos de Colombo com os nativos da ilha chamada Hispaniola, que depois passou a ser conhecida por ilha de São Domingos, e é onde sem encontram Haiti e República Dominicana hoje. Pois bem, outro espanhol, padre Bartolomé de Las Casas, grande defensor dos povos nativos americanos, nos deixou um documento do impacto que causou os desembarques de Colombo no Caribe.

Colombo achava que estava navegando para Cataio (China) e, para isso, carregava uma cópia impressa das viagens de Marco Polo àquela região e um tradutor que falava árabe, supondo que os mongóis ainda dominassem a China, apesar de terem sumido de lá depois de uma fragorosa derrota em 1268. Falta de informação era com ele mesmo!

Pois é, quase não se comenta, mas o Genovês fez quatro viagens ao Caribe. Na primeira, desembarcou na ilha Hispaniola com 120 homens para fazer exploração, crente que estava no oriente. O tainos que ali viviam cultivavam milho, batata-doce, pimenta, mandioca, algodão e tabaco, e eram pacíficos como cordeirinhos. Eles se adornavam de fragmentos de ouro em suas vestimentas e cabelos; não negociavam o precioso metal e não conheciam o ferro. Eram gentis, curiosos e amáveis; outras tribos que viviam em ilhas próximas costumavam guerrear, eles não. Os tainos receberam Colombo e, a pedido dele, o encaminharam aos locais onde existia ouro. Ao se retirar para a Espanha, Colombo deixou na ilha 40 homens para consolidar a ocupação, estes estupraram, brigaram, assassinaram e roubaram. O tainos, ainda que em legítima defesa, mataram todos.

Na viagem seguinte o número de homens que Colombo levou foi multiplicado por dez, eram 1200 homens, além de bovinos, porcos, cabras e cavalos. A idéia era montar uma colônia permanente. Mais uma vez o comportamento brutal dos espanhóis: estupros, roubos de comida e de ouro causou uma comoção tal que levou os tainos à guerra. Após um ano de combates, durante os quais os espanhóis mataram dezenas de milhares de uma população calculada em 250.000 almas, os sobreviventes foram obrigados a pagar tributos em ouro, alimentos e algodão tecido a título de indenização aos invasores. Parece que Hitler sabia dessa história ao obrigar os judeus a pagarem os prejuízos depois da “noites dos cristais” em 1938. Vale lembrar que não havia grandes depósitos de ouro na ilha, o que lá existia tinha sido acumulado durante séculos de coleta em terra, mas os invasores não quiseram saber, quem não conseguia pagar o tributo tinha as mãos decepadas depois era morto. Os animais trazidos pelos ibéricos dizimaram as plantações de alimentos dos tainos causando fome, doenças e morte.

Colombo voltou à Hispaniola mais duas vezes sempre acreditando que estava em ilha na costa da Ásia, sempre procurando ouro, pedras preciosas e especiarias para justificar as viagens. Era um ótimo navegador, mas um péssimo administrador, até para os padrões espanhóis, como diz De Las Casas. Em novembro de 1504, aos 53 anos, retornou definitivamente para a Espanha em semidesgraça, falecendo sete meses depois na miséria e esquecimento. Encerou sua desastrada vida de aventureiro com fome e doente como havia deixado os tainos em Hispaniola. Se existisse justiça divina, seria correto dizer que ela, neste caso, foi exemplarmente aplicada. JAIR, Floripa, 23/03/11.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A CIVILIZAÇÃO VALE A PENA?


Depois do descobrimento das Américas, quando os espanhóis desembarcaram nas proximidades de onde hoje é o México, encontraram uma civilização mais adiantada e sofisticada culturalmente que os europeus, eram os Astecas. Os Astecas foram uma grande civilização americana pré-colombiana, que floresceu principalmente entre os séculos quinze e dezesseis no território correspondente ao atual México, onde fundaram numa ilha, no centro de um lago formado na cratera de vulcão extinto, a cidade de Tenochtitlán, que hoje é a cidade do México. O império asteca era constituído por uma organização estatal que se sobrepôs militarmente a diversos povos como os toltecas e chichimecas; possuíam uma superioridade cultural e isso justificaria sua hegemonia política sobre as inúmeras comunidades nestas regiões, segundo eles mesmos – equivalente ao Bush justificando invadir o Iraque e o Afeganistão. No período anterior a sua expansão os astecas se encontravam no mesmo estágio cultural de seus vizinhos de outras etnias. Por um processo muito específico, comparável, nos tempos modernos e na civilização ocidental, ao processo que coloca, por exemplo, os Estados Unidos como potência militar e econômica acima das demais nações, tiveram uma expansão rápida e passaram a subjugar, dominar e tributar os povos das redondezas, outrora seus iguais. Eram imperialistas, nada diferente do colonialismo cultural, econômico e exploratório dos tempos atuais. A sociedade era hierarquizada e comandada por um imperador, chefe do exército. A nobreza era também formada por sacerdotes e chefes militares. A sucessão dos imperadores astecas não era hereditária de pai para filho, sendo estes eleitos por um consenso entre os membros da nobreza. A economia asteca estava baseada primordialmente no milho, e as pessoas acreditavam que as colheitas dependiam de provisão regular de sangue por meio dos sacrifícios, costume estranho, mas totalmente de acordo com cultura da época. Contudo, desenvolveram uma medicina adiantada que incluía até operações cirúrgicas cerebrais, eram ótimos astrônomos, ourives, arquitetos, metalúrgicos e seus trabalhos em cantaria de excente qualidade perduram até hoje. Sua civilização teve um fim abrupto com a chegada dos espanhóis no começo do século XVI, em 1519. Os espanhóis dominaram os astecas e tomaram grande parte dos objetos de ouro desta civilização. Não satisfeitos, ainda os escravizaram, forçando-os a trabalharem nas minas de ouro e prata da região. Aconteceu que o imperador Montezuma II considerou o conquistador espanhol a personificação do deus Quetzalcóatl, e não soube avaliar o perigo que seu reino corria. Ele recebeu Fernando Cortez amigavelmente, mas este, de modo covarde, tomou-o como refém. Em 1520 houve uma revolta asteca e Montezuma II foi assassinado. Seu sucessor, Cuauhtémoc, o último governante asteca, resistiu aos invasores, mas em 1521 Cortez sitiou Tenochtitlán e subjugou o império. Povos não-astecas, submetidos à Confederação, se uniram aos espanhóis contra os astecas. Os astecas foram completamente dizimados e sua civilização destruída pelos conquistadores espanhóis, comandados por Fernando Cortez. A pergunta que se impõe é: Como uma civilização muito mais avançada culturalmente, pode ser exterminada por verdadeiros “bárbaros” vindos do além mar? Quais os fatores que possibilitaram essa vitória por parte dos europeus? Nenhum mistério. Simplesmente, a civilização européia por esse tempo já dominava a manufatura do ferro e usava pólvora para fins bélicos, os astecas não. É importante lembrar este aspecto pelo fato dos astecas se terem tornado dominantes por uma expansão militar dentro de uma realidade que não contemplava uso de armas de ferro e pólvora. Por incapazes que fossem os europeus de erigir grandes obras de arquitetura mais complexa; de ostentarem avanços significativos na medicina, em especial nas intervenções cirúrgicas; ou de confeccionar calendários precisos e confiáveis, eles detinham a tecnologia que lhes permitia dominar pela força quaisquer outros povos que fossem menos afeitos às artes bélicas. Como hoje, a força se sobrepôs à civilização. Mal comparando, seria como se o Paquistão (que tem a bomba atômica) invadisse e dominasse o Japão (que não a tem). Um abraço pro gaiteiro! JAIR, Floripa, 12/03/09.