segunda-feira, 7 de maio de 2012

Olhando nuvens

Da minha janela leste
Não era um nefelibata, pois esse termo define aquele que tem “cabeça nas nuvens”, ou seja, quem não atina muito bem, pessoa que vive fora da realidade, em devaneio, sonhador, talvez até poeta, enfim. Era, antes, um apaixonado por esses seres mutáveis que adornam o céu sobre nossas cabeças pensantes. Estava totalmente fascinado por aqueles espectros gasosos que voam e se contorcem formando figuras sobre o fundo azul do céu. Sobre aquele azul propriamente chamado de cerúleo por traduzir uma cor só encontrável nas alturas e inimitável nas artes humanas. Nuvens eram seu hobby, seu norte e seu dia-a-dia, desde que acordava até o anoitecer quando aquelas fumacinhas esquivas se escondiam por trás da escuridão, ele as observava, analisava e se extasiava com suas convoluções, aspectos e movimentos. Havia aquelas alongadas e quase etéreas que sempre se punham lá no alto, bem acima das outras como a querer demonstrar que eram nobres, de uma casta superior que “não se mistura” com essas plebéias alvacentas e molengas que como se arrastam pelos ares inferiores e até poluídos, suas atitudes e altitude denotavam uma insuspeitada hierarquia núvica, se assim se pode dizer. Havia outras, apressadas, meio confusas, que pareciam não prestar atenção às elevações do terreno e até colidiam com elas. Havia as mais sonolentas, gorduchas e preguiçosas que quase não saíam do lugar desde que surgiam até quando desapareciam por causa de algum fenômeno que as fazia volatizar talvez. Havia outras ainda, muito altas como colunas celestiais que tinham um aspecto rancoroso e eram escuras, costumavam despejar catadupas, ventos e granizo causando confusão e estragos materiais. Havia as dengosas, as exuberantes, as tímidas e  as cheias de volúpia que pareciam querer seduzir os homens que as contemplavam. Existia aquelas abelhudas que colavam no solo e formavam o que chamamos de cerração ou nevoeiro, estas pareciam querer se imiscuir nos afazeres humanos e dificultá-los, tornavam-se nuvens dangerosas para os movimentos dos transportes terrestres, e entravam até nas casas se a porta estivesse aberta. Muitas eram molhadas e espalhavam seus rastros na forma de sereno, mas existiam algumas secas que não deixavam marcas por onde passavam. Eram muitas e variadas, mas havia dias que todas sumiam. O cerúleo do céu fica limpo, parecia dizer que todas as nuvens haviam se mudado ou estavam escondidas em algum lugar longe do alcance da nossa visão, mas ele sabia que não era nada disso, elas simplesmente estavam ali, só que transparentes, haviam entrado num estado que ele resolveu chamar de “da cor do ar”, pois todos sabemos que o ar nos circunda mas não podemos vê-lo. Se as nuvens estavam “da cor do ar” é porque elas estavam provavelmente descansando dos olhares curiosos que as acompanhavam quando se expunham, ele supunha que, assim como os animais do Planeta, as nuvens também precisassem de férias vez ou outra, sob o risco de se desfazerem ou se tornarem estranhas e mal formadas. Outra coisa que ele tinha certeza era que nuvens nascem, crescem e morrem, como morrem não sabia, mas o nascimento era visível nos lagos de águas calmas em manhãs frias, na chaleira fervente sobre o fogão, nas chaminés das caldeiras e até na respiração humana no inverno. Mas não sabia mais nada de concreto sobre esse ciclo vital, só tinha suposições que eram fundadas apenas nas suas observações que, diga-se, haviam nascido quase no mesmo dia que ele nascera. Sua mãe o havia colocado sobre uma toalha no gramado de casa poucos dias depois que ele veio ao mundo, e, como era inevitável, de barriga para cima, a primeira coisa que ele havia prestado atenção fora nas nuvens  estampadas como desenhos fofos naquele céu colorido de um azul brilhante. Desde aquele momento elas passaram a fazer parte de sua vida e, mais tarde, fora quase compulsório compará-las a algodão doce, carneirinhos e outras meiguices de sua infância. Viveu a infância e a mocidade inteiramente sob a égide dos castelos nebulosos que construía a custa de suas companheiras de jornada. Quando se viu diante da decisão de fazer algo na vida, não teve dúvidas, estudou meteorologia e tornou-se um meteorologista dedicado de tempo integral a sua causa. Deixou de ser estranho vê-lo contemplar os céus, absorto e sonhador, agora tinha como justificar sua paixão. Os termos técnicos que definiam funções e nomes de suas queridas em nada influíram no romantismo que punha nas suas relações com as nuvens. Cirrus, cumulus, stratus, nimbus e outras que pareciam híbridos como cumulonimbus, stratoscumulus , nimbostratus, cirrostratus, cirrocumulus, altocumulus e altostratus eram tecnicidades  necessárias a sua profissão, mas que não manchavam suas relações de longa data com as NUVENS, simplesmente. Fora um meteorologista dedicado e respeitável até se aposentar. Agora gozava de uma ociosidade ativa olhando as formações nublosas e lembrando que elas são tão interessantes e misteriosas como sempre o foram. Nuvens são apenas nuvens e não pretendem ser definidas em funções específicas com relação ao que os humanos esperam delas. Sejam quais forem nossas relações ou nossa informações a respeito das nuvens, o fato é que entre o céu e terra elas são soberanas; desde sempre são resultado e influem no clima e nas condições que tornam possível a vida sobre o Planeta e não há nada que possamos fazer para modificar seu caráter onipresente e atuante todo o tempo. Quando a humanidade já não habitar esse planetinha azul e o fim dos tempos para os homens tiver chegado, as nuvens continuarão aí ainda, formosas, flutuantes e volúveis, decorando o teto celeste sem ao menos se importarem com nós, e ressaltando nossa insignificância frente ao universo. JAIR, Floripa, 08/04/12.

7 comentários:

J. Carlos disse...

Muito boa essa olhada para o céu. Não sou aquilo que você diz no início, mas confesso que as nuvens me seduzem, fico olhando-as e até perco a noção das coisas. Parabéns pelo post.

Tais Luso disse...

Quanta poesia você usou para descrever todo o jogo das nuvens! Muito bonito. Penso que sempre será assim nosso relacionamento com elas; um relacionamento de sonhos, de construções de castelos, carneirinhos, rostos... Quem de nós não se deixa fascinar pelos seus encantos? Lembrei de minha primeira viajem de avião, que espetáculo voar acima delas, e que susto!

Abraços, Jair.
tais

R. R. Barcellos disse...

Um aeronauta do seu quilate sabe bem o que são nuvens. Elas exigem respeito mas não se eximem às homenagens líricas. Parabéns.

Cristiano Marcell disse...

Muito bonito, meu enciclopédico amigo! Tratou dos seres que habitam o céu de formalinda!

Leonel disse...

Este belo post me fez relembrar aquelas tardes de verão em minha cidade, quando eu ficava deitado de costas na grama, olhando diretamente para o céu azul profundo, me imaginando entre aquelas nuvens que pareciam flocos de algodão...
Poesia em forma de prosa, Jair!
Abraços!

Luci disse...

Sabe que flutuei? Via jei na "maionese"...que romantismo!
Só faltou um algodão doce para ser saboreado,pensando,sonhando, imaginando, que levesa de texto.Relaxei! O visual do mirante
IRIS está lindo.Luci,

Daniela disse...

Que texto lindo e mágico!! As nuvens realmente decoram maravilhosamente o quadro da nossa vida! p.s: foto espetacular!!