quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sobre filatelia



Como sabemos, filatelia ou filatelismo é o estudo, a pesquisa e a arte do colecionismo de selos usados pelos Correios em correspondências de todos os países do mundo, e emitidos pelo poder público desses países. Antes da utilização de selos de papel, as cartas eram apenas carimbadas a mão com a data e o local do envio. Essas marcas foram introduzidas no Correio da Inglaterra pelo Bispo Henry em 1661 e passaram a ser chamadas de “marcas do Bispo”, por motivos óbvios. O primeiro selo postal foi emitido em 1840 e começou a circular no dia 06 de maio na Grã-Bretanha. Era chamado de Penny Black e tinha estampado o perfil da cabeça da rainha Vitória, o qual permaneceu em todos os selos britânicos pelos próximos sessenta anos. O criador do Penny Black foi Rowland Hill, e hoje não precisa dizer, esse primeiro selo vale até muitos milhares de dólares para os colecionadores, dependendo de seu estado de conservação e data que foi emitido.
No Brasil os primeiros três selos postais foram lançados em no dia 1º de agosto de 1843. Eram selos sem picotagem, impressos em preto sobre papel branco, e ficaram conhecidos como “Olho-de-boi” nos valores de 30, 60 e 90 réis, que circularam ente 1843 e 1844. Interessante é que o Imperador Pedro II não quis que os selos saíssem com sua efígie, pois lhe era impensável admitir que alguém ousasse carimbar em sua face. O Brasil passou a ser o primeiro país das Américas e o terceiro do mundo a adotar o selo postal. O Olho de boi é um dos mais cobiçados pelos filatelistas brasileiros, mas, por mais estranho que pareça, não é o mais cobiçado.
O troféu do selo mais cobiçado pertence à estampa que marcou a presença do Cardeal Pacelli no Brasil em 1934. O cardeal Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que viria suceder o Papa Pio XI em 1939, era um religioso que havia exercido a nunciatura apostólica na Baviera até 1929 e assistiu com grande entusiasmo a ascensão do nazismo na Alemanha. Falava alemão com desenvoltura, congregava com os ideais do nacional socialismo, era cultor de anti-semitismo enrustido e tinha uma admiração por Hitler, de modo que depois que foi eleito Papa e assumiu o nome de Pio XII passou a ser conhecido como Papa de Hitler. Como representante do papa, havia feito um “pacto”, em 20 de julho de 1933, com o ditador para este não fechar os igrejas católicas alemãs em troca de o Vaticano fazer vistas grossas com o que acontecia aos judeus. Quando os nazistas começaram a deportar para os campos de extermínio os judeus que viviam num gueto romano ao lado da Santa Sé, Pio XII literalmente fechou as janelas de seu gabinete para não ver o que acontecia, ele estava cumprindo seu compromisso com o pacto maldito. Aliás, é sintomático que o monsenhor Alois Hudal, alocado no Vaticano, tenha sido o fornecedor de passaportes e dinheiro para os oficiais nazistas, criminosos de guerra, que fugiram principalmente para a América do Sul, como fez o famigerado Franz Stangl que veio parar no Brasil onde foi preso na década de sessenta.
O Cardeal era um homem extremamente mordômico, gostava imensamente de pompa e circunstância. Em outubro de 1934, realizou-se em Buenos Aires, na Argentina, O XXXII Congresso Eucarístico Internacional. O Papa Pio XI enviou como seu representante e Legado Pontifício o Cardeal Eugênio Pacelli, Secretário de Estado do Vaticano. Pacelli, ao custo de milhões de liras oriundas dos cofres do Vaticano, mandou reformar o navio SS Conte Grande que pertencia à empresa Lloyd Sabaudo Line, transformando-o em um palácio flutuante com suítes faraônicas com detalhes em ouro nos banheiros para ele e acomodações principescas para seus áulicos. Sua viagem revestia-se de ambição pessoal, ele estava em plena campanha eleitoral, porquanto via-se como sucessor natural e indubitável de Pio XI quando este fosse prestar contas de seus feitos para seu superior. Sua campanha junto aos cardeais do mundo católico surtiu o efeito desejado, ele foi eleito Papa em 1939. Em sua viagem de volta a Roma, Pacelli visitou o Rio de Janeiro. O Cardeal desfilou em carro aberto pela cidade, em companhia do Presidente Getúlio Vargas, sendo aclamado pelo povo à sua passagem, com destino ao Palácio do Catete, onde ficou hospedado.
A igreja católica sabendo antecipadamente dessa passagem pelo Brasil havia solicitado aos Correios a emissão de um selo comemorativo à visita anunciada. O selo foi emitido naquele ano e não se tornaria nada especial se não fosse por dois fatores: O cardeal Pacelli veio a se tornar Papa; e as máquinas de impressão brasileiras eram subdimensionadas para o papel que se usou.
Explico, as impressoras usadas comportavam folhas de papel cujo comprimento era a metade do papel que se usou pra imprimir os selos “do Cardeal Pacelli” como ficaram conhecidos, os quais traziam a imagem do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Assim, os impressores imprimiam a metade da folha, depois introduziam a outra metade na máquina, de modo que os selos centrais ficavam na posição conhecida como cabeça com cabeça. Essa posição inusitada conferia aos selos centrais uma excentricidade tal que passaram a ser cotados em dezenas de contos de réis a partir de sua descoberta pelos filatelistas, embora custassem 600 e 700 réis apenas. Além disso, houve três impressões distintas dos selos, e suas tiragens não foram muito grandes, de forma a torná-los preciosos também pela relativa escassez.
Tenho um conhecido, - na verdade um filatelista há muitos anos, primo de minha mulher – que possui três fileiras inteiras, uma de cada edição, dos selos cabeça com cabeça do Cardeal Pacelli. Não quero arriscar o valor atual de tais preciosidades, mas muitos colecionadores vêm de outros países apenas para apreciar os tais selos, apenas para ter o prazer de dizer para outros filatelistas menos felizes: “Eu vi os raros selos do Cardeal”. Apenas isso, até porque eles não estão à venda e, pelo que me disse o dono das raridades, jamais estarão.
Então, apesar de Pio XII ter sido um Papa de posição política altamente questionável, seu papado serviu pelo menos para resultar num item colecionável de raridade excepcional, para gáudio dos filatelistas. JAIR, Floripa, 12/05/11.

7 comentários:

R. R. Barcellos disse...

- No céu ou no inferno, a relação entre a procura e a oferta continua a carimbar o valor das coisas. Abraços, Jair.

Leonel disse...

Finalmente alguma coisa boa vinda de Pio XII! Um selo raro!
Abraços, Amigo!

Attico CHASSOT disse...

Meu caro Jair,
desejando que tio San esteja te fazendo boa companhia, a blogada pacellina é por deverás significativa. Dos meus tempos de filatelista, conhecia o assunto dos selos.
Nasci quando Pio XII completava 8 meses de pontificado e recordo que em 1959 executei o dobre de finados por sua morte na capela dos poloneses em Porto Alegre.
Surpreendeu-me o teu relato do aparato que determinou para sua visita ao congresso eucarístico de Buenos Aires enquanto núncio apostólico. O fato de ser da nobreza romano (é dos poucos papas romanos) talvez explique (mas não justifique).
Quanto ser o papa de Hitler há questionamentos e mesmos controvérsias. Na noite de Natal de 1942 (seu quarto natal como papa), condenou a perseguição judia na sua famosa alocução de Natal. Igualmente, em 1943 pronunciou um importante discurso aos cardeais, em que reafirmou a sua condenação da política alemã.
Mais uma vez esta blogada faz jus ao titulo de seres editor de ‘um blogue que pensa’.
Com admiração
attico chassot

Attico CHASSOT disse...

Uma retificação no comentario anterior, onde refere 1959, morte de Pio 12 o correto é 1958 (9 de outubro)

Anderson Tomio disse...

Jair,

Pelo trabalho que vens desenvolvendo no blog,
fazendo através do conteúdo de suas postagens,
algo que proporcionem a pensar e refletir sobre o conteúdo, deixei pra você um presente em meu blog que enfatiza isso. O selo - ESTE BLOG TRANSFORMA PESSOAS" ,resgate-o. Parabéns!!!
Abraço Anderson Tomio

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Olá,

Muito bom o texto e muito bom saber do raro selo! Parabéns. Beijos da nora,

Jéssica disse...

Bom Dia,

Estava olhando sue blog e vi a historia sobre o selo do cardial Pacelli.Tenho uma carrera de 4 normais e 4 invertidos 1º e 2º tiragem ( 700 reis e 300 )
Gostaria de saber se pode me explicar melhor sobre estes selos, seus valores e quem são os que hoje se interessam mais por eles.


Agradeço desde já, atenciosamente Jéssica.