segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Bugre


Bugres: meus primos, meu irmão e eu.

Bugre, nome meio pejorativo, era pessoa, homem geralmente, rude, de educação sofrível, tosca, abrutalhada, de comportamento hostil que vivia “nos matos” na concepção popular do termo, lá na minha Palmeira natal. Ninguém se sentia feliz em ser chamado de bugre. Segundo o Houaiss, indivíduo pertencente ao grupo indígena que habitava o Sul do Brasil, entre os rios Iguaçu e Piquiri e as cabeceiras do rio Uruguai. Pois é, nasci e vivi até a adolescência exatamente nessa região; meus antecedentes, com poucas exceções, são todos dessa mesma área também; e tem mais, meu avô, David Cordeiro, era um Kaingang de tribo que habitava a margem direita do rio Iguaçu. Conclusão: tecnicamente sou bugre, não tem escapatória. Descendentes do velho David, meus tios são exemplares perfeitos e acabados de bugrões saudáveis. Aliás, minha mãe, mais “bugra” que seus irmãos, excelente cozinheira que era, costumava fazer uma espécie de sopa chamada “mingau de bugre”, na qual entrava farinha de milho e alho, que nós, bugrinhos esfomeados, adorávamos comer nos frios invernos do Paraná.

Entretanto, existem outras conotações que definem o vocábulo. Lembro que quando estive no Xingu entre os Kamaiurás, eles denominavam bugres os índios arredios, rebeldes, que se afastavam da tribo e iam viver isolados no meio da selva. Em geral, o bugre de lá estava voluntariamente afastado da tribo por motivo de luto, havia se tornado viúvo e, em função de não mais ter uma esposa que mantivesse o necessário equilíbrio social entre as famílias, ele se isolava no mato e só voltaria ao seio da sociedade se encontrasse uma nova esposa, coisa muito pouco provável numa sociedade com mais homens que mulheres. Ser viúvo transformava o indivíduo em bugre e pária social, era (é ainda) uma tragédia.

Como Bugres, também são conhecidos os caboclos nascidos da união de pessoas brancas com índias, ou índios propriamente, que tenham se aculturado como brancos ou que vivam entre brancos. Mas, o que é ser bugre? O que é sentir-se bugre? Existe diferença social, cultural ou genética entre bugres e brancos? E entre bugres e índios? Ser bugre é ser geneticamente tão igual a brancos e índios como qualquer outro indivíduo o é. Só sente ser bugre o indivíduo que é discriminado por brancos ou índios, que é julgado diferente por uns ou por outros. Culturalmente o bugre é o que assimilou da sociedade na qual está inserido, seja branca, negra ou índia. Aliás, no meu caso, como me criei na sociedade “morena”, pobre e interiorana, sou um bugre como essa sociedade me fez, moreno, pobre, interiorano.

Claro que, como todas as “classes” de cidadãos, também os bugres (eu incluso) podem e querem ascender socialmente, estudam, trabalham se integram e vencem com a mesma frequência que qualquer outro indivíduo de qualquer outra “tribo” considerada. Então o que resta da “bugrice” daqueles que nasceram com o estigma do “grupo indígena que habitava o sul do Brasil” etc? Nada, rigorosamente nada! Bugrismo é apenas um estado de espírito. Ser bugre é como ser paulista, baiano, gaúcho ou qualquer outro gentílico, não há absolutamente uma fronteira, étnica, física ou genética que separe nós, mal ajambrados bugres das barrancas do Iguaçu, de qualquer aristocrata bonitão e endinheirado da família Orleãs e Bragança do alto da Serra dos Órgãos em Petrópolis, por exemplo. JAIR, Floripa, 08/01/11.

15 comentários:

shan-Tinha disse...

oi bom dia!
sou do sul de sc, sabe aquela tarefa que nossos filhos trazem para os pais ajudarem a fazer a árvore genealógica da família, minha filha precisava saber. Pois é, perguntei pro meu pai, já falecido agora, de onde a família medeiros veio, de quem somos descendentes e ele disse: olha minha filha eu acho que somos descendentes de bugre mesmo, ah, e como ele e a família da minha mãe contavam histórias de bugres que amedrontavam a nós quando crianças e a eles antigamente.
abraços e ótima semana pra ti!

António Gallobar disse...

Mais um belo texto, não conhecia o termo, faz-me lembrar a história das castas em certos países do oriente entre os quais a India ou Paquistão, as sociedades classificam-se de determinada maneira, e agem em conformidade disso mesmo, como se tivessem uma marca na testa que os diferenciasse. Parabens amigo Jair

R. R. Barcellos disse...

- Caro amigo, só não te invejo porque tenho certeza de que, nos mais longínquos ramos de minha árvore genealógica, existem bugres ou assemelhados. E parabéns a você e aos primos.
- Abraço tribal.

Leonel disse...

Mais um resgate de coisas da terra!
Lá no meu Rio Grande, o termo "bugre" ou "bugrada", neste caso se referindo a uma família ou comunidade, tem uma conotação meio pejorativa, como que se referindo a pessoas meio vira-latas, sem "pedigree"!
Mas, ao mesmo tempo, os gaúchos do interior costumam se dirigir um ao outro se chamando de "índio véio". Na verdade, o próprio termo "gaúcho" se refere a um grupo de indígenas ou mestiços e que representam a essência do povo dos pampas.
Afinal, você conhece cachorro mais resistente ou esperto do que um bom vira-lata?
Valeu, bugre velho!

Camila Paulinelli - Centaurus Medical LLC disse...

Olá,
Gostei muito do texto e de aprender mais um pouquinho sobre uma cultura que não sei muito mas que tenho muito interesse em saber mais.
Beijos da nora,

J. Muraro disse...

Fico feliz em saber que você encontrou suas origens que, sem dúvida, são as mais interessantes.

Attico Chassot disse...

Meu muito estimado Jair,

tu sabes que tu balançaste meu ser possessivo com tua generosidade.

Teu textos tem me encantado.

Haja disciplina e espírito de pesquisa,

attico chassot

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Augusto (O Filho) disse...

Sou bugre com orgulho. Dos bugres vem meu gosto pelos matos do mundo.

Gus

Ilka disse...

Bom dia!
Muito bom o texto!!
É sempre muito bom abrir a mente e poder conhecer outras culturas!
Parabéns!

Abraço,
Ilka

Joel disse...

Jair, bela foto essa da bugrada. Tenho uma, a Tereza me mandou.

Luiza Rampanelli disse...

Olá!

Estou buscando respostas sobre o surgimento de minha família e soube que minha bisavó era bugra. Seu texto foi muito esclarecedor, obrigada...

Verônica Ramos Franco disse...

Olá, minha mãe sempre costuma dizer que sua descendência é do índio bugre. Ela diz que seu tataravô era laçado como um cavalo de tão bravo que era. Não tenho nada em papel que comprove. Nasci no interior de São Paulo, em Leme. Tenho os cabelos pretos e lisos, insistindo em branquear aos 44a, mas os da minha mãe já estão brancos há muito tempo. Ele tem hoje 82a. Meu pai é descendente de português. Seus pais eram loiros dos olhos verdes e azuis. Que mistura hein! Pena que não saí de olhos verdes ou azuis! Abraços a todos os descendentes de bugre ou não.

Verônica Ramos Franco disse...

Olá, minha mãe sempre costuma dizer que sua descendência é do índio bugre. Ela diz que seu tataravô era laçado como um cavalo de tão bravo que era. Não tenho nada em papel que comprove. Nasci no interior de São Paulo, em Leme. Tenho os cabelos pretos e lisos, insistindo em branquear aos 44a, mas os da minha mãe já estão brancos há muito tempo. Ele tem hoje 82a. Meu pai é descendente de português. Seus pais eram loiros dos olhos verdes e azuis. Que mistura hein! Pena que não saí de olhos verdes ou azuis! Abraços a todos os descendentes de bugre ou não.

Anônimo disse...

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Clemilson Gonçalves disse...

Olá sou bisneto e neto de bugre legitimos!!!Obrigado de todo o meu <3 por me fazer saber mais de minha descendencia!!!Adorei