sábado, 9 de maio de 2009

CACHORROS DO BRASIL


Sempre fui fissurado por caninos, canídeos, cachorros ou cães, tudo a mesma coisa. Daí, interessei-me também pela história e origens desses animais junto aos humanos, como já escrevi em posts anteriores. O passo seguinte foi acrescentar algum conhecimento sobre canídeos brasileiros, ou seja, animais dessa família (Canidae) que vivem em estado selvagem no nosso país. Desde criança sempre soube por ouvir falar, que existiam “Guarás”, “Cachorros-do-mato” e um tal de “Graxaim”, animais que, mais ou menos, se enquadravam na categoria cachorral segundo a concepção meio simplória dos naturais da cidade em que nasci. Pois é, em todos os continentes, exceto na Antártida naturalmente, encontramos canídeos, seja sob a versão de lobos, raposas, coiotes, chacais ou outras denominações quaisquer. Na África, local onde é mais abundante a existência desses animais, temos as Raposas orelhudas, Raposas do Cabo, Cães selvagens de várias espécies, Chacais e um bicho chamado Feneco que seria o lobo africano. Existem lobos e raposas na Europa, na Ásia e na América do Norte onde também encontramos os coiotes. Na Austrália os canídeos estão representados por uma única espécie, o Dingo, que é considerado um cão que se tornou selvagem a partir de uma espécie doméstica trazida pelos imigrantes polinésios, vinte mil anos atrás. No Brasil foram descritas seis espécies de canídeos vivendo em nossas matas, campos, várzeas e cerrados. Todas essenciais ao equilíbrio do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia. Lamentavelmente todas em risco de extinção. O mais conhecido desses carnívoros é o Lobo-Guará (Chrysocyon Brachyurus), cujo adulto macho pode pesar até vinte quilos, costuma viver nos subsistema de campo, cerrado e mata ciliar, é de hábitos solitários. Noturno e crepuscular, repousa durante o dia em bosques espessos. Habita campos, cerrados e a caatinga de Rondônia e do Piauí ao Rio Grande do Sul e nordeste da Argentina, passando pelo Pantanal, Paraguai e Leste da Bolívia e margens da Floresta Atlântica na Bahia e Minas Gerais. Tem pernas muito altas e esguias, a cabeça alongada e as orelhas grandes, eretas e com o pavilhão aberto para diante. Sua cor geral é parda avermelhada, mais clara na região ventral e mais escurecida na dorsal. As patas são inteiramente negras. Parece-se mais com uma raposa de patas muito longas do que um lobo. Sua principal vocalização é um latido simples, que usa como chamado de longa distância; ameaçado, pode rosnar e os filhotes fazem pequenos gemidos. É um animal surpreendentemente arisco, furtivo e silencioso para o seu tamanho. Além de se alimentar de pequenos mamíferos e aves e, por isso, ser importante na manutenção do equilíbrio da cadeia alimentar, o lobo-guará come frutas e tem papel fundamental na dispersão de sementes de árvores e outras plantas. Este tímido animal é uma vítima da expansão da agricultura no Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do país. O Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) é um canídeo de porte médio, que costumava ocorrer em quase todo Brasil, agora só é encontrado em algumas partes do cerrado goiano e mineiro e nas matas de transição no Mato Grosso. É extremamente versátil por se adaptar a diversos ambientes, inclusive antropizados, (ocupados pelo homem) e utilizar uma grande variedade de alimentos. Está ameaçado de extinção pela destruição de seus habitats. O Cachorro-vinagre (Speothos venaticus) é um canídeo nativo da América do Sul, que habita as florestas e pantanais entre o Panamá e o norte da Argentina. Espécie de hábitos e aparência à altura do estranho nome que recebeu. Ninguém sabe exatamente por que ele recebeu esse nome, uma das hipóteses é porque sua urina tem um cheiro semelhante ao do vinagre, outra seria em razão do pêlo do indivíduo jovem ser de cor parecida à do vinagre. São animais noturnos, tímidos e semi-aquáticos que conseguem nadar e mergulhar com grande facilidade. Arredio, ele raramente se deixa ver, anda sempre rastejando sob a mata ou em tocas. Como quase nunca é visto, ganhou aura de lenda entre populações dos locais onde é encontrado. Originalmente, o animal existia em praticamente todo o país, exceto no Sul. Hoje, acredita-se que esteja extinto em grande parte do território nacional. Dos cães selvagens brasileiros, é o único exclusivamente carnívoro. Também apenas ele desenvolveu a sofisticada estratégia de caçar em matilha e compartilhar alimento. Membranas entre os dedos os ajudam a nadar e a pegar peixes, as vezes sua principal fonte de proteínas. O Guaraxaim-do-campo (Pseudalopex gymnocercus) habita os campos da Argentina, em direção ao norte, chegando ao Brasil até o estado de São Paulo. De acordo com biólogos, só existem pouquíssimos exemplares dessa espécie em cativeiro, em zoológicos e criadouros do Rio Grande do Sul. Tem corpo cinza-amarelado, com queixo preto, pêlo curto e orelhas eretas. Mede cerca de setenta centímetros de comprimento, e sua cauda, de trinta a quarenta centímetros, vai engrossando até a extremidade, o que o diferencia dos outros cães selvagens. De hábitos noturnos, alimenta-se de pequenos mamíferos, aves e lagartos. Recebe também os nomes de graxaim, guaraaim ou graaim e cachorro-do-mato. A Raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus) é um canídeo nativo do Brasil, que habita os campos e cerrados do Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A raposa-do-campo é classificada às vezes como Lycalopex vetulus ou Dusicyon Vetulus. É mais ativa à noite, mas também sai de sua toca durante o dia. Os animais dessa espécie vivem sozinhos. O corpo tem sessenta centímetros e a cauda mede trinta centímetros. É carnívora e caça aves, pequenos roedores e insetos (gafanhotos). A fêmea escolhe um local protegido, geralmente uma toca abandonada ou um buraco em um cupinzeiro. Após dois meses de gestação, dá à luz a quatro ou cinco filhotes e torna-se muito feroz quando precisa defender a prole. É um animal muito atento e percebe tudo o que ocorre ao seu redor. A visão, a audição e o olfato são bastante desenvolvidos. É um dos menores cachorros selvagens brasileiros. A cor de sua pele é cinzento-escura, com a barriga amarelada e a ponta da cauda negra. Tem o costume de atacar galinheiros e rondar casas e acampamentos em busca de comida. O menos conhecido dos canídeos brasileiros é o Cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis), da Amazônia. Há até dois anos, não se tinha sequer uma foto do animal. Não há nenhum indivíduo dessa espécie em cativeiro. Somente agora, uma equipe de pesquisadores brasileiros que trabalha na Amazônia peruana conseguiu localizar um grupo e colocar coleiras com rádio em alguns deles. A maior ameaça para os canídeos brasileiros (assim como para a maior parte de nossa fauna) é a destruição de habitats. Pouco resta da Mata Atlântica e o Cerrado está indo pelo mesmo caminho. Doenças normalmente transmitidas por cães domésticos e a caça, muitas vezes em retaliação à predação de animais domésticos, são outras grandes ameaças. Muitas vezes os animais levam fama injustificada de predadores de criações. Conhecer melhor os hábitos dos nossos canídeos, animais ainda tão misteriosos, é a única forma de salvá-los da extinção, para que as gerações futuras tenham a oportunidade de viver num planeta habitável. JAIR, Guarulhos, 09/05/09.

19 comentários:

André disse...

Tudo bom com vcs, ontem estava dando uma lida em alguns artigos no seu blog, muito bom, a leitura sempre nos proporciona algo de valor. Eu soh preciso visitar mais vezes.

Leonel disse...

Amigo Jair: Fazia tempo que eu não ouvia este nome GUARAXAIM ou, mais popularmente, GRAXAIM. Este animalzinho, quando eu era criança, aprendi com meu pai a identificar mais pelo cheiro, muito característico, que se fazia sentir principalmente ao anoitecer, anunciando a sua presença nas proximidades. Acho que esta raposinha também era chamada de ZORRILHO pela gente do interior gaúcho. E tinha a fama, nem sei se justificada, de ser um exímio ladrão de galinhas e ovos ! Gostaria de saber sua opinião sobre isto.

JAIR disse...

Pois é Leonel,
Também me familiarizei com o NOME Graxaim sem nunca ter visto o bicho. Na verdade o real assaltante de galinheiros é outro bicho, o Gambá que, na região sul, costumamos chamar, por causa da aparente máscara, de Zorrilho e até de Raposa, quando ele não tem nada de canídeo, é um marsupial. Por falar em marsupial, todos os mamíferos australianos são marsupiais, quaisquer outros que por lá vivam como o Camelo, o Coelho, a Raposa, o Cachorro, o Gato e o Rato foram levados pelo homem e causam grande desequilíbrio ecológico, com excessão do Camelo. Aqui no Brasil, além do Gambá temos a Cuíca e a Cuíca d'água como representantes dos marsupiais e nos USA existe um tal Opossum do qual eles usam a pele para fazer casacos de frio. Pretendo escrever alguma coisa sobre marsupiais ainda. Abraços, JAIR.

Recreio On Line disse...

Amigo obrigado por sua visita e elogio ao meu blog, fico feliz de encontrar um que tenha informações e cultura, pessoalmente estou cansado de tanta besteira na blogsfera.
Estou lhe adicionando à minha lista de blog preferidos, espero poder segui-lo.

Parabens e obrigado!!

Cleisson disse...

Jair
Eu gostei muito do seu blog e estou seguindo suas publicações, obrigado pelas palavras em relação ao meu blog e continuarei sempre divulgando blogs com conteudo útil e inteligente.
VLw

Allan Robert P. J. disse...

Caro Jair,

Confesso jamais ter lido ou ouvido falar em guaxaraim. Fico contente em poder contar com um blog de conteúdo interessante como o seu para aprender mais sobre a fauna canina brasileira. E obrigado pela visita.

Allan
Colaborador do blog Faça a Sua Parte

CANTACLARO disse...

Gran interés muestras por la naturaleza. Muy bueno este post. De verdad que te gusta la Naturleza como lo dices en tu perfil, de lo cual resalto "pouco fonético, nunca frenético"...! ¡Muy bien!

Afectuosamente,

Ana Lucía

Alice disse...

Olá Jair,
Obrigada pela visita e comentário no meu blog. Volte sempre que ficarei feliz. Gostei dos seus posts, muito interessantes com bom conteúdo. Parabéns pelo seu trabalho. Colocarei um link de volta para seu blog logo que puder.
Tenha um ótimo fim de semana :)
Alice

DeRose disse...

Oi, Jair. Visitei o seu blog e gostei muito. Já que você é um apaixonado por "caninos, canídeos, cachorros e cães", visite meus posts sobre cães. Garanto que vai gostar tanto que é capaz de chorar de emoção. Abraços do DeRose.

Ruy disse...

Jair, teu texto está kaxorral de bom! Eu não sabia desses canídeos todos que habitam (ou habitavam?) nossas matas e macegas. Malemar me lembrava do dito “cachorro do mato” e do graxaim, da nossa infância, e só. Quando tiver uma chance revisitarei o zoológico pra rever o que lá existir dessa interessante fauna, pois ao vivo e em cores, in loco e no seu habitat, como se diz, tá fora do meu alcance.
Grande abraço.

Diogo Damasceno Pires disse...

Olá Jair,

Parabéns pelo seu blog. Estéticamente bonito e de conteúdo interessante. Obrigado pela visita ao Blog do Coletivo Jovem de Meio Ambiente.

Abraços,
Diogo Damasceno

Marcos Daniel Santi disse...

Olá, muito legal teu blog, só tomei conhecimento do seu comentario agora, pois eu estava em um congresso de comunicao.

Já adicionei aqui e acompanharei sempre
valeu
Abraço

Chá das Cinco disse...

Eu amei o seu blog, vc me ganhou porque eu amo os cães vira latinhas.
Eu entrei aqui e fiquei, passa no meu para vc conhecer o meu vira lata
Amendoim, tem uma foto dele lá no meu Blog.
Um abraço
Gemária Sampaio

Blog do Franco disse...

Olá jair!

Gostei de seu blog também,esclarecedora esta postagem sobre os câes,depois visita o meu...

www.francoemblog.blogspot.com

Abraço!

Anônimo disse...

Jair

Textos como sempre nos surpreendem e demonstram riquezas de detalhes.

Merece destaque a bela composição da foto que ilustra o tema.

Saulo

Anônimo disse...

Meus parabéns pelo Blog Jair, continue alimentando-o para o nosso deleite nestes momentos incontidos na busca de novos conhecimentos.Um abraço. Marcilio

lila rizzon disse...

OI, JAir!
Obrigada pela visita lá no Além do Horizonte e pelas palavras. Adorei sua escrita e suas reflexões. E ainda o post que vc me indicou - muito legal.
Abração,

Marcos Fábio disse...

Grande Fariseu, cumé que tá.

Estava lendo teu artigo cinofilo, e eu não sabia das tuas paixões cachoristas. realmente, são uns belos animais, até deram nome a uma bela ilha "canarias" que muita gente pensa que por causa do passarinho, mas não querendo ser chato, mas ja sendo, não concordo com " de acordo com os biólogos só existem poucos exemplares...." ele estadizendo que só existem poucas exemplares desta espécie, e que estão em cativeiro, ou os poucos exemplares que existem estão em cativeiro? se a resposta for a segunda, eu discordo pois este bixo ( mais na fronteira é chamado de zorro) é praga por aqui, sendo um predador terrivel dos cordeiros recem nascidos. Ontem em Rio Grande, me deparei com um destes simpaticos animais atropelado (foto em anexo). No mais tudo tri legal abração

anticorpos disse...

Blog maravilhoso,eu tbm amooo a espécie canina, amo muito,é muito legal o trabalho de vcs!!!Párabens.