Sócrates, o ex jogador, amava a medicina, tinha grande amor pelo futebol e pelo fato de ter jogado no Corinthians e ter sido capitão da Seleção brasileira. Sócrates, diferente de seu famoso xará heleno, não foi obrigado a tomar veneno, tomou-o de livre e espontânea vontade. Também, diferente do antecessor, não tomou tudo de uma vez, o foi ingerindo aos pouquinhos durante muito tempo, o que teria acabado com seu fígado e, por fim, pondo em risco sua vida. A todos aqueles que lhe diziam que estava num caminho sem volta, costumava lembrar que todos estamos num caminho sem volta, é só uma questão de tempo, tempo aliás, que não nos é dado o direito de saber a duração. Ele era meio filósofo. Copo na mão, argumentos na boca, alguns dizem que Sócrates bebeu a vida. Sua cicuta tinha gosto do melhor uísque, mas era tão fatal quanto àquela que vitimou o ateniense. Pobre doutor, foi-se justamente no dia em que seu Corinthians do coração sagrou-se campeão. Costumam dizer que ele não tinha a humildade de reconsiderar a sua própria fraqueza frente à bebida, quase que se achava incólume aos males de uma cicuta moderna engarrafada em recipientes chamativos e com certidão de nascimento escocesa. Por que isto aconteceu? Seu jogo inovador para o Corinthians, atraía a multidão de jovens torcedores. Suas qualidades de líder e sua inteligência, também colaboraram para o aumento de sua popularidade. Na época, comandou uma tal de “Democracia Corintiana”, a qual permitia que os jogadores tivessem uma vida desregrada, desde que esses desvios não influenciassem na qualidade de seu jogo, isto é, jogando bem pode soltar a franga que não tem problema. Temendo algum tipo de mudança no time, os cartolas viam em Sócrates um exemplo público e um condutor de jovens em potencial. Então ele viu-se livre para permitir-se beber e fumar sem provocar alarde na multidão corintiana que pagava seu salário de muitos dígitos. Argumentos médicos e de todos aqueles que desejavam que ele se mantivesse abstêmio, não o convenceram que sua saúde corria perigo. Alguns acusaram-no de beber o futebol que jogara, mas isso não se comprovou, quando ele aposentou-se foi por vontade própria e não por imposição de um futebol medíocre. Aposentado, exerceu o ofício da medicina e não se tem notícia que tenha deixado a desejar como médico. Consta que foi tão bom doutor como foi jogador. Apenas a “cicuta”, pode ter abreviado sua vida como já havia feito com o ilustre filósofo grego. Paz Magrão, assista daí as alegrias do seu Timão. JAIR, 05/12/11.
A cerveja, como a conhecemos, é uma bebida socializante de baixo ou médio teor alcoólico consumida em baixa temperatura, e que tem a agradável função de reunir amigos e conhecidos na mesa de um bar ou numa confraternização onde, normalmente, churrasco é a comida preferida. É uma bebida fermentada composta de três ingredientes principais, lúpulo, malte, e água, as vezes com adição de açúcares e xaropes que lhe dão sabor diferenciado. Mesmo tendo tão poucos componentes, devido às várias maneiras de fazer e dosagens possíveis de cada uma das partes, é virtualmente a bebida que mais apresenta variações em suas apresentações ao público consumidor, existe mais de oitocentos tipos de cervejas a disposição dos bebedores. É um universo no qual nenhum cervejista militante deixará de ser atendido por mais exigente que seja.
Quanto à história da bebida, onde ela surgiu pela primeira vez, não existe consenso entre os estudiosos do assunto, há indícios que tenha sido no Oriente Médio cerca de seis mil anos atrás. Foram encontrados traços de uma bebida fermentada de malte em ânforas antigas. Feitas as análises químicas constatou-se serem restos de cerveja, aliás, bem parecida com a bebida atual. É provável que do local de origem a bebida tenha se propagado para a Europa e Ásia ainda no tempo de Marco Polo e da Rota da Seda. Há, entretanto, historiadores que colocam sua origem na Mesopotâmia e sua propagação pelo mundo feita pelos romanos durante seu império. Seja onde for e qual povo que a fabricou primeiro, calcula-se que nos anos mil de nossa era já se tornara uma bebida apreciada nos “quatro cantos da Terra”, para usar uma expressão bíblica. Evidente que só onde existiam os ingredientes era possível fabricá-la, assim sendo, nas Américas e na Oceania só foi introduzida após a colonização européia dessas áreas.
Tecnicamente a cerveja é uma bebida fácil de ser confeccionada, ao malte - que nada mais é que cevada torrada - fermentado em água, adiciona-se lúpulo (planta trepadeira de origem européia), que, depois de filtrado, obtêm-se a cerveja. Quanto mais torrada a cevada, ou seja, malte mais escuro, obtêm-se uma cerveja mais escura; quanto mais lúpulo se adiciona, mais amarga se torna a bebida; quanto mais fermentada mais alcoólica; quanto mais malte, mais generosa, ou seja, encorpada; quanto mais tempo de maturação, mais “especial”. Existem cervejeiros que substituem a cevada por arroz, milho ou trigo, daí sai uma cervejinha leve e clara e de paladar discutível, como aquelas tão ao gosto dos americanos.
Tão fácil é de se fabricar a bebida que aqui no sul do país é comum as famílias terem sempre um estoque das caseiras. Minha mãe fazia uma cervejinha caseira bem razoável, que era consumida principalmente no natal. Em tempo, cerveja caseira se parece com o tradicional chope, não tem conservantes, cuja ausência é que diferencia o chope da cerveja engarrafada ou enlatada.
Pois é, sendo uma bebida “importada” no sentido que aqui aportou trazida pelos imigrantes europeus, tornou-se nacional na medida em que foi adotada pelos brasileiros como bebida predileta, assim como o vinho o é para os franceses. Além disso, sofreu “tropicalização” no modo de ser consumida, pois aqui é impensável bebê-la em temperatura ambiente, só se consome gelada, e, estranhamente, até “estupidamente gelada” o que é uma aberração. Vejamos por que. As baixas temperaturas inibem as papilas gustativas de nossa língua, aqueles receptores que são responsáveis pela percepção do sabor das coisas que deglutimos. Com as papilas impedidas de analisar o gosto pelo líquido congelante, todos os sabores se parecem, não existe cerveja boa ou ruim. O bebedor que pede uma “estupidamente” faz jus à pedida, é um estúpido. “Loura gelada” é convidativa e sensual, congelante é para os que nada sabem da arte de beber.
Bem, como escrevi no início, existem mais de oitocentas variedades do produto e algumas são mais conhecidas como, stout, ale, maltzebier, bock, lager e pilsen nossa preferência nacional. Aqui o cervejista brasileiro quase sempre comete mais um pecado, classifica como cerveja clara a pilsen e às demais denomina, cervejas pretas, colocando no mesmo saco desde as adocicadas maltzbiers até a fortíssima stout que, no Patroti, tem a caracu como lídima representante dessa família.
E por falar em pecado, mais uma vez o bebedor desavisado atenta contra as normas não escritas de como se saboreia uma boa cerveja, ao pedir “sem colarinho”. Como sabemos, o “colarinho” da bebida é aquela espuma de dióxido de carbono que se sobrepõe ao líquido no copo. Pois é, aquela porção de espuma é, justamente, o que impede o líquido de entrar em contacto com o ar ambiente. A ciência nos diz que a atmosfera contém alguma coisa como 21 por cento de oxigênio, e é esse elemento, aliás, maior responsável pela vida do Planeta, que “ataca” o líquido cervejal deixando-o “choco”. Assim, ao se expor a cerveja ao oxigênio está se permitindo que este reaja com o líquido como o faz com tudo que toca. O oxigênio é responsável pela oxidação dos metais ferrosos a qual é chamada de ferrugem. Quase todos os elementos são atacados pelo oxigênio com exceção dos chamados metais nobres como ouro e platina, que são, justamente, nobres por que se mantêm inalterados na presença do elemento O², o que não acontece com nossa cervejinha do dia-a-dia, que fica “choca”, ou seja, oxida-se e se torna intragável para aquele de paladar mais apurado.
Claro que, como “gosto não discute” não há regras invioláveis no que diz respeito à libação dessa apreciada bebida, apenas é de se lamentar que frente um universo tão grande e tão variado, o bebedor brasileiro se atenha apenas às pilsens, sem dar chance a outras variedades tão boas ou melhores que estas. Nos pubs ingleses bebe-se muita cerveja, mas lá o consumidor as pede pelo tipo e não pela marca, o bebedor inglês varia mais suas libações que o cervejeiro tupiniquim.
Não sou cervejeiro, tampouco bebo qualquer bebida alcoólica, mas, durante muitos anos, fui um razoável colecionador de cervejas nacionais em garrafas, cheguei a ter mais de quinhentas. Hoje, por falta de espaço, minha coleção encontra-se espalhada por muitos acervos de colecionadores em vários estados deste país.
As ilustrações do texto são de minha antiga coleção. JAIR, Floripa, 25/07/10.
Mais uma vez este escritor que se diz simples beletrista, dá uma passeio nos temas mais variados e, para nossa satisfação, com grande competência. “Crônicas esparsas” constitui uma coletânea de textos já publicados em “Um blog que pensa”, mas que nem por isso deixa de ser um repositório variado e interessante das opiniões de Jair Lopes sobre quase tudo. Ler este livro é passear pelo Universo observando com os olhos do escritor, vale a pena. O Editor. Pedidos para oveque@hotmail.com R$ 30,00 mais despesas de envio.
Casado com a mesma mulher há mais de trinta anos, dois filhos, evolucionista empedernido, alfabetizado, aeronauta, curioso, leitor compulsivo, beletrista diletante, sintético, cético, ético, estético, poético, eclético, peripatético, meio hermético, pouco fonético, as vezes profético, nunca frenético, gosto da natureza, história e arte.