Talvez o personagem mais escrutinado, discutido, analisado e julgado pelos historiadores, sociólogos, antropólogos e escritores tenha sido esse monstro. Milhares de livros e artigos são produzidos até hoje sobre essa excrescência que deixou sua marca de perversidade nas mentes e corpos de milhões de pessoas e conduziu as nações a uma guerra genocida que ceifou mais vidas que todas as guerras anteriores somadas. Joachim Fest, (1926 – 2006) nascido em Berlim, publicou em 1973 a biografia Hitler a qual é considerada ainda hoje um das principais obras de referência sobre o ditador, um marco na historiografia pós guerra. Contudo, alguns historiadores consideram a obra de Fest sobre Hitler "uma estilização do ditador como uma grande personalidade mundial". Assim, ainda que tenha sido leitura quase obrigatória até este século, em 2008 o historiador inglês Ian Kershaw lançou Hitler, obra de fôlego que, originalmente, continha 1600 páginas em dois volumes, depois enxugada para 1004 páginas em apenas um tomo. Nela, o autor, além de desmistificar certos aspectos “humanos” do celerado, aprofunda mais a análise de documentos já conhecidos e examina outros que ainda não se encontravam disponíveis ao público na época que Fest escreveu. A queda do muro e a abertura dos arquivos de guerra da Alemanha, permitiram trazer a público muitos eventos, decisões e informações que eram desconhecidos sobre o período que o Nacional Socialismo dominou a Alemanha e produziu a ideologia mais estúpida e mortal do Planeta.
Para Hitler, a guerra era tudo o que importava. Contudo, encerrado no estranho mundo da Toca do Lobo, ele estava cada vez mais distanciado de suas realidades, tanto das frentes de batalha quanto da Alemanha. O afastamento apagava quaisquer vestígios de humanidade que pudessem existir. Até mesmo com relação às pessoas de seu séquito que estavam com ele havia anos, não havia nada parecido com afeição verdadeira, para não falar de amizade; parece que a única ternura era reservada a sua cadela pastora alemã, Blondi, nem sua fiel namorada Eva Braun recebia quaisquer resquícios de afeição. Não obstante, incapaz de amar, o ogro era suscetível a destilar um ódio corrosivo a tudo e a todos. A vida e sofrimento humanos não tinham importância para ele. Jamais visitava um hospital de campanha, nem as pessoas que ficavam sem lar depois de um bombardeio aéreo. Jamais se dignou a apresentar-se frente às vítimas das cidades alemãs como Dresden, e Hamburgo as quais foram praticamente destruídas por incêndios que seguiram aos bombardeios noturnos da RAF, por exemplo. Não via massacres, não chegava perto de campos de concentração, não se deparava com prisioneiros mortos de fome. Aos seus olhos, os inimigos eram como vermes que era necessário liquidar, apenas isso. Mas seu profundo desprezo pela existência humana estendia-se ao seu próprio povo. Decisões que custavam a vida de dezenas de milhares de seus soldados eram tomadas sem consideração pelo sofrimento humano. As centenas de mortos e mutilados eram uma mera abstração, o sofrimento, um sacrifício necessário e justificado na luta heróica pela sobrevivência do Reich de mil anos. O partido e o estado estavam acima dos cidadãos.
Para Hitler, os meses que seguiram ao desastre de suas tropas em Stalingrado intensificaram seus traços de caráter rancoroso e paranóico. A fachada de otimismo absurdo, o mais das vezes, permanecia intacta em reuniões com aqueles que lhe eram próximos. Costumava decolar vôos imaginários de fantasias as quais já eram familiares a seus áulicos, mas que não faziam o menor sentido, Hitler viajava na maionese. Mas, vez ou outra, a máscara escorregava e deixava ver um homem inseguro acometido de profunda depressão e fatalismo. Nesses momentos, demonstrando a faceta autodestrutiva que acabaria provando ao se suicidar em 1945, soía falar em suicídio se seu projeto de uma Alemanha dominando o mundo não se concretizasse. Era a admissão fugaz para si mesmo que havia perdido a iniciativa e se recusava a jogar a toalha. Esse reconhecimento, ainda que não admitido formalmente, provocava invariavelmente torrentes de fúria que recaíam sobre qualquer um que pudesse ser inculpado, sobretudo sobre os generais da Wermach que, segundo sua visão distorcida, eram todos mentirosos, desleais, inimigos do nacional-socialismo, reacionários e incultos. Era seu sonho não depender de generais. Em último caso, culpava o próprio povo alemão, que consideraria fraco demais e indigno de sobreviver à grande luta. A medida que os reveses se sucediam, o celerado Führer sitiado apelava cada vez mais para a busca de vingança e retaliação implacável, tanto contra seus inimigos externos como internos – por trás dos quais ele via, como sempre, a figura demoníaca do judeu. Não havia influência pessoal que pudesse moderar sua desumanidade fundamental. O homem que fora idolatrado por milhões era um ser solitário na sua megalomania, não tinha amigos, com exceção de sua cadela Blondi e de Eva Braun, como ele próprio reconhecia.
Suas fobias, hipocondria e reações histéricas eram provavelmente indicadoras de alguma forma de distúrbio de personalidade ou anormalidade psiquiátrica. Era claramente paranóico, seu comportamento paranóide que o acompanhou desde o início da carreira política, tornou-se mais acentuado perto do fim. Mas Hitler não sofria de nenhum dos principais distúrbios psicóticos, com certeza não era clinicamente insano. Se havia loucura na posição que a Alemanha assumiu ao declarar guerra à União Soviética, contra todos os prognósticos que ia dar eca, não era devido à suposta loucura de um homem, em que pese que esse homem era o mais poderoso da Europa. A loucura estava na aposta de “tudo ou nada”, uma política de pontes queimadas que os poderosos mandantes nazistas se propuseram. Entraram num jogo mortal em que não havia empate, prorrogação ou disputa de pênaltis, era vencer ou morrer tentando, mas quem pagava o preço da derrota era o povo alemão.
Colocados agora à distância segura dos acontecimentos, podemos ficar perplexos com o fato de que, coletivamente, os habitantes de uma sociedade altamente moderna, sofisticada e pluralista estiveram dispostos a confiar na visão megalômana de um auto proclamado salvador político. Podemos ver agora que depois de alguns triunfos baratos fáceis, um número cada vez maior de cidadãos se dispôs a assinar um cheque em branco para seu grande líder, cheque esse que para ser descontado custaria a vida de 50 milhões de pessoas e mudaria a geografia política do Planeta para sempre.
“A Europa jamais conheceu tamanha calamidade para sua civilização e ninguém pode dizer quando ela começará a se recuperar de seus efeitos” foi o comentário do jornal inglês Manchester Guardian três dias depois do suicídio do ditador maldito. Não só a Europa, mas o mundo estava pagando o preço por não ter impedido que Hitler “se criasse” mesmo depois que ele deixou claro suas intenções no livro autobiográfico Mein kampf. Na verdade, o fato concreto é que torna-se uma tarefa virtualmente inexeqüível tratar um personagem tão complexo em apenas umas poucas linhas como neste ensaio. A maldade e as ações destrutivas desse gênio do mal são tão inomináveis que tudo que se escreveu sobre ele até hoje ainda é pouco e, talvez, nunca se chegue a uma análise definitiva de sua personalidade, contudo, por mais que se tenha dito, não devemos jamais esquecer de sua perversidade extrema e que devemos denunciá-la sempre para que não mais se repita na história da civilização, sob o risco de que um dia venhamos a viver aquele horror novamente. JAIR, Floripa, 08/03/11.