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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

AO MESTRE MINHA HOMENAGEM


Creio que todos nós ao longo da vida escolar, profissional ou mesmo familiar temos nossos ídolos, nossos heróis, nossos gurus ou nossos mestres. Pessoas de nossas relações que pela inteligência, perspicácia, saber ou por algum outro atributo, nos conquistam, agregam algum valor a nossa vida, ou nos causam impressão duradoura. Na verdade, sem percebermos, de maneira implícita, nós procuramos nosso alter ego. É, talvez, parte da condição humana, projetar no outro aquilo que gostaria de ser. Lembro que meu primeiro mestre inesquecível foi o professor de geografia do ginasial, Arthur Orlando Klas, cujo, além de ótimo professor, conhecedor ilustrado da matéria, tinha uma inteligência aguda e uma visão futurística admirável, via o mundo cinquenta anos à frente com grande acuidade e sensatez. Fora ele, alguns outros amigos ou colegas assinalaram suas passagens em minha juventude e na faculdade à maneira de heróis e ídolos também. Mas, quero aqui homenagear o mais extraordinário mestre e guru, aquele que mais marcou minha vida profissional: um colega de trabalho, Rodolfo Rodrigues Barcellos, mente brilhante, inteligência ágil, interesses variados e conhecimentos enciclopédicos; dominava com segurança uma gama de assuntos, matérias e temas com a simplicidade que só os dotados de QI superior o fazem. Barcelos é um exemplo raro de pessoa, por causa da combinação de grande argúcia técnica com sua capacidade de resolução simples para problemas complicados. Tive a felicidade de compartilhar o mesmo ambiente de trabalho com ele durante uns bons oito ou nove anos, ocasião em que pude observá-lo como profissional e conviver como amigo com interesses comuns. O Barcellos era, assim como eu, um profissional de aviação, tínhamos a mesma formação, havíamos estudado nas mesmas escolas, mas, anos-luz separavam meus limitados conhecimentos acadêmicos de matérias e sistemas inerentes a aeronaves, das vastas e quase filosóficas informações que ele detinha sobre quase tudo. Além de ser respeitado no setor, era desenhista habilidoso, jogava xadrez com maestria, conhecia informática numa época que esta ainda era incipiente no país e possuía excelente ouvido para música; tocava vários instrumentos de cordas; e até cantava um pouco, além de ser um ótimo caráter. Possuía, além disso, um humor refinado e era autodidata no idioma inglês. Conversar com o Barcellos, qualquer que fosse o assunto, era enriquecer o acervo, era deliciar-se com a intimidade que ele abordava o tema e se fazia entender com simplicidade. Muitas vezes eu “puxava” um assunto qualquer só para instigá-lo, nunca me decepcionei, ele, como autêntico mestre que era, explanava com didatismo o tema e o aprofundava até onde meu interesse ou meu conhecimento permitiam-me acompanhá-lo. Fui seu discípulo, se não aplicado, pelo menos atento. Claro que suas habilidades e ideias nem sempre eram reconhecidas, ou recebiam a atenção que mereciam. Infelizmente, num ambiente de trabalho onde “ser” é mais importante que “saber”, o intelecto tem menos valia do que dragonas e postos. Muitas vezes acontecia que, o apedeuta chefe, do alto de seu majestático posto, determinava que assim fosse “por que estou mandando”, e lá se ia uma boa e proveitosa ideia para a lata de lixo das soluções não adotadas por emanarem de subordinados. Felizmente, portador de um estoicismo ingente, mestre Barcellos nunca se deixou abalar por estultices ecumênicas, tão comuns naquele ambiente no qual trabalhávamos. Para finalizar, quero compartilhar caso que ocorreu numa viagem a trabalho que fizemos juntos a Recife, um pouco antes de minha passagem da ativa para meus confortáveis chinelos caseiros. Devo dizer que aprendi jogar xadrez aos doze anos e que fui um jogador juvenil razoável, apenas isso, razoável. Nunca mais depois dos vinte e quatro anos de idade enfrentei qualquer adversário nas sessenta e quatro quadrículas, isso me rebaixou para o nível de capivara, de acordo com o jargão dos enxadristas. Já Barcellos, como disse no início, era um jogador criativo e um adversário imponente para qualquer um que o enfrentasse. Na referida viagem a Recife, estava o Barcellos sentado à mesa onde se encontrava um tabuleiro de xadrez já com a peças em posição, quando entrei no local. Convidado a enfrentá-lo em uma partida, num momento de pura idiotice aceitei. Ele costumava jogar com o computador e evoluía até o nível seis antes de perder, eu nunca passei do nível um. Iniciamos o jogo e, por sorte de principiante, lá pelo décimo oitavo movimento, para surpresa de ambos, venci com um xeque-mate improvável. Vejam bem, o discípulo infiel e meio bisonho deu uma rasteira no mestre que admirava. Que fazer? Barcellos colocou as peças em posição novamente, com toda razão querendo sair para uma nova partida, uma merecida revanche. NÃO, meu amigo! Nunca mais jogo contigo. Quero e preciso contar para os amigos comuns que ganhei de você, pode existir maior mérito? Nunca mais joguei com ele. Espero que ele tenha compreendido que eu necessitava de meu momento de glória. JAIR, Floripa, 05/12/09.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

RESTAURE-SE A IGUALDADE OU ABANDONEMOS A CIVILIZAÇÃO


Recebi mensagem, - a qual, por ser extensa, reproduzo apenas parte abaixo - de um amigo gay reclamando da deturpação que se está fazendo do propósito do projeto de lei que quer acabar com a discriminação contra as minorias, entre elas, os homossexuais:
“Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?” Desde que a enquete apareceu no site do senado, faz umas semanas, evangélicos de todo o país iniciaram uma cruzada via internet, pelo direito de ofender pessoas que namoram pessoas do mesmo sexo. Uma senhora chamada Rosemeire, por exemplo, expondo num blog seu temor de que a lei seja aprovada, disse que vivíamos “O início da Ditadura Gay no mundo!”. Se você acha que Rosemeire exagerou, é porque não leu o blog de Rozângela Justino, cristã, psicóloga e indignada: “Se este Projeto (palavrão impublicável) for aprovado, estaremos institucionalizando em nosso país o sistema de castas e todos aqueles que não forem homossexuais serão considerados cidadãos de segunda classe.”

Minha Opinião:
Caros,

Enquanto existirem pessoas como essas Rosemeires e Rozângelas Justino, o mundo será um pouco mais pobre, bem mais injusto e totalmente alheio aos verdadeiros valores que devem nortear nossas vidas, como honestidade, respeito ao próximo e solidariedade, por exemplo. Quando julgamos as pessoas pelas suas preferências sexuais, pela cor da pele ou pela orientação religiosa estamos mostrando a pior face do ser humano, aquela que julga que uns são melhores que outros. Já vimos isso na Alemanha nazista e o resultado todos sabemos. Não sou homossexual, mas entendo que somos todos iguais e devemos ter o mesmo tratamento, quaisquer que sejam nossas opções. Não consigo compreender que em pleno século XXI possa existir gente indo contra a corrente histórica que deve nos conduzir para um mundo melhor, onde a igualdade será a cláusula pétrea que alicerçará a sociedade. Abraços, a todos, JAIR. Floripa, 27/11/09.

sábado, 5 de setembro de 2009

TENTANDO ENTENDER


O ser humano, criatura do TEMPO, angustiado, tenta entender tudo a sua volta, e o faz movido pela busca incessante do saber que, na sua santa ignorância, admite como único caminho para obter respostas para as perguntas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Para chegar ao entendimento, o homem empreende busca insana e desesperada no âmago das partículas atômicas; se perde nas profundezas abissais do oceano; flutua indagativo no espaço etéreo e não dimensionável; contempla curioso o interior de seu próprio organismo; explora expectante o funcionamento das leis da natureza. Incansável, usa a melhor ferramenta a seu alcance, o cérebro, para observar tudo que o cerca, coletar dados, analisá-los e tirar conclusões. Buscando, obtém certo grau de sucesso com coisas físicas, perceptíveis e manipuláveis, mas com o tempo não, este o desafia como ente acima da sua medíocre compreensão. O homo sapiens filosofa, medita, reflete e culpa o tempo, mas não tem controle sobre ele; atribui a ele todos os males que o afligem e agradece todas as curas que o salvam, mas não o entende; sofre as conseqüências da sua eterna marcha, mas não o manipula; vive sob o império de seu jugo implacável, mas não o conquista. O impalpável e ubíquo tempo escapa a qualquer tipo de conceituação rigorosa e, se resta consolo ao buscador de respostas, o homem apenas consegue quantificá-lo, colocar rótulos, criando a ilusão que pode ter alguma influência sobre ele: segundos, minutos, dias, anos, séculos, milênios, eras etc. Enquanto isso, desprezando todos os esforços do homem e até ignorando-o, o tempo caminha reto, decidido, para frente, traçando a linha condutora de todas as coisas vivas e inanimadas ao fim inelutável. JAIR, Floripa, 02/09/09.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A QUARTA DIMENSÃO


Ao contrário do que possa parecer, antes de ser considerado recurso literário vazio, ou expressão de efeito para ilustrar conversa pseudo científica, a quarta dimensão é uma realidade, é um fato incontestável. Imaginemos um objeto qualquer definido dentro das três dimensões clássicas, altura, largura e profundidade, mas sem duração, sem o intervalo de tempo que determine seu início e término; o mesmo se aplica a um evento também, é impossível imaginar a vida sem nascimento e sem morte no final, por exemplo. Ao se considerar um ser que não passou pela vida tempo algum, não se pode afirmar que viveu, portanto, nunca existiu. Se não começa e não termina, não existe. Tão óbvia é esta afirmação que é difícil até concebê-la. Sejam eventos ou coisas, não há possibilidade de existirem sem duração, portanto, o tempo é uma dimensão fundamental na existência de coisas ou eventos, ainda que, admissível, em tese, coisas com apenas duas dimensões como um desenho no papel, onde a profundidade não tem importância, só sendo consideradas largura e altura. Esse mesmo desenho para existir tem que ter intervalo entre o momento de sua criação até o dia em que for apagado ou destruído de outra maneira, daí podermos afirmar que a quarta dimensão, o TEMPO, é até mais importante que as outras. O TEMPO é, sem qualquer possibilidade de contestação, a quarta dimensão da totalidade das coisas, já que sem duração, sem o intervalo entre o “Big bang” e o fim dos tempos, o universo, na prática, passa a ser uma impossibilidade. JAIR, Floripa, 03/09/09.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O MÉDICO-MONSTRO


ROBERT LOUIS STEVENSON nasceu a 13 de novembro de 1850 em Edimburgo capital da Escócia, filho único de um próspero engenheiro civil. Desde muito jovem Stevenson quis ser escritor, e preparou-se para isso. Escreveu inúmeros livros, sendo os dois mais conhecidos, “A ilha do tesouro” (1881), e “O médico e o monstro” (1886), ambos tornaram-se clássicos de aventuras e terror. A ação de “O médico e o monstro” transcorre em Londres do século XIX. A ambientação propícia ao mistério: o fog londrino perpassa a história do princípio ao fim, as luzes mergulham nas sombras, os fatos marcantes ocorrem nas ruas estreitas e de pouco movimento. O que teria levado Dr.Jekyll, homem recatado, elegante, de finas maneiras, a proteger Edward Hyde, um criminoso de feições grosseiras e hábitos estranhos e assustadores? Por mais que Stevenson, com impressionante acuidade, tenha caprichado na descrição ambiental e na construção de personagem maligno e de intenções assustadoras e mortais, parece que nossa sociedade conseguiu produzir algo muito mais intimidante e terrível. Segundo as teorias de Dr. Jekyll, o homem, na verdade, não é apenas um, mas dois. Todo ser humano é dotado de duas naturezas completamente opostas equilibradas de acordo com sua saúde mental. Uma é boa, aquela que traz admiração das pessoas, compaixão dos mais velhos, elogios dos amigos e da esposa ou namorada, tal como um médico reputado que atende pessoas proeminentes da sociedade e cobra muito caro por seu trabalho, por exemplo; outra é má, aquela que é violenta, agressiva, mal-educada, feia e temida por todos, algo assim como um profissional que, aproveitando-se da incapacidade de reação de seus pacientes, comete atos lesivos a sua integridade física e moral, um criminoso dissimulado, enfim. As duas naturezas quando bem distribuídas, com pequenas alternâncias de estado, o homem pode ser considerado normal, mas há os casos em que uma natureza se sobrepõe a outra, tentando se libertar, um monstro abandona a mente do homem normal e comanda suas atitudes através daquele corpo que, até então, se comportava de modo dito civilizado. Um dos mais famosos especialistas em reprodução assistida do país, doutor Roger Abdelmassih, é acusado de crimes sexuais contra pacientes e está preso desde a última segunda-feira (17). O médico foi denunciado (acusado formalmente) pela Promotoria na última quinta-feira (13) sob acusação de 56 estupros. Em geral, as mulheres o acusam de beijá-las ou acariciá-las quando estavam sozinhas sob efeito de anestesia sem o marido ou a enfermeira presente. Algumas disseram terem sido molestadas sexualmente após a sedação. Há indícios que o médico venha apresentando esse comportamento de Mr Hyde por, pelo menos, quarenta anos e tenha molestado centenas de mulheres indefesas, algumas tendo ficado grávidas dele, inclusive. Pois é, a vida imitando a arte na maior crueza e de forma mais sinistra. A nossa versão de “Dr. Jekyll and Mr. Hyde” ganha de lavada dos personagens de Stevenson, com o agravante que é real e seus atos prejudicam pessoas reais, e não servem apenas para deleitar leitores de histórias de terror. JAIR, Floripa, 24/08/09.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A GRIPE PARA LEIGOS (COMO EU)


Com a chegada da gripe, primeiro denominada injustamente de “suina” e depois de “Influenza A (H1N1)” e alcunhada de “A” para facilitar nossa vida, surgiram afirmações na imprensa que deixam nós, os leigos, se não apavorados, pelo menos temerosos do que pode acontecer: à nossa saúde em particular; e ao resto da humanidade no geral. De cara, a palavra “pandemia” está sendo largamente utilizada permitindo-nos imaginar alguma coisa como a peste negra que assolou a Europa, em várias ocasiões a partir do século doze, matando quase um terço da população, e dizimando aldeias e cidades quase ao ponto de inviabilizar a civilização em algumas das regiões mais afetadas; ou lembrar da gripe espanhola que, causada por um vírus extremamente fatal ao homem, se propagou em progressão geométrica a partir dos campos de batalha da Europa em 1917 e matou milhões de pessoas em todo o mundo; ou, ainda, a chamada gripe asiática que, em meados da década de cinquenta do século passado, contagiou mais da metade da população mundial, levando a óbito centenas de milhares de habitantes, acometidos de infecções oportunistas, em virtude da imunidade diminuída pela doença. Será que o termo pandemia está bem colocado e devemos temer mais essa gripe que as gripes comuns que todos os anos acometem milhões de pessoas em todo o mundo matando muitos milhares delas? Será que a gripe “A” é tão perniciosa que devemos nos cercar de cuidados muito mais severos que os usados contra as gripes comuns? Para nos situarmos a respeito dessas indagações vamos rever alguns fatos e procurar algumas definições. Todas as doenças causadas por microorganismos patogênicos ou agentes biológicos como, vírus, bactérias, amebas, fungos, protozoários e parasitos têm algumas particularidades comuns, umas com as outras: contágio, virulência, morbidade e mortalidade são quatro importantes fatores que todas têm, e que definem a gravidade da ocorrência quando estas se instalam numa população e, em menor ou maior grau, demandam cuidados necessários para evitar uma epidemia ou uma pandemia. Lembrando: Epidemia – doença que ataca ao mesmo tempo muitas pessoas da mesma terra ou região; Pandemia – doença que ataca ao mesmo tempo a maior parte das pessoas de uma região ou do mundo. Agora vejamos os conceitos das características comuns das doenças infecciosas: Contágio – transmissão de doença por contato mediato ou imediato. É a capacidade que o agente tem de se difundir numa população, seja por contato físico, transmissão de sangue, troca de mucos corporais ou pelo ar, simplesmente. Assim, a AIDS, por exemplo, é muito menos contagiosa que qualquer gripe, sendo que esta ao ser transmitida pelo ar é extremamente “democrática”, não escolhe classe social, cor, idade, credo religioso ou nível de escolaridade; Virulência – capacidade do microorganismo de causar danos ao organismo afetado, ou seja, intensidade da doença que o agente causa. De forma que, um vírus que causa uma leve coriza e algum desconforto é menos virulento do que outro que causa febre, dores no corpo e congestão pulmonar; Morbidade – taxa de indivíduos doentes numa dada população. Maior número de doentes em relação ao número de habitantes, igual a morbidade maior, bem simples; Mortalidade – número de doentes que morrem em função da doença. Se de certo grupo de doentes morre a metade, significa que a mortalidade é de cinquenta por cento. Lembrando que a medicina diz que, ao contrário das gripes espanhola e asiática do passado, tanto o contágio como a virulência, a morbidade e a mortalidade da gripe “A” são iguais das outras gripes. E não me venham com a conversa que se trata de um vírus novo, porque, o universo de vírus que causam gripe compõ-se de mais de duzentas variedades diferentes, de tal modo que podemos ter gripe todos os anos de nossa vida sem nunca repetir o mesmo vírus, sempre somos atacados por um novo vírus. Então para que tomar medidas excepcionais contra alguma coisa igual outra que se enfrenta sem maiores problemas? E tem mais uma coisa importante, mas que ninguém fala: todos os anos milhões de pessoas são acometidas de gripes “comuns” e muitas morrem. Isso significa que com o surgimento de uma nova gripe com a mesma potência das outras (contagio, virulência, morbidade e mortalidade), vai morrer o dobro de pessoas contagiadas, já que agora temos mais uma doença? A reposta é NÃO. Porque grande maioria dos que são contagiados pela nova gripe são as mesmas pessoas que seriam atingidas pelas gripes comuns, apenas o agente é outro, um pouco diferente, mas as condições que as pessoas pegaram a gripe “A” são as mesmas que pegariam as outras gripes. Então não podemos somar os pacientes de gripes diferentes. Quando muito podemos criar um “fator de novidade gripal” que adiciona um pouco mais de pacientes afetados, já que a novidade alcança, além dos indivíduos pré-determinados a ficar gripados, - ou seja, aqueles que pelas condições físicas debilitadas, ou pela exposição aos fatores de contaminação, pegariam qualquer outra gripe no período considerado, - alguns outros poucos que viajaram para o exterior e lá se expuseram ao novo vírus, por exemplo. Assim, meus senhores, pandemia, epidemia e os cambau é exagero, é alarmismo desnecessário e paranóico. Que devemos nos prevenir, não tenham dúvidas, mas não há razão para pânico nem para fechar escolas, ou usar máscaras cirúrgicas o tempo todo. A prevenção deve ser igual a que teríamos que fazer contra qualquer gripe. Se assim fosse, todos os anos em período de surto gripal todas as escolas deveriam ser fechadas e os mesmos cuidados agora tomados seriam obrigatórios também. Considerando que existem apenas duas opções para criarmos anticorpos que nos imunizem contra esse agente: vacinação e exposição ao virus, o que as autoridades estão fazendo é uma rematada estultice, pois não temos vacina e estamos evitando a exposição, ou seja, o problema está sendo adiado, empurrado com a barriga, algum dia nossa saúde vai pagar essa conta. Ou então, a medicina está escondendo alguma coisa terrível a respeito dessa gripe e não nos diz nada, o que não acredito, teoria conspiratória não é uma boa opção. JAIR, Floripa, 11/08/09.

domingo, 12 de abril de 2009

COLEÓPTEROS




Coleópteros são insetos da ordem Coleoptera cuja característica mais notável é aquela carapaça lustrosa, muitas vezes bem colorida que cobre as asas delicadas, protegendo-as. Essa carapaça ou casquinha, chamada élitro, contribui para a estética do bicho e suas cores e padrões podem definir a espécie ou variedade a qual o inseto pertence. Todos os besouros, joaninhas, vaquinhas, carochinhas, gorgulhos, cascudinhos, escaravelhos, carunchos, brocas ou qualquer nome que se dê a esses insetos blindados, são coleópteros. Esses bichos são extremamente bem adaptados aos diversos climas e variedade de ambientes, de forma que vivem em desertos, planícies, matas ciliares, rios, lagos, praias, mangues, montanhas, florestas tropicais e temperadas, pântanos, campos e quaisquer outros nichos ecológicos imagináveis de todos os continentes com exceção da Antártida. Grande parte das pragas que atacam as lavouras são coleópteros, quer insetos adultos, quer suas larvas. Assim, nos acostumamos associar esses bichos com danos que eventualmente eles nos causam e os temos na conta de inimigos públicos, para dizer o menos. Entretanto, essa idéia de perversidade ligada ao inseto não se traduz em números, das 350 mil espécies conhecidas de coleópteros, apenas algumas dezenas, efetivamente, ocupam-se em atacar os cultivares desenvolvidos para alimentação humana, a esmagadora maioria é inocente, ou seja, trata-se de insetos inofensivos que só estão preocupados com a reprodução, alimentação e modus vivendi lá deles, sem tomar conhecimento que na superfície do planeta em que vivem, existe um tal de homo sapiens, seja lá o que isso for ou represente para sua própria existência. Outras tantas espécies podem ser bonitas, úteis, curiosas, muito grandes, muito pequenas, ignoradas, feias, bizarras, estranhas ou indiferentes, mas não molestam o ser humano. A Joaninha é um exemplo de animal bonito e útil – quem durante a infância não apreciou a beleza colorida da carapaça pintalgada de uma joaninha? As joaninhas são predadores no mundo dos insetos e alimentam-se de afídeos, moscas-da-fruta e outros tipos de insetos. Uma vez que a maioria das suas presas causa estragos às colheitas e plantações, as joaninhas, o mais das vezes, são consideradas benéficas pelos agricultores. O Besouro vira-bosta ou escaravelho é exemplo de animal útil também: é um bichinho de cerca de 4 centímetros de cor verde metálica ou marrom, que tem como característica o hábito de fazer uma bola de excrementos de animais, principalmente de cavalo, a qual costuma rolar até um local onde, junto com a fêmea, que põe ovos sobre a bola, enterra e deixa para as larvas que nascerem se alimentarem. Essa bolas servem de adubo para a terra onde se encontram. O Besouro bombardeiro é o típico animal curioso: Vivendo na superfície da terra este besouro passa a maior parte do tempo se escondendo entre raízes de árvores ou debaixo de pedras. Sendo um animal carnívoro, gosta de comer insetos de corpo mole e moluscos como lagartas e caracóis, sendo muito veloz para alcançar sua presa. O nome de bombardeiro se dá ao fato de que quando se sente ameaçado bombardeia, em qualquer direção em que se encontre seu predador, com o jato de um líquido que sai do seu abdome. Este líquido sai e provoca uma espécie de fumaça azulada produzindo um barulho alto assustando deste modo o inimigo. Esse líquido expelido sai fervendo e com um cheiro bastante forte e desagradável, podendo provocar queimaduras em outros insetos. Na pele humana só causa uma leve ardência. O Besouro gigante é bizzarro, não só é o maior besouro como também é o maior inseto do mundo. Além ser o maior inseto em peso, também é o maior invertebrado voador. Vive na Floresta Amazônica e se alimenta de material orgânico em decomposição no solo úmido. Pode chegar até a 22 centímetros de comprimento, é maior do que a mão de um homem adulto, e pesar cerca de 70 gramas. Em matéria de periculosidade também os coleópteros estão bem representados. O Besouro venenoso medindo de um dois centímetros vive no sul e centro da Europa, Sibéria e América do Norte. Começa a aparecer na Europa durante o verão. A fêmea põe seus ovos próximos às colméias, pois quando os filhotes nascem entram no ninho das abelhas. Lá dentro sofrem uma transformação, soltam a pele e viram larvas minúsculas que passam a se alimentar das larvas das abelhas. Além de exalar um cheiro muito forte, para que os predadores não se aproximem, eles soltam um veneno que queima a pele formando bolhas. Insetos considerados dos mais venenosos que existem. Outro coleóptero muito interessante é o Besouro Serrador, este bicho costuma fazer um corte bem definido em torno de um galho, o qual derruba e no qual a fêmea deposita ovos que, ao eclodirem, geram larvas que se alimentarão da madeira do galho. O Vaga-lume ou pirilampo também é um coleóptero dos mais estranhos. Com seu corpo frágil, cor de terra, a fêmea do vaga-lume pode somente arrastar-se no chão. Como ela faz para chamar a atenção dos machos alados que zumbem no ar quente da noite? Para compensar a falta de asas, desenvolveu algo muito especial: pequenas glândulas que segregam luciferina, uma substância que em determinadas condições se torna luminescente. A luz verde é o sinal para que o macho interrompa seu balé aéreo e venha juntar-se à fêmea. Essa diferenciação tão marcada entre os sexos é rara entre os coleópteros. Na maioria das espécies de pirilampos ambos os sexos são alados e luminescentes, e o macho atrai as fêmeas com suas luzes pisca-pisca. Este processo é chamado de "oxidação biológica" e permite que a energia química seja convertida em energia luminosa sem a produção de calor. As luzes têm diferentes cores, pois variam de espécie para espécie e nos insetos adultos facilitam a atração sexual. Os lampejos equivalem ao início do namoro: são códigos para atrair o sexo oposto. Mas a luminescência também pode ser usada como instrumento de defesa ou para atrair a caça. De todos os coleópteros o Vaga-lume talvez seja o mais exótico de todos. Bem, considerando esse multimilenar universo de seres pequenos, podemos facilmente escolher os coleópteros como os representantes mais formidáveis dos insetos pela sua espantosa variedade, pela diversidade de suas aptidões e pela beleza de seus coloridos. JAIR, Floripa, 12/04/09.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

RÉQUIEM PARA KITTY GENOVESE


Hallo Kitty! Tu eras uma jovem de 28 anos que vivia uma vida comum no Queens em Nova Yorque e foste brutalmente assassinada praticamente à porta do edifício onde moravas. Na madrugada do dia 13 de março de 1964 tu foste atacada por Wilston Moseley – que depois se constatou ser um serial killer que já havia matado outras duas mulheres – esfaqueada diversas vezes, estuprada e roubada em 29 dólares, numa ação que durou quarenta e cinco minutos. Ao todo 38 pessoas nos apartamentos próximos abriram suas janelas, ouviram teus gritos de socorro e nada fizeram. Só depois que teu corpo se encontrava inerte na calçada e o assassino tinha se evadido um dos vizinhos chamou a polícia. Pobre Kitty! Nada do que vou dizer vai servir de consolo para ti ou para aqueles que choram tua morte; nada vai mudar também os fatos que tão mal te resultaram; nada do que eu diga vai trazer teus dias bons e ruins e tua vida pacata, simples e sem brilho especial de volta. Contudo, onde quer que tu estejas, vais poder entender como as coisas são, mas não deveriam ser. Tu foste vítima não só do assassino frio Wilston, - este apenas empunhou a arma que te feriu de morte – mas, também, de uma sociedade capitalista altamente industrializada que desumaniza as pessoas; onde estas são valorizadas apenas pelos números que representam: "tantas horas trabalhadas, tantas peças produzidas, tantos dólares ganhos". Uma sociedade onde seus membros são espectadores passivos das mazelas que os rodeiam; onde “os outros” não são seres humanos como tal, seres com alma, sentimentos e valores iguais aos nossos; se vivem além de nossas paredes, se vivem fora do “invólucro” próprio que cada um de nós carrega em torno de si - uma espécie de aura que nos envolve, e na qual qualquer entrada não permitida nos incomoda, nos perturba - são seres diferentes, são moradores de um mundo que “não nos interessa”, não nos pertence e, por isso, fora do alcance de nossa solidariedade, de nossa preocupação. Essa sociedade destituída de suas células primeiras, as famílias, constitui uma amálgama não identificável de indivíduos solitários que pugnam a luta inglória de obter “um lugar ao sol”, de conquistar o privilégio do “eu primeiro” a qualquer custo, sem considerar os direitos dos outros, ou olhar as necessidades do vizinho ao lado; essa sociedade gera, nas suas entranhas degradadas de valores morais, indivíduos nefastos com instintos voltados para o niilismo que destrói, que aniquila, voltados para o mal pelo prazer mórbido de praticá-lo; essa sociedade colocou a arma na mão do assassino e voltou as costas quando o crime estava sendo praticado. O comportamento egoísta e indiferente desses homens-máquina modernos urbanos desmente o que o poeta e o filósofo disseram: "Nenhum homem é uma ilha isolada", frase do poeta inglês John Donne, depois atribuída ao filósofo Teilhard Chardin, a qual traduz o sentimento que acode ao poeta e ao filósofo em acreditar que o gênero humano é bom e faz parte de um todo indivisível; que seus membros são unidos e dependem uns dos outros; que, ao morrer um homem, deixa um sentimento de perda, um vazio na alma naqueles que ficam, uma incompletude angustiosa como o sentimento de orfandade; tanto, que Donne continua seu poema: "cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano", e o filósofo completa seu pensamento: "Isto significa que o homem não consegue viver isoladamente e uns precisam dos outros para sua sobrevivência" Santa ingenuidade! Ao poeta podemos atribuí-la a licença que lhe concede a musa ao lhe dar o dom de enxergar com a alma; e, ao filósofo, cujo pensar está acima das coisas vãs, terrenas, podemos entender que o mundo ao qual se refere é um ideal a ser alcançado, e não esse mundo mesquinho cotidiano que nos oprime e nos transforma em gado sem vontade e sem objetivo. O comportamento da sociedade humana, longe de ser esse utópico ideal poético-filosófico, está mais próximo de uma hipotética matilha degenerada de lobos que, antes de caçarem unidos para obter melhores resultados, canibalizam-se uns aos outros até não mais constituírem uma comunidade coesa e cooperativa e, sim, um conjunto de seres brutos, isolados nos seus egoísmos deletérios e finais. Por isso, Kitty, onde quer que tu estejas, ainda que te vejas triste por não poder contemplar horizontes, sentir o aroma das flores ou ouvir o som de uma sinfonia, não chores! O mundo que deixaste para trás é vil, não vale uma única lágrima tua. JAIR. Floripa, 02/04/09.

terça-feira, 10 de março de 2009

A ÍNDIA É UM ENIGMA


Estou lendo o excelente livro “Criação” de Gore Vidal onde autor faz um retrato riquíssimo da sociedade indiana com suas castas, etnias, milhares de deuses e inúmeras religiões, e assisti ao filme ganhador de três Oscars, “Quem quer ser milionário” o qual exibe, com chocante previsibilidade, os contrastes sociais da Índia, nação onde as diferenças entre a maioria miserável e analfabeta e a elites ricas e poderosas, são milenares, aviltantes, astronômicas e sem quaisquer possibilidades de mudança num futuro previsível. O sistema de castas sociais, onde o nascimento determina a impossibilidade de ascensão social; onde o indivíduo só é entendido como pertencente a uma casta a qual ele deve fidelidade absoluta e vitalícia; onde infringir as normas de sua casta significa expulsão e inclusão na casta dos párias ou intocáveis, o que é o mesmo que destituí-lo da condição de ser humano, torna a sociedade indiana a mais ignominiosa e injusta do planeta. Grosso modo, são quatro as castas clássicas: Brâmanes, Xátrias, Vaixás e Sudras, e, uma quinta, os Párias, que são uma espécie de classe de seres abaixo de classificação, mas que, curiosamente, possui suas próprias subcastas. Todas as castas são divididas em subcastas, subsubcastas de tal forma que são discerníveis mais de oito mil subdivisões, o que torna a sociedade indiana de uma complexidade macarrônica. O perverso do sistema é que, como não há mobilidade vertical intercastas, quem nasce pária, por exemplo, não tem qualquer possibilidade de estudar e se tornar médico, engenheiro, professor, técnico em alguma coisa, sua vida estará traçada com rigor numa profissão humilde e mal remunerada que poderá ser carregador de água ou limpador de fossa sanitária, não há escolha. Seus filhos, netos e demais descendentes também estarão destinados à mesma profissão. É claro que lá existem cientistas, prêmios nobéis em medicina, física, matemática e outros luminares, mas, estes são todos das castas Brâmanes ou Xátrias. Não sei e não me interessa extrair alguma ilação proveitosa dessa incrível situação heterodoxa de uma nação tão antiga e que, parece, optou pelo caos como organização social. A Índia já foi colônia inglesa e se tornou independente em 15 de agosto de 1947, separando-se em duas nações diferentes: A República da Índia que ocupava o coração do sub continente e a nova República do Paquistão, a qual foi dividida em dois lados, Ocidental e Oriental, sendo que este se tornaria a nação de Bangladesh. O propósito inicial dessa divisão era que os muçulmanos ficassem no Paquistão e os hindus na Índia, não foi o que aconteceu, houve uma mistureba federal em ambos os países, o que não contribuiu nem um pouco para a harmonia social. O inusitado da situação é que, apesar da salada de etnias, multiplicidade de idiomas, número infinito de deuses e inúmeras religiões com disposições antagônicas, favelas maiores e mais miseráveis do planeta e esse absurdo sistema de castas, a Índia ainda é uma democracia estável e uma potência atômica. Durma-se com um barulho destes. JAIR, Floripa, 10/03/09.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A ARANHA


Primeiro, a aranha não é um inseto como muitos desavisados a classificam. Os insetos se caracterizam por ter três pares de pernas, cabeça, tórax e abdômen, além de outras particularidades internas e externas como antenas, por exemplo, e a maioria tem asas. As aranhas são animais artrópodes pertencentes à ordem Araneae da classe dos aracnídeos, tem oito pernas e seus corpos se dividem em cefalotórax e abdômen, não tem antenas e, obviamente não têm asas. São bichos tremendamente bem sucedidos em matéria de sobrevivência, adaptação a vários ambientes, diversidade e longevidade das espécies – existem mais de quarenta mil espécies há mais de duzentos milhões de anos. Muito bem, os bichos estão aí, nós também, então temos que admitir viver com eles, apesar deles, a favor deles ou a nosso favor, mas, sem esquecer que eles têm o mesmo direito à vida que nós, ou até mais direito, já que aqui se encontravam a milhões de anos quando surgiu o abominável homo sapiens. As aranhas são, essencialmente, caçadoras de insetos e aqui reside o benefício que elas nos trazem, onde há aranhas os insetos somem, menos as formigas, que estas só são contidas a golpes de tamanduá, formicida natural mais eficiente que existe porém, infelizmente, esse belíssimo animal da fauna brasileira está quase em extinção graças à incúria e ignorâncias humanas; algumas das caranguejeiras maiores caçam filhotes de pássaros, lagartixas e até pequenos mamíferos como camundongos; outras, como a aranha-pescadora, cujo nome já diz tudo, pescam pequenos peixes de água doce. Por serem abundantes e encontrarem-se disseminadas pelo planeta é inevitável cruzarem nosso caminho quase todos os dias e, eventualmente, causarem algum dano à nossa saúde, já que para se defenderem usam as quelíceras ou pinças que, o mais das vezes contém veneno, se bem que em quantidades tão pequenas que dificilmente o dano torna-se sério. Então ficamos assim, não é necessário adotar essas pequenas hóspedes que vivem nas paredes ou no jardim de nossa casa, como eu fazia quando criança dando-lhes moscas para comerem; tampouco transportá-las no bolso como se fossem animais de estimação um pouco exóticos; mas, vamos respeitá-las e deixar viverem suas vidas em paz, assim estaremos contribuindo para a harmonia da vida, a qual todos têm direito, entre os seres deste maltratado planeta. JAIR, Floripa, 07/02/09.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PARA FAZER JUSTIÇA


O nome científico do bicho é orcinus orca, mede de sete a oito metros e meio de comprimento e pesa de cinco a oito toneladas. Esses soberbos mamíferos marinhos são conhecidos popularmente por Baleias assassinas, nome duplamente incorreto, injusto e que carrega forte carga de preconceito. Para começar não são baleias. São membros maiores da família dos golfinhos, ou delphinidae, e, apesar do tamanho, são mais aparentadas ao golfinho nariz de garrafa do que de qualquer das baleias maiores. O termo assassinas deve-se, quase certamente, ao seu hábito alimentar que, ao contrário das baleias verdadeiras, comedoras de Krill e de peixes miúdos como sardinhas e arenques, as orcas alimentam-se de peixes de quaisquer portes, tartarugas, polvos e animais de sangue quente como lontras, golfinhos, toninhas, focas, leões marinhos, morsas, pinguins e até grandes baleias. Não há registro que seres humanos tenham sido, alguma vez, molestados, atacados, mordidos ou comidos por esses mamíferos. São animais extremamente inteligentes e, surpreendentemente, vivem mais de sessenta anos em praticamente em todos os oceanos e mares do planeta, podendo ser encontrados na Antártida, no Ártico, em águas tropicais dos oceanos Atlântico, Pacífico, Índico e até no Mediterrâneo. Segundo Lance Barret-Lennard, biólogo da Universidade da Colúmbia Britânica que fez um extenso estudo do DNA das orcas, existem duas, senão espécies, pelo menos variedades desses cetáceos. Grupos chamados residentes jamais se afastam de seus sítios de nascimento, reprodução e alimentação, vivem nos fiordes do Alaska, nas águas geladas da Patagônia, nas Aleutas ou nas costas da Nova Zelândia, por exemplo. Já as orcas transientes, verdadeira nômades dos oceanos, se deslocam ao longo de milhares de quilômetros, aparecendo às vezes, na Antártida num período e no Mar de Bering em outro. Essas variedades, além de possuírem hábitos de vida totalmente diferentes, também têm aparências distintas, as residentes têm barbatana dorsal menor e com contorno suave, arredondado, enquanto nas nômades é grande e pontuda, a barbatana dorsal. Entretanto, ambas as variedades apresentam manchas brancas num fundo preto que não se repetem, são com impressões digitais, uma orca é sempre diferente da outra. Observações mais acuradas demonstram que essas variedades ou espécies diferentes não se intercruzam e, quando se encontram por acaso, se ignoram, é como umas não existissem para as outras. São animais de culturas diferentes que nada sabem dizer uns aos outros. Sua organização social aparenta ser matriarcal, isto é, vivem em grupos familiares compostos de uma fêmea alfa acompanhada de parentes em primeiro e segundo graus, como filhos e filhas, sobrinhos e sobrinhas, irmãos e irmãs. Há indícios que machos jovens e sexualmente ativos de um grupo, eventualmente costumam dar uma “escapadinha”, isto é, se deslocam para outros grupos onde se acasalam com fêmeas de constituição genética não aparentada, depois retornam ao seio de seu grupo onde continuam vivendo com a mãe, são uma espécie de filhinhos da mamãe por toda vida. Quanto à comunicação, embora exista uma espécie de “linguagem comum” de estalidos, guinchos, rosnados e roncos, tão severos são os laços de família que cada grupo desenvolveu seu dialeto próprio – variações específicas na linguagem, suficientemente distintas para permitir aos pesquisadores à escuta identificar uma família sem jamais pôr os olhos nos animais. Acredita-se que a diferença de dialetos serve para impedir cruzamentos consangüíneos, sendo que o macho procura fêmeas de sotaques diferentes do seu para acasalar. Ainda que esta magnífica habitante dos mares tenha organização social reconhecível e estável; inteligência acima de muitas espécies de mamíferos terrestres; linguagem ampla, elaborada e complexa; laços familiares que se traduzem em proteção à prole; docilidade á convivência com os primatas humanos, como provam os parques aquáticos com suas orcas amestradas e o filme “Free Willy”,e, mais importante, nenhuma agressividade ou ameaça para a vidas dos seres humanos, o homem a qualifica de assassina. É uma injustiça clamorosa, mesmo porque, quem prejudica o animal é o homem, e não o contrário. Então, o que leva o bicho-homem a rotular de assassinos esses belos animais que navegam a mais de cem milhões anos pelo mares e, se não forem dizimados, ainda o farão por outros tantos milhões? Simples! Inveja, mesquinha e rasteira inveja! o ser humano, como espécie, sente, através do inconsciente coletivo, inveja atávica de um mamífero tão bem sucedido! Para se fazer justiça há que se reconhecer e nominar as orcas pelo que elas são: mamíferos marinhos carnívoros que vivem com o que a natureza lhes proveu, seu instinto de caça e sua capacidade de organização para capturar o alimento. Na verdade, se quisermos, rigorosamente, nominar um assassino, este é o homem, esse onívoro imbecil e predador que não se contenta em matar apenas para se alimentar, mata por esporte, por auto-afirmação ou por maldade. Este sim, um verdadeiro baleio assassino. JAIR, Floripa, 29/01/09.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

PARA ENTENDER


O atual conflito bélico entre Israel e os palestinos da Faixa de Gaza nada mais é que o desdobramento de conflitos anteriores - para ser exato, quatro guerras desde a criação do estado de Israel por decisão da ONU em 1947. Guerras que são a continuação da eterna desavença entre árabes e judeus, povos semíticos que habitam, mais ou menos ininterruptamente, aquele pedaço do mundo desde quatro mil e duzentos anos, pelo que se sabe. Pois é, a imprensa de um modo geral faz questão de mostrar cenas horrendas de crianças palestinas mortas e mutiladas por tropas israelenses. O que a imprensa não mostra, e o desavisado leitor ou espectador não sabe, é que o conflito, embora com raízes extremamente complexas para serem explicadas num espaço como este, pode ser entendido na sua fase atual. Desde a criação de Israel, os árabes do Egito, Jordânia, Síria e Líbano, bem como povos não árabes, mas igualmente muçulmanos do Irã e Iraque, se insurgiram contra o novo estado, NEGANDO-LHE A EXISTÊNCIA. O que, fundamentalmente, Israel quer é o reconhecimento de seu direito de existir, mesmo porque, ali está, e não há fórmula legal, ou mesmo mágica, de apagar um país. Depois da "Guerra do Yom Kippur" em 1973, o Egito, numa sábia atitude de seu presidente Anuar Sadat, reconheceu o estado de Israel e nunca mais houve guerra entre eles. Ambos os países, se não amigos, pelo menos se respeitam e mantêm representações diplomáticas atuantes em suas capitais. A Jordânia, seguindo o caminho do Egito, também reconheceu Israel em 1994, e ambos abandonaram hostilidades. Os demais países árabes, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, além de negarem o direito de um povo de existir, fazem disso uma doutrina que incutem na mente de suas crianças nas escolas; pregam a eliminação do povo judeu como condição sine qua nom para sua própria existência, ou seja, enquanto Israel existir não haverá quaisquer condições de convivência pacífica, não haverá maneira alguma de existir paz, os povos palestinos não terão uma pátria. Ora, Israel sempre estendeu a mão antes de mobilizar seus sofisticados tanques, sempre propôs conversar ao invés de bombardear com suas mortíferas aeronaves. O fato da retaliação de Israel aos ataques palestinos parecer desproporcional deve-se a dois fatores. Quando das guerras anteriores, Israel se viu frente a vários exércitos extremamente bem armados com intuito claro de, segundo palavras dos próprios árabes, “jogar os judeus ao mar”, sendo assim ameaçado, não houve outro meio senão se armar melhor que os inimigos. Armamento melhor e mais sofisticado causa impacto mais formidável, não importa se empregado ofensiva ou defensivamente, daí as cenas que se repetem ad nauseam. O segundo fator decorre do primeiro, os palestinos SABEM que não têm meios de combater no mesmo nível seus figadais inimigos, então recorrem a táticas que, ao tempo que enfurecem os israelitas, não se mostram tão espetaculares na televisão, por isso são menos notadas, o que significa que nós não podemos ter uma idéia clara do que estão fazendo, só vemos tanques atacando casas e quarteirões inteiros e isso nos impacta. Qualquer guerra é injusta, desumana e deveria ser evitada, mas, nessa, devemos ter em conta que se os palestinos reconhecerem o estado de Israel e deixarem de atacá-lo o motivo para a guerra desaparece, e a Israel não sobrará razão alguma para retaliação e, com boa vontade como se sabe, estenderá a mão e acolherá um estado palestino com todas as honras. Com certeza será bom para ambos os povos e para o mundo, todo homem de boa vontade pensa, ou deveria pensar assim. JAIR, Floripa, 13 de janeiro de 2009.

sábado, 3 de janeiro de 2009

MUDANÇA ORTOGRÁFICA E VÁCUO


A anunciada mudança ortográfica que vigora a partir do primeiro dia de 2009 vai cair num vácuo, não deve afetar em nada os internéticos e seus textos pós-modernos, ou seja lá qual for o nome dessa escrita quase cifrada que transita pela web. Ora, desde a criação da internet e seus saites e salas de relacionamento, vimos sendo bombardeados, cada dia com mais intensidade, por um neo-idioma que suprime “s”, acentos, til, cedilha, além de ignorar as mais elementares regras vernaculares. Vejam bem, antes que algum irado patrulheiro neogramatical venha com os velhos chavões: “a língua é dinâmica”, “um idioma evolui de acordo com os usuários”, “não há regras” e outras bobagens, quero explicar que entendo perfeitamente donde vêm essas quebras de decoro para com nossa bela flor do Lácio: Todos os primeiros computadores e muitos ainda hoje, trazem o teclado adaptado para a língua inglesa, ou seja, sem cedilha e sem acentos, e isto, somado ao fato que a geração mais nova – essa que mais usa a internet – não lê, portanto, não retém na memória a forma consagrada (não digo correta para evitar que patrulheiros venham com os chavões citados) de escrever, temos como resultado essa esdrúxula ortografia. O internético escreve como fala e como lhe permite o teclado, não há nenhum mistério nisso. Se há alguma coisa a lamentar, não é a criação dessa linguagem escrita feita por e para semi-alfabetizados, mas sim o fato de que se está formando toda uma geração que deverá herdar o planeta, mas que não gosta de ler nem sabe escrever e, muito pior, não se preocupa com isso. JAIR, Floripa, 02/01/09.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

FALANDO SOBRE OVOS


Depois que publiquei meu post sobre ovos recebi alguns comentários e, entre eles, destaco o seguinte: “Jair. Muito bom e didático este seu ‘textículo’ sobre ovos, entretanto, não devemos esquecer que existem também, ‘os óvos’, linguajar chulo que define testículo..” do meu primo Joel. Pois é, pelo visto faltou enquadrar o assunto na conotação testicular. Na verdade se formos encarar as gônadas masculinas em função de sua forma geométrica elas guardam mais semelhança com um feijão ou um rim, não com um ovo. Contudo, como encerrei meu texto aludindo à perfeição: O OVO CÓSMICO é por aí que vamos começar, mesmo porque, esse é o ovo primordial. O ovo cósmico representa a perfeição por que ele seria a gênese de tudo que existe, é dele que tudo se origina. Não só a origem física das coisas, como a origem do próprio pensamento; a origem da idéia de criação. Vejamos. É do ovo que nascem as aves, os répteis e os peixes; nos mamíferos os ovários das fêmeas assemelham-se a ovóides e, dali saem os óvulos que não pela forma, já que são esféricos, estão ligados à idéia de criação, nascimento, concepção; com uma certa liberalidade podemos dizer que o aspecto da maioria das frutas se assemelha a ovos; até formas oblongas alongadas como uma banana, embora não pareçam, também são ovos degenerados; já a maioria das laranjas, por exemplo, são tão parecidas com ovos de avestruz que torna-se claro entender a correlação existente. Ora, as frutas também estão, intrinsecamente, ligadas à reprodução, à perpetuação das espécies, pois nelas estão inclusas as sementes que podem ser vistas como ovos da planta que quer se reproduzir. A idéia do início de tudo associada ao ovo está na totalidade das coisas que nos cercam e, não poderia ser diferente, até nos nossos bagos. Os testículos poderiam ter formato de cubo ou octaedro e, ainda assim seriam ovos, obviamente, neste caso, não pelo aspecto mas, pela finalidade a que se destinam, isto é, pela idéia de início da vida. Queiramos ou não, quando se diz que o homem pensa com os testículos, de certo modo é verdade, passamos mais tempo pensando em sexo que preocupados com questões filosóficas e pensamentos abstratos; temos entre as pernas o saco escrotal que é tão importante quanto o cérebro só que mais aparente e sensível. Nosso cérebro, não por acaso encerrado numa caixa craniana em forma de ovo achatado, não sente dores, sendo possível até intervir cirurgicamente sem anestesia em seu interior, já nossas bolas são dotadas de uma sensibilidade em nenhum momento igualada por quaisquer órgãos do corpo. A natureza localizou o escroto dos homens entre as pernas para, justamente, protegê-lo de possíveis agressões externas; as pernas são escudos sólidos que ladeiam como colunas dóricas esse tão delicado quanto essencial órgão; por trás, a região glútea muito musculosa age como almofada amortecendo qualquer tipo de impacto vindo de lá; na frente nossos olhos são os radares que nos advertem se houver perigo iminente. Assim, protegidos pela natureza, os colhões são, ainda que só do ponto vista masculino, o centro da origem dos seres organizados e, por isso, sejam eles redondos, quadrados ou de qualquer outra forma sempre serão OVOS. JAIR, Floripa, 29/12/08.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O MELHOR LUGAR DO MUNDO




É comum ouvir de gente que chegou do exterior: “O Brasil é o melhor lugar do mundo”. Será mesmo? E aqui não quero fazer comparações, não quero confrontar mazelas ou comparar atributos, não quero cotejar climas ou belezas topográficas, não quero enaltecer qualidades das pessoas que aqui habitam e mostrar que somos melhores nisto ou naquilo, não quero e não vou apelar para a índole do brasileiro, que é pacífica, tolerante, solidária e alegre, segundo se apregoa. Vou apenas fazer algumas considerações que me parecem pertinentes. Muito bem, se este é o melhor país do planeta é lícito supor que mais gente, além de nós brasileiros, saiba disso, não é mesmo? Se assim é, se outros povos de outros países sabem que esta é a abençoada Canaã, onde há fartura, clima inigualável, alegria e felicidade vinte e quatro horas por dia e onde se plantando tudo dá, por que então não vêm para cá? Por que americanos, que têm pencas de dinheiro, não vêm em massa morar no Brasil então? Por que Bolivianos pobres, lá dos altiplanos onde quase não há água, a comida é escassa e não existe infra estrutura alguma, não correm em desespero para aqui se radicar? Por que para aqui não vêm com grande afluência os povos de Burkina Fasso, Quênia, Suriname, Guatemala, Estônia, Moldávia e centenas de outros países? Por que? Simples, tanto bolivianos quando americanos ou quaisquer outros povos sentem pelo país deles o mesmo que sentimos pelo nosso. Não há “Melhor lugar do mundo”, todos são, subjetivamente, tão bons ou tão ruins quanto os julguemos. O altiplano boliviano é tão bom para aquele que lá vive quanto é bom o Brasil para quem vive no Guarujá ou na Vieira Souto. Kuala Lampur é tão própria para se viver quanto Côte D'Azur. O americano gosta tanto dos EUA quanto gostamos do Brasil, ponto. Uma área geográfica da terra não define a felicidade ou a falta dela para quem nela vive. Além disso, todos, sejam da Groenlândia, do Togo ou do Japão, têm o mesmo direito de julgar seus lugares “os melhores do mundo” não é mesmo? E mais, por que num planeta com tanta diversidade de clima, topografia, fauna, flora, etnias e outras diferenças, cuja divisão política em países é meramente arbitrária e não segue critérios racionais, só o Brasil teria recebido a ventura das coisas boas? Vamos parar com essas bobagens, se nos sentimos bem num determinado lugar, se somos valorizados, se nosso trabalho nos traz retorno para viver com dignidade este é, naquele momento, o lugar para se estar, o lugar ideal, “o melhor lugar do mundo”. Por último, se nosso país é tão melhor que outros, por que então tantos brasileiros vão trabalhar e morar no exterior? JAIR, Floripa, 27/12/08.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

VIRTUAL



Ninguém pode negar que uma nova era se instalou definitivamente na sociedade e veio para, senão causar uma revolução, pelo menos reverter nossos usos, remexer nossos hábitos, transmutar nossos arraigados costumes, cutucar com vara curta nossa pacata vidinha pré informática. Que a informática e a internet, literalmente todos os dias, nos trazem novidades é sabido. Virtualmente, ninguém está à parte, ninguém está livre das garras da eletrônica, dos baites e bits, dos modems e teclados, dos monitores e mouses, sem falar nos ipods, iphones e outros gadgets que inundam nosso dia-a-dia. Até quem não tem um PC em casa e não se liga num lepitópi não está livre do mundo virtual. Tudo, absolutamente tudo, hoje está ligado à informática. Diga isso quem faz um cadastro numa loja ou tira dinheiro numa dessas caixas eletrônicas, por exemplo. Pois é, parece que existe um mundo AI e um mundo DI, antes da informática e depois da informática. Portanto, vivemos no mundo DI sem retorno. A juventude, então, está comprometida com a web de tal maneira que lhe é impossível viver fora dela. Existe até um saite, babypredictor, no qual é possível “gerar” um bebê virtual a partir de duas fotos e a descrição das características físicas dos “pais”. O casal, que pode ser formado por duas pessoas quaisquer, sejam elas conhecidas entre si ou não, - ou até por ídolo de cinema e uma pretendente “normal” que queira um filho do Brad Pitt, por exemplo, - cola as fotos nos locais indicados, descreve os pretendentes e, imediatamente, o programa traz à luz o filho do casal. Previsivelmente, o rebento será uma mistura das características físicas dos pais, será um bebê com herança genética virtual half/half, isto é, terá cinqüenta por cento de predicados de cada um. Será, sem dúvida, um filho com várias vantagens sobre uma criança de carne e osso, dessas que nós da geração mais provecta estamos acostumados a fazer. Convenhamos, a mãe não precisará passar pelo calvário de nove meses carregando um peso adicional na barriga; não terá pés inchados e vontade de comer aliche com leite condensado às três da manhã; não há necessidade dos pais se preocuparem com roupinhas, bercinhos, mamadeiras e outros petrechos ligados à infância do bebê que virá; depois nascido não haverá doenças infantis, choros, noites mal dormidas, preocupação com a segurança doméstica e tudo mais, o bebê estará pronto. Bom, não é mesmo? A diferença mais crucial entre as duas concepções é, também, a que mais aflige a geração pré informática: Nós, sexualmente conservadores, costumávamos unirmos fêmea com macho e, após intercurso carnal, ato sexual ou conúbio, esperávamos ou não gravidez da fêmea, dependendo de nossa intenção ao unirmo-nos um com o outro. Era tão bom! Já, a juventude atual não precisa de sexo para conceber o bebê, e isso tira o prazer da coisa, tira o romantismo de unir sexo gostoso com possível perpetuação da espécie. Esse mundo virtual aplicado ao sexo pode ser asséptico, rápido, seguro, eficiente, criativo e altamente profícuo, mas é terrivelmente impessoal e desumano, não tem cheiro nem sabor. Substituiu o toque de pele com pele pelo toque dos dedos no teclado ou o arrastar do mouse na mesa. Sinceramente, eu fico com a maneira tradicional de fazer criança e não abro. JAIR, Floripa, 24/12/08.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O OVO



Consta que Cristóvão Colombo, depois de ter descoberto a América, já sendo homenageado pela façanha, foi menosprezado por um nobre, conterrâneo seu, como tendo praticado um feito que “qualquer um” faria. Ofendido, Colombo desafiou “qualquer um” dos presentes a colocar um ovo na posição vertical. Depois de inúmeras tentativas sem êxito, o desafeto, enfim rendeu-se e, num gesto tão grandiloqüente quanto babaca, desafiou por sua vez, Colombo a fazê-lo. O grande navegador Genovês não se fez de rogado, quicou o ovo levemente na superfície da mesa, de modo a fazer uma pequena mossa numa das extremidades permitindo que ele permanecesse de pé. – “Claro que desta maneira "qualquer um" pode fazê-lo!", objetou um pouco alterado, o cortesão.- "Sim qualquer um. Mas "qualquer um" ao que se lhe tivesse ocorrido fazê-lo", disse Colombo. E acrescentou: - "Uma vez eu mostrei o caminho ao Novo Mundo, qualquer um poderá segui-lo mas, alguém teve antes que ter a idéia. E alguém teve depois, que se decidir a colocá-la em prática”. Esta historinha apócrifa tem por finalidade enaltecer a clarividência do Navegador e traz , no seu bojo, como coadjuvante, um ovo. Numa entrevista sobre sua obra, o então consagrado pintor Pablo Picasso, revelou que ao tentar desenhar um rosto perfeito, foi retirando todos os adereços do objeto em questão e chegou finalmente na forma de um ovo. Mais uma vez o ovo serviu como exemplo numa estória edificante. Do ponto de vista da biologia, Ovo é o mesmo que Zigoto. É uma célula que se forma após a fusão do núcleo do óvulo (pronúcleo feminino, haplóide) com o núcleo do espermatozóide (pronúcleo masculino, haplóide) por cariogamia, o que dá origem à célula diplóide denominada ovo ou zigoto. Ovíparos são animais – freqüentemente aves, peixes e répteis, mas, excepcionalmente também mamíferos monotremos como o ornitorrinco e a équidna, australianos – que põem ovos donde saem suas crias. Ovovivíparos são animais – peixes, cobras e lagartos, mais comumente – que mantém o ovo fecundado dentro do ventre, onde o embrião se desenvolve sem se nutrir a custa do organismo da mãe. “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”, pergunta supostamente existencial que permeia a baixa literatura é, também, adágio onde o ovo se faz presente. Anos atrás o alimento mais completo era o ovo. Hoje, vez ou outra, a ciência condena o ovo como produtor de colesterol ruim, e, quase imediatamente, absolve-o como gerador de bom colesterol. Para o bem ou para o mal ovo está sempre em pauta. Aura é o invólucro energético, de forma ovóide, que envolve o indivíduo. Durante muito tempo a constatação da existência da aura, tanto a humana como a dos demais seres orgânicos e inorgânicos, ficou restrita às crenças religiosas e à metafísica. Metafísica (do grego μετα [meta] = depois de/além de e Φυσις [physis] = natureza ou físico) é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo. Como se vê, também a metafísica se rende à forma do ovo na sua definição de aura. Bem, seja porque a gênese de tudo se dá desde o ovo primordial que, num paroxismo monumental, explodiu no Big Bang inicial; seja porque o início da vida dos seres terrenos se produz num ovo; ou seja porque a rotação de duas elipses semi-sobrepostas cria a forma mais geometricamente elegante e instigante da natureza, o ovo nos seduz. Confesso que sou fascinado pelo oval, pelo ovóide, pelo ovo, enfim. Tenho coleção de ovos, naturais e feitos pela mão do homem. Desde o de avestruz, gigante equivalente a vinte ovos de galinha, esculpido com motivos da savana africana, até o de codorna em forma de pêssanka. Na história do povo ucraniano sempre esteve presente a tradição de colorir ovos na época em que o Sol voltava triunfante, eliminando a neve que cobria a rica terra negra da Ucrânia. Em escavações arqueológicas, foram encontrados indícios desta arte a mais de 3.000 anos antes de Cristo, sendo que naquela época, eram utilizadas ferramentas muito rústicas para se confeccionar uma pêssanka. Minha pequena coleção passa, principalmente, pelos ovos de pedra sabão, ágata, ônix, quartzo, mármore, calcita, granito, alabastro e hematita mas, contempla outros de madeira, osso, metais diversos, cerâmica, argila, vidro, papier machê e porcelana. Até uma cerâmica do Brenand em forma de ovo enriquece meu acervo. O excêntrico ovo verde escuro de emu é uma das vedetes do conjunto. O Emu (Dromaius novaehollandiae, "Corredor da Nova Holanda" em Latim) é o maior pássaro nativo da Austrália e, depois do Avestruz, o segundo mais pesado pássaro que vive hoje. Ele habita a maioria das áreas menos povoadas do continente, evitando apenas a floresta densa e o deserto severo. Como todos os pássaros do grupo das Struthioniformes, ele não pode voar, embora diferente de alguns ele possui pequenas asas escondidas sob as penas. Pois é, o ovo está, esteve e estará presente em todos os tempos no universo conhecido e até desconhecido, do inicial Big Bang ao final Big Crunch. O Big Crunch é uma teoria segundo a qual o universo começará no futuro a contrair-se, devido à atração gravitacional, até entrar em colapso sobre si mesmo e chegar à perfeição: o OVO CÓSMICO. JAIR, Floripa, 13/11/08.