quinta-feira, 17 de maio de 2012
Oblivo
domingo, 29 de janeiro de 2012
Paz
O fato histórico concreto é que dentre as tribos que conviviam, mais ou menos pacificamente, naquele pedaço do mundo quatro mil anos atrás, algumas resolveram adotar o monoteísmo como conduta religiosa, afrontando diretamente a maioria que cultuava deuses domésticos que representavam seus ancestrais. Da dissidência religiosa nasceu o antagonismo que, de tempos em tempos, gerava rusgas tribais que, eventualmente, se transformavam em contendas limitadas, no mais, a vida seguia em frente.
O “povo diferente” que seguia um Deus invisível foi aos poucos se isolando e, em conseqüência, cada vez mais, adotando costumes e hábitos diferenciados, já que sua religião era “de tempo integral e dedicação exclusiva”, não se limitando a rezas e rituais em oratórios domésticos em horas aprazadas. O isolamento religioso não impedia que houvesse um constante intercâmbio comercial e social entre as tribos de monoteístas e politeístas, elas compartilhavam seus negócios, casamentos, festas, atividades e idioma (aramaico), não havia ainda árabes ou judeus, ou sionistas, ou islamitas, muito menos cristãos.
Durante séculos de guerras, invasões, êxodos, migrações limitadas e evolução de hábitos religiosos o “povo de um Deus só” continuou coeso nas suas convicções e unido socialmente, o politeísmo esboroou. Com o nascimento de Cristo, judeu da Galiléia, alguns monoteístas elegeram-no “enviado de Deus”, outros não. Nova dissidência, agora entre judeus que acreditavam no Messias e judeus que não acreditavam; surgia nova religião, o cristianismo. Para azar de todos, cristãos e judeus, os romanos invadiram a região na década de setenta da nossa era e massacraram os moradores de Jerusalém, especialmente os judeus, que eram menos submissos. Era o ano de 73, nascia a diáspora.
Os judeus dispersaram-se pelo Planeta, mas, quase nunca, foram “integrados” às nações e povos que os acolheram, em alguns casos foram “assimilados” sem, contudo, tornarem-se cidadãos de plenos direitos. Essa anomalia civil crônica, além de perseguições e discriminações, oficiais ou não de todo tipo, fizeram com que uma grande parte desse povo visse na volta a casa sua opção de tranquilidade e plena realização de seus sonhos de cidadania. A volta a Israel – Aliá, substantivo hebraico que significa subida - tornou-se o que se convencionou chamar de sionismo, em referência ao monte Sião ou Zion situado nos arredores de Jerusalém.
Depois do genocídio perpetrado pelos alemães e seus aliados na segunda guerra mundial, tornou-se imperativo que as Nações Unidas permitissem que os judeus mais errantes que nunca, se reunissem em sua terra original e formassem uma nação. Israel nasceu por decreto da ONU, e, em 1948, o “povo do livro” teve, finalmente, um lugar seu onde podia chamar de lar.
Mas, muito antes disso, há uma história que gostaria de contar para lembrar que a paz é possível por simples vontade de cidadãos. Em 1845, o novo cônsul inglês em Jerusalém, James Finn, e sua esposa, Elisabeth, apresentaram suas credenciais às autoridades turcas naquela cidade, já que a Palestina como era chamada a área, pertencia ao império otomano. O cônsul era católico falava hebraico e era filiado à Fraternidade Londrina para Propagação do Cristianismo entre Judeus. Finn acreditava que o retorno dos Judeus a sua pátria de origem aceleraria a redenção do mundo; acreditava que lhes dando condição de trabalho dignas eles conseguiriam uma vida melhor. Ele se propôs a ajudar os judeus pobres porque entendia que se eles tivessem renda decente, mais se fixariam ao local em que viviam e tenderiam a criar uma nação. Assim, em 1853, comprou uma gleba de terra abandonada e árida de quatro hectares onde construiu sua linda morada. Era um pedaço de terra que ninguém queria, mas que o cônsul resolveu transformar numa fazenda produtiva a qual deu o nome de Kerem Avraham (Vinha de Abraão). Nos arredores da casa eles construíram o empreendimento agrícola, as oficinas e as benfeitorias. Atrás da casa, no pátio protegido por um muro, cavaram-se poços e foram construídos estábulos, curral, um celeiro depósitos, uma prensa para uvas e uma prensa para azeitonas.
A Colônia Industrial empregava cerca de duzentos judeus pobres na fazenda dos Finn em trabalhos tais como retirar pedras das encostas, construir cercas, plantar árvores frutíferas, trabalhar na horta, no pomar e também numa pequena pedreira e na construção civil. Com o passar dos anos e depois da morte do cônsul, sua viúva construiu uma fábrica de sabão, na qual também empregava trabalhadores judeus.
Quase na mesma época, lindeiro à propriedade dos Finn, o missionário protestante alemão Johann Ludwig Schneller, construiu um orfanato para árabes cristãos refugiados dos conflitos entre cristãos e drusos no Líbano. Ele tinha como objetivo preparar os órfãos para uma vida produtiva que pudesse lhes proporcionar meios de traduzir o trabalho em qualidade de vida. Finn e Schneller, cada uma a sua maneira, ambos cristãos fervorosos, e a miséria, o sofrimento e o desamparo de árabes e judeus da Terra Santa lhes tocavam o coração. Ambos acreditavam que na medida em que os habitantes se preparassem para uma vida produtiva, uma vida de trabalho, o Oriente Médio estaria a salvo das garras do desespero, da degeneração, da miséria e da indiferença e, podemos dizer, estariam motivados a viver em paz. Talvez ambos acreditassem, cada um a seu modo, que sua generosidade iluminasse judeus e muçulmanos de modo a encaminhá-los ao cristianismo e a paz entre eles.
Que se pode inferir desses fatos? Vejamos, dois cristãos europeus que poderíamos julgar indiferentes ao que acontecia num local muito distante daqueles que viviam; onde as culturas envolvidas nada lhes dizem, dedicam-se a projetos visando alcançar a paz sem, aparentemente, outro objetivo que não o trabalho produtivo. Registre-se que nunca houve qualquer atrito entre as comunidades dos dois projetos. Finn e Schneller sequer foram indicados para o prêmio Nobel da paz como o foi Nixon, por exemplo. JAIR, Floripa, 10/08/11.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
A Banda

É o seguinte, o filme para ser bom não precisa trazer grandes nomes no elenco, ser assinado por um diretor icônico desses que faturam milhões a cada produção, ser rodado em ambientes ou paisagens que, pela beleza ou grandiosidade, enriqueçam a história, ou ter sido produzido num grande estúdio de Hollywood. Quem assistir “A Banda” (2007) vai entender exatamente o que digo. O filme, de orçamento baixo, é produção e direção de israelenses, atores árabes e judeus, filmado numa região desértica de Israel sem qualquer atrativo especial.
Uma banda egípcia com pomposo nome de Orquestra Cerimonial de Alexandria, desembarca no aeroporto de Telaviv para se dirigir a uma cidade do interior onde tocará na inauguração do Centro Cultural Árabe. Por algum mal entendido, o ônibus que devia estar esperando-os no aeroporto não está lá, e aí os músicos cometem um engano com o nome da cidade. São egípcios e não fluentes em hebreu, acabam tomando um ônibus que vai parar no meio do nada numa cidadezinha minúscula com nome parecido com aquela que eles queriam ir.
Ao desembarcarem o espectador percebe que na Banda, cujo efetivo é de oito músicos incluindo o maestro, existe certa tensão e a disciplina é mantida por Tewfiq, (Sasson Gabai) coronel da polícia de Alexandria e maestro. Os músicos paramentados com suas fardas azuis, encontram primeiro um pequeno bar onde são acolhidos com certa surpresa pela proprietária Dina (Ronit Elkabetz) que, despachada, trata o maestro como general na falta de saber como chamá-lo. Já que o ônibus que levará os músicos para a cidade certa só sairá no dia seguinte, Dina, com pena deles, convida-os para alojarem-se na sua casa, no bar e na casa de um amigo.
O coronel é extremamente formal devido sua formação castrense, Dina é liberada e está feliz em ter alguém para conversar. Aí o diretor (Eran Korilin) consegue manter um equilíbrio sutil entre a comédia de riso fácil e o drama de vidas com passado que as incomodam, entre o inusitado de árabes hóspedes de cidadãos judeus e a curiosidade de uns a respeito de outros. Dina acaba saindo passear com Tewfiq e vão a uma lanchonete onde também chega seu amante com a família. Falaz, Dina se abre com Tewfiq e faz perguntas um pouco embaraçosas sobre sua vida. Os demais integrantes da banda também se vêem envolvidos em pequenos dramas nos quais revelam suas expectativas e frustrações. O clima do filme mostra uma relação entre árabes e judeus que nada tem a ver com o conflito de seus países, literalmente sãos pessoas comuns colocadas em uma situação que não exige delas posicionamento político algum, apenas a solidão os incomoda.
A única distração dos moradores da cidade é um rinque de patinação onde uns dos músicos vai com um morador local. Lá a música e os atores nos brindam com as melhores cenas do filme. Na verdade, baseado numa estória leve, sem conseqüências maiores, o filme revela a possibilidade de comunicação entre pessoas de idiomas e culturas diferentes que, afinal, são apenas isso, pessoas comuns gregárias, sem nenhum grande obstáculo que as impeça de interagir e conviver pacificamente, vale a pena assisti-lo. JAIR, Floripa, 21/09/10.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
PARA ENTENDER

