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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Oblivo


Havia sido concebido em Israel, num Kibutz fundado por deslocados de guerra oriundos da Bucovina. Seus pais fugiram do país quando tropas nazistas, que já haviam batido os restos do exército romeno que lutara bravamente, mas sem eficácia, resolveram aplicar as leis do extermínio sobre os poucos judeus que ainda restavam nas aldeias pobres e arrasadas. Com auxílio de cidadãos bucovinos cristãos, Yacov Stein e Marta Stein conseguiram embarcar num transporte que os levou até Stambul e de lá, depois de muita emoção e perigo, conseguiram chegar a Benghasi na Líbia, onde após de alguns meses saíram para Londres. Viveram em Londres até o fim da guerra, donde saíram para Israel e o Kibutz, e, quase de imediato, para o Brasil, país escolhido aleatoriamente num mapa mundi. Até hoje é um mistério como aqueles dois judeus deslocados vieram parar em Palmeira, cidade onde não havia ninguém que professasse o judaísmo.
O filho do casal nasceu logo depois da chegada deles, Marta já estava grávida quando vieram para a cidade clima. Porque lhe colocaram o nome de Oblivo nunca perguntei, embora fosse nome um tanto exótico, não me parecia correto ficar xeretando o assunto. Até porque existiam muitos nomes pouco usuais no círculo de meus conhecidos de forma que Oblivo era apenas mais um.
Minha família morava, desde o fim dos anos quarenta, numa propriedade da empresa madeireira dos Malucelli na qual meu pai trabalhava. A casa se situava do outro lado da rua em que se situava a fábrica, aliás todo o lado oposto à fábrica era uma “vila” de casinhas iguais onde moravam os operários. Lá passei minha infância.
Seu Jacó, como chamávamos o pai de Oblivo, também era operário na madeireira. Humilde, discreto, bastante inteligente, seu Jacó tinha um forte sotaque que nós costumávamos nomear como “de polaco”. Os polacos eram abundantes na zona rural da cidade e muitos viviam e trabalhavam nas indústrias madeireiras, mas a maioria era composta por pequenos colonos que costumavam vender seus produtos nas feiras, por isso conhecíamos bem a maneira como eles falavam. Os poloneses e seus descendentes tinham dificuldade de pronunciar o “r” forte de “carro”, por exemplo, neste caso diziam “caro”, e em todas as pronúncias fortes do erre era a mesma coisa. Pois bem, seu Jacó falava com sotaque peculiar, desse modo, dona Marta e Oblivo também, embora este tivesse adquirido o sotaque por exposição e não de nascença.
Oblivo e eu éramos (ainda somos) amigos, daquele tipo que as pessoas costumam chamar de inseparáveis. Desde que me lembro sempre fomos vizinhos de rua, brincávamos juntos e costumávamos estar sintonizados em tudo que fazíamos. Não havia necessidade de combinar, “amanhã, as tantas horas!”, sempre um ia à casa do outro ou os dois se encontravam na rua sem ter previamente combinado. Ele era em tudo um garoto normal, alegre, ativo e muito companheiro para todas as horas. Só tinha uma particularidade, era incendiário. Tinha fixação por atear fogo em coisas. Para esse fim carregava uma caixa de fósforos que surrupiara da cozinha de sua casa. A caixa era o “instrumento” que alimentava a fantasia de pôr fogo nas coisas. Ao brincarmos nos terrenos baldios ou no campo, lá ia o Oblivo colocar fogo nos montes de lixo, nos restos de tábuas velhas ou no capim seco do campo. Onde houvesse fumaça, havia Oblivo por perto. Além isso, ele costumava “pensar grande”, sonhava que um dia provocaria um incêndio de proporções românicas (de Roma, naturalmente), algo que marcasse a história da cidade, um fogaréu, costumava dizer.
Corria o mês de janeiro de 1953, lembro com muita clareza, por que foi o penúltimo mês de minha infância antes de entrar na escola primária, cujo ano letivo iniciaria nos primeiros dias de março. Numa sexta feira à tarde Oblivo estava mais compenetrado e chamou-me para brincar num terreno próximo às nossas casas. Lá sentamos e ele, com ar grave, confessou que havia tomado a decisão de sua vida. Eu meio cismado nada disse, aguardei que falasse. Oblivo, em breves palavras disse que ia tocar fogo numa coisa muito grande nessa mesma noite, o incêndio do século iria iluminar a cidade e agitaria todas as pessoas. Eu não perguntei onde seria o incêndio nem ele falou mais nada, fomos para nossas casas.
Já à noite, depois da janta, nem lembrava mais daquela confidência, minhas prioridades eram outras e fui dormir cedo como sempre, sem maiores preocupações. Lembro que fui acordado por meu pai de madrugada, depois eu soube que eram duas horas da manhã, e todo o céu estava avermelhado pelo fogaréu. A madeireira do outro lado da rua havia pegado fogo, era um incêndio monumental como nunca a cidade tinha visto e certamente nunca mais veria. O fogo era uma coisa viva que se alimentava dos materiais combustíveis da fábrica. De proporções épicas, pois, para uma cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, estava devorando instalações com cinquenta mil metros quadrados. Os barracões de madeira e todas as máquinas e material inflamável que havia dentro ardia em vórtices de fogo vermelho alaranjado, com explosões ocasionais de tambores de materiais combustíveis. O calor vulcânico faria inveja às fornalhas do inferno de Dante. Fomos levados para o campo que havia trás da vila por precaução, caso nossas moradas fossem atingidas pelas labaredas que não distavam nem dez metros. Roma sentiria inveja das proporções daquele inferno. O fogo durou mais de vinte e quatro horas, ficamos comovidos, amedrontados e maravilhados, coisa única na vida de qualquer um.
O incêndio não ceifou vidas, mas destruiu tudo, da madeireira só restaram cinzas e alguns esqueletos das máquinas que antes produziam os móveis e compensados. Não me lembro de ter visto Oblivo nos dias seguintes, mesmo porque os restos do incêndio ali tão pertinhos e tão interessantes não deixavam a gente desgrudar os olhos daquelas curiosidades inusitadas. Depois de cinco ou seis dias, calhou que nos encontramos, Oblivo e eu, conversamos como se nada suspeito houvesse naquele acontecimento. Eu nada perguntei e ele nada disse, apenas observei que ele estava sem a sempre presente caixa de fósforos. Oblivo, sem qualquer expressão no rosto, disse: - Não a carrego mais comigo, já não gosto. Parece que havia abandonado a piromania que o acompanhara até ali.
O incêndio acabou não trazendo grandes prejuízos para ninguém. A perícia efetuada pelos bombeiros exarou laudo culpando um curto circuito pela deflagração das faíscas que causaram o sinistro. Os Malucelli tinham seguro dos imóveis, das máquinas e do estoque, de modo que, dizem, receberam mais do que valia aquele patrimônio. Os operários foram convocados para limpar os escombros, tirar todo aquele entulho, depois foram incorporados à construção de uma nova fábrica, agora toda de tijolos. Não perderam seus empregos e acabaram trabalhando em instalações melhores, com máquinas novas e mais modernas. A cidade teve assunto para falar por meses ou anos, até hoje alguém ainda se lembra do INCÊNDIO, assim com letras maiúsculas. Oblivo e eu entramos na escola no mesmo ano, estudamos na mesma sala e continuamos amigos, embora nossas escolhas tenham nos conduzido por caminhos diferentes ainda nos vemos de tempos em tempos. Agora ele, aposentado, mora em Irati com suas filhas e netos, e quando nos encontramos, jamais tocamos no assunto incêndio. Diz um provérbio que “não se fala em corda na casa de enforcado”. JAIR, Floripa, 24/04/12. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Paz




Desde sempre, mas especialmente desde o século passado, somos bombardeados com notícias sobre as guerras do Oriente Médio. Árabes e judeus, numa incruenta disputa, arreganham os dentes ou entram em batalhas abertas por um pedaço de terra que, sob quase todos os aspectos, não é atraente, não possui riquezas naturais e não parece ser estratégico do ponto de vista militar.
O fato histórico concreto é que dentre as tribos que conviviam, mais ou menos pacificamente, naquele pedaço do mundo quatro mil anos atrás, algumas resolveram adotar o monoteísmo como conduta religiosa, afrontando diretamente a maioria que cultuava deuses domésticos que representavam seus ancestrais. Da dissidência religiosa nasceu o antagonismo que, de tempos em tempos, gerava rusgas tribais que, eventualmente, se transformavam em contendas limitadas, no mais, a vida seguia em frente.
O “povo diferente” que seguia um Deus invisível foi aos poucos se isolando e, em conseqüência, cada vez mais, adotando costumes e hábitos diferenciados, já que sua religião era “de tempo integral e dedicação exclusiva”, não se limitando a rezas e rituais em oratórios domésticos em horas aprazadas. O isolamento religioso não impedia que houvesse um constante intercâmbio comercial e social entre as tribos de monoteístas e politeístas, elas compartilhavam seus negócios, casamentos, festas, atividades e idioma (aramaico), não havia ainda árabes ou judeus, ou sionistas, ou islamitas, muito menos cristãos.
Durante séculos de guerras, invasões, êxodos, migrações limitadas e evolução de hábitos religiosos o “povo de um Deus só” continuou coeso nas suas convicções e unido socialmente, o politeísmo esboroou. Com o nascimento de Cristo, judeu da Galiléia, alguns monoteístas elegeram-no “enviado de Deus”, outros não. Nova dissidência, agora entre judeus que acreditavam no Messias e judeus que não acreditavam; surgia nova religião, o cristianismo. Para azar de todos, cristãos e judeus, os romanos invadiram a região na década de setenta da nossa era e massacraram os moradores de Jerusalém, especialmente os judeus, que eram menos submissos. Era o ano de 73, nascia a diáspora.
Os judeus dispersaram-se pelo Planeta, mas, quase nunca, foram “integrados” às nações e povos que os acolheram, em alguns casos foram “assimilados” sem, contudo, tornarem-se cidadãos de plenos direitos. Essa anomalia civil crônica, além de perseguições e discriminações, oficiais ou não de todo tipo, fizeram com que uma grande parte desse povo visse na volta a casa sua opção de tranquilidade e plena realização de seus sonhos de cidadania. A volta a Israel – Aliá, substantivo hebraico que significa subida - tornou-se o que se convencionou chamar de sionismo, em referência ao monte Sião ou Zion situado nos arredores de Jerusalém.
Depois do genocídio perpetrado pelos alemães e seus aliados na segunda guerra mundial, tornou-se imperativo que as Nações Unidas permitissem que os judeus mais errantes que nunca, se reunissem em sua terra original e formassem uma nação. Israel nasceu por decreto da ONU, e, em 1948, o “povo do livro” teve, finalmente, um lugar seu onde podia chamar de lar.
Mas, muito antes disso, há uma história que gostaria de contar para lembrar que a paz é possível por simples vontade de cidadãos. Em 1845, o novo cônsul inglês em Jerusalém, James Finn, e sua esposa, Elisabeth, apresentaram suas credenciais às autoridades turcas naquela cidade, já que a Palestina como era chamada a área, pertencia ao império otomano. O cônsul era católico falava hebraico e era filiado à Fraternidade Londrina para Propagação do Cristianismo entre Judeus. Finn acreditava que o retorno dos Judeus a sua pátria de origem aceleraria a redenção do mundo; acreditava que lhes dando condição de trabalho dignas eles conseguiriam uma vida melhor. Ele se propôs a ajudar os judeus pobres porque entendia que se eles tivessem renda decente, mais se fixariam ao local em que viviam e tenderiam a criar uma nação. Assim, em 1853, comprou uma gleba de terra abandonada e árida de quatro hectares onde construiu sua linda morada. Era um pedaço de terra que ninguém queria, mas que o cônsul resolveu transformar numa fazenda produtiva a qual deu o nome de Kerem Avraham (Vinha de Abraão). Nos arredores da casa eles construíram o empreendimento agrícola, as oficinas e as benfeitorias. Atrás da casa, no pátio protegido por um muro, cavaram-se poços e foram construídos estábulos, curral, um celeiro depósitos, uma prensa para uvas e uma prensa para azeitonas.
A Colônia Industrial empregava cerca de duzentos judeus pobres na fazenda dos Finn em trabalhos tais como retirar pedras das encostas, construir cercas, plantar árvores frutíferas, trabalhar na horta, no pomar e também numa pequena pedreira e na construção civil. Com o passar dos anos e depois da morte do cônsul, sua viúva construiu uma fábrica de sabão, na qual também empregava trabalhadores judeus.
Quase na mesma época, lindeiro à propriedade dos Finn, o missionário protestante alemão Johann Ludwig Schneller, construiu um orfanato para árabes cristãos refugiados dos conflitos entre cristãos e drusos no Líbano. Ele tinha como objetivo preparar os órfãos para uma vida produtiva que pudesse lhes proporcionar meios de traduzir o trabalho em qualidade de vida. Finn e Schneller, cada uma a sua maneira, ambos cristãos fervorosos, e a miséria, o sofrimento e o desamparo de árabes e judeus da Terra Santa lhes tocavam o coração. Ambos acreditavam que na medida em que os habitantes se preparassem para uma vida produtiva, uma vida de trabalho, o Oriente Médio estaria a salvo das garras do desespero, da degeneração, da miséria e da indiferença e, podemos dizer, estariam motivados a viver em paz. Talvez ambos acreditassem, cada um a seu modo, que sua generosidade iluminasse judeus e muçulmanos de modo a encaminhá-los ao cristianismo e a paz entre eles.
Que se pode inferir desses fatos? Vejamos, dois cristãos europeus que poderíamos julgar indiferentes ao que acontecia num local muito distante daqueles que viviam; onde as culturas envolvidas nada lhes dizem, dedicam-se a projetos visando alcançar a paz sem, aparentemente, outro objetivo que não o trabalho produtivo. Registre-se que nunca houve qualquer atrito entre as comunidades dos dois projetos. Finn e Schneller sequer foram indicados para o prêmio Nobel da paz como o foi Nixon, por exemplo. JAIR, Floripa, 10/08/11.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Banda




É o seguinte, o filme para ser bom não precisa trazer grandes nomes no elenco, ser assinado por um diretor icônico desses que faturam milhões a cada produção, ser rodado em ambientes ou paisagens que, pela beleza ou grandiosidade, enriqueçam a história, ou ter sido produzido num grande estúdio de Hollywood. Quem assistir “A Banda” (2007) vai entender exatamente o que digo. O filme, de orçamento baixo, é produção e direção de israelenses, atores árabes e judeus, filmado numa região desértica de Israel sem qualquer atrativo especial.

Uma banda egípcia com pomposo nome de Orquestra Cerimonial de Alexandria, desembarca no aeroporto de Telaviv para se dirigir a uma cidade do interior onde tocará na inauguração do Centro Cultural Árabe. Por algum mal entendido, o ônibus que devia estar esperando-os no aeroporto não está lá, e aí os músicos cometem um engano com o nome da cidade. São egípcios e não fluentes em hebreu, acabam tomando um ônibus que vai parar no meio do nada numa cidadezinha minúscula com nome parecido com aquela que eles queriam ir.

Ao desembarcarem o espectador percebe que na Banda, cujo efetivo é de oito músicos incluindo o maestro, existe certa tensão e a disciplina é mantida por Tewfiq, (Sasson Gabai) coronel da polícia de Alexandria e maestro. Os músicos paramentados com suas fardas azuis, encontram primeiro um pequeno bar onde são acolhidos com certa surpresa pela proprietária Dina (Ronit Elkabetz) que, despachada, trata o maestro como general na falta de saber como chamá-lo. Já que o ônibus que levará os músicos para a cidade certa só sairá no dia seguinte, Dina, com pena deles, convida-os para alojarem-se na sua casa, no bar e na casa de um amigo.

O coronel é extremamente formal devido sua formação castrense, Dina é liberada e está feliz em ter alguém para conversar. Aí o diretor (Eran Korilin) consegue manter um equilíbrio sutil entre a comédia de riso fácil e o drama de vidas com passado que as incomodam, entre o inusitado de árabes hóspedes de cidadãos judeus e a curiosidade de uns a respeito de outros. Dina acaba saindo passear com Tewfiq e vão a uma lanchonete onde também chega seu amante com a família. Falaz, Dina se abre com Tewfiq e faz perguntas um pouco embaraçosas sobre sua vida. Os demais integrantes da banda também se vêem envolvidos em pequenos dramas nos quais revelam suas expectativas e frustrações. O clima do filme mostra uma relação entre árabes e judeus que nada tem a ver com o conflito de seus países, literalmente sãos pessoas comuns colocadas em uma situação que não exige delas posicionamento político algum, apenas a solidão os incomoda.

A única distração dos moradores da cidade é um rinque de patinação onde uns dos músicos vai com um morador local. Lá a música e os atores nos brindam com as melhores cenas do filme. Na verdade, baseado numa estória leve, sem conseqüências maiores, o filme revela a possibilidade de comunicação entre pessoas de idiomas e culturas diferentes que, afinal, são apenas isso, pessoas comuns gregárias, sem nenhum grande obstáculo que as impeça de interagir e conviver pacificamente, vale a pena assisti-lo. JAIR, Floripa, 21/09/10.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

PARA ENTENDER


O atual conflito bélico entre Israel e os palestinos da Faixa de Gaza nada mais é que o desdobramento de conflitos anteriores - para ser exato, quatro guerras desde a criação do estado de Israel por decisão da ONU em 1947. Guerras que são a continuação da eterna desavença entre árabes e judeus, povos semíticos que habitam, mais ou menos ininterruptamente, aquele pedaço do mundo desde quatro mil e duzentos anos, pelo que se sabe. Pois é, a imprensa de um modo geral faz questão de mostrar cenas horrendas de crianças palestinas mortas e mutiladas por tropas israelenses. O que a imprensa não mostra, e o desavisado leitor ou espectador não sabe, é que o conflito, embora com raízes extremamente complexas para serem explicadas num espaço como este, pode ser entendido na sua fase atual. Desde a criação de Israel, os árabes do Egito, Jordânia, Síria e Líbano, bem como povos não árabes, mas igualmente muçulmanos do Irã e Iraque, se insurgiram contra o novo estado, NEGANDO-LHE A EXISTÊNCIA. O que, fundamentalmente, Israel quer é o reconhecimento de seu direito de existir, mesmo porque, ali está, e não há fórmula legal, ou mesmo mágica, de apagar um país. Depois da "Guerra do Yom Kippur" em 1973, o Egito, numa sábia atitude de seu presidente Anuar Sadat, reconheceu o estado de Israel e nunca mais houve guerra entre eles. Ambos os países, se não amigos, pelo menos se respeitam e mantêm representações diplomáticas atuantes em suas capitais. A Jordânia, seguindo o caminho do Egito, também reconheceu Israel em 1994, e ambos abandonaram hostilidades. Os demais países árabes, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, além de negarem o direito de um povo de existir, fazem disso uma doutrina que incutem na mente de suas crianças nas escolas; pregam a eliminação do povo judeu como condição sine qua nom para sua própria existência, ou seja, enquanto Israel existir não haverá quaisquer condições de convivência pacífica, não haverá maneira alguma de existir paz, os povos palestinos não terão uma pátria. Ora, Israel sempre estendeu a mão antes de mobilizar seus sofisticados tanques, sempre propôs conversar ao invés de bombardear com suas mortíferas aeronaves. O fato da retaliação de Israel aos ataques palestinos parecer desproporcional deve-se a dois fatores. Quando das guerras anteriores, Israel se viu frente a vários exércitos extremamente bem armados com intuito claro de, segundo palavras dos próprios árabes, “jogar os judeus ao mar”, sendo assim ameaçado, não houve outro meio senão se armar melhor que os inimigos. Armamento melhor e mais sofisticado causa impacto mais formidável, não importa se empregado ofensiva ou defensivamente, daí as cenas que se repetem ad nauseam. O segundo fator decorre do primeiro, os palestinos SABEM que não têm meios de combater no mesmo nível seus figadais inimigos, então recorrem a táticas que, ao tempo que enfurecem os israelitas, não se mostram tão espetaculares na televisão, por isso são menos notadas, o que significa que nós não podemos ter uma idéia clara do que estão fazendo, só vemos tanques atacando casas e quarteirões inteiros e isso nos impacta. Qualquer guerra é injusta, desumana e deveria ser evitada, mas, nessa, devemos ter em conta que se os palestinos reconhecerem o estado de Israel e deixarem de atacá-lo o motivo para a guerra desaparece, e a Israel não sobrará razão alguma para retaliação e, com boa vontade como se sabe, estenderá a mão e acolherá um estado palestino com todas as honras. Com certeza será bom para ambos os povos e para o mundo, todo homem de boa vontade pensa, ou deveria pensar assim. JAIR, Floripa, 13 de janeiro de 2009.