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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O General


Um General é, antes de tudo, um solitário. Contrário ao soldado que na trincheira, na vacância ou no acampamento sempre tem um seu igual para compartilhar seus medos, angústias e sentimentos, o General come e dorme sozinho, trabalha sozinho e toma suas decisões na mais terrível e absoluta solidão. Não que o General não possa ter amigos e companheiros de caserna com os quais, em algum momento, possa fazer confidências ou cometer indiscrições, mas nas funções profissionais ninguém está ao seu lado na hora das decisões. Ninguém, no seu círculo íntimo, divide com ele a responsabilidade das boas e más escolhas, ninguém assume suas insônias, inseguranças e dúvidas.
Mais que a solidão do cargo, ao General cabe decidir sobre a vida e a morte, de seus soldados e dos soldados inimigos. Se emana ordens corretas e judiciosas, os militares inimigos morrerão e, se suas ordens não forem as melhores, quem morre são seus comandados. Às vezes ele se sente uma perversa paródia de Deus, ou semi deus se considerarmos que é mortal como os que morrem na batalha. Mas ele sabe que se tornou General, não por determinação aleatória de carreira militar bem sucedida ou injunção cega do destino, e sim porque orientou toda sua vida para esse fim. Não se chega ao generalato por acaso, apenas suas lidas beiram o acaso quando para aquilo que se preparou, lhe cai no colo por decisão política, a guerra. E o generalato, antes de ser um alto posto militar, é um misto de sacerdócio e resultado de ilibada vida pessoal somada à luta e trabalho diários, muito estudo e disposição para o sacrifício ao longo de muitos anos. O General é um primata da espécie Homo estoicus.
Um General sensato sabe que guerra é insensatez, mas sabe também que quando ela vier terá que exarar ordens claras e lúcidas cujos resultados beiram a insanidade. Quanto mais eficientes forem as decisões do General, mais os resultados podem conflitar com sua formação humana. Um General traz no âmago de sua formação profissional o germe do conflito entre os fatores morais que lhe foram incutidos pelo núcleo familiar e as imposições pretorianas subordinadas às nuances políticas de seu país. O General deve ser patriota na mais cruel e perfeita acepção do termo. A pátria lhe impõe encargos que pesam nos ombros como um Atlas suportando o globo terrestre.
Por isso tudo, um bom General que tenha lutado por seu país, aquele que exerceu sua função com honestidade e eficácia, é um ser humano triste, suas memórias incluem mortes de pessoas desconhecidas as quais nunca lhe fizeram qualquer mal e que apenas estavam defendendo ideias ou orientações diferentes das suas. Suas convicções religiosas também devem ser elásticas quando são postas à prova: não matarás é um mandamento que deve ser temporariamente relegado se ele quiser ser um profissional seguro nas ações do ofício. Cada soldado que cai no campo de batalha tem um General responsável por sua morte, General sem mortes no currículo é General inerte, omisso. O pódio de General é árduo e às vezes lhe traz glórias e reconhecimento, e aquele que lá chega se torna para sempre um ser Primus inter pares, mas suas funções nem sempre são cobiçadas pelos mortais comuns. JAIR, Floripa, 01/08/12. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Oblivo


Havia sido concebido em Israel, num Kibutz fundado por deslocados de guerra oriundos da Bucovina. Seus pais fugiram do país quando tropas nazistas, que já haviam batido os restos do exército romeno que lutara bravamente, mas sem eficácia, resolveram aplicar as leis do extermínio sobre os poucos judeus que ainda restavam nas aldeias pobres e arrasadas. Com auxílio de cidadãos bucovinos cristãos, Yacov Stein e Marta Stein conseguiram embarcar num transporte que os levou até Stambul e de lá, depois de muita emoção e perigo, conseguiram chegar a Benghasi na Líbia, onde após de alguns meses saíram para Londres. Viveram em Londres até o fim da guerra, donde saíram para Israel e o Kibutz, e, quase de imediato, para o Brasil, país escolhido aleatoriamente num mapa mundi. Até hoje é um mistério como aqueles dois judeus deslocados vieram parar em Palmeira, cidade onde não havia ninguém que professasse o judaísmo.
O filho do casal nasceu logo depois da chegada deles, Marta já estava grávida quando vieram para a cidade clima. Porque lhe colocaram o nome de Oblivo nunca perguntei, embora fosse nome um tanto exótico, não me parecia correto ficar xeretando o assunto. Até porque existiam muitos nomes pouco usuais no círculo de meus conhecidos de forma que Oblivo era apenas mais um.
Minha família morava, desde o fim dos anos quarenta, numa propriedade da empresa madeireira dos Malucelli na qual meu pai trabalhava. A casa se situava do outro lado da rua em que se situava a fábrica, aliás todo o lado oposto à fábrica era uma “vila” de casinhas iguais onde moravam os operários. Lá passei minha infância.
Seu Jacó, como chamávamos o pai de Oblivo, também era operário na madeireira. Humilde, discreto, bastante inteligente, seu Jacó tinha um forte sotaque que nós costumávamos nomear como “de polaco”. Os polacos eram abundantes na zona rural da cidade e muitos viviam e trabalhavam nas indústrias madeireiras, mas a maioria era composta por pequenos colonos que costumavam vender seus produtos nas feiras, por isso conhecíamos bem a maneira como eles falavam. Os poloneses e seus descendentes tinham dificuldade de pronunciar o “r” forte de “carro”, por exemplo, neste caso diziam “caro”, e em todas as pronúncias fortes do erre era a mesma coisa. Pois bem, seu Jacó falava com sotaque peculiar, desse modo, dona Marta e Oblivo também, embora este tivesse adquirido o sotaque por exposição e não de nascença.
Oblivo e eu éramos (ainda somos) amigos, daquele tipo que as pessoas costumam chamar de inseparáveis. Desde que me lembro sempre fomos vizinhos de rua, brincávamos juntos e costumávamos estar sintonizados em tudo que fazíamos. Não havia necessidade de combinar, “amanhã, as tantas horas!”, sempre um ia à casa do outro ou os dois se encontravam na rua sem ter previamente combinado. Ele era em tudo um garoto normal, alegre, ativo e muito companheiro para todas as horas. Só tinha uma particularidade, era incendiário. Tinha fixação por atear fogo em coisas. Para esse fim carregava uma caixa de fósforos que surrupiara da cozinha de sua casa. A caixa era o “instrumento” que alimentava a fantasia de pôr fogo nas coisas. Ao brincarmos nos terrenos baldios ou no campo, lá ia o Oblivo colocar fogo nos montes de lixo, nos restos de tábuas velhas ou no capim seco do campo. Onde houvesse fumaça, havia Oblivo por perto. Além isso, ele costumava “pensar grande”, sonhava que um dia provocaria um incêndio de proporções românicas (de Roma, naturalmente), algo que marcasse a história da cidade, um fogaréu, costumava dizer.
Corria o mês de janeiro de 1953, lembro com muita clareza, por que foi o penúltimo mês de minha infância antes de entrar na escola primária, cujo ano letivo iniciaria nos primeiros dias de março. Numa sexta feira à tarde Oblivo estava mais compenetrado e chamou-me para brincar num terreno próximo às nossas casas. Lá sentamos e ele, com ar grave, confessou que havia tomado a decisão de sua vida. Eu meio cismado nada disse, aguardei que falasse. Oblivo, em breves palavras disse que ia tocar fogo numa coisa muito grande nessa mesma noite, o incêndio do século iria iluminar a cidade e agitaria todas as pessoas. Eu não perguntei onde seria o incêndio nem ele falou mais nada, fomos para nossas casas.
Já à noite, depois da janta, nem lembrava mais daquela confidência, minhas prioridades eram outras e fui dormir cedo como sempre, sem maiores preocupações. Lembro que fui acordado por meu pai de madrugada, depois eu soube que eram duas horas da manhã, e todo o céu estava avermelhado pelo fogaréu. A madeireira do outro lado da rua havia pegado fogo, era um incêndio monumental como nunca a cidade tinha visto e certamente nunca mais veria. O fogo era uma coisa viva que se alimentava dos materiais combustíveis da fábrica. De proporções épicas, pois, para uma cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, estava devorando instalações com cinquenta mil metros quadrados. Os barracões de madeira e todas as máquinas e material inflamável que havia dentro ardia em vórtices de fogo vermelho alaranjado, com explosões ocasionais de tambores de materiais combustíveis. O calor vulcânico faria inveja às fornalhas do inferno de Dante. Fomos levados para o campo que havia trás da vila por precaução, caso nossas moradas fossem atingidas pelas labaredas que não distavam nem dez metros. Roma sentiria inveja das proporções daquele inferno. O fogo durou mais de vinte e quatro horas, ficamos comovidos, amedrontados e maravilhados, coisa única na vida de qualquer um.
O incêndio não ceifou vidas, mas destruiu tudo, da madeireira só restaram cinzas e alguns esqueletos das máquinas que antes produziam os móveis e compensados. Não me lembro de ter visto Oblivo nos dias seguintes, mesmo porque os restos do incêndio ali tão pertinhos e tão interessantes não deixavam a gente desgrudar os olhos daquelas curiosidades inusitadas. Depois de cinco ou seis dias, calhou que nos encontramos, Oblivo e eu, conversamos como se nada suspeito houvesse naquele acontecimento. Eu nada perguntei e ele nada disse, apenas observei que ele estava sem a sempre presente caixa de fósforos. Oblivo, sem qualquer expressão no rosto, disse: - Não a carrego mais comigo, já não gosto. Parece que havia abandonado a piromania que o acompanhara até ali.
O incêndio acabou não trazendo grandes prejuízos para ninguém. A perícia efetuada pelos bombeiros exarou laudo culpando um curto circuito pela deflagração das faíscas que causaram o sinistro. Os Malucelli tinham seguro dos imóveis, das máquinas e do estoque, de modo que, dizem, receberam mais do que valia aquele patrimônio. Os operários foram convocados para limpar os escombros, tirar todo aquele entulho, depois foram incorporados à construção de uma nova fábrica, agora toda de tijolos. Não perderam seus empregos e acabaram trabalhando em instalações melhores, com máquinas novas e mais modernas. A cidade teve assunto para falar por meses ou anos, até hoje alguém ainda se lembra do INCÊNDIO, assim com letras maiúsculas. Oblivo e eu entramos na escola no mesmo ano, estudamos na mesma sala e continuamos amigos, embora nossas escolhas tenham nos conduzido por caminhos diferentes ainda nos vemos de tempos em tempos. Agora ele, aposentado, mora em Irati com suas filhas e netos, e quando nos encontramos, jamais tocamos no assunto incêndio. Diz um provérbio que “não se fala em corda na casa de enforcado”. JAIR, Floripa, 24/04/12. 

sábado, 12 de maio de 2012

B-24 cai no Brasil


Quando, finalmente, em janeiro de 1943, o presidente Roosevelt convenceu Getúlio Vargas a entrar na guerra, este firmou um contrato que cedia bases no nordeste e norte do país às forças americanas em troca de uma usina siderúrgica (CSN) de última geração a ser instalada em Volta Redonda, RJ. O que se seguiu foi uma intensa construção de bases operacionais em Belém, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e Ilhéus com um afluxo imenso de militares americanos apoiando aeronaves que fariam a travessia do Atlântico rumo à África e à guerra no norte daquele continente.
Essa inusitada invasão de militares estrangeiros suscitou a criação de várias estórias relacionadas ao choque cultural de duas nações com costumes tão diferentes. Conta-se até que o termo forró nasceu dessa convivência forçada. Registrou-se que militares instalados em Pernambuco para construir a Base de Recife, promoviam bailes abertos ao público, ou seja, for all. Assim, o termo passaria a ser pronunciado "forró" pelos nordestinos. Nada comprovado, no entanto. Outra consequência quase natural de tantas aeronaves de guerra sobrevoando as regiões norte e nordeste, foram os acidentes aéreos.
O Consolidated B-24 “Liberator” era o bombardeiro americano de maior produção que qualquer outro avião americano durante a Segunda Guerra Mundial, e foi usado pela maioria dos Aliados durante o conflito. Era um bombardeiro pesado desenhado especialmente para voos de longa distância, tinha capacidade de levar 5800 quilos de bombas e era guarnecido por dez tripulantes. Grande número dessas aeronaves compôs as esquadrilhas que faziam pousos no Brasil para depois atravessar o Atlântico. Assim, as 09:15 da manhã do dia 11 de abril de 1944 a aeronave B-24 “Liberator” número de série 42-95064 da USAF solicitou ao centro de controle de Belém, informações sobre as condições meteorológicas. Foi a última comunicação que fez, nada mais se soube dela durante 51 anos.
Os EUA mantêm um órgão destinado a identificar restos mortais de seus soldados considerados desaparecidos em combate e procurar os possíveis parentes desses militares mortos. Esse órgão, Laboratório Central de Identificação do Exército  no Havaí (CILHI), já identificou milhares de soldados desaparecidos - especialmente do Vietnã - a partir mesmo de restos mortais diminutos, após um processo que envolve longas horas de análise científica e emprego da técnica de DNA. Pois, no ano de 1990, o CILHI recebeu informações que uma equipe de militares da FAB havia encontrado destroços de uma aeronave B-24 em uma área desabitada, isolada da floresta amazônica. Deslocou então 15 homens do exército para, juntamente com militares brasileiros, fazer a identificação da aeronave e, se possível, recolher restos mortais dos tripulantes.
Uma equipe da FAB ajudou os pesquisadores CILHI durante um esforço de recuperação de três semanas em uma área de densa floresta cerca de 50 milhas a nordeste do rio Amazonas próxima à cidade de Macapá, localizada cerca de 250 quilômetros a noroeste do destino do avião, Belém. Inicialmente os pesquisadores encontraram dois conjuntos de “dog tags” (plaquetas de identificação que os militares trazem penduradas no pescoço) e numerosos fragmentos de ossos no local.  Ficou patente, pelas condições dos fragmentos da aeronave, que todos os 10 tripulantes morreram na queda, não havia sinais que indicassem alguma possível sobrevivência. Duas semanas de escavação no local do acidente não acrescentou nada ao que já se tinha descoberto. Contudo, depois terem escavado vários metros de profundidade e estarem começando a perder a esperança, eles começaram a encontrar ossos, anéis e “dog tags” com nomes e as patentes escritas sobre eles. Onde o avião caiu um investigador encontrou uma carteira, e outro teria encontrado várias notas de dólar de 1944, concluiu-se que o impacto de alta velocidade da queda significava que pouco restou da aeronave. E a maior parte dos destroços - espalhados por uma vasta área e em repouso por 51 anos - nunca serão recuperados. Depois de três semanas, a equipe recuperou os restos mortais de todos os 10 tripulantes e realizou um serviço cerimonial para a tripulação em Macapá, capital do Amapá e, em seguida, os restos foram levados para os EUA. Em pouco tempo, mais tarde, os peritos forenses CILHI confirmaram que os restos mortais eram, de fato, da tripulação do “Liberator” 42-95064.
Os tripulantes foram identificados como sendo:
1 - Segundo tenente Edward I. Bares, piloto;
2 - Segundo tenente Robert W. Pearman, co-piloto;
3 - Segundo tenente Laurel Stevens, bombardeador;
4 - Primeiro tenente Floyd D. Kyte Jr., navegador;
5 - Sargento John Rocasey, artilheiro do nariz da aeronave;
6 - Sargento John E. Leitch, engenheiro de voo;
7 - Sargento. Michael Prasol, artilheiro de cauda;
8 - Sargento Herman Smith, artilheiro do ventre;
9 - Sargento Max C. McGilvrey, artilheiro da torre superior;
10 - Sargento Harry N. Furman, operador de rádio (substituto não registrado como tripulante efetivo).
O desconhecido Harry N. Furman não faz parte da tripulação original do avião, provavelmente substituiu o operador de rádio Sargento Abe Pastor, no vôo fatídico. O destino de Pastor é desconhecido. “É provável que o chefe da equipe de terra pode muito bem ter substituído um dos tripulantes, que teria ido por mar'', disse Kevin Welch, um veterano B-24. “Às vezes, algumas posições eram operadas por tripulantes não-membros''.
Os restos da tripulação foram enterrados no Cemitério Nacional de Arlington, Washington, no dia 20 de fevereiro de 1995. JAIR, Floripa, 04/05/12.
Dados sobre essa matéria podem ser encontrados nos saites:

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cerveja voadora


Detalhe da "carga".

Modelo XXX sendo abastecido de cerveja.

Spitfire devidamente "armado".

No solo.
Matéria copiada do blogue:
Durante a guerra, a cervejaria Heneger & Constable doou cerveja de graça para as tropas britânicas. Depois do dia “D”, o abastecimento das tropas de invasão na Normandia com suprimentos vitais já era um desafio e, claro, não havia espaço na cadeia logística para luxos como cerveja e outros tipos de bebidas. Alguns homens, muitas vezes chamados de "fontes", eram capazes de obter vinho e outras iguarias "da terra", ou melhor, com os habitantes locais. Pilotos de Spitfires da RAF surgiram com uma idéia bem criativa. O Spitfire Mk IX era uma versão avançada do Spitfire, com suportes para bombas ou tanques sob as asas. Descobriu-se que os suportes de bombas podiam ser adaptados para transportar barris de cerveja. De acordo com imagens que podem ser encontradas na internet, vários tamanhos de barris foram utilizados. É desconhecido se os barris poderiam ser alijados em caso de emergência. Uma vantagem era que se o Spitfire voasse alto o suficiente, o ar frio em altitude esfriaria a cerveja, tornando-a pronta para o consumo no momento da chegada.
Uma variação desse transporte semi clandestino foram tanques de combustível adicionais de longo alcance modificados para transportar cerveja em vez de gasolina. A modificação ainda recebeu a designação oficial modelo XXX. Mas, diante dessa novidade, a Receita Federal britânica interveio, notificando a cervejaria que eles estavam violando a lei de exportação por deixar de pagar os impostos correspondentes. Parece que o uso do modelo XXX foi encerrado em seguida, mas vários esquadrões encontraram maneiras diferentes para renovar seus estoques. Na maioria das vezes, isso foi feito com a aprovação oficial dos escalões mais elevados.
Em seu livro "Dancing in the Skies", Tony Jonsson, o piloto Islandês que voava na RAF, lembrou que o transporte da cerveja foi executado enquanto ele estava voando no Squadron 65. Toda semana um piloto era enviado da França de volta ao Reino Unido para encher os tanques alijáveis com cerveja e voltar para o esquadrão. Jonsson odiava cerveja, mas corria como qualquer outro homem do esquadrão para assistir a chegada da bebida. Qualquer piloto que fizesse um pouso duro e deixasse cair os tanques seria o homem mais odiado do esquadrão por uma semana inteira. Em seu livro "Pilot Typhoon", Desmond Scott recorda também que os tanques alijáveis do Typhoon eram cheios de cerveja, mas lamentou que a bebida assim transportada adquiria um gosto metálico.
Por outro lado, houve uso de técnicas menos imaginativas desenvolvidas pelos “escondedores” de garrafas, onde qualquer espaço encontrado na aeronave que pudesse conter um recipiente era usado, isso incluiu caixas de munições, bagageiros ou mesmo em partes ocas da asa, com resultados variados. Garrafas de champanhe, em particular, não reagiam bem às vibrações a que eram submetidas durante viagens desse tipo.
Agora a versão brasileira desse transporte criativo:
Logo depois da guerra, na década de cinquenta, foi criado na FAB um esquadrão de aeronaves B-17 em Recife, os tripulantes, quando viajavam para o exterior, tinham o hábito de trazer coisas como rádios, perfumes para as namoradas e esposas e pequenos aparelhos eletrônicos (proibidos de serem trazidos sem pagar os impostos devidos) dentro das asas das aeronaves. Há que lembrar que rádios portáteis eram novidade e, por isso mesmo, muito cobiçados por quem viajava ao exterior. A prática de trazer eletrônicos era bastante comum e era realizada principalmente pelos mecânicos e rádio operadores dos aviões.
Certa ocasião no início da década de sessenta, em seguida ao pouso de uma aeronave em Recife após uma viagem aos EUA, o comandante da Base foi receber os tripulantes na pista. Tripulação em forma sob a asa do B-17 saboreando a preleção de boas vindas do comandante, quando se ouviu uma música vinda de algum lugar próximo a ponta da asa. Ordenou-se a abertura de carenagens de acesso àquele local e constatou-se que havia um rádio portátil ligado “pegando” uma rádio local. Claro que o descuidado dono do aparelho não apareceu, mas os tripulantes levaram uma “chuveirada” em regra do comandante e o rádio passou a ser patrimônio da base desde então. Provavelmente o comprador havia ligado sem querer o aparelho antes de colocá-lo no esconderijo, e este ficou sintonizado numa frequência qualquer que coincidiu ser de uma transmissora brasileira, foi daí que resultou a lambança. Os tripulantes brasileiros podiam não ter conhecimento da prática dos pilotos da RAF, mas a ideia foi igual. JAIR, Floripa, 22/04/12.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sandices alimentares



Está escrito e não podia ser diferente, alimentar-se é uma necessidade básica dos seres vivos, vem antes da segurança e da impulsão sexual com intuito reprodutivo. Alimento só não tem prioridade sobre respiração e sede, e isto significa que se estivermos respirando e tivermos água à nossa disposição, nossa necessidade primeira é comer. Consequência disso, a busca por alimentos nos primórdios impulsionou o nomadismo do Homo sapiens, de modo que essas peregrinações o levaram a ocupar quase que todas as regiões habitáveis do Planeta. Não é exagero afirmar que a fome criou a civilização, ainda que de forma indireta. Homens que se locomoviam em busca de fontes alimentares acabavam descobrindo e se fixando em locais antes desabitados, construindo novos aldeamentos e enfrentando novos desafios inerentes a esses lugares, de forma que suas descobertas e invenções estavam atreladas a esses ambientes. Novas conquistas representavam enriquecimento cultural e base para civilizações diferentes daquelas anteriores.
Também é compulsório observar que a relativa abundância alimentar facilitava, e às vezes até impelia, uma maior densidade demográfica, isto é, a equação era simples, mais comida mais gente. Não é segredo algum que mais gente significa mais cabeças pensantes e possibilidade maior de existir gente mais capacitada no meio dessas pessoas. Onde há gente capacitada (inteligente) novas criações e aperfeiçoamento se tornam mais fáceis, ou seja, inventos, métodos novos e técnicas melhores se desenvolvem, então teremos forças atuantes em direção a qualidade de vida melhor.
Comendo a humanidade cresceu, multiplicou-se, adquiriu força de, em princípio, dobrar a cada vinte e cinco anos. Muitos anos depois, no início do século dezenove (1803), Thomas Malthus, economista britânico, desenvolveu uma teoria que publicou num trabalho: "Um ensaio sobre o princípio da população ou uma visão de seus efeitos passados e presentes na felicidade humana, com uma investigação das nossas expectativas quanto à remoção ou mitigação futura dos males que ocasiona”. No qual ele afirmava que o Planeta estava fadado a entrar numa crise mundial de fome porque a população aumentava em progressão geométrica enquanto os alimentos só podiam ser incrementados em progressão aritmética. Como o homem era respeitado em seu campo de conhecimento, causou certa inquietação sua teoria então chamada malthusianismo. Na verdade, ele havia subestimado o desenvolvimento e adoção de técnicas modernas de plantio, descobrimento de fertilizantes e defensivos agrícolas que matavam as pragas, então verdadeiras dizimadoras de colheitas. Muita fome fustigou o Planeta desde então, mas nada tem a ver com falta de alimentos, o que existe é uso político dos alimentos e má distribuição de recursos.
Bem, e no varejo, no dia-a-dia das pessoas comuns, como a alimentação influiu nos costumes? Pois é, como o bicho homem havia se espalhado por quase (faltou regiões polares e alguns desertos muito áridos) todo o Planeta, acabou encontrando diferentes condições de produção de alimentos, bem como plantas e animais diferentes que se prestam para a domesticação com fins nutricionais. Assim, é perfeitamente natural que o povo inuit (também conhecido como esquimó) que vive no círculo ártico, não tenha em seu cardápio alimentos vegetais, eles são comedores de carne crua, ou seja, são omófagos de tempo integral e vitalício; também, não se deve estranhar que habitantes do norte África, região onde se situa o deserto do Saara, comam gafanhotos, por exemplo. Cada um se vira como pode e de acordo com os recursos disponíveis.
E quanto ao geral, como está a produção de alimentos no mundo? Vai bem, obrigado. Hoje há excedentes de alimentos nos países desenvolvidos e desperdícios na ordem de trinta por cento dos produtos agrícolas produzidos, segundo a FAO. Há tanta comida sendo produzida em países como os EUA e os mais desenvolvidos da Europa, que o excedente daria para alimentar todas as pessoas que sofrem de desnutrição crônica da África e ainda sobraria algum. Então o que é feito dessa comida toda? Simples, os americanos comem o equivalente calórico ao que três pessoas “normais” deveriam comer para manterem-se saudáveis e produtivas. As protuberâncias abdominais dos americanos, suas doenças do coração e suas academias lotadas são provas desse exagero. Hoje morre mais gente por doenças coronárias e excesso de peso do que de fome neste planetinha azul. Será uma espécie de punição da natureza para com aqueles que não enxergam a má distribuição calórica e protéica no mundo? Não sei, e se alguém sabe deveria berrar, pois o bom cabrito é aquele que berra prá caramba.
Reconhecendo algumas aberrações dignas de nota como o canibalismo, o homem comeu e come praticamente tudo que se move na face da terra, além de milhares de espécies de plantas e fungos. O bicho maior come o menor é um bom adágio para explicar como, na natureza, se comportam aqueles que constroem a cadeia alimentar, tantos os predadores quanto as presas. Já, com respeito ao bípede falante e presunçoso, ele come os menores e os maiores também, falta-lhe humildade para se enquadrar nas regras que vigem entre os animais em estado natural. Sem contar que alguns povos comem bichos selvagens os quais poderiam ficar quietinhos nos nichos, pois não falta proteínas entre esses predadores infames. Os japoneses são o exemplo mais contundente e vergonhoso dessa infâmia, matam baleias para servir sua carne como iguaria fina para os muito ricos, justamente aqueles que não estão nem perto da linha de fome. Se houvesse falta de proteínas no Japão, até seria quase compreensível que eles assassinassem esses mamíferos magníficos, mas não é esse o caso, a carne de baleia no Japão é vendida por algo em torno de trezentos dólares o quilo.
Às vezes eu sinto vergonha de pertencer a essa espécie que gasta bilhões em comida para animais de estimação e não olha os da mesma espécie morrendo de fome no Sudão e na Somália.
Imagino que a pressão da enorme expansão populacional deverá estimular inovações destinadas a superar o problema de milhões de bocas a serem alimentadas. Podemos imaginar que na ausência desse estímulo as inovações podem não acontecer, as grandes realizações humanas sempre foram antecedidas por pressões formidáveis, é só lembrarmo-nos das tecnologias desenvolvidas em consequência das guerras. Será que podemos contar com uma inversão dessa tendência mundial de poucos comerem muito e muitos comerem pouco? Fica a pergunta. JAIR, Floripa, 28/01/12.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sandices mórbidas




Vou repetir: “A morte é o único evento absolutamente inevitável e que alcança a totalidade dos seres vivos, mas nós não temos familiaridade com ela, procuramos certa distância dela como se fôssemos eternos”. Na verdade, a morte nos acompanha desde o momento exato da concepção, iniciamos o processo de moriência quando passamos a viver, e a morte passa, literalmente, a nos acompanhar durante nossa existência. Mas, parece que o Homo sapiens faz questão de viver como se ela não existisse.
Algumas culturas antigas como os egípcios do tempo dos Faraós, queriam “burlar” a morte por meio de rituais e processos de conservação corporal, obviamente sem perceberem que a ceifadeira é irrefragável. O mistério da falência corporal decorrente de doenças, acidentes ou velhice, que resulta na morte, era e é incompreensível para a maioria da humanidade. Esse mistério resultou na criação das religiões. Já que deixávamos de viver na Terra, “tinha” que haver alguma compensação na forma de vida depois da morte, seja em algum lugar edênico onde os bons serão compensados pelas suas ações, ou até num ambiente de punição por imperfeições cometidas em vida. Mais uma vez a ignorância acerca do fenômeno mais natural da existência era usada para criar explicações e soluções.
Contudo, por mais intrigante que fosse, a morte sempre cercou o homem, os primitivos sabiam que para se alimentar de animais precisam matá-los ou encontrá-los mortos; sabiam que os inimigos ou as feras podiam causar-lhes a morte; então, apesar de não compreendê-la e de temê-la mais do que qualquer coisa, os homens conviviam com ela e sabiam que, muitas vezes, era a razão de continuarem vivendo. Uns morriam para outros sobreviverem, uma verdade bem cedo descoberta.
Mais ainda, devido ao modus vivendi humano, que em suas aglomerações uns entravam em conflito com outros por disputa de fontes de alimentos, ou por razões de colisão de interesses vitais, o homem acabou inventando as brigas, rixas, batalhas, recontros e guerras nas quais venciam aqueles que matassem seus oponentes. A morte de outros significava a vida de uns e continuidade de suas comunidades e culturas. A guerra tornou a morte um meio de se chegar a um fim, mas sempre envolta na aura do ignoto.
Veio a civilização e explosão demográfica que tornou todos os cantos do Planeta habitados e a morte continuou ceifando vidas cada vez com mais intensidade, pestes, epidemias e guerras tinham mais material humano para apresentarem serviço, os números de óbitos se contavam aos milhões, enquanto nos primórdios havia sido em centenas ou milhares. A palavra genocídio ganhou dimensão absurdamente grande e trágica na primeira metade da década de quarenta do século passado, por delírios racistas de Hitler.
Mas, na mesma medida que os meios causadores de morte evoluíam a ciência tentava agora reverter o quadro, descobrindo ou inventando modos e medicamentos que adiassem o fim inevitável. Se mais gente morria de acidentes e guerras, mais gente sarava de doenças antes letais, graças aos avanços da ciência em especial a ciência médica.
Ao tempo que se encarava a morte como inevitável mas, em certos casos, passível de ser adiada, sandices foram desenvolvidas em torno da possibilidade de vida eterna, ou algo próximo disso. Essa tal existência perene não se referia, como as religiões apregoavam, a uma vida eterna da alma, mas sim a possibilidade de que o corpo pudesse viver producente por centenas de anos, dentro de certas condições. Por enquanto, besteira pura.
Contudo, especula-se que dado o avanço da cibernética, será possível dentro de uns dois ou três séculos, “casar” mecanismos mecatrônicos com cérebros humanos criando ciborgues virtualmente eternos. Considerando que um sonho louco como esse dependa apenas de desenvolvimentos tecnológicos que já se veem no horizonte e que trezentos anos seja tempo suficiente para se chegar a coisas inimagináveis por enquanto, essa futurologia não é de todo descartável.
Por outro lado, retrocedendo ao tempo dos Faraós que queriam seus corpos conservados para ressuscitarem algum dia, a ciência moderna inventou a criogenia que é a técnica de manter organismos ou partes deles em congelamento sem prazo de validade para ressuscitá-los um dia. Essa técnica já é empregada com sucesso em embriões: óvulos fecundados podem permanecer em congeladores especiais por anos com grandes chances de sobreviver a um descongelamento sob controle num futuro não muito distante – calcula-se que cerca de sessenta por cento deles consegue manter-se em condições de originar um bebê. Por esse motivo, existe muita gente que acredita na possibilidade de seres humanos inteiros possam ser congelados e, num futuro distante descongelados aptos a viverem normalmente. Essa estranha esperança deu azo à criação de uma indústria de criogenia que congela corpos ou cabeças de quem tenha duzentos mil dólares disponíveis e queira apostar essa grana contra a morte. Pelo que se sabe, até o momento mais de cem pessoas colocaram suas fichas nesse jogo de regras incertas e término ignorado.
A técnica é a seguinte: imediatamente após a morte do candidato a vida eterna, os médicos retiram seus fluidos corporais e os substituem por um líquido que não congela, depois o colocam num tanque de nitrogênio líquido mantido a -196 ºC, temperatura em que todo material orgânico não deteriora. É aí que entra a aposta no ignoto. Supõe-se que daqui a uns cinco ou seis séculos, os cientistas descobrirão um jeito de combater a doença que causou a morte do candidato picolé e este será curado, descongelado e viverá normalmente. Futurologia da mais alta qualidade!
Contudo, afirma o físico americano Robert Ettinger um dos maiores divulgadores da criogenia: "Os próprios métodos usados para congelar uma pessoa podem causar danos às células que só poderiam ser reparadas por tecnologias que ainda não existem". Por isso, a criogenia é uma aposta cega contra a morte com toda feição de ser um tiro na água, mas que tem um número de adeptos bem expressivo.
De qualquer forma, a morte não perdeu seu potencial de horror, mistério e porque não dizer de fascínio, ela nos alcançará em algum momento e será sempre mal vinda, não queremos morrer. JAIR, Floripa, 10/02/12.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Estirpe de guerra



No princípio, quando os primeiros povos se organizaram em aldeias e clãs, os homens deram início às guerras que, quase sempre, tinham como objetivo conquistas, sejam territoriais ou de fontes de recursos. Contudo, a história registra que as guerras eram empreendidas por elites masculinas, nunca pela massa amorfa de pessoas comuns ou por mulheres. Guerreiros, cavaleiros, samurais, nobres e outras denominações seriam os que terçariam armas contra os inimigos, aos demais restava apenas “torcer” pelos seus.
Para os não-guerreiros – os camponeses, por exemplo, a guerra podia ser encarada como uma praga mortal igual à peste ou a varíola. Mas, para os guerreiros, ela era a própria essência da vida, de uma vida boa e aventurosa, da qual mulheres e camponeses estavam excluídos naturalmente. Na luta, o guerreiro tinha aventura, companheirismo, emoções violentas, heroísmo, disputas, provas de masculinidade, saques e experiências novas e a possibilidade de conseguir uma morte gloriosa que lhe concederia fama e reconhecimento, ainda que, obviamente, post mortem. Entre uma guerra e outra, o guerreiro mantinha vivos os eventos passados através de disputas esportivas, as chamadas justas, que representavam as batalhas, revivendo-as em duelos e torneios e comemorando-as com desfiles que lembravam vitórias. Rituais que tinham a finalidade de manter aquele elã tão presente nas batalhas. Os guerreiros de elite de outros tempos, certamente concordariam com as palavras de um jovem oficial alemão, escritas logo depois do fim da primeira guerra: “Vieram nos avisar que a guerra tinha acabado. Achamos graça. Nós somos a guerra”.
Ao colocar todos os guerreiros no mesmo saco como uma elite que se destacava da gentalha, estamos incluindo nela grandes diferenças culturais e históricas. Para falar só da tradição européia de guerreiros, lembremos que seus conceitos de guerreiros incluíam tanto os parrudos homens armados da idade média quanto os aristocratas almofadinhas de uma época posterior. Incluímos aquele cavaleiro que lutava num estilo mais ou menos indisciplinado e individualista, e também o oficial de um exército enorme e burocratizado, que nunca deve ter lutado, mas que comandava um grande número de subalternos que, efetivamente, enfrentava o inimigo no campo de batalha. O conceito inclui também os mercenários que lutavam para qualquer príncipe que lhes pagassem um soldo e os idealistas que lutavam por um deus e, posteriormente, por uma pátria ou país. Inclui ainda homens que dificilmente poderiam integrar uma elite: cavaleiros pobres sem terras e cuja única opção para obtê-las seria a guerra.
Se existe um pretexto para generalizar as elites guerreiras, é que elas mesmas fazem essa generalização. O general MacArthur, estereótipo do guerreiro moderno, costumava dizer-se descendente de uma “longa linhagem cinza” que remontava a centenas de anos. Ele dizia preferir terçar armas corpo a corpo com o inimigo no campo, a comandar homens para fazê-lo. No filme Forrest Gump, temos o mais radical exemplo do guerreiro consumado, Tenente Dan Taylor (Gary Sinise). Quando ferido de morte no campo de batalha no Vietnã, recusa-se a ser evacuado para a salvação, evoca todos seus antecedentes que morreram em guerras anteriores. Ele queria morrer em glória, coisa que lhe foi negada, porquanto Forrest o conduz nos ombros e o salva. Taylor é uma versão extremada de MacArthur. Para um guerreiro, a idéia que uma estirpe guerreira se estende por milhares de anos não chega ser uma abstração. O general Patton achava essa idéia bem real: sua família teve várias gerações de militares famosos; quando criança ele acreditava ser uma reencarnação de heróis mortos, tanto confederados como vikings.
Patton certamente é um exemplo exagerado, mas os guerreiros de elite geralmente são estimulados a se incluir numa estirpe guerreira supranacional. O Salão Washington, em West Point, recebe os cadetes com um enorme mural onde se lê: “São mais de dois mil anos de proezas militares em meio a espadas, flechas, mosquetes, máscaras de gás, estratégias de cerco, elefantes; Ciro, na Babilônia; Guilherme, em Hastings; Meade em Gettisburg; Joffre, no Marne”.
É inegável que as tradições guerreiras cumprem seu papel de gestar guerreiros em série de uma mesma família ou clã, contudo, quando não é possível estabelecer essa correlação, costuma-se usar a imaginação. Os prussianos costumavam dizer-se herdeiros das artes bélicas dos espartanos e assírios. O general MacArthur, discursando para cadetes de West Point, citou uma série fantasmagórica de guerreiros americanos para servirem de alter ego aos jovens. Dizia que se os cadetes algum dia deixassem de cumprir seus deveres para com o país, um milhão de fantasmas de uniforme verde, cinza, azul e cáqui, levantariam de seus túmulos e suas vozes ecoariam três palavras: dever, honra e pátria. Mas, em matéria de imaginação, nada se compara a “arianologia” alemã que procurava remontar a linhagem étnica e espiritual da Wehrmacht a milhares de anos, chegando aos bandos de homens armados da pré-história indo-europeia.
Grande parte das castas guerreiras tanto do ocidente como do oriente se manteve durante anos como uma elite contínua de sangue, até chegar à época das armas de fogo. Agora não era o mais bravo, o mais destemido que contava, era o mais bem armado.
A guerra moderna tornou-se evento mortífero “por procuração”, quanto mais letais as armas se tornaram, menos envolvimento do guerreiro, este pode ser um general que simbolicamente aperta um botão a milhares de quilômetros do fronte e mata batalhões de inimigos. O infante não é mais o peão de elite que enfrenta um seu igual olho no olho, ele pode estar a centenas de metros disparando seu fuzil de precisão e apenas vislumbra o inimigo, quando muito. A guerra pode até dissociar-se do sangue, as bombas nucleares volatizam os corpos das pessoas não deixando rastros.
Contudo, mesmo inexistindo o real cheiro de sangue, mesmo que aviadores e comandantes de tanques ultra sofisticados, apenas “joguem videogame” em batalhas virtuais mortíferas, os guerreiros ainda são uma elite que vê na guerra um meio de vida - e de morte também - perfeitamente justificável pelo qual vale a pena dedicar seus melhores anos de juventude e seus melhores e mais profícuos esforços físicos e intelectuais. Patriotismo, ideologias e justificativas morais, são apenas pretextos que os verdadeiros guerreiros usam para explicar porque vão matar gente que não conhecem em um país distante e estranho. No tempo atual, quem mais encarna a fiel definição de uma estirpe guerreira, são os soldados de elite americanos: Seals, Rangers e Ghost Warriors. Mas estes merecem outro texto. JAIR, Floripa, 03/01/11.

domingo, 27 de novembro de 2011

Batalha da Inglaterra





Batalha da Inglaterra é como se convencionou chamar os eventos de guerra aérea ocorridos sobre o Canal da Mancha e solo inglês durante os meses de julho e agosto até 15 de setembro de 1940, quando a Luftwaffe atacou em massa cidades e instalações industriais e militares inglesas que foram defendidas pelo Comando de Caças da RAF.
Talvez para os britânicos, na história de seu país, tenha sido um momento tão importante como a derrota da “Invencível Armada” espanhola em 1588 e o triunfo do almirante Nelson em Trafalgar sobre as frotas francesas e espanholas em 21 de outubro de 1805. Menos de três mil jovens pilotos – não mais de novecentos num só dia de combate – roubaram a cena de Hitler, quando parecia que a Grã Bretanha estava prestes a ser invadida pelos nazistas depois da aniquilação de sua Força Aérea. Sobre essa que foi, segundo opinião de analistas posteriormente, a batalha “que ganhou a guerra”, Wiston Chulchill cunhou a frase que a imortalizou: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.
Os “poucos” como passaram a ser chamados os pilotos de caça da RAF, talvez sem perceber, naquele dia fatídico para os nazistas, 15 de setembro, tenham derrotado Hitler. Este, incapaz de invadir e conquistar a Grã Bretanha, se voltaria para a União Soviética, sacrificando o exército alemão e, a partir daí, prolongando a guerra até que, finalmente, depois que os EUA forram arrastados para a guerra pelo ataque japonês a Pearl Harbor, deixando a Alemanha contra os três países industrializados mais poderosos do mundo.
Tudo isso viria a acontecer, e ninguém, mesmo Churchill que tinha uma visão aguçada dos acontecimentos futuros, poderia prever no outono de 1940, quando a Grã Bretanha estava sozinha. Mas o Comando de Caças, comandado pelo Tenente Brigadeiro Sir Hugh Dowding, e seus jovens pilotos, tinham preponderado sobre uma Luftwaffe muito mais poderosa e bem armada.
Não é minha intenção descrever aqui os acontecimentos dessa importante batalha, porque não será num espaço deste que caberá aquele pedaço da história. Contudo, centenas de livros foram escritos sobre os eventos, obviamente evidenciando a coragem e empenho dos pilotos de Spitfires e Hurricanes na batalha. Só que, por trás dos panos, os ingleses se deparavam com obstáculos terríveis como o de manter a produção das aeronaves de modo a suprir os aviões perdidos na batalha e aumentar a reserva visando as ações que fatalmente viriam; formar pilotos hábeis e capazes em tempo recorde para manter os esquadrões operacionais mesmo com as perdas diárias crescentes.
É claro que os radares ainda rudimentares usados pelos ingleses foram uma contribuição importante para a coordenação da defesa aérea. O fornecimento de gasolina de alta octanagem pelos EUA também permitiu o ótimo desempenho dos motores Rolls-Royce Merlin que equipavam os caças ingleses. E até o aproveitamento dos restos mortais dos aviões alemães abatidos sobre solo inglês foi útil para uso na indústria aeronáutica que fabricava Spitfires e Hurricanes. Assim, é quase certo que alguns dos aviões recém saídos das linhas de montagem ingleses tivessem, em parte, sido construídos com alumínio proveniente dos Stukas e Junkers alemães.
Outro dado importante é que cada perda alemã – homem e máquina – era definitiva, isto é, se o tripulante sobrevivesse normalmente tornava-se prisioneiro de guerra, e as máquinas tornavam-se sucatas para os ingleses; e as perdas britânicas eram em solo ou águas pátrias, de modo que o sobrevivente podia voltar à ativa e o material, sempre que possível, era reaproveitado.
Assim, uma ilha assediada e sozinha acabou derrotando a maior força aérea do mundo naquele momento, e definindo os rumos da guerra que acabou com o triunfo das democracias contra os nacionalismos exacerbados e cegos da Alemanha, Itália, Japão e seus aliados. JAIR, Floripa, 24/11/11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sobre poder




Na história da humanidade registra-se um período em que os homens viviam em bandos familiares pouco organizados, em atividade de coleta e caça de alimentos, eram os caçadores-coletores. A economia de caça e coleta implicava em viver em pequenos bandos, o número de indivíduos era limitado pela disponibilidade de fontes alimentícias e pela necessidade de mobilidade. Há fortes indícios que esse número girava em torno de vinte e cinco indivíduos incluídos adultos e meia dúzia de crianças já andando. A própria estrutura do bando excluía qualquer apropriação de áreas de bandos vizinhos e de propriedade de bens. O ônus de propriedades móveis e de invasão de áreas de coleta de outros era maior que os benefícios que poderiam advir de tais opções. Claro que é razoável supor que em tempos de escassez pode ter havido conflitos entre os bandos, mas as indicações arqueológicas depõem contra essas confrontações. Mas, quando a necessidade ou a vontade ditaram o estabelecimento de aldeias, foi que essas populações vizinhas encontraram motivos para cobiçar os recursos de seus contíguos. Ao contrário do modo de vida de caça e coleta, onde os pequenos bandos são mais apropriados para explorar fontes de alimentos, a concentração de alimentos mediante cultivo e pastoreio permite que populações sedentárias cresçam. As aldeias podem tornar-se cidades, com todas as implicações que esses aglomerados apresentam. Se uma aldeia agrícola decide apoderar-se das plantações de uma aldeia vizinha, ela se beneficiará porque sua própria população poderá expandir-se por causa do alimento adicional. Está claro que haveria antes o detalhe de uma batalha. Mas, desde que os benefícios superassem as perdas supervenientes, a aldeia que vencesse o conflito se colocaria numa posição vantajosa à custa dos vizinhos.
Com o advento de povoações permanentes ocorre também o nascimento do materialismo. A vida sedentária nas aldeias permite a acumulação de objetos não essenciais, é e com esses objetos que costumamos associar, o mais das vezes, os símbolos de status e riqueza. A experiência nos mostra que a acumulação de riquezas provoca o desejo de novas riquezas, e, em nenhum momento, essa sede de bens é saciada. Ou seja, ninguém é rico o suficiente para desprezar aquisição de mais e mais bens. O fenômeno vai além do simples acumular coisas materiais, como um fim em si mesmo: pode ser definido como um psicomaterialismo, fenômeno parecido com a cobiça do poder. Riqueza e poder são irmãos xifópagos. E mais, o poder só é atrativo quando há um grande número de pessoas sobre as quais exercê-lo. A história recente do século passado nos dá a medida que essa compulsão pelo poder pode ser maléfica. Com toda evidência, as possibilidades de procura, de manutenção e de expansão do poder foram muito maiores após a revolução agrícola do que antes. E a história nos mostra que há dois caminhos básicos para a expansão do poder: manobras políticas habilidosas ou operações militares bem sucedidas. Mais uma vez nos lembramos de Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.
Concordando com Clausewitz, já que a natureza dos dois fenômenos é a mesma, ambas, guerra e política, sempre estão concorrendo para a tomada, aumento ou manutenção do poder. Ainda mais, como poder e materialismo na forma de riqueza são irmãos xifópagos, não há contradição em afirmar que a guerra que está a serviço do poder, e também a política, ambas têm como objetivo aumento da riqueza, seja de nações seja de indivíduos. Meio complicado, mas intrinsecamente verdade. Poder gera riqueza que para ser mantida ou ampliada serve-se da guerra e/ou política para tal. Maquiavel na mais pura acepção: os meios, guerra e política, justificam os fins, poder e riqueza. Fico fascinado como pensadores antigos já tinham uma sintonia fina para perceber os grandes temas sócios antropológicos e os meios para alcançá-los que predominariam nossa sociedade atual. JAIR, Floripa, 21/11/11.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Brasil na guerra

Início da década de quarenta, Brasil vivendo sob a ditadura de Getúlio Vargas que não escondia sua preferência pelos modelos doutrinários ditatoriais de Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália. A guerra na Europa se fazia entre os nacionalismos exacerbados de nazistas e fascistas contra os aliados que representavam as democracias. Getúlio fazia ouvidos moucos para vozes que o exortavam a se aliar às democracias contra as ditaduras; nas águas territoriais brasileiras, navios mercantes eram atacados e afundados por submarinos alemães e italianos e centenas de vidas civis eram perdidas numa guerra que não era nossa. A extrema direita brasileira, representada pelos “camisas verdes” (integralistas) capitaneados por Plínio Salgado, aproveitava o clima de indignação oriundo das unidades mercantes torpedeadas nas nossas costas, para divulgar propaganda enganosa no sentido que eram os americanos que estavam afundando nossos navios para nos obrigar a entrar na guerra ao lado deles. A insinuação não passava de bobagem maldosa para obrigar o Brasil a entrar na guerra ao lado dos alemães e italianos, mas existiam pessoas que acreditavam.
O presidente do EUA era Roosevelt, conhecido por FDR, o qual, diante do espraiamento da guerra para o norte da África, necessitava de bases para suas forças, mais próximas dos campos de batalhas. Diante disso, FDR insistiu junto a Vargas para que este cedesse bases aéreas em solo brasileiro, principalmente no norte e nordeste, para que suas forças pudessem transpor com mais facilidade o oceano Atlântico, rumo à África transportando tropas, armas e suprimentos. Pressão dos aliados de um lado e da opinião pública de outro, fizeram Vargas ceder. Numa jogada política esperta, da qual Getúlio era mestre, ele “trocou” as bases brasileiras e a entrada do país no conflito, por uma usina siderúrgica de última geração. A Companhia Siderúrgica Nacional, CSN, foi cedida por Roosevelt e instalada em Volta Redonda onde se encontra funcionando até hoje, embora privatizada.
Tendo aceitado entrar na guerra junto aos aliados, o Brasil preparou tropas a partir de 1943 para enviar ao palco de batalhas contra os alemães na Itália, o que se deu em junho de 1944. Os pracinhas, como eram chamados os soldados expedicionários, saíram-se muito bem nas tomadas dos montes Cassino e Castelo na região dos Apeninos. Vibrantes, destemidos e arrojados os soldados brasileiros, equipados pelos americanos com materiais e vestimentas modernos, enfrentaram o frio europeu e os alemães com a mesma bravura. O cessar fogo na Europa se deu em maio de 1945. Nessa guerra de menos de oito meses, a FEB perdeu 443 homens, entre soldados e oficiais, e mandou para os hospitais da retaguarda perto de 3.000 feridos. Por outro lado, fez 20.573 prisioneiros alemães, inclusive dois generais.
Finda a guerra, resolveu-se construir um cemitério na região da Toscana, para reunir num único local, com quadras apropriadas e devidamente demarcadas, os restos dos mortos nos combates do teatro de operações de guerra italiano. Ao final do conflito, em maio de 1945, havia 443 sepultados nesse local. O “Cemitério Militar Brasileiro”, pela proximidade da cidade ficou conhecido como cemitério de Pistóia. Em outubro de 1952 foi criada uma comissão de repatriamento dos mortos brasileiros sepultados no Cemitério de Pistóia, o que acabaria acontecendo apenas no ano de 1960. Hoje os restos mortais dos militares jazem sob o Monumentos dos Pracinhas, no aterro do Flamengo, Rio.
Só que repatriamento dos restos mortais dos mortos no campo de batalha foi meio tumultuado, tornou-se objeto de uma disputa quase infantil entre a FAB e Marinha Brasileira. A Armada queria trasladar as urnas funerárias de navio, e a FAB estava convencida que o traslado em aviões seria melhor. Talvez pelo fato de a Marinha não ter participado de batalhas na Europa e seus mortos serem oriundos dos ataques de submarinos aqui mesmo no Brasil, ficou estabelecido que as urnas, em vez de virem para o Brasil em navios de guerra, seriam transportadas por três aviões C-54 da FAB. Por azar da FAB e certa discreta alegria mórbida da Marinha, nesse traslado quase ocorreu uma tragédia de graves consequências num evento pouco divulgado, menos ainda lembrado. O percurso aéreo Itália – Rio de Janeiro previa, entre outras, uma parada técnica em Lisboa. Nas manobras de aproximação do Aeroporto de Lisboa, um dos aviões sofreu um acidente no pouso, bateu, quebrou a asa e foi tomado por um incêndio. Alguns tripulantes e passageiros tiveram ferimentos leves, mas todos ficaram profundamente traumatizados com o acidente e com os possíveis danos à preciosa carga que levava o avião. As urnas não sofreram grandes danos, mas tiveram que ser reparadas para prosseguirem viagem em outra aeronave.
O episódio ficou conhecido como a segunda morte dos pracinhas, mas, pelo fato de ter ocorrido em Portugal, deu azo para que os eternos gozadores cariocas veiculassem a seguinte piada politicamente incorreta: “Um pequeno avião da FAB sofreu um acidente em Lisboa e as autoridades portuguesas informam que entre mortos e feridos já resgataram mais de quatrocentos corpos”. A heróica passagem dos militares brasileiros pelos campos de batalhas da sangrenta segunda guerra acabou sendo objeto de descontraída alusão a anedótica pouca inteligência de nossos irmãos lusos. JAIR, Floripa, 11/11/11.

domingo, 2 de outubro de 2011

Submarinos



O afundamento de dezenas de navios mercantes brasileiros efetuados por submarinos alemães e italianos, nas costas do país durante a segunda guerra mundial, é um assunto muito interessante abordado com grande competência por meu amigo Leonel no "O Asteroide". Também publiquei “O Supérstite”, texto que contava a história de um médico brasileiro que foi vítima de dois torpedeamentos e sobreviveu. Ainda que esses fatos sejam uma realidade cruel e dolorosa e provem a capacidade técnica e bélica dos perpetradores europeus, deixam certo sabor de mistério de como submarinistas alemães e italianos conseguiam informações válidas para, depois de atravessar um oceano de distância, chegarem aos pontos certos e nos horários corretos para encontrar os navios vítimas de seus torpedos. Como essas mortíferas embarcações reabasteciam ou faziam manutenção se necessário? Como funcionava a logística dessas operações complexas?
Como sabemos, os três estados sulinos foram objeto de migrações maciças de europeus desde o século dezenove até inicio do século vinte. Em consequência desses deslocamentos temos aqui na região muitas colônias de descendentes de europeus as quais colorem e dão um tempero especial à cultura e aos costumes dos brasileiros. Não só isso, a nacionalidade, o idioma e os costumes dos imigrantes geralmente foram preservados, de modo que, durante a guerra, não foi nem um pouco estranho ou surpreendente que muitos emigrados alemães “torceram” pela vitória de seu país e alguns até se voluntariaram para lutar ao lado dos nazistas.
O que não se sabe até hoje é qual papel os imigrantes que aqui ficaram tiveram com relação aos submarinos que “visitavam” nosso litoral e causaram tantos transtornos aos navios da marinha mercante brasileira e fizeram tantas vítimas indefesas. A respeito dessa atuação tenho algumas informações e conjeturas interessantes.
Tive um professor no ginasial de nome Jurandir Araujo o qual, durante a juventude, fora um “Marumbinista”, ou seja, na década de cinquenta havia pertencido a um grupo de desbravadores montanhistas que se dedicavam a explorar o pico Marumbi (1847 metros, considerado o ponto culminante do estado) e as cercanias da Serra do Mar próximo à cidade de Morretes. Pois bem, nos contava ele que seu grupo de montanhistas fora o primeiro a desbravar a trilha que subia até o pico Paraná e descobriu que este era mais alto que o Marumbi. Mas, o mais interessante é que, apesar de não haver trilhas que levassem ao Paraná e nem qualquer meio razoável para lá se chegar, eles encontraram escondido na mata, bem no cume, uma estrutura de ferro. Uma torre treliçada com trinta metros de comprimento dessas que suportam antenas de transmissão. Não havia qualquer registro de rádio ou órgão do governo que tivesse colocado aquela estrutura naquele local. Pelo que se sabia ninguém jamais havia escalado aquele pico. Uma investigação posterior feita entre os habitantes da zona rural de Morretes moradores de área próxima, deram conta que a antena fora colocada por “alemães” na década de quarenta. Havia (ainda há) colônias de imigrantes germânicos nas proximidades.
Em fevereiro de 1941 o Navio “Sea Cloud” de bandeira da África do Sul, comandado por um capitão supostamente argentino Sigfried Blaffert e com tripulação “argentina”, atracou no porto de Antonina para descarregar trigo que o Brasil normalmente importava do país platino. O “Sea Cloud”, além do trigo também desembarcou três passageiros “argentinos” que apesar do passaporte atestar sua nacionalidade platina, falavam apenas um pouco de espanhol com carregado sotaque germânico. Tratava-se de passageiros incomuns, meio misteriosos e caladões os quais se hospedaram na Pensão da Dona Custódia com uma bagagem não menos estranha: malas ou baús de madeira os quais eles carregavam com bastante cuidado e dos quais não distanciavam o olhar em momento algum. Na noite do segundo dia de hospedagem foram visitados por um indivíduo de capa e chapéu sobre os olhos carregando uma pasta, e que perguntou também com sotaque alemão para a empregada onde eles estavam. Visitou-os por um pouco mais de uma hora e saiu sem a pasta. No outro dia os visitantes pagaram a pensão e saíram com suas bagagens rumo a estação onde, se supõe, pegaram o trem para Curitiba.
Os rumores sobre esses estranhos personagens se espalharam o que encetou uma discreta verificação por parte Paulo Wendt, delegado de polícia. O pouco que ele descobriu ficou registrado no jornal “O Vespertino” de Paranaguá: O visitante misterioso provavelmente era o cônsul alemão creditado em Paranaguá e que sumiu após aquele dia. Dizia-se que partiu para local desconhecido. Os “visitantes” nunca foram encontrados. Mas, afirmava-se, eles eram técnicos alemães em eletrônica e comunicação por rádio e suas bagagens eram aparelhos de transmissão de última geração fabricados na Alemanha.
Quando morei em Florianópolis, na década de sessenta, conheci um militar da ativa que havia servido na Marinha de Guerra e fora transferido para a FAB em 1941 quando da criação do Ministério da Aeronáutica. Ele servira no então Destacamento de Base Aérea de Florianópolis onde participou durante a guerra de missões de patrulhamento do Atlântico Sul a bordo dos aviões PBY americanos, então lotados naquele Destacamento. Eu havia notado na selvagem e deserta praia do Morro das Pedras - local totalmente fora de qualquer circuito praiano freqüentável pelos nativos e turistas - três estranhas construções de tijolos bem deslocadas e aparentemente sem qualquer utilidade. As edificações mediam três por três metros e tinham portas de ferro voltadas para o mar, nada indicava para que teriam servido algum dia. Moukarzel, o militar citado, disse-me que as obras teriam abrigado bombas de recalque de combustível para submarinos durante a guerra. Caminhões contendo óleo diesel estacionavam no local, o submarino emergia nas águas profundas, abrigadas e discretas da praia e marinheiros conectavam mangueiras às bombas que, acionadas, levavam o combustível para a embarcação. Imigrantes alemães, propositalmente donos de postos de combustível, eram os supridores dos submersíveis.
Se somarmos dois mais dois fica fácil perceber como se fazia a comunicação com os guerreiros marítimos que perpetravam estragos em nossa costa. E o suprimento de combustíveis para suas máquinas mortais está explicado. Quem quiser, pode enxergar porque era tão fácil a missão deles, especialmente no sul do país. JAIR, Matinhos, 07/09/11.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Bombas na Austrália



Já publiquei vários textos referentes à energia atômica, seu uso na confecção de armas nucleares, sua exploração para incrementar a guerra fria, e sobre os testes atômicos que as potências nucleares efetuaram nas mais diversas regiões do Planeta, com suas danosas consequências.
Todas as chamadas potências nucleares, nas décadas de cinquenta e sessenta, fizeram testes dessas armas mortais na atmosfera sem qualquer cuidado com o ambiente onde elas ocorriam. Os EUA explodiram dezenas de bombas no atol de Biquíni, pertencente às Ilhas Marshall no oceano Pacífico, a oeste do Havaí, com resultados tão nocivos que até hoje o meio ambiente continua alterado e o povo que lá vivia está impedido de voltar depois de mais de cinquenta anos.
Mas, acho que a pior consequência desses diabólicos testes resultou das experiências engendradas e executadas pela Grã Bretanha no território australiano. Verdadeiro crime ambiental de grandes proporções que inviabilizou a vida normal de tribos inteiras de nativos. Primeiro, é preciso que esclareça que a Austrália é um país democrático, parlamentarista, independente, integrante da Comunidade Britânica e, como tal, pertence à área de influência da Inglaterra. Sendo assim, parece, quando a Albion se viu apta a explodir seus artefatos mortais, escolheu aquele país porque possui vastos territórios desérticos, o assim chamado Outback. Habitados apenas pelos nativos, - conhecidos mundialmente por aborígenes - e por dromedários, cangurus, dingos, cobras, lagartos e emus, seres perfeitamente descartáveis segundo a ótica dos arrogantes ingleses.
Os testes nucleares britânicos ocorreram em Maralinga entre 1955 e 1963, até hoje um lugar interditado à vida no sul da Austrália. Sete grandes testes nucleares foram realizados, com potência aproximada variando de 1 a 27 quilotons equivalentes de TNT. Para comparação, a bomba de Hiroxima tinha 20 Kt. O sítio também foi usado para centenas de experimentos menores, muitos dos quais tinham a intenção de investigar os efeitos de incêndio ou explosões não-nucleares em armas atômicas. Construíram no local simulacros de bases com instalações como hangares, alojamentos, pistas e pátios onde foram colocados aviões sobrantes da guerra como os famosos e românticos P51, por exemplo. Militares “voluntários” foram colocados a uma certa distância das explosões para aquilatar os efeitos da radiação. Não é preciso dizer que a essas pessoas não foi explicado o perigo que corriam.
Além dos testes maiores, um grande número de experimentos menores também foram realizados, de junho de 1955 e prorrogado até maio de 1963. Embora os testes principais fossem realizados com um pouco de publicidade, os testes menores foram feitos em sigilo absoluto. Estes testes menores deixaram um legado perigosíssimo de contaminação radioativa na área de Maralinga. O resultado dessas experiências de baixa potência se assemelha ao que acontece no caso de explosão de uma “bomba suja”. Bomba que usa explosivo convencional para espalhar material radioativo mortal ao redor, constituindo-se num artefato barato, mas de enorme e duradoura letalidade.
As séries de quatro ensaios de menor impacto foram denominadas Cats, Tims, Rats e Vixen. Ao todo, esses “estudos” incluíram 700 testes, envolvendo experimentos com plutônio, urânio e berílio. A operação Cats envolveu 99 ensaios, realizados em duas áreas, Maralinga e Emu Field de 1953 a 1961. Nos testes foram usados “gatilhos” de nêutrons, envolvendo o uso de polônio 210 e urânio, e geraram, segundo foi divulgado depois, "quantidades relativamente grandes de contaminação radioativa." A operação Tims ocorreu em 1955-1963, e envolveu 321 ensaios de urânio e de berílio, bem como estudos de compactação de plutônio. A operação Rats investigou dispersão explosiva de urânio, quando 125 ensaios tiveram lugar entre 1956 e 1960. A operação Vixen, em ensaios entre 1959 e 1961 investigou os efeitos de um incêndio acidental de uma arma nuclear, e envolveu um total de cerca de 1 kg de plutônio. E, para que acha que 1 Kg de plutônio é pouca coisa, é só lembrar que acidente com césio 137 no Brasil foi causado por apenas 0,093 quilogramas daquele elemento, e que o plutônio é milhares de vezes mais radioativo e letal que o césio. Além disso, a meia-vida do césio 137 é 30 anos, enquanto o plutônio só decai para metade de sua radioatividade em 24.100 anos.
O local foi contaminado com material radioativo com tal magnitude que uma limpeza inicial foi tentada em 1967. A Comissão Real McClelland, depois de um exame dos efeitos dos testes, apresentou o seu relatório em 1985, e constatou que o perigo de radiação significativa ainda existia em muitas das áreas de teste Maralinga. Recomendou outra de limpeza, que foi concluída em 2000 a um custo de US$ 108 milhões. Até hoje prossegue o debate sobre a segurança do local e os efeitos a longo prazo sobre a saúde da tribo aborígene proprietária daquela terra. Em 1994, o governo australiano pagou uma indenização no valor de US$ 13,5 milhões para os aborígenes, pessoas que tiveram que mudar-se de lá. Essa indenização visava apenas cobrir os efeitos nocivos sobre o terreno, nada se falou nos efeitos sobre a saúde das pessoas afetadas.
Antes da escolha, o sitio Maralinga era habitado pelos povos aborígenes Pitjantjatjara e Yankunytjatjara, para quem a área tinha um "grande significado espiritual". Muitos foram transferidos para um novo assentamento em Yulata, e foram feitas tentativas de restringir o acesso ao sitio Maralinga.
Na década de 1980 alguns militares australianos e habitantes aborígines da terra estavam sofrendo cegueira, feridas e doenças como o câncer. Eles "começaram a juntar as coisas”, percebendo que suas aflições tinham a ver com a exposição aos testes nucleares. Grupos como a Associação de Veteranos e do Conselho Pitjantjatjara pressionaram o governo, até que em 1985, este concordou em realizar uma comissão real para investigar os danos que foram causados.
O triste dessa história é que a Austrália é um país cujas forças armadas, embora modernas, são apenas simbólicas, não têm armas nucleares e nem se propõem a construir tais artefatos. E os povos nativos, os quais, por lei, não têm obrigação de servirem as forças armadas, são as maiores vítimas dessas mortais incongruências dos britânicos mancomunados com o poder público australiano que, até a década de 1980, nem sequer considerava os aborígenes como seres humanos. JAIR, Floripa, 22/09/11.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

David Rodrigues Cordeiro

A placa


Tudo que sei sobre meu avô veio de relatos e “causos” sobre ele que minha mãe e meus tios contaram, porquanto que não tive a ventura de tê-lo conhecido. Meu avô nasceu, por volta de 1880, nas matas Lapeanas, no seio de uma tribo dos orgulhosos índios Kaingangs, os quais, desde tempos pré-colombianos, viviam às margens do Rio Iguaçu, num local de corredeiras piscosas hoje conhecido como Caiacanga, onde existe, nos dias atuais, sub-explorada jazida de diamantes, a qual já foi objeto de texto “Pescarias e diamantes” que publiquei aqui.
O que se sabe com certeza é que em 1890, devido a inconseqüente ocupação, por parte de madeireiros, agricultores e caçadores, das terras onde viviam os Kaingangs, ocorreu um grave surto de gripe que atingiu as populações ribeirinhas, particularmente os índios, sendo que estes - cujos organismos ainda não tocados por bio-invasores alienígenas apresentavam baixa resistência ao vírus - quase foram dizimados. A morte assolou a taba com tal intensidade que os poucos adultos saudáveis se tornaram coveiros diuturnos, quase não lhes restando tempo para proporcionar aos falecidos os tradicionais rituais fúnebres inerentes a seus costumes atávicos.
A história oral conta que meu avô saiu do seu local de nascença e tornou-se nômade indo parar na Lapa. A cidade da Lapa foi fundada em 1731 pelos tropeiros que faziam o caminho do Rio Grande do Sul para Piracicaba onde iam vender seu gado. Os fundadores da cidade haviam participado da Revolução Farroupilha e da Guerra do Paraguai, daí, talvez, o espírito belicoso dos habitantes da Lapa. Consta que David, ao chegar à cidade, foi adotado por certo coronel Pôncio que lhe atribui um nome “cristão”: David Rodrigues Cordeiro, e que foi alfabetizado e tornou-se um membro integrado na família do coronel.
No meu conto biográfico “O pacote” vem o trecho descrevendo o que se convencionou chamar “Cerco da Lapa”, episódio da Revolução federalista que ocorreu no sul do Brasil logo após a Proclamação da República, e teve como causa a instabilidade política gerada pelos federalistas, que pretendiam "libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio Prates de Castilhos", então presidente do Estado. A luta armada atingiu as regiões compreendidas entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Veio o ano de 1894 e, com ele, as tropas federalistas comandadas pelo sanguinário Gumercindo Saraiva e seus “castilhanos” que, num ímpeto napoleônico, arrasavam tudo por onde passavam, tendo já derrotado o Coronel Adriano Pimentel em Tijucas do Sul. Havia, no ar, um cheiro de morte e aniquilação, porquanto os boatos davam conta que as tropas invasoras - mais de três mil homens - aos inimigos legalistas não costumavam dar trégua, assim como não a pediam também. Gurmercindo era famoso por degolar os prisioneiros que caíssem em suas mãos.
Meu avô, juntamente com o próprio coronel Pôncio e seus filhos, foi incorporado a tropa defensora do perímetro da cidade, ainda que, por sua pouca idade, não lhe tenha sido fornecido arma, ele passou a ser ajudante de cozinha.
Muitos anos depois, contava ela à minha avó, que tinha lutado deveras, havia empunhado uma manlincher e defendido, juntamente com outros soldados, uma posição crucial no centro da cidade onde a luta era ferrenha. Pois bem, minha avó desdenhava dessa atitude heróica, achava que era fanfarronice dele, e nós acabamos convencidos que a suposta luta armada só existia na imaginação do nosso avô. Estávamos errados.
Há pouco tempo, lendo o depoimento do major Custódio Clemente Pereira, do 17º Batalhão de Infantaria da Lapa, que havia lutado durante o “Cerco”, deparei-me com este trecho bastante interessante do texto dele: “No dia 7 [fevereiro de 1894], logo ao romper da aurora, atacaram-nos por todos os flancos com grande veemência, em número aproximado de três mil homens, entrando pelos quintais das casas da Rua Boa Vista, a qual estava em nosso poder, entrincheirando-se nas casas, fuzilavam nossas tropas a dez metros de distância, o combate tornou-se medonho em todas as frentes, chegando a estabelecer-se a arma branca. Tornou-se terrível principalmente na Rua Boa Vista, onde inimigos em número superior a 60 haviam penetrado na casa de Francisco de Paula, unida a uma trincheira onde se achava um Krupp (canhão de 75 milímetros de fabricação alemã) sob o comando do tenente Gustavo Lebon Régis. Neste momento, saídos das instalações de intendência que se encontravam a trinta metros do canhão, surgiram seis soldados, liderados pelo ajudante de furriel David Cordeiro, armados com manlinchers e, determinados, enfrentaram os invasores com tal ferocidade que estes recuaram com muitas baixas. Dos seis soldados, dois saíram feridos sem muita gravidade. O Krupp e sua guarnição haviam sido salvos pela coragem daqueles seis soldados”
Então ficou esclarecido, avô David realmente “pegou em armas”, e não só isso, a participação dele e de seus companheiros foi fundamental para salvar a vida dos operadores do canhão que estavam em perigo de morte frente aos inimigos. O Exército, reconhecido, deu a meu avô a promoção a sargento, conforme atesta placa com seu nome no Panteão dos Herois da Lapa. Descobri in loco numa planta que existe no monumento aos heróis, que da forma que o canhão estava colocado, sua guarnição ficara de costas para os atacantes na hora que meu avô os salvou. Ainda que a participação de David tenha se resumido àquela investida, sua atuação foi heróica, sem dúvida. Este relato visa resgatar a esquecida figura de David Rodrigues Cordeiro que foi um ser humano admirável, que viveu além e acima de sua época, aliás, de qualquer época. David Lapeano, ainda que não tenha vivido em dias atuais, onde lhe seria aplicado com a maior justiça título de herói da pátria, o foi sem qualquer dúvida. JAIR, Floripa, 01/07/11.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Briga de galos



A história registra que o bicho homem é belicoso, que desde os primeiros grupos a se reunirem em clãs e aldeias, as disputas, rixas, desavenças e brigas estavam presentes. Continuaram os seres humanos a construir a civilização, tornando cada vez mais complexas suas interações sociais, traduzindo em feitos, monumentos, objetos e métodos, suas ideias, mas nunca abandonaram a disposição à violência com seus semelhantes, seja no nível individual com brigas e lutas, seja no nível comunitário com revoltas e guerras. Mas não só isso, pelo que se sabe, todas as civilizações, em tempos de paz, canalizaram suas agressividades para jogos, justas, combates simulados e o que pode ser chamado de luta por procuração: adestraram ou aproveitaram a disposição natural de animais domésticos e selvagens para fazê-los brigar.
Assim, no oriente, brigas de grilos e de peixes betta são comuns e movem milhares de dinheiros entre aficcionados; no Cazaquistão tribos nômades costumam promover brigas de ursos; em outras partes do mundo, inclusive no Brasil, acontecem brigas de cães, de canários e de galos.
Existem vários lugares no mundo onde essas brigas são legais, inclusive em alguns países da America latina e no estado de Luisiana nos EUA. No Brasil as brigas de galos são consideradas crime pela legislação federal desde 12 de fevereiro de 1998 (Lei 9.605, artigo 32, de Crimes Ambientais), devido a maus tratos a animais. Antes a legislação considerava apenas contravenção essa atividade.
Consta que há evidências de que briga de galos era um passatempo na civilização do vale do Indo. O esporte era popular nos tempos antigos, na Índia, China, Pérsia e outros países do Leste e foi introduzido na Grécia na época de Temístocles (524-460 aC). Durante muito tempo os Romanos afetados desprezaram este "desvio de grego", mas acabaram por adotá-lo com tanto entusiasmo que o escritor Agrícolas Columella reclamava que seus devotos muitas vezes gastavam todo seu patrimônio em apostar ao lado do poço. Lembrando que poço é o rinque onde os galos se engalfinham e rinha é o local onde se encontra o poço (ou tambor) e os aficionados se reúnem para fazer suas apostas. Mal comparando, a rinha seria o Maracanã e o poço seria o gramado.
Pois é, sendo ilegal ou não, fui criado numa região na qual era comum as pessoas criarem galos especialmente para a violência, e promoverem as brigas sem pudor e sem escrúpulos. Confesso que assisti algumas dessas disputas em minha infância. O dono da rinha chamava-se Laerte e as brigas se davam aos domingos a tarde com afluência maciça de criadores e apostadores.
Os galos brigam por instinto sexual, como são territoriais, ao avistarem um “rival” em seu pedaço, partem para a disputa na qual o mais forte expulsará ou anulará o adversário. Os homens se valem dessa tendência natural, treinam sua ave, estimulam sua agressividade e a colocam de modo a ser desafiada por outra supostamente em iguais condições e de peso idêntico. Ao se enxergarem as aves partem amoque para a agressão e se engalfinham com esporas, bicos e asas, para gáudio dos espectadores. O espetáculo é dantesco, na falta de um qualificativo mais adequado. É um dos espetáculos mais estúpidos e absurdos que a mente insana do Homo dito sapiens pode conceber. O resultado são penas, sangue, pedaços e pele e tecidos e, por fim, a morte ou submissão de um dos animais e a “vitória” do outro que nem sempre sai em boas condições do poço. No mais das vezes o vencedor também apresenta lesões apreciáveis e é comum ser sacrificado porque não pode ser recuperado.
Na verdade, em condições normais os galos jamais matam um ao outro, eles se limitam a mostrar sua superioridade durante a briga e expulsam o suposto invasor. Os homens, sabedores dessa atitude, criam galos mais agressivos através do cruzamento seletivo, aumentam a tonicidade de seus músculos através de exercícios, hormônios e alimentos especiais, ampliam o potencial de letalidade colocando próteses de aço em suas esporas e bicos e estimulam sua tendência à violência, conseguindo, dessa forma, que os animais se comportem fora de seus padrões naturais. O galo de briga é uma máquina de matar criada pelo homem.
Essa delegação de violência é a prova máxima que o Homo sapiens é mais estúpido do que pode parecer, é uma excrescência antinatural, uma besta do apocalipse, uma criatura horrenda que a natureza está arrependida de ter colocado neste Planeta, um refugo da evolução, um troféu do demônio, um ser asqueroso e inútil que não se enquadra em qualquer reino natural, um energúmeno juramentado e de carteirinha, uma ínfima partícula do dejeto da mosca que posou no cocô do cavalo do bandido. Se o homem deixar de existir a natureza agradece. Num mundo isonômico, para cada briga entre galos deveria corresponder uma luta entre dois aficionados nas mesmas condições, ou seja, deveriam lutar até que um morresse ou não mais pudesse reagir, algo assim como uma luta de vale tudo com desfecho fatal compulsório. JAIR, Floripa, 17/06/11.