Pipa tipo Bidê.
É natural inferir que
praticamente todos que foram meninos nos anos cinquenta, sessenta, brincaram
com pipas. Os nomes podem variar de região para região, de cidade para cidade
ou até de bairro para bairro, mas a diversão é (ou era) a mesma: voar com os
pés no chão. Como eu disse, as denominções podem variar, então temos além do nome
genérico pipa, as variações: arraia, raia, papagaio, redonda, pandorga, cafifa,
bidê, quadrado, piposa, pepeta, (g)jereco, barrilete, foguete e até
joeira nos Açores.
Não é minha intenção
inaugurar uma seção de saudosismo, contudo, é quase compulsório fazer algumas
referências sobre minha infância vivida em Palmeira, cidade que não tinha mais
que dez mil habitantes naquele tempo e que, por isso, não tinha grandes opções
de lazer tornando o evento de empinar pipas algo saboroso e desfrutado com
grande prazer pela maioria da gurizada. Época de pipas coincidia com férias
escolares do meio do ano, não por acaso os ventos alísios eram favoráveis e os
garotos passavam a dispor de maior tempo para a atividade. A temporada iniciava
sem qualquer combinação prévia. Um belo dia, viam-se garotos saindo de casa com
suas recém construídas pipas coloridas, havia um encontro informal num campinho
desprovido de fios e postes, que em outros dias servia como campo de peladas. A
disputa, se é que havia disputa entre os aficcionados, se fazia por exposição
de pipas mais criativas, mais coloridas, mais elaboradas, dos artefatos que
voassem mais alto ou por mais tempo. Adite-se que as pipas apresentavam uma
variedade enorme de formas e tamanhos, fugia-se do mesmismo que impera nas
criações de agora. Além disso, pipeiro de respeito jamais adquiria sua pipa no comércio, ele a confeccionava em casa sempre. Um empinador que comprasse uma
pipa perdia prestígio e deixava de ser considerado autêntico pipeiro. Fui um
pipeiro bem razoável, minha especialidade eram as pipas tipo “bidê”, as quais
eu mesmo construía e até ganhava uns trocados vendendo aos menos habilidosos.
Certamente a
tradição de soltar pipas mais antiga veio do Oriente, no Japão é mais que um
simples hobby produzir e empinar
artefatos sofisticados que colorem os ares. Lá há uma tradição que, cultuada
por “pipeiros” profissionais, se traduz numa atividade a qual produz
verdadeiras obras de arte voantes. Nós brasileiros acabamos conhecendo as pipas
através dos colonizadores portugueses por volta de 1596 que, por sua vez, as
conheceram através de suas viagens ao Oriente. Acredita-se que a primeira pipa
do mundo tenha surgido na China, há cerca de 200 anos a.C. criada por um
general chamado Han Hsin. Com o passar do tempo, as pipas que haviam sido
criadas para fins militares, tornaram-se uma arte popular naquele país. Aos
poucos, foram levadas para países vizinhos como Japão e Coréia.
De qualquer modo, as
pipas adornam a atmosfera, disputam espaço com as nuvens, fazem acrobacias
cheias de firula, colorem os céus e nos dão prazer. Pipas são a extensão
natural dos braços dos aficcionados que, como asas, constroem a ilusão do voo.
Ou assim deveria ser.
Infelizmente o que
se vê hoje é uma perversa inversão do ludismo puro que devia permear uma
atividade em princípio totalmente inocente e voltada ao lazer. Por alguma razão
em total desacordo com o espírito esportivo que devia ser o motivador da
atividade, empinar pipas passou a ser um evento potencialmente letal,
adicionou-se à brincadeira o maldito cerol.
Cerol é uma invenção diabólica que mistura vidro em pó com cola, que a maioria
dos empinadores de hoje costuma colocar na linha de suas pipas para cortar as linhas
das pipas de outros empinadores. Essa opção bélica de um brinquedo em princípio
inócuo, já atingiu muitos inocentes causando mortes, principalmente de
motociclistas.
As linhas de pipas
tratadas com cerol adquirem um gume afiadíssimo que corta linhas e pescoços com
a mesma facilidade. Essa atividade que pode ser chamada de criminosa é tão mais
perturbadora por que, em caso de acidente com vítima, a responsabilidade, em
geral, não pode ser atribuída a ninguém. Pelo fato de que linhas que decepam
cabeças serem linhas enroscadas em postes, árvores, casas e muros e já não
fazerem parte de uma pipa ativa, não têm como saber quem as deixou ali, até
porque, em qualquer lugar que se encontre uma linha abandonada, muitos
empinadores por ali estiveram. Além disso, em geral, as pipas cortadas por
outras caem longe do pipeiro que as empinava, então a responsabilidade passa a
ser difusa, não atribuível a ninguém em particular.
Pobre país que não
consegue proibir o comércio de algo tão letal e não possui meios de coibir os
que usam tal arma. Pobre país que possui uma legislação tão abrangente,
ramificada e macarrônica quanto ineficiente e mal aplicada. Pobre Brasil
varonil que vê dezenas de jovens motociclistas serem decapitados por
improbidade ou displicência de outros jovens (e adultos também) e nada faz. Que
país é esse que permitiu que se transformasse uma atividade lúdica num ato
criminoso? Que país é esse no qual não se podem ver pipas no céu sem pensar que
dali poderá resultar mortes de inocentes? Que país é esse? JAIR, Floripa,
28/04/12.

