sábado, 5 de maio de 2012

Pipas

Pipa tipo Bidê.
É natural inferir que praticamente todos que foram meninos nos anos cinquenta, sessenta, brincaram com pipas. Os nomes podem variar de região para região, de cidade para cidade ou até de bairro para bairro, mas a diversão é (ou era) a mesma: voar com os pés no chão. Como eu disse, as denominções podem variar, então temos além do nome genérico pipa, as variações: arraia, raia, papagaio, redonda, pandorga, cafifa, bidê, quadrado, piposa, pepeta, (g)jereco, barrilete, foguete e até joeira nos Açores.
Não é minha intenção inaugurar uma seção de saudosismo, contudo, é quase compulsório fazer algumas referências sobre minha infância vivida em Palmeira, cidade que não tinha mais que dez mil habitantes naquele tempo e que, por isso, não tinha grandes opções de lazer tornando o evento de empinar pipas algo saboroso e desfrutado com grande prazer pela maioria da gurizada. Época de pipas coincidia com férias escolares do meio do ano, não por acaso os ventos alísios eram favoráveis e os garotos passavam a dispor de maior tempo para a atividade. A temporada iniciava sem qualquer combinação prévia. Um belo dia, viam-se garotos saindo de casa com suas recém construídas pipas coloridas, havia um encontro informal num campinho desprovido de fios e postes, que em outros dias servia como campo de peladas. A disputa, se é que havia disputa entre os aficcionados, se fazia por exposição de pipas mais criativas, mais coloridas, mais elaboradas, dos artefatos que voassem mais alto ou por mais tempo. Adite-se que as pipas apresentavam uma variedade enorme de formas e tamanhos, fugia-se do mesmismo que impera nas criações de agora. Além disso, pipeiro de respeito jamais adquiria sua pipa no comércio, ele a confeccionava em casa sempre. Um empinador que comprasse uma pipa perdia prestígio e deixava de ser considerado autêntico pipeiro. Fui um pipeiro bem razoável, minha especialidade eram as pipas tipo “bidê”, as quais eu mesmo construía e até ganhava uns trocados vendendo aos menos habilidosos.
Certamente a tradição de soltar pipas mais antiga veio do Oriente, no Japão é mais que um simples hobby produzir e empinar artefatos sofisticados que colorem os ares. Lá há uma tradição que, cultuada por “pipeiros” profissionais, se traduz numa atividade a qual produz verdadeiras obras de arte voantes. Nós brasileiros acabamos conhecendo as pipas através dos colonizadores portugueses por volta de 1596 que, por sua vez, as conheceram através de suas viagens ao Oriente. Acredita-se que a primeira pipa do mundo tenha surgido na China, há cerca de 200 anos a.C. criada por um general chamado Han Hsin. Com o passar do tempo, as pipas que haviam sido criadas para fins militares, tornaram-se uma arte popular naquele país. Aos poucos, foram levadas para países vizinhos como Japão e Coréia.
De qualquer modo, as pipas adornam a atmosfera, disputam espaço com as nuvens, fazem acrobacias cheias de firula, colorem os céus e nos dão prazer. Pipas são a extensão natural dos braços dos aficcionados que, como asas, constroem a ilusão do voo. Ou assim deveria ser.
Infelizmente o que se vê hoje é uma perversa inversão do ludismo puro que devia permear uma atividade em princípio totalmente inocente e voltada ao lazer. Por alguma razão em total desacordo com o espírito esportivo que devia ser o motivador da atividade, empinar pipas passou a ser um evento potencialmente letal, adicionou-se à brincadeira o maldito cerol. Cerol é uma invenção diabólica que mistura vidro em pó com cola, que a maioria dos empinadores de hoje costuma colocar na linha de suas pipas para cortar as linhas das pipas de outros empinadores. Essa opção bélica de um brinquedo em princípio inócuo, já atingiu muitos inocentes causando mortes, principalmente de motociclistas.
As linhas de pipas tratadas com cerol adquirem um gume afiadíssimo que corta linhas e pescoços com a mesma facilidade. Essa atividade que pode ser chamada de criminosa é tão mais perturbadora por que, em caso de acidente com vítima, a responsabilidade, em geral, não pode ser atribuída a ninguém. Pelo fato de que linhas que decepam cabeças serem linhas enroscadas em postes, árvores, casas e muros e já não fazerem parte de uma pipa ativa, não têm como saber quem as deixou ali, até porque, em qualquer lugar que se encontre uma linha abandonada, muitos empinadores por ali estiveram. Além disso, em geral, as pipas cortadas por outras caem longe do pipeiro que as empinava, então a responsabilidade passa a ser difusa, não atribuível a ninguém em particular.
Pobre país que não consegue proibir o comércio de algo tão letal e não possui meios de coibir os que usam tal arma. Pobre país que possui uma legislação tão abrangente, ramificada e macarrônica quanto ineficiente e mal aplicada. Pobre Brasil varonil que vê dezenas de jovens motociclistas serem decapitados por improbidade ou displicência de outros jovens (e adultos também) e nada faz. Que país é esse que permitiu que se transformasse uma atividade lúdica num ato criminoso? Que país é esse no qual não se podem ver pipas no céu sem pensar que dali poderá resultar mortes de inocentes? Que país é esse? JAIR, Floripa, 28/04/12.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Jamais


Na verdade o nome do filme em português é “Não me abandone jamais” algo bem próximo do título inglês “Never let me go”, título de uma música que a protagonista Kathy H. ouve em fita cassete em várias ocasiões.
Se houver uma palavra que sirva para sintetizar a película será inquietante, e o sentimento que causa no espectador, eu diria que é um grande desconforto. A história se passa na Inglaterra e inicia nos anos 70 do século passado, portanto é uma ficção científica contemporânea, se assim se pode dizer. Sabe-se através de um narrador que as doenças todas haviam sido vencidas pela medicina em 1952 e que em 1967 a expectativa de vida é de cem anos. A nós, espectadores, parece uma notícia destituída de sentido.
Trata-se de uma geração de crianças internadas num educandário de nome Hailsham, um estabelecimento isolado do mundo externo e com padrão rígido de educação. Às crianças lhes é incutido que o mundo fora dos muros é hostil e até mortal, não lhes sendo permitido jamais sair das dependências do colégio. As referências das crianças são apenas seus orientadores, os quais dizem que elas são “especiais”, nenhuma informação exterior clandestina deverá ser considerada. Nada escapa do patrulhamento rígido de suas orientadoras.
Contudo, uma professora nova, estranhando que eles ignorem tudo sobre si mesmos, um dia lhes conta que eles são clones destinados apenas à doação de órgãos, diz-lhes ainda que não existe futuro para eles, quando receberem ordens farão duas ou três doações e depois “finalizam”, eufemismo que disfarça a morte prematura e compulsória que terão. Todos ficam sabendo que têm uma vida curta e sem qualquer sentido, são considerados apenas “peças de reposição”. Algo angustiante. Mas a professora que lhes contou tudo é demitida, então fica claro que não há outra escolha.
Quando atingem a adolescência os jovens são transferidos para uma fazenda onde encontram outros também com o mesmo destino, mas criados em outros educandários e supostamente mais cientes do “mundo lá fora”. Neste novo local circulam alguns boatos que se um casal estiver apaixonado e entre eles houver “amor verdadeiro”, a instituição a qual pertencem poderá dar-lhes uma prorrogação de vida. Ou seja, lhes será concedido três ou quatro anos a mais de vida até “finalizarem”, algo bem atraente para desesperançados clones que não têm futuro.
Bem, os protagonistas Kathy, Ruth e Tommy formam um triângulo amoroso em que Kathy e Tommy se amam, mas Ruth, sem explicação, introduz-se entre os dois e faz de Tommy seu amante. Kathy, magoada, não deixa de ter amizade com eles, mas torna-se amargurada.  Por esse motivo, ela resolve ser cuidadora, ou seja, uma espécie de assistente social que dá conforto e acompanha os doadores nas suas internações para doação; uma forma de adiar seu destino e de se afastar dos dois.
Passa algum tempo e Kathy, como cuidadora, acaba encontrando Ruth a qual não vê há dez anos. Ruth já fez duas doações e fará em breve uma terceira, o quê, quase com certeza lhe causará a “finalização”. Então é o momento que Ruth reatar a amizade com Kathy e ambas reencontrarem Tommy que se encontra em outra localidade.
Bem, não é o caso de contar o fim do filme e tampouco falar como cada um vê sua curta vida em particular. A história nos convida a uma profunda reflexão sobre vida e morte, sobre o objetivo de porque estamos aqui. Será que somos apenas peões sem outro destino que não morrer, seja uma morte “gloriosa” por uma causa, como supostamente morrem os soldados na guerra; ou morte comum num leito de hospital? E mais, seja qual for o fim, será um fim de vida que não dá sentido ao ato de viver? Algo assim: A vida é só isso?
Além disso, a certa altura, os protagonistas através de “ouvir dizer”, fazem conjeturas de quem seriam seus “modelos”, ou seja, quem seriam as pessoas que haviam fornecido o material genético que lhes deu origem. Chegam à conclusão que eram pessoas da escória, gente menos importantes cujas células agora transformadas em clones servem apenas para repor órgãos de gente de primeira, pessoas que realmente contam. É arrepiante, mas os clones parecem sugestionados por Pavlov, não ficam indignados ou questionam essa sua categoria de pessoas descartáveis, são passivos e só almejam viver um pouco mais, ganhar um tempo adicional de vida. Nesta altura pode-se fazer uma ligeira alusão aos nazistas quando viam um mundo nazificado onde subumanos, como eles chamavam os eslavos, por exemplo, seriam apenas escravos destinados a fornecer mão obra, suor e sangue para uma vida plena dos “arianos”.
Não sei, mas a obra dirigida por Mark Romanek, baseada num livro de Kasuo Ishiguro, escritor anglo nipônico, merece ser assistida, pensada e o jamais do título deveria ser o mote para refletirmos: jamais algo semelhante deve acontecer, sob o risco de nós perdermos para sempre aquele dom que supostamente é o que nos distingue dos outros animais e que chamamos de humanidade.  JAIR, Floripa, 14/03/12. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Florestas


Já tive oportunidade de me referir aqui à minha especial afeição pelas florestas. Seja o nome que for denominado o coletivo de árvores naturais: florestas, matas ou outros, me vejo sempre voltando ao tema. Talvez essa quase mania esteja ligada à minha infância, aos pinheirais e campos que cercavam a cidade de Palmeira onde nasci. Talvez seja também uma “lembrança” atávica relacionada às origens silvícolas de meu avô David, índio caingangue das margens do Iguaçu.
Bem, não importa, o fato é que florestas me parecem uma criação da natureza com claro intuito de reciclagem, ou seja, as matas naturais funcionam como complexos biológicos que devolvem oxigênio à atmosfera depois de absorverem o gás carbônico expelido pelos animais; e ainda arejam e fertilizam a terra com seus resíduos de folhas, galhos e troncos mortos. Isso sem contar que servem de abrigo e fornecem frutas, sementes e folhas como alimento aos animais. Árvores são pequenos laboratórios bioquímicos de extrema importância para os ciclos vitais dos seres do Planeta. Toda a fauna planetária está ligada direta ou indiretamente a flora, e essa é uma relação de mão dupla, os animais também contribuem para a saúde e sobrevivência das plantas na medida em que auxiliam na polimização, e alguns até protegem-nas contra predadores, embora esses predadores também sejam animais.
Daí que o Planeta, desde sua criação, foi desenvolvendo sistemas biológicos relacionados uns com os outros, formando um todo muito complexo que cria condições ideais para cada ser vivo que neles coabitam. Vale dizer, desde a mais ínfima bactéria até a baleia azul, maior mamífero do Planeta, passando pelas formas complexas dos demais vertebrados e dos organismos mais simples dos celenterados, todos estão relacionados. A vida vegetal, a vida animal e o reino mineral são partes do mesmo sistema Planetal. É um pouco forçado dizer que se uma borboleta bater as asas em Bangladesh poderá causar um furacão no Golfo do México, mas é inegável que há relações muito íntimas entre todos os seres, e as florestas funcionam como mediadoras entre muitos deles.
A floresta não é apenas um aglomerado de plantas, não é a reunião casual de árvores, arbustos e outros vegetais; é um sistema tanto complexo como desconhecido que a ciência só agora está prestando atenção. Só quando as florestas deixam de existir por terem sido dizimadas pelos homens é que se torna imperioso observar o quanto elas significam. O exemplo mais cabal e contundente do significado das florestas ficou patente quando se descobriu a história dos rapa nui, povo que viveu na ilha da Páscoa e que, um belo dia, se extinguiu para sempre. Sabe-se que, a despeito dos rapa nui terem construído estátuas de cabeças gigantes com chapéu, (moais) as quais adornam a ilha até hoje e servem como atrativo turístico para o mundo, eles não atentaram para a preservação de suas florestas e tornaram-se vítimas de sua incúria. Há registros fósseis e arqueológicos que o povo rapa nui, numa fúria insana de construir estátuas, cabanas, artefatos e embarcações, acabou com todas as árvores existentes na ilha e isso prenunciou o fim da civilização e da coesão social culminando com a extinção das tribos e das pessoas.
Assim se deram os eventos, segundo estudos recentes: Atestado por provas nas pedreiras lá existentes, sabe-se agora que os moais eram esculpidos aos pés do vulcão Rano Raraku – um dos três da ilha – e depois transportados a altares cerimoniais localizados à beira-mar, a dezenas de quilômetros de distância. Verificou-se que uma técnica bastante óbvia, mas de feito nefasto foi usada. Deitados, com as costas para baixo, os moais eram rolados sobre troncos de uma palmeira endêmica da ilha em um processo que poderia levar vários dias e consumir centenas de árvores. Graças ao furor religioso e à competição entre clãs, mais de mil estátuas foram esculpidas, o que levou à extinção, primeiro da palmeiras, depois das demais árvores. Esse fato aparentemente banal provocou uma reação em cadeia: sem as árvores, as aves migratórias, os mamíferos e até os répteis que se alimentavam dos frutos e que faziam parte da dieta dos ilhéus simplesmente sumiram. Pior, com o fim das florestas, fontes de matéria-prima para a construção de canoas, a pesca em águas ubérrimas, mas infestadas por tubarões também foi interrompida; construções de casas e confecção de artefatos e armas também se tornaram impossíveis. A morte da última árvore demarcou o ponto de inflexão a partir do qual a civilização rapa nui estava condenada à extinção.
Alguém pode fazer objeções quanto à conclusão que sem florestas um povo pode extinguir-se, lembrando que isso ocorreu num sistema fechado: uma ilha. Não é bem assim, ninguém pode afirmar que o fim da floresta amazônica, por exemplo, não trará consequências para os povos vizinhos da floresta de imediato, e em prazo mais logo para toda humanidade. Não devemos ser temerários a ponto de apostar num jogo desse porte, cujo resultado poderá ser extremamente desfavorável para os perdedores. Florestas evoluíram muito antes de o Homo sapiens dar as caras por aqui, de modo que quando surgimos, nos adaptamos a elas e não ao contrário. Desse fato se pode inferir que o desaparecimento da humanidade não acarretará qualquer ônus para as matas, já o contrário... Alguém tem dúvida que, se na ilha da Páscoa todos os humanos desaparecessem, as florestas nem notariam? Aliás, é lícito supor que elas passariam a estar mais saudáveis depois que o bípede predador se fosse. JAIR, Floripa, 20/04/12

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cerveja voadora


Detalhe da "carga".

Modelo XXX sendo abastecido de cerveja.

Spitfire devidamente "armado".

No solo.
Matéria copiada do blogue:
Durante a guerra, a cervejaria Heneger & Constable doou cerveja de graça para as tropas britânicas. Depois do dia “D”, o abastecimento das tropas de invasão na Normandia com suprimentos vitais já era um desafio e, claro, não havia espaço na cadeia logística para luxos como cerveja e outros tipos de bebidas. Alguns homens, muitas vezes chamados de "fontes", eram capazes de obter vinho e outras iguarias "da terra", ou melhor, com os habitantes locais. Pilotos de Spitfires da RAF surgiram com uma idéia bem criativa. O Spitfire Mk IX era uma versão avançada do Spitfire, com suportes para bombas ou tanques sob as asas. Descobriu-se que os suportes de bombas podiam ser adaptados para transportar barris de cerveja. De acordo com imagens que podem ser encontradas na internet, vários tamanhos de barris foram utilizados. É desconhecido se os barris poderiam ser alijados em caso de emergência. Uma vantagem era que se o Spitfire voasse alto o suficiente, o ar frio em altitude esfriaria a cerveja, tornando-a pronta para o consumo no momento da chegada.
Uma variação desse transporte semi clandestino foram tanques de combustível adicionais de longo alcance modificados para transportar cerveja em vez de gasolina. A modificação ainda recebeu a designação oficial modelo XXX. Mas, diante dessa novidade, a Receita Federal britânica interveio, notificando a cervejaria que eles estavam violando a lei de exportação por deixar de pagar os impostos correspondentes. Parece que o uso do modelo XXX foi encerrado em seguida, mas vários esquadrões encontraram maneiras diferentes para renovar seus estoques. Na maioria das vezes, isso foi feito com a aprovação oficial dos escalões mais elevados.
Em seu livro "Dancing in the Skies", Tony Jonsson, o piloto Islandês que voava na RAF, lembrou que o transporte da cerveja foi executado enquanto ele estava voando no Squadron 65. Toda semana um piloto era enviado da França de volta ao Reino Unido para encher os tanques alijáveis com cerveja e voltar para o esquadrão. Jonsson odiava cerveja, mas corria como qualquer outro homem do esquadrão para assistir a chegada da bebida. Qualquer piloto que fizesse um pouso duro e deixasse cair os tanques seria o homem mais odiado do esquadrão por uma semana inteira. Em seu livro "Pilot Typhoon", Desmond Scott recorda também que os tanques alijáveis do Typhoon eram cheios de cerveja, mas lamentou que a bebida assim transportada adquiria um gosto metálico.
Por outro lado, houve uso de técnicas menos imaginativas desenvolvidas pelos “escondedores” de garrafas, onde qualquer espaço encontrado na aeronave que pudesse conter um recipiente era usado, isso incluiu caixas de munições, bagageiros ou mesmo em partes ocas da asa, com resultados variados. Garrafas de champanhe, em particular, não reagiam bem às vibrações a que eram submetidas durante viagens desse tipo.
Agora a versão brasileira desse transporte criativo:
Logo depois da guerra, na década de cinquenta, foi criado na FAB um esquadrão de aeronaves B-17 em Recife, os tripulantes, quando viajavam para o exterior, tinham o hábito de trazer coisas como rádios, perfumes para as namoradas e esposas e pequenos aparelhos eletrônicos (proibidos de serem trazidos sem pagar os impostos devidos) dentro das asas das aeronaves. Há que lembrar que rádios portáteis eram novidade e, por isso mesmo, muito cobiçados por quem viajava ao exterior. A prática de trazer eletrônicos era bastante comum e era realizada principalmente pelos mecânicos e rádio operadores dos aviões.
Certa ocasião no início da década de sessenta, em seguida ao pouso de uma aeronave em Recife após uma viagem aos EUA, o comandante da Base foi receber os tripulantes na pista. Tripulação em forma sob a asa do B-17 saboreando a preleção de boas vindas do comandante, quando se ouviu uma música vinda de algum lugar próximo a ponta da asa. Ordenou-se a abertura de carenagens de acesso àquele local e constatou-se que havia um rádio portátil ligado “pegando” uma rádio local. Claro que o descuidado dono do aparelho não apareceu, mas os tripulantes levaram uma “chuveirada” em regra do comandante e o rádio passou a ser patrimônio da base desde então. Provavelmente o comprador havia ligado sem querer o aparelho antes de colocá-lo no esconderijo, e este ficou sintonizado numa frequência qualquer que coincidiu ser de uma transmissora brasileira, foi daí que resultou a lambança. Os tripulantes brasileiros podiam não ter conhecimento da prática dos pilotos da RAF, mas a ideia foi igual. JAIR, Floripa, 22/04/12.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Livros

Já deixei claro muitas vezes neste pedaço que gosto de livros e sou leitor apaixonado. Hoje quero, mais uma vez, fazer apologia da leitura e também lembrar que o livro é uma fórmula mágica de aprendizado, é um pacote compacto de saberes que alguém compilou e publicou. Fernando Sabino contava que ele e alguns amigos escritores, em uma reunião literária, fizeram as seguintes perguntas: O que vale a pena ser lido? Que livros devemos ler e quais não? Pois é, segundo ele, depois de muita discussão chegaram à conclusão que todos os livros devem ser lidos.
Concordo plenamente com eles, livros bons ou ruins o mais das vezes são como gostar ou não gostar de certas comidas, por exemplo. Há quem goste de comer gafanhotos no oriente, há quem deteste peixe ou não goste de jaca como eu. Então como determinar o que é bom e o que é ruim? Não existe fórmula para gosto por comida nem definição de quando um livro é bom ou ruim, todos merecem ser lidos, uns em algum momento de nossas vidas, outros em outro momento. Livros que achávamos ótimos quando éramos crianças, hoje podem parecer verdadeiros xaropes. Livros que alguns gostam outros acham maçantes, enfadonhos, chatos, e por aí vai.
Então como ficamos? Ficamos lendo, pois é a maneira mais fácil de aprender e é extremamente gratificante. Hoje é dia do livro, então leiamos! JAIR, Floripa, 23/04/12

domingo, 22 de abril de 2012

Os índios


Quando os portugueses desembarcaram em terras americanas no pedaço que acabou por se chamar Brasil, estima-se que existia em torno de seis milhões de aborígenes nestas paragens. Os silvícolas brasileiros estavam divididos em tribos, nominadas de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central), aruaques (Amazônia) e caraíbas (Amazônia). Claro que eles, os índios, não estavam nem aí para essa classificação, viviam de acordo com suas crenças, esperanças e necessidades, sendo a diferenciação idiomática um mero acidente cultural o qual os exploradores deram muita importância.
Hoje esses pioneiros habitantes da Terrae brasilis não passam de duzentos mil, o que demonstra um terrível genocídio perpetrado pelos que vieram depois. Sei que genocídio, cuja definição é extermínio de grupos humanos pela violência, pode parecer palavra muito forte para explicar o que aconteceu com a maioria daqueles que aqui viviam. Mas lembremos que no mesmo período em a população local diminuiu os que colonizaram o país multiplicaram por milhões sua população. Então, embora não tenha havido um extermínio abrupto e drástico, foi uma ação contínua e persistente que levou os silvícolas à quase extinção. Somos todos agentes, passivos ou não, de ações que determinaram a não sobrevivência cultural, em primeiro lugar, e física em segundo, de povo pacífico que, por direito, deveria estar vivendo em suas terras. Os europeus que aqui chegaram, agindo com truculência, falta de humanidade e ganância, não viam seres humanos naquelas pessoas simplórias seminuas que os receberam até com calor e amizade. Os portugueses encetaram ações cruéis contra um povo que culturalmente era “inferior” aos colonizadores. Os portugueses iniciaram um processo de extinção que perdura até hoje na nossa sociedade supostamente civilizada. Somos todos culpados.
Quem já andou pelas ruas de Manaus e cidades do interior da Amazônia, percebe que os nativos estão entre nós, houve forte miscigenação de colonizadores com as tribos locais. Os genes dos silvícolas fazem parte de nosso genoma. Eu mesmo tenho um avô Kaingangue e possíveis outros quatro ou cinco antepassados oriundos de aborígenes aqui do sul. A migração quase totalmente masculina dos primeiros portugueses que aportaram no Pindorama determinou os acasalamentos inter étnicos que resultaram nessa amálgama que quase todos os brasileiros somos agora. Menos mal, a cultura e a civilização nativa se foram, mas a herança genética ficou.
Imagino que num futuro distante, muito distante, quando a civilização, como a conhecemos, tiver chegado ao término – e esta é uma inferência a que podemos chegar simplesmente observando nosso comportamento atual - e novos valores tiverem que ser considerados, a vida natural em harmonia com tudo que nos cerca deverá se impor. O Homo sapiens “descobrirá” que a felicidade está ao seu lado, não nas grandes obras materiais; não no acúmulo de fortunas imensuráveis; não nas grandes conquistas territoriais; não nos grandes feitos da mente; não nas imensas viagens espaciais; não nas profundas explorações marítimas; não em alcançar uma longevidade duvidosa que onera mais que premia o existir com saúde; mas sim no ajuste perfeito e indolor do modus vivendi das sociedades com a natureza; com respeito e convivência pacífica com os animais, minerais e vegetais que partilham conosco este planetinha azul. Algo muito simples e bem acordo com o que os silvícolas já praticam há milhares de anos. E, quando isso acontecer, quando nossa civilização estiver evoluído até esse estágio, o homem terá alcançado a sabedoria suprema a qual tanto busca em suas indagações filosóficas e tanto define como expressão ideal de felicidade. A felicidade é aproveitar as coisas que a natureza nos dá de graça, é apreciar o belo e usufruir as alegrias e descobertas de coisas simples, quando o homem se der conta disso terá alcançado o éden na Terra. Amém.
Em que pese a mídia fazer questão de enfocar apenas a comemoração do aniversário de Roberto Carlos em 19 de Abril, hoje é dia do índio. JAIR, Floripa, 19/04/12. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O rei

A princesa, o rei e a vítima.

Na Espanha, em decorrência da eleição de um parlamento socialista, em 1936 militares fascistas iniciaram um movimento para depor o governo, o que resultou numa cruenta guerra civil que terminou em 1939, com mais de um milhão de mortes, a queda do governo e assunção do general Franco como dirigente do país. Da guerra o que resultou de mais tétrico no imaginário mundial foi a destruição da cidade de Guernica. No dia 26 de abril de 1937, o povoado de seis mil habitantes foi bombardeado pelos aviões da Legião Condor da Luftwaffe alemã, em apoio às forças nacionalistas do general golpista Francisco Franco, nada sobrou, velhos, mulheres e crianças foram dizimados, os homens, na sua maioria, encontravam-se combatendo nas trincheiras. Desse massacre resultou talvez a obra mais emblemática de Picasso, Guernica, um painel pintado por ele, por ocasião da Exposição Internacional de Paris. Naquela fase histórica o fascismo havia assumido o poder na Itália com Mussolini em 1922, e na Alemanha, desde 1933, quem mandava era o nazismo de Hitler. Portanto, a Espanha e seus golpistas de plantão, se sentiam integrados a uma tendência européia daqueles tempos.
O ditador, chamado generalíssimo Franco, governou a Espanha com mão de ferro que não admitia oposição, seu mando absoluto e brutal, no qual fez uso do medieval e execrável garrote vil como instrumento para aplicação de pena de morte aos adversários, durou até 1975, ano em que a besta faleceu. Diante da vacância do poder e desestruturação social, do caos econômico e da mordaça política do país, em 1977 o primeiro ministro Adolfo Suarez convocou uma reunião com todos os líderes políticos, religiosos, sindicais e classistas com vistas a apaziguamento dos ânimos e encontro de um denominador comum que visasse o bem da pátria. Celebrou-se um acordo suprapartidário envolvendo todas as forças vivas do país. Esse acordo se chamou Pacto de Moncloa porque foi assinado no palácio com esse nome. O rei Juan Carlos foi entronado como uma espécie de mediador, cujo papel principal era amortecer os choques entre as facções antagônicas e servir de referência de estabilidade política. Esse monarca tampax que evitava sangramentos desnecessários funcionou bem, desde então a Espanha se tornou a oitava economia do Planeta.
Apesar dos graves problemas econômicos pelos quais passa o país nesta segunda década do milênio, a Espanha continua estável politicamente e não há qualquer vislumbre de golpes ou quarteladas no horizonte, situação e oposição convivem em harmonia na República. O rei continua decorando a República e esta continua pagando caro por esse adorno. Agora lemos a notícia que o rei Juan Carlos sofreu um acidente em Botsuana enquanto caçava elefantes, e que a viagem foi paga com dinheiro do contribuinte. Sei que alguns dirão que caçar elefantes em Botsuana é legal, mas lembremos nem tudo que é legal é moral ou justo e politicamente correto, pelo contrário, muitas leis contêm vícios redibitórios de nascença.
Então vejamos, o rei foi convocado num momento de virada sensível do país e já cumpriu seu papel. A Espanha curou-se das horrendas cicatrizes do franquismo e está saudável. O rei que é presidente honorário da World Wide Fund for Nature (WWF), "Fundo Mundial para a Natureza" gosta de caçar elefantes e está se lixando para a natureza. O mundo só ficou sabendo desse hobby real porque o rei sofreu um acidente (literalmente caiu do cavalo) enquanto praticava seu “esporte” predileto e agora se deu conta que os espanhóis estão mantendo um luxo perfeitamente dispensável. Também se sabe agora que o rei mantém uma namorada – uma princesa alemã - há muito tempo e que esta se encontrava caçando com ele por ocasião do acidente. E o que é pior, o mundo e a Espanha se deram conta que o rei é um objeto de decoração caro demais e sem qualquer serventia. Algo assim como ter na parede um Van Gogh falso que custou milhões.
Diante disso, quero dar meu não solicitado pitaco. Considerando que os espanhóis têm sangue quente e não costumam levar desaforo para casa: que esse rei démodé seja deposto e responda pelo delito de matar animais selvagens. Sugiro que sua pena seja de fazer faxina em jaulas de elefantes pelo resto de seus dias. Acredito que ao ver-se envolvido com os excrementos desses animais esse monarca rufião terá tempo de refletir sobre a merda que fez. JAIR, Floripa, 18/04/12.