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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O rei

A princesa, o rei e a vítima.

Na Espanha, em decorrência da eleição de um parlamento socialista, em 1936 militares fascistas iniciaram um movimento para depor o governo, o que resultou numa cruenta guerra civil que terminou em 1939, com mais de um milhão de mortes, a queda do governo e assunção do general Franco como dirigente do país. Da guerra o que resultou de mais tétrico no imaginário mundial foi a destruição da cidade de Guernica. No dia 26 de abril de 1937, o povoado de seis mil habitantes foi bombardeado pelos aviões da Legião Condor da Luftwaffe alemã, em apoio às forças nacionalistas do general golpista Francisco Franco, nada sobrou, velhos, mulheres e crianças foram dizimados, os homens, na sua maioria, encontravam-se combatendo nas trincheiras. Desse massacre resultou talvez a obra mais emblemática de Picasso, Guernica, um painel pintado por ele, por ocasião da Exposição Internacional de Paris. Naquela fase histórica o fascismo havia assumido o poder na Itália com Mussolini em 1922, e na Alemanha, desde 1933, quem mandava era o nazismo de Hitler. Portanto, a Espanha e seus golpistas de plantão, se sentiam integrados a uma tendência européia daqueles tempos.
O ditador, chamado generalíssimo Franco, governou a Espanha com mão de ferro que não admitia oposição, seu mando absoluto e brutal, no qual fez uso do medieval e execrável garrote vil como instrumento para aplicação de pena de morte aos adversários, durou até 1975, ano em que a besta faleceu. Diante da vacância do poder e desestruturação social, do caos econômico e da mordaça política do país, em 1977 o primeiro ministro Adolfo Suarez convocou uma reunião com todos os líderes políticos, religiosos, sindicais e classistas com vistas a apaziguamento dos ânimos e encontro de um denominador comum que visasse o bem da pátria. Celebrou-se um acordo suprapartidário envolvendo todas as forças vivas do país. Esse acordo se chamou Pacto de Moncloa porque foi assinado no palácio com esse nome. O rei Juan Carlos foi entronado como uma espécie de mediador, cujo papel principal era amortecer os choques entre as facções antagônicas e servir de referência de estabilidade política. Esse monarca tampax que evitava sangramentos desnecessários funcionou bem, desde então a Espanha se tornou a oitava economia do Planeta.
Apesar dos graves problemas econômicos pelos quais passa o país nesta segunda década do milênio, a Espanha continua estável politicamente e não há qualquer vislumbre de golpes ou quarteladas no horizonte, situação e oposição convivem em harmonia na República. O rei continua decorando a República e esta continua pagando caro por esse adorno. Agora lemos a notícia que o rei Juan Carlos sofreu um acidente em Botsuana enquanto caçava elefantes, e que a viagem foi paga com dinheiro do contribuinte. Sei que alguns dirão que caçar elefantes em Botsuana é legal, mas lembremos nem tudo que é legal é moral ou justo e politicamente correto, pelo contrário, muitas leis contêm vícios redibitórios de nascença.
Então vejamos, o rei foi convocado num momento de virada sensível do país e já cumpriu seu papel. A Espanha curou-se das horrendas cicatrizes do franquismo e está saudável. O rei que é presidente honorário da World Wide Fund for Nature (WWF), "Fundo Mundial para a Natureza" gosta de caçar elefantes e está se lixando para a natureza. O mundo só ficou sabendo desse hobby real porque o rei sofreu um acidente (literalmente caiu do cavalo) enquanto praticava seu “esporte” predileto e agora se deu conta que os espanhóis estão mantendo um luxo perfeitamente dispensável. Também se sabe agora que o rei mantém uma namorada – uma princesa alemã - há muito tempo e que esta se encontrava caçando com ele por ocasião do acidente. E o que é pior, o mundo e a Espanha se deram conta que o rei é um objeto de decoração caro demais e sem qualquer serventia. Algo assim como ter na parede um Van Gogh falso que custou milhões.
Diante disso, quero dar meu não solicitado pitaco. Considerando que os espanhóis têm sangue quente e não costumam levar desaforo para casa: que esse rei démodé seja deposto e responda pelo delito de matar animais selvagens. Sugiro que sua pena seja de fazer faxina em jaulas de elefantes pelo resto de seus dias. Acredito que ao ver-se envolvido com os excrementos desses animais esse monarca rufião terá tempo de refletir sobre a merda que fez. JAIR, Floripa, 18/04/12.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Uma história nada edificante



Quando os bombardeios americanos sobre o Japão causaram os maiores estragos na economia e a comida começou a faltar, o exército japonês decretou que o zoológico de Ueno em Tóquio era supérfluo, deveria ser fechado. Cortaram todos os suprimentos para os animais. Os tratadores receberam ordens de sacrificar todos os bichos que representassem alguma possibilidade de lucro. Ou seja, partes de animais como cobras e tigres, por exemplo, eram verdadeiras preciosidades, seus dentes e ossos podiam ser vendidos a peso de ouro para atender uma medicina popular tradicional, sem contar que as peles da maioria dos animais exóticos eram valiosas e suas carcaças representavam fontes de proteínas. As autoridades ordenaram a matança a golpes de espadas, por tiros ou veneno. As carcaças e peles dos animais “aproveitáveis” foram levadas pelo exército, os demais foram descartados num aterro sanitário, com exceção de três elefantes amestrados, John, Tonki e Wanli.

O marechal que havia ordenado o morticínio, entendendo que havia uma forte ligação entre os tratadores e os elefantes, e que os elefantes eram animais muitos inteligentes, inferiu, por uma lógica nem um pouco inteligente lá dele, que os animais deveriam morrer de fome e que os tratadores deviam viver com os animais no zoo abandonado e vê-los definhar até a morte. A ligação elefante-tratador sendo tão íntima traria, com certeza cartesiana, uma lição a ser entendida, no entendimento do comandante militar da capital. Aos tratadores não foi permitido o uso de quaisquer armas para abater os animais, soldados cuidavam para que a ordem do marechal fosse cumprida à risca.

Os pobres tratadores desde o começo das privações alimentares, ou seja, desde o começo da guerra, haviam plantado uma pequena horta no próprio zoo, de onde tiravam seu magro sustento. Diante do sofrimento dos animais depois do decreto do marechal, resolveram repartir seu alimento com eles, fora das vistas dos soldados que os vigiavam. Esse apego e sacrifício dos homens, na melhor das hipóteses, somente prolongaram a agonia dos animais, meia batata doce por dia não alimentava o elefante, apenas adiava sua morte e prolongava o sofrimento, mas sua falta poderia ser fatal aos homens. E o marechal a tudo observava e tirava ensinamentos. Os treinadores e cuidadores ouviram que seu sacrifício era pequeno em comparação ao que os soldados nas ilhas mais distantes estavam passando: “Porque isso é o que significa ser um verdadeiro filho do imperador”.

O elefante mais novo, John, depois de dezessete dias, morreu de inanição. Por dedução lógica e fria, tanto homens como elefantes podiam viver três minutos sem ar, três dias sem água e três semanas sem comida, essa era a matemática que movia o marechal na busca da epifania que lembrasse aos homens sua mortalidade e que suas vidas pertenciam ao império e este podia delas dispor a seu talante.

Quando chegaram à terceira semana de inglório sacrifício, dos dois restantes elefantes só se notavam as enormes orelhas adornando corpos esqueléticos. E, como um dos tratadores relataria mais tarde, quando ele se aproximava da jaula, Tonky e Wanli se erguiam nas patas traseiras com as trombas levantadas, os olhos ainda amorosos parecendo implorar: “Por favor, dê-nos algo para comer”.

Àquela altura, os próprios treinadores e cuidadores estavam à beira da morte, mas, quando os soldados se distraíam eles ainda davam parte de suas magras rações aos amigos elefantes. O sacrifício estava conduzindo todos à morte, os homens começavam a questionar sobre a inutilidade e estultice desse gesto que, na ótica do marechal, era um exemplo de nobreza de propósito.

Os dois animais restantes demoraram mais de um mês para morrerem. Quando o treinador chefe os descobriu mortos na jaula eles estavam em pé, com as trombas levantadas num gesto chamado banzai que haviam aprendido, parecia estarem demonstrando o truque para serem recompensados com alimento como era o costume.

A lição que se tira deste lamentável acontecimento é que o fanatismo, qualquer cor ideológica que tenha, é a manifestação mais repugnante e abominável que o ser humano pode desenvolver, o fanatismo distorce o sentido das prioridades, converte idéias em axiomas em prol de metas em que o homem, ao invés de fim é o meio para se alcançar objetivos escusos ou inconfessáveis. O nome do marechal não consta em nenhuma referência sobre o episódio, provavelmente foi legado à lata de lixo da história juntamente com outros monstros que, em nome de doutrinas, tripudiaram sobre animais e outros seres humanos. Diante dessas abominações é difícil acreditar que a humanidade, algum dia, vá se redimir e se tornar digna de viver neste adorável e acolhedor planetinha azul. JAIR, Floripa, 10/12/10.