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domingo, 22 de abril de 2012

Os índios


Quando os portugueses desembarcaram em terras americanas no pedaço que acabou por se chamar Brasil, estima-se que existia em torno de seis milhões de aborígenes nestas paragens. Os silvícolas brasileiros estavam divididos em tribos, nominadas de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central), aruaques (Amazônia) e caraíbas (Amazônia). Claro que eles, os índios, não estavam nem aí para essa classificação, viviam de acordo com suas crenças, esperanças e necessidades, sendo a diferenciação idiomática um mero acidente cultural o qual os exploradores deram muita importância.
Hoje esses pioneiros habitantes da Terrae brasilis não passam de duzentos mil, o que demonstra um terrível genocídio perpetrado pelos que vieram depois. Sei que genocídio, cuja definição é extermínio de grupos humanos pela violência, pode parecer palavra muito forte para explicar o que aconteceu com a maioria daqueles que aqui viviam. Mas lembremos que no mesmo período em a população local diminuiu os que colonizaram o país multiplicaram por milhões sua população. Então, embora não tenha havido um extermínio abrupto e drástico, foi uma ação contínua e persistente que levou os silvícolas à quase extinção. Somos todos agentes, passivos ou não, de ações que determinaram a não sobrevivência cultural, em primeiro lugar, e física em segundo, de povo pacífico que, por direito, deveria estar vivendo em suas terras. Os europeus que aqui chegaram, agindo com truculência, falta de humanidade e ganância, não viam seres humanos naquelas pessoas simplórias seminuas que os receberam até com calor e amizade. Os portugueses encetaram ações cruéis contra um povo que culturalmente era “inferior” aos colonizadores. Os portugueses iniciaram um processo de extinção que perdura até hoje na nossa sociedade supostamente civilizada. Somos todos culpados.
Quem já andou pelas ruas de Manaus e cidades do interior da Amazônia, percebe que os nativos estão entre nós, houve forte miscigenação de colonizadores com as tribos locais. Os genes dos silvícolas fazem parte de nosso genoma. Eu mesmo tenho um avô Kaingangue e possíveis outros quatro ou cinco antepassados oriundos de aborígenes aqui do sul. A migração quase totalmente masculina dos primeiros portugueses que aportaram no Pindorama determinou os acasalamentos inter étnicos que resultaram nessa amálgama que quase todos os brasileiros somos agora. Menos mal, a cultura e a civilização nativa se foram, mas a herança genética ficou.
Imagino que num futuro distante, muito distante, quando a civilização, como a conhecemos, tiver chegado ao término – e esta é uma inferência a que podemos chegar simplesmente observando nosso comportamento atual - e novos valores tiverem que ser considerados, a vida natural em harmonia com tudo que nos cerca deverá se impor. O Homo sapiens “descobrirá” que a felicidade está ao seu lado, não nas grandes obras materiais; não no acúmulo de fortunas imensuráveis; não nas grandes conquistas territoriais; não nos grandes feitos da mente; não nas imensas viagens espaciais; não nas profundas explorações marítimas; não em alcançar uma longevidade duvidosa que onera mais que premia o existir com saúde; mas sim no ajuste perfeito e indolor do modus vivendi das sociedades com a natureza; com respeito e convivência pacífica com os animais, minerais e vegetais que partilham conosco este planetinha azul. Algo muito simples e bem acordo com o que os silvícolas já praticam há milhares de anos. E, quando isso acontecer, quando nossa civilização estiver evoluído até esse estágio, o homem terá alcançado a sabedoria suprema a qual tanto busca em suas indagações filosóficas e tanto define como expressão ideal de felicidade. A felicidade é aproveitar as coisas que a natureza nos dá de graça, é apreciar o belo e usufruir as alegrias e descobertas de coisas simples, quando o homem se der conta disso terá alcançado o éden na Terra. Amém.
Em que pese a mídia fazer questão de enfocar apenas a comemoração do aniversário de Roberto Carlos em 19 de Abril, hoje é dia do índio. JAIR, Floripa, 19/04/12. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os Índios


Como já escrevi algumas vezes, em especial no conto “O Pacote”, meu avô materno era autêntico indivíduo da tribo Kaingangue, adotado e aculturado por uma família “branca” da Lapa no Paraná. Pois é, em decorrência dessa ancestralidade e mais meia dúzia de antecedentes com um pé (às vezes dois) na América pré-colombiana considero-me mais ou menos silvícola. Talvez meio-indígena, quem sabe.

Ser parte americano nativo não é estranho e nem deveria, pois, quando os portugueses iniciaram a colonização vieram sozinhos, a maioria era composta de homens solteiros e os casados em geral não traziam suas mulheres porque o ambiente na colônia era muito inóspito. Em decorrência, quando os colonos aventureiros se deparavam com as nativas “em pelo”, como se dizia, não resistiam à abstinência e acasalavam-se, com ou sem consentimento das pobres inocentes. Daí, desde o início, passou a existir os indivíduos meio-indígenas-meio-portugueses que também cruzaram, tanto com semelhantes como com portugueses e nativos, sem discriminação de qualquer espécie. Vieram os escravos negros e a miscigenação prosseguiu no mesmo ritmo. Portanto, ninguém, absolutamente ninguém que tenha nascido neste país e tenha descendência do colonizador português, pode dizer que não tem uma gota de sangue negro, tupiniquim, guarani, tamoio, guajajara ou outra nação, que eram muitas as que no Pindorama existiam quando os lusos por aqui aportaram.

Segundo os antropólogos e arqueologistas, os habitantes do continente americano descendem de populações advindas da Ásia, sendo que os vestígios mais antigos de sua presença na América, obtidos por meio de estudos arqueológicos, e datação por carbono 14, estão entre 13 e 11 mil anos. Todavia, ainda não se chegou a um consenso acerca do período em que teria havido a primeira leva migratória, há indícios no Piauí que indicam data anterior, algo em torno de 16 mil anos.

A versão que os antropólogos americanos adotam, é que os povos indígenas que hoje vivem na América do Sul são originários de povos caçadores que aqui se instalaram, vindos da América do Norte através do istmo do Panamá, e que ocuparam virtualmente toda a extensão do continente há milhares de anos. De lá para cá, estas populações desenvolveram diferentes modos de uso e manejo dos recursos naturais e formas de organização social distintas entre si. Contudo, uma nova análise volta a dar peso à hipótese de que os primeiros humanos a chegar às Américas eram gente com aparência bem distinta da dos índios atuais, mas mais semelhante à de africanos e nativos australianos. Os antropólogos brasileiros Mark Hubbe e Walter Neves, junto com Katerina Harvati, da Universidade de Tübingen (Alemanha), publicam os resultados na última edição da revista científica de acesso livre "PLoS One". Após analisar os crânios dos primeiros americanos e compará-los com os dos indígenas mais recentes e com outras populações do passado e de hoje em dia, o trio buscou a melhor maneira de explicar as diferenças entre os índios atuais e os crânios mais antigos do continente. Qualquer que seja a origem dos nativos que aqui se encontravam em 1500, ainda está aberta a discussões e provas.

O processo de colonização levou à extinção muitas sociedades indígenas que viviam no território dominado, seja pela ação das armas, seja em decorrência do contágio por doenças trazidas dos países distantes, ou, ainda, pela aplicação de políticas visando à "assimilação" dos índios à nova sociedade implantada, com forte influência européia. Calcula-se que no Brasil viviam em torno de seis milhões de silvícolas por ocasião do “descobrimento”, hoje talvez existam menos de 200 mil, então, resta-nos o consolo de saber que a descendência Americana está em nosso sangue, e não nas florestas ou regiões remotas do país. Salvo pouquíssimas tribos arredias como dos índios Curukangas, que apenas foram vistas de relance pelo ar e fotografadas nos anos noventa, as demais estão assimiladas ou degradadas cultural e fisicamente. Podemos dizer: indígenas puros e culturalmente isolados são virtualmente inexistentes. Então fica uma constatação: índios somos nós, ou pelo menos nós que assumimos nossa ancestralidade aborígine. Minha parte assumo, sou nativo! JAIR, Floripa, 21/01/11.