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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O General


Um General é, antes de tudo, um solitário. Contrário ao soldado que na trincheira, na vacância ou no acampamento sempre tem um seu igual para compartilhar seus medos, angústias e sentimentos, o General come e dorme sozinho, trabalha sozinho e toma suas decisões na mais terrível e absoluta solidão. Não que o General não possa ter amigos e companheiros de caserna com os quais, em algum momento, possa fazer confidências ou cometer indiscrições, mas nas funções profissionais ninguém está ao seu lado na hora das decisões. Ninguém, no seu círculo íntimo, divide com ele a responsabilidade das boas e más escolhas, ninguém assume suas insônias, inseguranças e dúvidas.
Mais que a solidão do cargo, ao General cabe decidir sobre a vida e a morte, de seus soldados e dos soldados inimigos. Se emana ordens corretas e judiciosas, os militares inimigos morrerão e, se suas ordens não forem as melhores, quem morre são seus comandados. Às vezes ele se sente uma perversa paródia de Deus, ou semi deus se considerarmos que é mortal como os que morrem na batalha. Mas ele sabe que se tornou General, não por determinação aleatória de carreira militar bem sucedida ou injunção cega do destino, e sim porque orientou toda sua vida para esse fim. Não se chega ao generalato por acaso, apenas suas lidas beiram o acaso quando para aquilo que se preparou, lhe cai no colo por decisão política, a guerra. E o generalato, antes de ser um alto posto militar, é um misto de sacerdócio e resultado de ilibada vida pessoal somada à luta e trabalho diários, muito estudo e disposição para o sacrifício ao longo de muitos anos. O General é um primata da espécie Homo estoicus.
Um General sensato sabe que guerra é insensatez, mas sabe também que quando ela vier terá que exarar ordens claras e lúcidas cujos resultados beiram a insanidade. Quanto mais eficientes forem as decisões do General, mais os resultados podem conflitar com sua formação humana. Um General traz no âmago de sua formação profissional o germe do conflito entre os fatores morais que lhe foram incutidos pelo núcleo familiar e as imposições pretorianas subordinadas às nuances políticas de seu país. O General deve ser patriota na mais cruel e perfeita acepção do termo. A pátria lhe impõe encargos que pesam nos ombros como um Atlas suportando o globo terrestre.
Por isso tudo, um bom General que tenha lutado por seu país, aquele que exerceu sua função com honestidade e eficácia, é um ser humano triste, suas memórias incluem mortes de pessoas desconhecidas as quais nunca lhe fizeram qualquer mal e que apenas estavam defendendo ideias ou orientações diferentes das suas. Suas convicções religiosas também devem ser elásticas quando são postas à prova: não matarás é um mandamento que deve ser temporariamente relegado se ele quiser ser um profissional seguro nas ações do ofício. Cada soldado que cai no campo de batalha tem um General responsável por sua morte, General sem mortes no currículo é General inerte, omisso. O pódio de General é árduo e às vezes lhe traz glórias e reconhecimento, e aquele que lá chega se torna para sempre um ser Primus inter pares, mas suas funções nem sempre são cobiçadas pelos mortais comuns. JAIR, Floripa, 01/08/12. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Memorial Day



Nossos vizinhos aqui do norte têm algumas datas federais notáveis, (feriados não religiosos, já que a União é constitucionalmente laica) as quais eles se dão ao luxo de não trabalhar: New Year, Independence Day, Martin Luther King e Memorial Day, são algumas delas. Hoje, trinta de maio, última segunda feira do mês, comemora-se o Memorial Day.
Memorial Day é um feriado nacional nos EUA. Anteriormente conhecido como Decoration Day, ele foi comemorado pela primeira vez pelos escravos libertos do sul, em Charleston, Carolina do Sul em 1865, e em Washington para lembrar os soldados da União mortos na Guerra Civil. Hoje, o que agora é conhecido como o Memorial Day, homenageia todos os militares dos EUA que morreram em serviço. Numa economia de calendário o Memorial Day geralmente marca o início do verão, a estação de férias, e prepara para o Dia do Trabalho.
Começou como um ritual de recordação e reconciliação depois da Guerra Civil, mas, no início do século 20, o Memorial Day passou a ser uma ocasião para expressões mais generalizadas da memória dos mortos, em que pessoas comuns visitam os túmulos de seus parentes falecidos, se eles haviam servido nas forças armadas. Ele também se tornou um fim de semana prolongado cada vez mais dedicado às compras, encontros familiares, fogos de artifício, passeios à praia e eventos que movem a mídia nacional, como a 500 milhas de Indianápolis, corrida de automóveis realizada desde 1911, no domingo, véspera do Memorial Day.
Uma espécie de sentinela do Pacífico norte, San Diego é uma cidade bastante militarizada, possui uma super base da Marinha, uma base aqui ao lado, na ilha Coronado, de Fuzileiros Navais e outras tantas espalhadas por aí. Acho que a base de Coronado deve ser importante, possui três super porta aviões movidos a energia nuclear. Então, considerando esse perfil militarizado da cidade, não é estranho que o Memorial Day seja significativo para a população que lota os abundantes cemitérios militares daqui. Tive oportunidade de visitar um desses cemitérios em Point Loma da outra vez que estive em San Diego. Cemitério muito grande, muito organizado e muito solene, passa a impressão que os militares sabem o que fazem ao enterrar seus mortos. De qualquer forma, o feriado de hoje nos dá oportunidade de ver as festividades e solenidades comemorativas desse que é um dos importantes dias para os militares, afinal são milhões de soldados mortos em todas as guerras, desde a guerra pela independência, a guerra da secessão, a guerra com a Espanha, outra com o México, a primeira e a segunda guerras mundiais, guerra da Coréia e do Vietnam, além de muitas refregas e intervenções como no Panamá, Granada, Somália, Iraque e Afeganistão. Os militares lembram seus mortos sabendo que um dia poderão estar enterrados naquele lugar, quando algum presidente republicano declarar uma guerra de favas contadas para promover os industriais de armamentos que financiaram suas campanhas; e os civis agradecem seus parentes que deram a vida por uma tal de “liberdade”. É esse sentimento de aprovação que permite que os belicosos republicanos mantenham a máquina de guerra sempre lubrificada e pronta para o ataque em qualquer lugar do Planeta.
A impressão que se tem, é que militares são venerados guardiões voluntários da pátria, são aquela parte da população que se sacrifica pela nação para que os civis tenham a liberdade que se supõe que têm, e o nível de vida que desfrutam. Quando estávamos voando de Dallas para cá, em pleno voo cruzeiro, um comissário perguntou se havia algum militar entre os passageiros. Alguém se apresentou e foi aplaudido em pé. É possível imaginar uma cena dessas no Patropi? JAIR, San Diego, 30/05/11.

domingo, 21 de março de 2010

NUMISMÁTICA - 3

CÉDULAS MILITARES AMERICANAS
Depois da segunda guerra mundial, precisamente em 1947, as bases americanas que ocupavam territórios na Ásia, Oceania e Europa, adotaram o uso de "dinheiro militar". Notas de dólares emitidas pelo Tesouro Americano que eram destinadas ao pagamento de civis e militares que serviam nas 21 bases ao redor mundo. As células, de ótima impressão e papel de qualidade equivalente aos dólares regulares, tinham o mesmo valor daqueles e circulavam somente nas áreas ocupadas, não serviam como moeda no próprio EUA, para isso deviam ser cambiadas pelas verdinhas. Diz a lenda que esse dinheiro era emitido visando impedir que dólares normais usados nos países estrangeiros voltassem para a América de modo clandestino. Explicação bastante aceitável, porque os americanos há muito perderam o controle da contabilidade de suas notas que circulam pelo Planeta. Mais uma vez, diz a lenda que se todo dinheiro americano que está por aí retornasse ao país, não haveria lastro para sustentá-lo, ou seja, os bens e serviços americanos não teriam equivalência ao meio circulante. Seja verdade ou não, o fato é que a emissão dessas cédulas cessou em 1970, de lá para cá o que circula nas bases estrangeiras é o velho e sólido dinheiro verde mesmo.

















Quase a totalidade das cédulas militares americanas têm uma mulher estampada na face. Note-se a última da esquerda usando o Barrete Frígio, símbolo da liberdade.




Rara cédula militar americana que não contempla uma mulher na efígie. Trata-se do piloto Joseph McConnell Jr., herói da guerra da Coréia, morto em 25 de agosto de 1954, na Base aérea de Edwards, enquanto testava o novo caça F-86H para a USAF.



Nota de Dolar que circulou no Vietnan em 1969. Pode-se ler no verso de cabeça para baixo: Vang Tan Vietnan do Sul, 23 dezembro de 1969, supostamente escrito por um combatente americano.


DINHEIRO DE OCUPAÇÃO JAPONÊS
Quando as tropas americanas perderam as Filipinas para os japoneses e o general MacArthur "retirou-se" para a Austrália prometendo voltar, - e voltou mesmo - os novos ocupantes daquelas ilhas também emitiram "dinheiro militar". Foram tantas e tão diversas emissões que, ainda hoje, existem milhões de cédulas "The Japanese Government", de tal forma que não têm valor algum para colecionadores. Quando muito, são meramente curiosas pela boa qualidade do papel e pela diversidade de denominações: dólares, pesos, rupees etc. Não eram explicitamente cédulas de uso exclusivo militar, destinavam-se a uso corrente por todos no arquipélago, contudo, militares japoneses não eram autorizados a usar o dinheiro circulante filipino.

Peso de ocupação, de vasta circulação por aquelas ilhas do pacífico. Há quem diga que a intenção dos japoneses era criar uma mega inflação causando colapso na economia.

Dolar japonês que circulou em abundância durante a ocupação.


Rupee da ocupação japonesa do arquipélago filipino e Ilhas Maldivas.

NOTAS DE EMERGÊNCIA FILIPINAS
Pela segunda vez na história do país, o governo filipino se viu obrigado a emitir "dinheiro de emergência", a primeira foi em 1917 durante a primeira guerra mundial. Essas cédulas só circularam durante a ocupação japonesa, já que o dinheiro de guerra japonês não era conversível e estava desacreditado pela enxurrada desmedida como foi emitido. Antes mesmo do término da guerra, em 1944, o governo filipino colocou em circulação cédulas com a palavra "Victory" no verso, falta de otimismo não era a praia dos ilhéus.

Peso filipino de 1941. Dinheiro de emergência, papel de baixa qualidade e impressão ruim, bem de acordo com a época.


Cédula de emergência lançada em 1942 pelo governo filipino.


Peso das Filipinas comemorativo da vitória, emitido em 1944.


DINHEIRO DE GUERRA E DE EMERGÊNCIA BRITÂNICO
Não se pode acusar a Grã Bretanha de imitar os EUA, seu"dinheiro de guerra" foi emitido em 1943 e um curioso "dinheiro de emergência", em 1945, supostamente por falta de papel. Cabe lembrar que a diferença entre cédulas e moedas não é o material do qual são confeccionados, a nota é impressa e a moeda é cunhada. Os materiais usados nas moedas modernas podem ser nobres como o ouro e prata, ou outros como cobre, latão, bronze, alumínio e liga de níquel. As notas são normalmente de papel, mas podem ser de plástico ou até de resina como essa da ilustração. Existem cédulas de ouro, impressas especialmente para colecionadores, o Kwait lançou uma assim depois da guerra em 1992.
Cédula militar de Libra, lançada em 1943. Note-se a austeridade do desenho em contraste com as notas militares americanas.

Cédula de Shilling emitida em 1943 para as forças armadas britânicas.


Nota de Penny com aparência de moeda lançada em 1945, impressa em papelão impregnado de resina, supostamente por carência de papel de qualidade.

Bem, essa é só uma pequena amostra de dinheiro militar, de emergência e de ocupação durante a segunda guerra. Muitos países da Europa emitiram cédulas não regulares nas duas guerras, algumas de tão má qualidade que se tornaram raras porque deterioraram na sua maioria. JAIR, Floripa, 21/03/10.