quinta-feira, 17 de maio de 2012

Oblivo


Havia sido concebido em Israel, num Kibutz fundado por deslocados de guerra oriundos da Bucovina. Seus pais fugiram do país quando tropas nazistas, que já haviam batido os restos do exército romeno que lutara bravamente, mas sem eficácia, resolveram aplicar as leis do extermínio sobre os poucos judeus que ainda restavam nas aldeias pobres e arrasadas. Com auxílio de cidadãos bucovinos cristãos, Yacov Stein e Marta Stein conseguiram embarcar num transporte que os levou até Stambul e de lá, depois de muita emoção e perigo, conseguiram chegar a Benghasi na Líbia, onde após de alguns meses saíram para Londres. Viveram em Londres até o fim da guerra, donde saíram para Israel e o Kibutz, e, quase de imediato, para o Brasil, país escolhido aleatoriamente num mapa mundi. Até hoje é um mistério como aqueles dois judeus deslocados vieram parar em Palmeira, cidade onde não havia ninguém que professasse o judaísmo.
O filho do casal nasceu logo depois da chegada deles, Marta já estava grávida quando vieram para a cidade clima. Porque lhe colocaram o nome de Oblivo nunca perguntei, embora fosse nome um tanto exótico, não me parecia correto ficar xeretando o assunto. Até porque existiam muitos nomes pouco usuais no círculo de meus conhecidos de forma que Oblivo era apenas mais um.
Minha família morava, desde o fim dos anos quarenta, numa propriedade da empresa madeireira dos Malucelli na qual meu pai trabalhava. A casa se situava do outro lado da rua em que se situava a fábrica, aliás todo o lado oposto à fábrica era uma “vila” de casinhas iguais onde moravam os operários. Lá passei minha infância.
Seu Jacó, como chamávamos o pai de Oblivo, também era operário na madeireira. Humilde, discreto, bastante inteligente, seu Jacó tinha um forte sotaque que nós costumávamos nomear como “de polaco”. Os polacos eram abundantes na zona rural da cidade e muitos viviam e trabalhavam nas indústrias madeireiras, mas a maioria era composta por pequenos colonos que costumavam vender seus produtos nas feiras, por isso conhecíamos bem a maneira como eles falavam. Os poloneses e seus descendentes tinham dificuldade de pronunciar o “r” forte de “carro”, por exemplo, neste caso diziam “caro”, e em todas as pronúncias fortes do erre era a mesma coisa. Pois bem, seu Jacó falava com sotaque peculiar, desse modo, dona Marta e Oblivo também, embora este tivesse adquirido o sotaque por exposição e não de nascença.
Oblivo e eu éramos (ainda somos) amigos, daquele tipo que as pessoas costumam chamar de inseparáveis. Desde que me lembro sempre fomos vizinhos de rua, brincávamos juntos e costumávamos estar sintonizados em tudo que fazíamos. Não havia necessidade de combinar, “amanhã, as tantas horas!”, sempre um ia à casa do outro ou os dois se encontravam na rua sem ter previamente combinado. Ele era em tudo um garoto normal, alegre, ativo e muito companheiro para todas as horas. Só tinha uma particularidade, era incendiário. Tinha fixação por atear fogo em coisas. Para esse fim carregava uma caixa de fósforos que surrupiara da cozinha de sua casa. A caixa era o “instrumento” que alimentava a fantasia de pôr fogo nas coisas. Ao brincarmos nos terrenos baldios ou no campo, lá ia o Oblivo colocar fogo nos montes de lixo, nos restos de tábuas velhas ou no capim seco do campo. Onde houvesse fumaça, havia Oblivo por perto. Além isso, ele costumava “pensar grande”, sonhava que um dia provocaria um incêndio de proporções românicas (de Roma, naturalmente), algo que marcasse a história da cidade, um fogaréu, costumava dizer.
Corria o mês de janeiro de 1953, lembro com muita clareza, por que foi o penúltimo mês de minha infância antes de entrar na escola primária, cujo ano letivo iniciaria nos primeiros dias de março. Numa sexta feira à tarde Oblivo estava mais compenetrado e chamou-me para brincar num terreno próximo às nossas casas. Lá sentamos e ele, com ar grave, confessou que havia tomado a decisão de sua vida. Eu meio cismado nada disse, aguardei que falasse. Oblivo, em breves palavras disse que ia tocar fogo numa coisa muito grande nessa mesma noite, o incêndio do século iria iluminar a cidade e agitaria todas as pessoas. Eu não perguntei onde seria o incêndio nem ele falou mais nada, fomos para nossas casas.
Já à noite, depois da janta, nem lembrava mais daquela confidência, minhas prioridades eram outras e fui dormir cedo como sempre, sem maiores preocupações. Lembro que fui acordado por meu pai de madrugada, depois eu soube que eram duas horas da manhã, e todo o céu estava avermelhado pelo fogaréu. A madeireira do outro lado da rua havia pegado fogo, era um incêndio monumental como nunca a cidade tinha visto e certamente nunca mais veria. O fogo era uma coisa viva que se alimentava dos materiais combustíveis da fábrica. De proporções épicas, pois, para uma cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, estava devorando instalações com cinquenta mil metros quadrados. Os barracões de madeira e todas as máquinas e material inflamável que havia dentro ardia em vórtices de fogo vermelho alaranjado, com explosões ocasionais de tambores de materiais combustíveis. O calor vulcânico faria inveja às fornalhas do inferno de Dante. Fomos levados para o campo que havia trás da vila por precaução, caso nossas moradas fossem atingidas pelas labaredas que não distavam nem dez metros. Roma sentiria inveja das proporções daquele inferno. O fogo durou mais de vinte e quatro horas, ficamos comovidos, amedrontados e maravilhados, coisa única na vida de qualquer um.
O incêndio não ceifou vidas, mas destruiu tudo, da madeireira só restaram cinzas e alguns esqueletos das máquinas que antes produziam os móveis e compensados. Não me lembro de ter visto Oblivo nos dias seguintes, mesmo porque os restos do incêndio ali tão pertinhos e tão interessantes não deixavam a gente desgrudar os olhos daquelas curiosidades inusitadas. Depois de cinco ou seis dias, calhou que nos encontramos, Oblivo e eu, conversamos como se nada suspeito houvesse naquele acontecimento. Eu nada perguntei e ele nada disse, apenas observei que ele estava sem a sempre presente caixa de fósforos. Oblivo, sem qualquer expressão no rosto, disse: - Não a carrego mais comigo, já não gosto. Parece que havia abandonado a piromania que o acompanhara até ali.
O incêndio acabou não trazendo grandes prejuízos para ninguém. A perícia efetuada pelos bombeiros exarou laudo culpando um curto circuito pela deflagração das faíscas que causaram o sinistro. Os Malucelli tinham seguro dos imóveis, das máquinas e do estoque, de modo que, dizem, receberam mais do que valia aquele patrimônio. Os operários foram convocados para limpar os escombros, tirar todo aquele entulho, depois foram incorporados à construção de uma nova fábrica, agora toda de tijolos. Não perderam seus empregos e acabaram trabalhando em instalações melhores, com máquinas novas e mais modernas. A cidade teve assunto para falar por meses ou anos, até hoje alguém ainda se lembra do INCÊNDIO, assim com letras maiúsculas. Oblivo e eu entramos na escola no mesmo ano, estudamos na mesma sala e continuamos amigos, embora nossas escolhas tenham nos conduzido por caminhos diferentes ainda nos vemos de tempos em tempos. Agora ele, aposentado, mora em Irati com suas filhas e netos, e quando nos encontramos, jamais tocamos no assunto incêndio. Diz um provérbio que “não se fala em corda na casa de enforcado”. JAIR, Floripa, 24/04/12. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Terremoto de Lisboa

As grandes catástrofes naturais que atingiram a civilização nas últimas décadas, como vulcões, terremotos, enchentes e tsunamis e até vazamentos de usinas nucleares como em Chernobil e no Japão ano passado, têm sido catalogadas como as maiores já acontecidas desde que o homo sapiens se pôs a registrá-las. Contudo, proporcionalmente, o maior cataclismo já acontecido foi o terremoto de Lisboa de 1755. Em primeiro de Novembro daquele ano ocorreu uma catástrofe tríplice na cidade e seus arredores que, sem qualquer concessão, foi o desastre maior que já atingiu a Península Ibérica. As 9 horas e 20 minutos da manhã a terra estremeceu e fez cerca de 100.000 mortos em virtude dos desmoronamentos, de incêndios que acabaram com o resto que havia sobrado e de três colossais tsunamis que se seguiram. Católicos de todas as cores e de todo o mundo rezaram por Lisboa e os lisboetas, porque a capital de Portugal era (ainda é) uma das cidades mais beatas do Planeta.  
Naqueles tempos ainda existia inquisição na Península, e tanto cristãos velhos como conversos, ou cristãos novos, praticavam um catolicismo de curral que não lhes permitia divergir um cagagésimo sequer dos ritos preconizados pela igreja, sob o risco de enfrentar atos de fé que poderiam até levá-los para a fogueira. Então, era comum os cidadãos encomendarem junto às suas paróquias, para depois da morte, uma infinidade de missas e solicitações de velas e rezas para que suas almas descansassem em paz. Naturalmente todas as missas e velas eram pagas antecipadamente. A inquisição, venal como era, via nessa “devoção” uma fonte de renda copiosa e inesgotável. E os devotos não tinham escolha, suas almas dependiam de seus recursos.
Contudo, para decepção dos católicos que haviam colocados suas fichas nessa loteria póstuma, sua devoção de nada adiantou e Lisboa foi punida como Sodoma o fora nos tempos bíblicos. Ficou registrado que o otimismo gerado pela filosofia de Leibniz, a qual afirmava que “vivemos no melhor dos mundos possíveis” e que havia contaminado as mentes européias, ficou extremamente abalado pelo virtual desaparecimento de Lisboa. O otimismo praticado não previa espaço para destruição de cidades, um acontecimento desses jamais poderia caber “no melhor dos mundos”.
Devemos lembrar que as obras de reconstrução da cidade coordenadas durante o mandato de Marquês do Pombal, eminência parda do reinado do pífio Dom José desde 1746, foram facilitadas graças ao esbulho do ouro vindo do Brasil que permitiu a reconstrução da nova cidade, moderna, no lugar da Lisboa medieval que ainda existia nos finais do século dezoito. A reconstrução da cidade destruída tornou-se uma prioridade quando praticamente nem tinham terminado os tremores, ou seja, já no dia seguinte o plenipotenciário e despótico Marquês de Pombal começou a esboçar ideias para reconstruir aquilo que havia desaparecido e consertar o consertável. A despeito do péssimo juízo que se faz de Pombal pela sua suposta arrogância, por seu mandato ditatorial e pela expulsão dos jesuítas em 1757, é inegável que foi graças a sua energia que se puderam reparar os danos que o sismo havia causado. A história registra que ele começou dizendo "Enterrem os mortos e alimentem os vivos" e, arregaçando as mangas, tornou-se um trabalhador incansável que só parou quando a morte veio ao seu encontro. Em razão de sua determinação e capacidade de trabalho, Lisboa reergueu-se rapidamente e melhorou sob todos os aspectos, tornou-se uma cidade moderna.
Com um sismo de 9,0 graus na escala Richter, (esclarecendo, a escala Richter ainda não existia, mas os geólogos atuais deduzem os valores dos terremotos antigos pelos estragos que fizeram e pelos sinais que deixaram nas camadas do solo) a cidade estremeceu violentamente e começou a desabar como um castelo de cartas. Era dia de todos-os-santos e, por isso, calou fundo no imaginário carola da maioria da população. Nas casas ardiam velas nos oratórios, o que pode ter contribuído fortemente para o incêndio das ruínas causadas pelo abalo. O povão, apavorado pelos incêndios, correu como uma onda à zona portuária, local menos atingido pelas chamas. Foi aí que a coisa ficou mais feia ainda. Um enorme tsunami de mais de trinta metros de altura, galgou as beiras do rio Tejo e invadiu as ruas e casas já destruídas, e, em seguida, no rastro da primeira, vieram mais duas ondas gigantescas. 
Alguns fiéis, genuflexos e consternados, persignavam-se, elevavam os olhares para o céu na vã esperança que uma luz das alturas lhes viesse acudir, mas a massa daquele povo assustado tentou fugir das praias, mas tropeçava nos escombros e caía nas chamas, estava literalmente entre o fogo e o mar ameaçador. E os desabamentos das paredes que restavam, combinado com o fogo apavorante e a água que levava tudo de roldão, fizeram que metade da população da cidade morresse ou desaparecesse.  Montões de cadáveres despedaçados, queimados e afogados atestavam o poder fenomenal dos eventos. Para muitos, aquele Deus vingador do velho testamento julgara Lisboa e a condenara por seus pecados e iniquidades, como outrora fizera com Sodoma.
Contrariamente aos cidadãos comuns e escravos que viviam nas partes baixas da cidade em casas de qualidade inferior, a nobreza, o clero e os áulicos do poder habitavam construções de boa qualidade nas partes mais altas, então não é de estranhar que estes tenham, na sua maioria, saídos incólumes ou tenham tido prejuízos materiais de menor monta, quase sem perdas de vidas. O terremoto de Lisboa fora extremamente indulgente com as classes sociais altas e terrivelmente malévolo com o povão. Pareceu até justiça divina ao contrário. Eu hein! JAIR, Floripa, 29/04/12

sábado, 12 de maio de 2012

B-24 cai no Brasil


Quando, finalmente, em janeiro de 1943, o presidente Roosevelt convenceu Getúlio Vargas a entrar na guerra, este firmou um contrato que cedia bases no nordeste e norte do país às forças americanas em troca de uma usina siderúrgica (CSN) de última geração a ser instalada em Volta Redonda, RJ. O que se seguiu foi uma intensa construção de bases operacionais em Belém, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e Ilhéus com um afluxo imenso de militares americanos apoiando aeronaves que fariam a travessia do Atlântico rumo à África e à guerra no norte daquele continente.
Essa inusitada invasão de militares estrangeiros suscitou a criação de várias estórias relacionadas ao choque cultural de duas nações com costumes tão diferentes. Conta-se até que o termo forró nasceu dessa convivência forçada. Registrou-se que militares instalados em Pernambuco para construir a Base de Recife, promoviam bailes abertos ao público, ou seja, for all. Assim, o termo passaria a ser pronunciado "forró" pelos nordestinos. Nada comprovado, no entanto. Outra consequência quase natural de tantas aeronaves de guerra sobrevoando as regiões norte e nordeste, foram os acidentes aéreos.
O Consolidated B-24 “Liberator” era o bombardeiro americano de maior produção que qualquer outro avião americano durante a Segunda Guerra Mundial, e foi usado pela maioria dos Aliados durante o conflito. Era um bombardeiro pesado desenhado especialmente para voos de longa distância, tinha capacidade de levar 5800 quilos de bombas e era guarnecido por dez tripulantes. Grande número dessas aeronaves compôs as esquadrilhas que faziam pousos no Brasil para depois atravessar o Atlântico. Assim, as 09:15 da manhã do dia 11 de abril de 1944 a aeronave B-24 “Liberator” número de série 42-95064 da USAF solicitou ao centro de controle de Belém, informações sobre as condições meteorológicas. Foi a última comunicação que fez, nada mais se soube dela durante 51 anos.
Os EUA mantêm um órgão destinado a identificar restos mortais de seus soldados considerados desaparecidos em combate e procurar os possíveis parentes desses militares mortos. Esse órgão, Laboratório Central de Identificação do Exército  no Havaí (CILHI), já identificou milhares de soldados desaparecidos - especialmente do Vietnã - a partir mesmo de restos mortais diminutos, após um processo que envolve longas horas de análise científica e emprego da técnica de DNA. Pois, no ano de 1990, o CILHI recebeu informações que uma equipe de militares da FAB havia encontrado destroços de uma aeronave B-24 em uma área desabitada, isolada da floresta amazônica. Deslocou então 15 homens do exército para, juntamente com militares brasileiros, fazer a identificação da aeronave e, se possível, recolher restos mortais dos tripulantes.
Uma equipe da FAB ajudou os pesquisadores CILHI durante um esforço de recuperação de três semanas em uma área de densa floresta cerca de 50 milhas a nordeste do rio Amazonas próxima à cidade de Macapá, localizada cerca de 250 quilômetros a noroeste do destino do avião, Belém. Inicialmente os pesquisadores encontraram dois conjuntos de “dog tags” (plaquetas de identificação que os militares trazem penduradas no pescoço) e numerosos fragmentos de ossos no local.  Ficou patente, pelas condições dos fragmentos da aeronave, que todos os 10 tripulantes morreram na queda, não havia sinais que indicassem alguma possível sobrevivência. Duas semanas de escavação no local do acidente não acrescentou nada ao que já se tinha descoberto. Contudo, depois terem escavado vários metros de profundidade e estarem começando a perder a esperança, eles começaram a encontrar ossos, anéis e “dog tags” com nomes e as patentes escritas sobre eles. Onde o avião caiu um investigador encontrou uma carteira, e outro teria encontrado várias notas de dólar de 1944, concluiu-se que o impacto de alta velocidade da queda significava que pouco restou da aeronave. E a maior parte dos destroços - espalhados por uma vasta área e em repouso por 51 anos - nunca serão recuperados. Depois de três semanas, a equipe recuperou os restos mortais de todos os 10 tripulantes e realizou um serviço cerimonial para a tripulação em Macapá, capital do Amapá e, em seguida, os restos foram levados para os EUA. Em pouco tempo, mais tarde, os peritos forenses CILHI confirmaram que os restos mortais eram, de fato, da tripulação do “Liberator” 42-95064.
Os tripulantes foram identificados como sendo:
1 - Segundo tenente Edward I. Bares, piloto;
2 - Segundo tenente Robert W. Pearman, co-piloto;
3 - Segundo tenente Laurel Stevens, bombardeador;
4 - Primeiro tenente Floyd D. Kyte Jr., navegador;
5 - Sargento John Rocasey, artilheiro do nariz da aeronave;
6 - Sargento John E. Leitch, engenheiro de voo;
7 - Sargento. Michael Prasol, artilheiro de cauda;
8 - Sargento Herman Smith, artilheiro do ventre;
9 - Sargento Max C. McGilvrey, artilheiro da torre superior;
10 - Sargento Harry N. Furman, operador de rádio (substituto não registrado como tripulante efetivo).
O desconhecido Harry N. Furman não faz parte da tripulação original do avião, provavelmente substituiu o operador de rádio Sargento Abe Pastor, no vôo fatídico. O destino de Pastor é desconhecido. “É provável que o chefe da equipe de terra pode muito bem ter substituído um dos tripulantes, que teria ido por mar'', disse Kevin Welch, um veterano B-24. “Às vezes, algumas posições eram operadas por tripulantes não-membros''.
Os restos da tripulação foram enterrados no Cemitério Nacional de Arlington, Washington, no dia 20 de fevereiro de 1995. JAIR, Floripa, 04/05/12.
Dados sobre essa matéria podem ser encontrados nos saites:

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Desmatamento

A Constituição Brasileira, e, supõe-se, a maioria absoluta das constituições democráticas, foi erigida sobre suporte sólido, na ausência do qual o “edifício” Carta Magna não poderia se sustentar. Esses alicerces que suportam toda a estrutura legislatória do Estado são chamados cláusulas pétreas, itens “duros como pedra”, ou seja, são dispositivos impossíveis de mudança formal, constituindo o núcleo irremovível e irreformável da Constituição, impossibilitando qualquer discussão ou apreciação de matéria visando remover ou abolir esses princípios. No artigo 60 da Constituição, parágrafo 4º, estão as tais cláusulas: A forma federativa de Estado; O voto direto, secreto, universal e periódico; A separação dos Poderes; Os direitos e garantias individuais.
Obviamente não precisamos nem mencionar que “Os direitos e garantias individuais” são, de longe, os mais importantes. Esses direitos incorporam, na íntegra, a Declaração dos Direitos Universais do Homem, sendo que direito à vida, embora capitulado explicitamente na Constituição é o núcleo duro de todos os direitos não cabendo qualquer discussão a respeito.
Então quero ir um pouco mais longe, se torna-se necessário explicitar certos direitos, outros são tão óbvios e de tão marcada importância que discutir sobre a necessidade de incluí-los ou não na lei é ocioso. Vejamos, portanto. Alguém tem dúvida que a existência da humanidade e sua preservação é um direito implícito e irrevogável? Pois é, legislar sobre esse direito, sob qualquer pretexto, é de uma imbecilidade piramidal, mas é isso que se está fazendo no Congresso Nacional.
O que choca nesse caso de proteção ou desmatamento é a leviandade com que é tratado um assunto tão sério e tão primordial. A questão que está em jogo não é se queremos desmatar menos ou mais, a questão é se queremos sobreviver como espécie ou não; se assumimos ou não a responsabilidade pelo futuro das matas e, em consequência da humanidade. As picuinhas ideológicas, partidárias e até inconfessáveis limitam a visão daqueles que têm obrigação de pensar na humanidade, na vida, e não nos lucros. Os legisladores em questão, chamados ruralistas, obcecados com o dinheiro fácil obtido pelo desmatamento de áreas florestais, legislam com olho na caixa registradora, esquecendo suas responsabilidades com a vida futura. Na ocasião que Jacques Cousteau esteve no Brasil fazendo um documentário sobre o rio Amazonas, foi inquirido por um repórter sobre a necessidade de um Partido Verde. Ele se posicionou contra, e explicou: A questão ambiental é tão importante como os direitos humanos, nós não aprovaríamos um partido dos direitos humanos porque haveria a suposição que deveria existir partidos contra esses direitos, vale para a preservação do meio ambiente, se tivermos partidos que o defendam devemos concordar com partidos contrários a ele, e isso é inadmissível. Então, neste país de faz de conta, colocar a questão ambiental como um tema ser discutido como se fosse: será que o Flamengo é melhor que o Fluminense? é um acinte. Discutir a preservação ambiental é discutir se queremos um futuro para nossos (de toda a humanidade, não apenas os meus e teus) netos e, consequentemente, se queremos um futuro para o Planeta.
Há poucos dias estava em discussão no Parlamento uma matéria sobre trabalho escravo, será que nossos representantes não sabem que a escravidão foi abolida em 1888, e que, a partir de então, se tornou “cláusula pétrea” implícita nas nossas leis? Agora se discute se queremos ou não acabar com as florestas e arcar com as consequências dessa burrice. Me vejo obrigado a repetir aqui o que escrevi em “Florestas”: “A floresta não é apenas um aglomerado de plantas, não é a reunião casual de árvores, arbustos e outros vegetais; é um sistema tanto complexo como desconhecido que a ciência só agora está prestando atenção. Só quando as florestas deixam de existir por terem sido dizimadas pelos homens é que se torna imperioso observar o quanto elas significam. O exemplo mais cabal e contundente do significado das florestas ficou patente quando se descobriu a história dos rapa nui, povo que viveu na ilha da Páscoa e que, um belo dia, se extinguiu para sempre. Sabe-se que, a despeito dos rapa nui terem construído estátuas de cabeças gigantes com chapéu, (moais) as quais adornam a ilha até hoje e servem como atrativo turístico para o mundo, eles não atentaram para a preservação de suas florestas e tornaram-se vítimas de sua incúria. Há registros fósseis e arqueológicos que o povo rapa nui, numa fúria insana de construir estátuas, cabanas, artefatos e embarcações, acabou com todas as árvores existentes na ilha e isso prenunciou o fim da civilização e da coesão social culminando com a extinção das tribos e das pessoas”.
Senhores parlamentares, se tivermos vocação para rapa nui, então acabemos com nossas florestas como eles o fizeram e decretemos nossa derrocada a partir da aprovação dessa legislação florestal que está tramitando, acabemos com a cláusula pétrea que protege a vida, assumamos que não temos interesse algum no nosso futuro, só nos interessa o aqui e agora, cambada de energúmenos imprestáveis! JAIR, Floripa, 09/05/12. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Olhando nuvens

Da minha janela leste
Não era um nefelibata, pois esse termo define aquele que tem “cabeça nas nuvens”, ou seja, quem não atina muito bem, pessoa que vive fora da realidade, em devaneio, sonhador, talvez até poeta, enfim. Era, antes, um apaixonado por esses seres mutáveis que adornam o céu sobre nossas cabeças pensantes. Estava totalmente fascinado por aqueles espectros gasosos que voam e se contorcem formando figuras sobre o fundo azul do céu. Sobre aquele azul propriamente chamado de cerúleo por traduzir uma cor só encontrável nas alturas e inimitável nas artes humanas. Nuvens eram seu hobby, seu norte e seu dia-a-dia, desde que acordava até o anoitecer quando aquelas fumacinhas esquivas se escondiam por trás da escuridão, ele as observava, analisava e se extasiava com suas convoluções, aspectos e movimentos. Havia aquelas alongadas e quase etéreas que sempre se punham lá no alto, bem acima das outras como a querer demonstrar que eram nobres, de uma casta superior que “não se mistura” com essas plebéias alvacentas e molengas que como se arrastam pelos ares inferiores e até poluídos, suas atitudes e altitude denotavam uma insuspeitada hierarquia núvica, se assim se pode dizer. Havia outras, apressadas, meio confusas, que pareciam não prestar atenção às elevações do terreno e até colidiam com elas. Havia as mais sonolentas, gorduchas e preguiçosas que quase não saíam do lugar desde que surgiam até quando desapareciam por causa de algum fenômeno que as fazia volatizar talvez. Havia outras ainda, muito altas como colunas celestiais que tinham um aspecto rancoroso e eram escuras, costumavam despejar catadupas, ventos e granizo causando confusão e estragos materiais. Havia as dengosas, as exuberantes, as tímidas e  as cheias de volúpia que pareciam querer seduzir os homens que as contemplavam. Existia aquelas abelhudas que colavam no solo e formavam o que chamamos de cerração ou nevoeiro, estas pareciam querer se imiscuir nos afazeres humanos e dificultá-los, tornavam-se nuvens dangerosas para os movimentos dos transportes terrestres, e entravam até nas casas se a porta estivesse aberta. Muitas eram molhadas e espalhavam seus rastros na forma de sereno, mas existiam algumas secas que não deixavam marcas por onde passavam. Eram muitas e variadas, mas havia dias que todas sumiam. O cerúleo do céu fica limpo, parecia dizer que todas as nuvens haviam se mudado ou estavam escondidas em algum lugar longe do alcance da nossa visão, mas ele sabia que não era nada disso, elas simplesmente estavam ali, só que transparentes, haviam entrado num estado que ele resolveu chamar de “da cor do ar”, pois todos sabemos que o ar nos circunda mas não podemos vê-lo. Se as nuvens estavam “da cor do ar” é porque elas estavam provavelmente descansando dos olhares curiosos que as acompanhavam quando se expunham, ele supunha que, assim como os animais do Planeta, as nuvens também precisassem de férias vez ou outra, sob o risco de se desfazerem ou se tornarem estranhas e mal formadas. Outra coisa que ele tinha certeza era que nuvens nascem, crescem e morrem, como morrem não sabia, mas o nascimento era visível nos lagos de águas calmas em manhãs frias, na chaleira fervente sobre o fogão, nas chaminés das caldeiras e até na respiração humana no inverno. Mas não sabia mais nada de concreto sobre esse ciclo vital, só tinha suposições que eram fundadas apenas nas suas observações que, diga-se, haviam nascido quase no mesmo dia que ele nascera. Sua mãe o havia colocado sobre uma toalha no gramado de casa poucos dias depois que ele veio ao mundo, e, como era inevitável, de barriga para cima, a primeira coisa que ele havia prestado atenção fora nas nuvens  estampadas como desenhos fofos naquele céu colorido de um azul brilhante. Desde aquele momento elas passaram a fazer parte de sua vida e, mais tarde, fora quase compulsório compará-las a algodão doce, carneirinhos e outras meiguices de sua infância. Viveu a infância e a mocidade inteiramente sob a égide dos castelos nebulosos que construía a custa de suas companheiras de jornada. Quando se viu diante da decisão de fazer algo na vida, não teve dúvidas, estudou meteorologia e tornou-se um meteorologista dedicado de tempo integral a sua causa. Deixou de ser estranho vê-lo contemplar os céus, absorto e sonhador, agora tinha como justificar sua paixão. Os termos técnicos que definiam funções e nomes de suas queridas em nada influíram no romantismo que punha nas suas relações com as nuvens. Cirrus, cumulus, stratus, nimbus e outras que pareciam híbridos como cumulonimbus, stratoscumulus , nimbostratus, cirrostratus, cirrocumulus, altocumulus e altostratus eram tecnicidades  necessárias a sua profissão, mas que não manchavam suas relações de longa data com as NUVENS, simplesmente. Fora um meteorologista dedicado e respeitável até se aposentar. Agora gozava de uma ociosidade ativa olhando as formações nublosas e lembrando que elas são tão interessantes e misteriosas como sempre o foram. Nuvens são apenas nuvens e não pretendem ser definidas em funções específicas com relação ao que os humanos esperam delas. Sejam quais forem nossas relações ou nossa informações a respeito das nuvens, o fato é que entre o céu e terra elas são soberanas; desde sempre são resultado e influem no clima e nas condições que tornam possível a vida sobre o Planeta e não há nada que possamos fazer para modificar seu caráter onipresente e atuante todo o tempo. Quando a humanidade já não habitar esse planetinha azul e o fim dos tempos para os homens tiver chegado, as nuvens continuarão aí ainda, formosas, flutuantes e volúveis, decorando o teto celeste sem ao menos se importarem com nós, e ressaltando nossa insignificância frente ao universo. JAIR, Floripa, 08/04/12.

sábado, 5 de maio de 2012

Pipas

Pipa tipo Bidê.
É natural inferir que praticamente todos que foram meninos nos anos cinquenta, sessenta, brincaram com pipas. Os nomes podem variar de região para região, de cidade para cidade ou até de bairro para bairro, mas a diversão é (ou era) a mesma: voar com os pés no chão. Como eu disse, as denominções podem variar, então temos além do nome genérico pipa, as variações: arraia, raia, papagaio, redonda, pandorga, cafifa, bidê, quadrado, piposa, pepeta, (g)jereco, barrilete, foguete e até joeira nos Açores.
Não é minha intenção inaugurar uma seção de saudosismo, contudo, é quase compulsório fazer algumas referências sobre minha infância vivida em Palmeira, cidade que não tinha mais que dez mil habitantes naquele tempo e que, por isso, não tinha grandes opções de lazer tornando o evento de empinar pipas algo saboroso e desfrutado com grande prazer pela maioria da gurizada. Época de pipas coincidia com férias escolares do meio do ano, não por acaso os ventos alísios eram favoráveis e os garotos passavam a dispor de maior tempo para a atividade. A temporada iniciava sem qualquer combinação prévia. Um belo dia, viam-se garotos saindo de casa com suas recém construídas pipas coloridas, havia um encontro informal num campinho desprovido de fios e postes, que em outros dias servia como campo de peladas. A disputa, se é que havia disputa entre os aficcionados, se fazia por exposição de pipas mais criativas, mais coloridas, mais elaboradas, dos artefatos que voassem mais alto ou por mais tempo. Adite-se que as pipas apresentavam uma variedade enorme de formas e tamanhos, fugia-se do mesmismo que impera nas criações de agora. Além disso, pipeiro de respeito jamais adquiria sua pipa no comércio, ele a confeccionava em casa sempre. Um empinador que comprasse uma pipa perdia prestígio e deixava de ser considerado autêntico pipeiro. Fui um pipeiro bem razoável, minha especialidade eram as pipas tipo “bidê”, as quais eu mesmo construía e até ganhava uns trocados vendendo aos menos habilidosos.
Certamente a tradição de soltar pipas mais antiga veio do Oriente, no Japão é mais que um simples hobby produzir e empinar artefatos sofisticados que colorem os ares. Lá há uma tradição que, cultuada por “pipeiros” profissionais, se traduz numa atividade a qual produz verdadeiras obras de arte voantes. Nós brasileiros acabamos conhecendo as pipas através dos colonizadores portugueses por volta de 1596 que, por sua vez, as conheceram através de suas viagens ao Oriente. Acredita-se que a primeira pipa do mundo tenha surgido na China, há cerca de 200 anos a.C. criada por um general chamado Han Hsin. Com o passar do tempo, as pipas que haviam sido criadas para fins militares, tornaram-se uma arte popular naquele país. Aos poucos, foram levadas para países vizinhos como Japão e Coréia.
De qualquer modo, as pipas adornam a atmosfera, disputam espaço com as nuvens, fazem acrobacias cheias de firula, colorem os céus e nos dão prazer. Pipas são a extensão natural dos braços dos aficcionados que, como asas, constroem a ilusão do voo. Ou assim deveria ser.
Infelizmente o que se vê hoje é uma perversa inversão do ludismo puro que devia permear uma atividade em princípio totalmente inocente e voltada ao lazer. Por alguma razão em total desacordo com o espírito esportivo que devia ser o motivador da atividade, empinar pipas passou a ser um evento potencialmente letal, adicionou-se à brincadeira o maldito cerol. Cerol é uma invenção diabólica que mistura vidro em pó com cola, que a maioria dos empinadores de hoje costuma colocar na linha de suas pipas para cortar as linhas das pipas de outros empinadores. Essa opção bélica de um brinquedo em princípio inócuo, já atingiu muitos inocentes causando mortes, principalmente de motociclistas.
As linhas de pipas tratadas com cerol adquirem um gume afiadíssimo que corta linhas e pescoços com a mesma facilidade. Essa atividade que pode ser chamada de criminosa é tão mais perturbadora por que, em caso de acidente com vítima, a responsabilidade, em geral, não pode ser atribuída a ninguém. Pelo fato de que linhas que decepam cabeças serem linhas enroscadas em postes, árvores, casas e muros e já não fazerem parte de uma pipa ativa, não têm como saber quem as deixou ali, até porque, em qualquer lugar que se encontre uma linha abandonada, muitos empinadores por ali estiveram. Além disso, em geral, as pipas cortadas por outras caem longe do pipeiro que as empinava, então a responsabilidade passa a ser difusa, não atribuível a ninguém em particular.
Pobre país que não consegue proibir o comércio de algo tão letal e não possui meios de coibir os que usam tal arma. Pobre país que possui uma legislação tão abrangente, ramificada e macarrônica quanto ineficiente e mal aplicada. Pobre Brasil varonil que vê dezenas de jovens motociclistas serem decapitados por improbidade ou displicência de outros jovens (e adultos também) e nada faz. Que país é esse que permitiu que se transformasse uma atividade lúdica num ato criminoso? Que país é esse no qual não se podem ver pipas no céu sem pensar que dali poderá resultar mortes de inocentes? Que país é esse? JAIR, Floripa, 28/04/12.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Jamais


Na verdade o nome do filme em português é “Não me abandone jamais” algo bem próximo do título inglês “Never let me go”, título de uma música que a protagonista Kathy H. ouve em fita cassete em várias ocasiões.
Se houver uma palavra que sirva para sintetizar a película será inquietante, e o sentimento que causa no espectador, eu diria que é um grande desconforto. A história se passa na Inglaterra e inicia nos anos 70 do século passado, portanto é uma ficção científica contemporânea, se assim se pode dizer. Sabe-se através de um narrador que as doenças todas haviam sido vencidas pela medicina em 1952 e que em 1967 a expectativa de vida é de cem anos. A nós, espectadores, parece uma notícia destituída de sentido.
Trata-se de uma geração de crianças internadas num educandário de nome Hailsham, um estabelecimento isolado do mundo externo e com padrão rígido de educação. Às crianças lhes é incutido que o mundo fora dos muros é hostil e até mortal, não lhes sendo permitido jamais sair das dependências do colégio. As referências das crianças são apenas seus orientadores, os quais dizem que elas são “especiais”, nenhuma informação exterior clandestina deverá ser considerada. Nada escapa do patrulhamento rígido de suas orientadoras.
Contudo, uma professora nova, estranhando que eles ignorem tudo sobre si mesmos, um dia lhes conta que eles são clones destinados apenas à doação de órgãos, diz-lhes ainda que não existe futuro para eles, quando receberem ordens farão duas ou três doações e depois “finalizam”, eufemismo que disfarça a morte prematura e compulsória que terão. Todos ficam sabendo que têm uma vida curta e sem qualquer sentido, são considerados apenas “peças de reposição”. Algo angustiante. Mas a professora que lhes contou tudo é demitida, então fica claro que não há outra escolha.
Quando atingem a adolescência os jovens são transferidos para uma fazenda onde encontram outros também com o mesmo destino, mas criados em outros educandários e supostamente mais cientes do “mundo lá fora”. Neste novo local circulam alguns boatos que se um casal estiver apaixonado e entre eles houver “amor verdadeiro”, a instituição a qual pertencem poderá dar-lhes uma prorrogação de vida. Ou seja, lhes será concedido três ou quatro anos a mais de vida até “finalizarem”, algo bem atraente para desesperançados clones que não têm futuro.
Bem, os protagonistas Kathy, Ruth e Tommy formam um triângulo amoroso em que Kathy e Tommy se amam, mas Ruth, sem explicação, introduz-se entre os dois e faz de Tommy seu amante. Kathy, magoada, não deixa de ter amizade com eles, mas torna-se amargurada.  Por esse motivo, ela resolve ser cuidadora, ou seja, uma espécie de assistente social que dá conforto e acompanha os doadores nas suas internações para doação; uma forma de adiar seu destino e de se afastar dos dois.
Passa algum tempo e Kathy, como cuidadora, acaba encontrando Ruth a qual não vê há dez anos. Ruth já fez duas doações e fará em breve uma terceira, o quê, quase com certeza lhe causará a “finalização”. Então é o momento que Ruth reatar a amizade com Kathy e ambas reencontrarem Tommy que se encontra em outra localidade.
Bem, não é o caso de contar o fim do filme e tampouco falar como cada um vê sua curta vida em particular. A história nos convida a uma profunda reflexão sobre vida e morte, sobre o objetivo de porque estamos aqui. Será que somos apenas peões sem outro destino que não morrer, seja uma morte “gloriosa” por uma causa, como supostamente morrem os soldados na guerra; ou morte comum num leito de hospital? E mais, seja qual for o fim, será um fim de vida que não dá sentido ao ato de viver? Algo assim: A vida é só isso?
Além disso, a certa altura, os protagonistas através de “ouvir dizer”, fazem conjeturas de quem seriam seus “modelos”, ou seja, quem seriam as pessoas que haviam fornecido o material genético que lhes deu origem. Chegam à conclusão que eram pessoas da escória, gente menos importantes cujas células agora transformadas em clones servem apenas para repor órgãos de gente de primeira, pessoas que realmente contam. É arrepiante, mas os clones parecem sugestionados por Pavlov, não ficam indignados ou questionam essa sua categoria de pessoas descartáveis, são passivos e só almejam viver um pouco mais, ganhar um tempo adicional de vida. Nesta altura pode-se fazer uma ligeira alusão aos nazistas quando viam um mundo nazificado onde subumanos, como eles chamavam os eslavos, por exemplo, seriam apenas escravos destinados a fornecer mão obra, suor e sangue para uma vida plena dos “arianos”.
Não sei, mas a obra dirigida por Mark Romanek, baseada num livro de Kasuo Ishiguro, escritor anglo nipônico, merece ser assistida, pensada e o jamais do título deveria ser o mote para refletirmos: jamais algo semelhante deve acontecer, sob o risco de nós perdermos para sempre aquele dom que supostamente é o que nos distingue dos outros animais e que chamamos de humanidade.  JAIR, Floripa, 14/03/12.