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quinta-feira, 31 de março de 2011

Sobre Hitler


Talvez o personagem mais escrutinado, discutido, analisado e julgado pelos historiadores, sociólogos, antropólogos e escritores tenha sido esse monstro. Milhares de livros e artigos são produzidos até hoje sobre essa excrescência que deixou sua marca de perversidade nas mentes e corpos de milhões de pessoas e conduziu as nações a uma guerra genocida que ceifou mais vidas que todas as guerras anteriores somadas. Joachim Fest, (1926 – 2006) nascido em Berlim, publicou em 1973 a biografia Hitler a qual é considerada ainda hoje um das principais obras de referência sobre o ditador, um marco na historiografia pós guerra. Contudo, alguns historiadores consideram a obra de Fest sobre Hitler "uma estilização do ditador como uma grande personalidade mundial". Assim, ainda que tenha sido leitura quase obrigatória até este século, em 2008 o historiador inglês Ian Kershaw lançou Hitler, obra de fôlego que, originalmente, continha 1600 páginas em dois volumes, depois enxugada para 1004 páginas em apenas um tomo. Nela, o autor, além de desmistificar certos aspectos “humanos” do celerado, aprofunda mais a análise de documentos já conhecidos e examina outros que ainda não se encontravam disponíveis ao público na época que Fest escreveu. A queda do muro e a abertura dos arquivos de guerra da Alemanha, permitiram trazer a público muitos eventos, decisões e informações que eram desconhecidos sobre o período que o Nacional Socialismo dominou a Alemanha e produziu a ideologia mais estúpida e mortal do Planeta.

Para Hitler, a guerra era tudo o que importava. Contudo, encerrado no estranho mundo da Toca do Lobo, ele estava cada vez mais distanciado de suas realidades, tanto das frentes de batalha quanto da Alemanha. O afastamento apagava quaisquer vestígios de humanidade que pudessem existir. Até mesmo com relação às pessoas de seu séquito que estavam com ele havia anos, não havia nada parecido com afeição verdadeira, para não falar de amizade; parece que a única ternura era reservada a sua cadela pastora alemã, Blondi, nem sua fiel namorada Eva Braun recebia quaisquer resquícios de afeição. Não obstante, incapaz de amar, o ogro era suscetível a destilar um ódio corrosivo a tudo e a todos. A vida e sofrimento humanos não tinham importância para ele. Jamais visitava um hospital de campanha, nem as pessoas que ficavam sem lar depois de um bombardeio aéreo. Jamais se dignou a apresentar-se frente às vítimas das cidades alemãs como Dresden, e Hamburgo as quais foram praticamente destruídas por incêndios que seguiram aos bombardeios noturnos da RAF, por exemplo. Não via massacres, não chegava perto de campos de concentração, não se deparava com prisioneiros mortos de fome. Aos seus olhos, os inimigos eram como vermes que era necessário liquidar, apenas isso. Mas seu profundo desprezo pela existência humana estendia-se ao seu próprio povo. Decisões que custavam a vida de dezenas de milhares de seus soldados eram tomadas sem consideração pelo sofrimento humano. As centenas de mortos e mutilados eram uma mera abstração, o sofrimento, um sacrifício necessário e justificado na luta heróica pela sobrevivência do Reich de mil anos. O partido e o estado estavam acima dos cidadãos.

Para Hitler, os meses que seguiram ao desastre de suas tropas em Stalingrado intensificaram seus traços de caráter rancoroso e paranóico. A fachada de otimismo absurdo, o mais das vezes, permanecia intacta em reuniões com aqueles que lhe eram próximos. Costumava decolar vôos imaginários de fantasias as quais já eram familiares a seus áulicos, mas que não faziam o menor sentido, Hitler viajava na maionese. Mas, vez ou outra, a máscara escorregava e deixava ver um homem inseguro acometido de profunda depressão e fatalismo. Nesses momentos, demonstrando a faceta autodestrutiva que acabaria provando ao se suicidar em 1945, soía falar em suicídio se seu projeto de uma Alemanha dominando o mundo não se concretizasse. Era a admissão fugaz para si mesmo que havia perdido a iniciativa e se recusava a jogar a toalha. Esse reconhecimento, ainda que não admitido formalmente, provocava invariavelmente torrentes de fúria que recaíam sobre qualquer um que pudesse ser inculpado, sobretudo sobre os generais da Wermach que, segundo sua visão distorcida, eram todos mentirosos, desleais, inimigos do nacional-socialismo, reacionários e incultos. Era seu sonho não depender de generais. Em último caso, culpava o próprio povo alemão, que consideraria fraco demais e indigno de sobreviver à grande luta. A medida que os reveses se sucediam, o celerado Führer sitiado apelava cada vez mais para a busca de vingança e retaliação implacável, tanto contra seus inimigos externos como internos – por trás dos quais ele via, como sempre, a figura demoníaca do judeu. Não havia influência pessoal que pudesse moderar sua desumanidade fundamental. O homem que fora idolatrado por milhões era um ser solitário na sua megalomania, não tinha amigos, com exceção de sua cadela Blondi e de Eva Braun, como ele próprio reconhecia.

Suas fobias, hipocondria e reações histéricas eram provavelmente indicadoras de alguma forma de distúrbio de personalidade ou anormalidade psiquiátrica. Era claramente paranóico, seu comportamento paranóide que o acompanhou desde o início da carreira política, tornou-se mais acentuado perto do fim. Mas Hitler não sofria de nenhum dos principais distúrbios psicóticos, com certeza não era clinicamente insano. Se havia loucura na posição que a Alemanha assumiu ao declarar guerra à União Soviética, contra todos os prognósticos que ia dar eca, não era devido à suposta loucura de um homem, em que pese que esse homem era o mais poderoso da Europa. A loucura estava na aposta de “tudo ou nada”, uma política de pontes queimadas que os poderosos mandantes nazistas se propuseram. Entraram num jogo mortal em que não havia empate, prorrogação ou disputa de pênaltis, era vencer ou morrer tentando, mas quem pagava o preço da derrota era o povo alemão.

Colocados agora à distância segura dos acontecimentos, podemos ficar perplexos com o fato de que, coletivamente, os habitantes de uma sociedade altamente moderna, sofisticada e pluralista estiveram dispostos a confiar na visão megalômana de um auto proclamado salvador político. Podemos ver agora que depois de alguns triunfos baratos fáceis, um número cada vez maior de cidadãos se dispôs a assinar um cheque em branco para seu grande líder, cheque esse que para ser descontado custaria a vida de 50 milhões de pessoas e mudaria a geografia política do Planeta para sempre.

“A Europa jamais conheceu tamanha calamidade para sua civilização e ninguém pode dizer quando ela começará a se recuperar de seus efeitos” foi o comentário do jornal inglês Manchester Guardian três dias depois do suicídio do ditador maldito. Não só a Europa, mas o mundo estava pagando o preço por não ter impedido que Hitler “se criasse” mesmo depois que ele deixou claro suas intenções no livro autobiográfico Mein kampf. Na verdade, o fato concreto é que torna-se uma tarefa virtualmente inexeqüível tratar um personagem tão complexo em apenas umas poucas linhas como neste ensaio. A maldade e as ações destrutivas desse gênio do mal são tão inomináveis que tudo que se escreveu sobre ele até hoje ainda é pouco e, talvez, nunca se chegue a uma análise definitiva de sua personalidade, contudo, por mais que se tenha dito, não devemos jamais esquecer de sua perversidade extrema e que devemos denunciá-la sempre para que não mais se repita na história da civilização, sob o risco de que um dia venhamos a viver aquele horror novamente. JAIR, Floripa, 08/03/11.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Uma história nada edificante



Quando os bombardeios americanos sobre o Japão causaram os maiores estragos na economia e a comida começou a faltar, o exército japonês decretou que o zoológico de Ueno em Tóquio era supérfluo, deveria ser fechado. Cortaram todos os suprimentos para os animais. Os tratadores receberam ordens de sacrificar todos os bichos que representassem alguma possibilidade de lucro. Ou seja, partes de animais como cobras e tigres, por exemplo, eram verdadeiras preciosidades, seus dentes e ossos podiam ser vendidos a peso de ouro para atender uma medicina popular tradicional, sem contar que as peles da maioria dos animais exóticos eram valiosas e suas carcaças representavam fontes de proteínas. As autoridades ordenaram a matança a golpes de espadas, por tiros ou veneno. As carcaças e peles dos animais “aproveitáveis” foram levadas pelo exército, os demais foram descartados num aterro sanitário, com exceção de três elefantes amestrados, John, Tonki e Wanli.

O marechal que havia ordenado o morticínio, entendendo que havia uma forte ligação entre os tratadores e os elefantes, e que os elefantes eram animais muitos inteligentes, inferiu, por uma lógica nem um pouco inteligente lá dele, que os animais deveriam morrer de fome e que os tratadores deviam viver com os animais no zoo abandonado e vê-los definhar até a morte. A ligação elefante-tratador sendo tão íntima traria, com certeza cartesiana, uma lição a ser entendida, no entendimento do comandante militar da capital. Aos tratadores não foi permitido o uso de quaisquer armas para abater os animais, soldados cuidavam para que a ordem do marechal fosse cumprida à risca.

Os pobres tratadores desde o começo das privações alimentares, ou seja, desde o começo da guerra, haviam plantado uma pequena horta no próprio zoo, de onde tiravam seu magro sustento. Diante do sofrimento dos animais depois do decreto do marechal, resolveram repartir seu alimento com eles, fora das vistas dos soldados que os vigiavam. Esse apego e sacrifício dos homens, na melhor das hipóteses, somente prolongaram a agonia dos animais, meia batata doce por dia não alimentava o elefante, apenas adiava sua morte e prolongava o sofrimento, mas sua falta poderia ser fatal aos homens. E o marechal a tudo observava e tirava ensinamentos. Os treinadores e cuidadores ouviram que seu sacrifício era pequeno em comparação ao que os soldados nas ilhas mais distantes estavam passando: “Porque isso é o que significa ser um verdadeiro filho do imperador”.

O elefante mais novo, John, depois de dezessete dias, morreu de inanição. Por dedução lógica e fria, tanto homens como elefantes podiam viver três minutos sem ar, três dias sem água e três semanas sem comida, essa era a matemática que movia o marechal na busca da epifania que lembrasse aos homens sua mortalidade e que suas vidas pertenciam ao império e este podia delas dispor a seu talante.

Quando chegaram à terceira semana de inglório sacrifício, dos dois restantes elefantes só se notavam as enormes orelhas adornando corpos esqueléticos. E, como um dos tratadores relataria mais tarde, quando ele se aproximava da jaula, Tonky e Wanli se erguiam nas patas traseiras com as trombas levantadas, os olhos ainda amorosos parecendo implorar: “Por favor, dê-nos algo para comer”.

Àquela altura, os próprios treinadores e cuidadores estavam à beira da morte, mas, quando os soldados se distraíam eles ainda davam parte de suas magras rações aos amigos elefantes. O sacrifício estava conduzindo todos à morte, os homens começavam a questionar sobre a inutilidade e estultice desse gesto que, na ótica do marechal, era um exemplo de nobreza de propósito.

Os dois animais restantes demoraram mais de um mês para morrerem. Quando o treinador chefe os descobriu mortos na jaula eles estavam em pé, com as trombas levantadas num gesto chamado banzai que haviam aprendido, parecia estarem demonstrando o truque para serem recompensados com alimento como era o costume.

A lição que se tira deste lamentável acontecimento é que o fanatismo, qualquer cor ideológica que tenha, é a manifestação mais repugnante e abominável que o ser humano pode desenvolver, o fanatismo distorce o sentido das prioridades, converte idéias em axiomas em prol de metas em que o homem, ao invés de fim é o meio para se alcançar objetivos escusos ou inconfessáveis. O nome do marechal não consta em nenhuma referência sobre o episódio, provavelmente foi legado à lata de lixo da história juntamente com outros monstros que, em nome de doutrinas, tripudiaram sobre animais e outros seres humanos. Diante dessas abominações é difícil acreditar que a humanidade, algum dia, vá se redimir e se tornar digna de viver neste adorável e acolhedor planetinha azul. JAIR, Floripa, 10/12/10.