quarta-feira, 25 de julho de 2012

O escritor


Nada mais próprio do que, neste 25 de julho, lembrar daqueles que são, antes de quaisquer outros, os esteios da civilização, os escritores. Se pararmos para pensar um mero segundo, é fácil perceber que sem escritores esse mundo como o conhecemos não existiria.  Desde a adoção da escrita pelos que nos antecederam foi possível, não só registrar o fato, o evento, o pensamento, mas principalmente transmitir o conhecimento para os pósteros. Existem algumas culturas bastante antigas até, como os aborígenes australianos, que nunca adotaram qualquer simbologia convencional que transpusesse a barreira do tempo e do espaço levando suas descobertas e costumes a outros, seja de sua etnia ou estrangeiros. Talvez isso explique em parte por que existem centenas de idiomas e dialetos em um povo que não está separado por barreiras naturais. Quando os europeus chegaram à América se depararam com alguns milhões de indígenas que também não tinham escrita formal e suas etnias e línguas eram (ainda o são em certa medida) pulverizadas em milhares de variações, algumas nem pareciam vir do mesmo tronco linguístico de tão diferentes.
Por esses exemplos e comparando com as civilizações que hoje “dominam” o Planeta é possível aquilatar a importância que sempre teve a escrita. Desde aqueles amanuenses mesopotâmicos que, através de plaquinhas de argila, registravam transações comercias e certa contabilidade rudimentar, até cientistas dos séculos das luzes que, graças à invenção da imprensa de tipos móveis, puderam apresentar suas ideias e descobertas, todos os escritores formavam a base sólida da civilização.
Hoje as novas tecnologias que permitem publicações como e-boock, parece, tornaram o livro em papel dispensável, mas isso não é verdade. Até já escrevi sobre o assunto: “Um país sem livros é um deserto de idéias”, essa frase é minha e traduz o que penso sobre a importância da palavra impressa. Palavra impressa, diante das novas formas de levar as idéias até ao leitor, é apenas uma expressão, porque na verdade o que chamamos de livro sofreu inúmeras adaptações aos novos meios de informação e tornou-se algo muito diferente do que foi no passado, contudo, a essência do livro continua a mesma. O livro é ponte sagrada sobre a qual a humanidade passa para encontrar os rumos que conduzem à civilização. O suporte para o livro não importa, ao longo da história os homens firmaram aquilo que seria importante para suas gerações em pedra, pergaminho, papiro, madeira, metal, papel e, agora, em elétrons na forma de e-book. Lembrando que e-book é uma abreviação para “electronic book”, ou livro eletrônico: trata-se de publicação com conteúdo idêntico ao de uma possível versão impressa, com a característica de ser, claro, uma mídia digital.
Assim, caros escritores e escritoras, hoje é um dia muito especial para todos, porque se reconhece a importância para a humanidade a arte de escrever. Parabéns a todos! JAIR, Floripa, 25/07/12. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

A guerra fria acabou?


Logo depois da segunda grande guerra o mundo civilizado se viu frente a duas ideologias opostas que, de diferentes formas, queriam impor suas vontades políticas, econômicas e colonialistas ao resto do mundo. Na pratica, o lado “ocidental” representado pelos EUA opunha-se ferozmente a tudo que viesse da então União Soviética que apregoava uma visão de sociedade que se contrapunha à “nossa” visão. No campo militar as duas superpotências empreenderam várias guerras “por procuração” onde os embates se faziam em outros países com armamentos, suprimentos e acessoria das potências antagônicas. As guerras no oriente médio envolvendo árabes e israelenses eram (ainda são em certa medida) emblemáticas desses atritos entre EUA e URSS. Assim foi na Coréia onde tropas mistas de coreanos e chineses recebiam armamentos dos soviéticos e lutavam contra os EUA e seus aliados. Vietnã representou outro local em que as potências se enfrentavam por procuração. Em Angola, embora não houvesse atividade direta de tropas do ocidente, havia apoio com armas de um lado e de outro. Kosovo na ex Iugoslávia marcou a presença de bombardeios da ONU capitaneados pelos EUA, e tropas assistidas e armadas pela URSS do outro lado. No Afeganistão as tropas soviéticas se atolaram contra guerrilheiros armados com mísseis Sting fornecidos pelos americanos. Destaque-se que, em 1962, em Cuba, foi a única vez que as duas potências estiveram cara-a-cara e arreganharam os dentes diretamente uma para a outra. Houve, durante o período, inúmeras frentes de baixo impacto como em Granada, no Panamá, na Bolívia, na Líbia e alguns países africanos que bem ilustram essa rivalidade.
Com o fim da chamada Cortina de Ferro, depois que o regime socialista da URSS se desfez, parecia, finalmente, que o motor que impulsionava a história havia perdido sua força motriz e parara. As ideologias conflitantes deixariam de existir depois que a Rússia seguida de seus ex-satélites adotou a democracia como forma de governo e o capitalismo como opção econômica. Foi aí que ficou famosa a tese de Francis Fukuyama, filósofo nipo americano que publicou um trabalho que o tornou famoso que apregoava o “fim da história” já que não havia mais antagonismos ideológicos que a impulsionasse. Também eu, como a maioria das pessoas, não li o trabalho de Fukuyama, mas a enorme massa de referências a ele faz com que sinta certa “intimidade” com a tese.
Todo mundo admitiu e levou em conta que a Guerra Fria (A História, segundo Fukuyama) acabou. Será verdade mesmo? Vejamos. A Síria, com mais de 22,5 milhões de habitantes, é palco da mais violenta repressão contra opositores ao regime entre os países da chamada "Primavera Árabe", que começou no final de 2010 quando um jovem tunisiano ateou fogo ao próprio corpo como forma de protesto às condições de vida naquele país do norte da África.  Desde então, quatro ditadores de países da região - Ben Ali, da Tunísia, Hosni Mubarak, do Egito, Muamar Kadafi, da Líbia, e Ali Abdullah Saleh, do Iêmen - foram depostos ou mortos. Bashar al-Assad, ditador vitalício da Síria, contudo, segue firme no poder, enquanto a população acusa o regime de uma brutal repressão. Foram registrados mais de treze mil mortos entre civis desde que começou a rebelião.
Como pode uma rebelião mostrar tanto vigor e fôlego e com quais fontes de armamentos pode contar? Como uma ditadura altamente impopular se opõe a resoluções da ONU e mantêm-se firme no combate à rebelião? Pois é, a guerra fria não acabou, e, segundo Samuel P. Huntington, o que temos agora é um "choque de civilizações". Armamentos e suprimentos são fornecidos aos rebeldes pelo ocidente (leia-se EUA) e China e Rússia não só apóiam Assad com todo armamento mais moderno (Kalashnikovs, leia também “A harpa do demônio” (06/02/11) neste blogue), como se opõem que o Conselho de Segurança da ONU reprove ou intervenha nas ações do ditador. Quem achava que a guerra fria tinha acabado pode reformular sua opinião, enquanto houver ditadores de quaisquer cores ideológicas dispostos a oprimir seus concidadãos, haverá uma “potência” estrangeira disposta a apadrinhá-los por motivos nem sempre muito claros já que a dicotomia leste-oeste representado os bons de um lado (qualquer lado, dependendo se estamos no ocidente ou no oriente) e os maus do outro, deixou de existir. A guerra fria está mais quente que nunca. JAIR, Floripa, 23/07.12.  

sábado, 21 de julho de 2012

Dingo


A civilização aborígene australiana na verdade é oriunda da Polinésia de onde teria migrado para o continente australiano há quarenta mil anos. Pelas evidências arqueológicas sabe-se hoje que após as primeiras migrações sucederam-se outras há menos de trinta mil anos. Outras evidências fósseis demonstram que, junto aos polinésios que migraram um pouco mais tarde, vieram cães domésticos que serviam de companhia, guarda e até fonte de proteínas nos piores momentos.
Pois é, esses cães domesticados, aparentemente, ao chegarem ao continente australiano ficaram seduzidos pelas grandes extensões de terras selvagens desprovidas de predadores e supostamente repletas de presas fáceis. Então, fugindo do controle de seus parceiros humanos, tornaram-se selvagens, apesar do deserto inóspito que tiveram que encarar. Há que se notar que, por um capricho evolutivo, todos os mamíferos nativos da Austrália são marsupiais, ou seja, possuem um marsúpio (bolsa externa) onde o bebê se desenvolve depois de sair de dentro da mãe. E o dingo era o único mamífero placentário encontrado naquelas paragens quando os europeus colonizadores lá desembarcaram. Então o cão selvagem dingo se destacava na paisagem.
O dingo, ao contrário da maioria dos canídeos, não é animal de matilha, ele se comporta como um caçador solitário e só forma família por ocasião do acasalamento. Seus ancestrais devem ter chegado quando os cães ainda eram relativamente selvagens e mais perto de seus ancestrais asiáticos, lobos cinzentos, os Canis lupus. Desde então, vivendo em grande parte distante de pessoas e outros cães, juntamente com as exigências da austera ecologia australiana,  o dingo desenvolveu características e instintos que os distinguem de todos os outros caninos. O habitat natural do dingo pode variar de desertos, pradarias até beira de florestas, que no caso da Austrália são florestas de eucaliptos, pois lá existem mais de duzentas espécies dessa árvore. Normalmente esse bicho elegante e esquivo não pode viver muito longe da água, então costuma usar como abrigo tocas abandonadas ou troncos ocos nas margens dos rios e lagos.
Apesar de serem “estrangeiros” adaptados ao meio australiano, dingos desempenham um papel importante nos ecossistemas da Austrália, pois são predadores, na verdade os maiores predadores do continente, visto que a maioria dos marsupiais se contenta e comer folhas e frutos. Os dingos não são exatamente mansinhos, sua vida de livres caçadores os dotou de instintos apurados, força, agilidade e resistência de modo a serem sobreviventes num ambiente desértico como o Outback onde vivem em sua maioria. Por causa de sua suposta ferocidade e ataques a animais domésticos, esses cães selvagens são vistos como pragas pelos criadores de ovelhas que tendem a dizimá-los nas áreas de fazendas de ovinos. Os métodos de controle de suas populações normalmente são contrários aos esforços de conservação que os órgãos do governo tentam implantar. Tão burra é a caça a esses animais que os pecuaristas não percebem que podem se beneficiar da predação que os dingos exercem em coelhos, cangurus e ratos, bichos que disputam alimentos com os carneiros. Para minorar o possível ataque de dingos às criações de ovinos construiu-se, entre 1980 e 1985, uma cerca de 5600 quilômetros que isola o sudeste de Queensland onde se encontram os maiores rebanhos. Essa é maior cerca do Planeta que se tem notícia. 
Como disse acima, os dingos são selvagens e se viram para sobreviver, assim, é perfeitamente viável que, em algum momento um ou outro famélico cão desses tenha se aproveitado de algum ser humano indefeso para se alimentar. Agora, depois de 32 anos, está comprovado que um dingo abocanhou uma criança em uma barraca de acampamento e comeu-a. Resolução de um caso de 1980 que dividiu a nação, e levou a uma condenação por homicídio equivocada, um juiz australiano declarou que um dingo levou um bebê de um acampamento no Outback, assim como sua mãe disse que desde o início. Muitos australianos, inicialmente, não acreditaram que um dingo era forte o suficiente para agarrar o bebê Azaria com a boca e arrastá-lo. Nenhum ataque de dingo semelhante já havia sido documentado na época, mas nos últimos anos os cães selvagens foram responsabilizados por três ataques fatais a crianças. Ainda assim, algo infinitamente distante das centenas de ataques com ferimentos e mortes causados por pitbulls, por exemplo. sem contar que ataques de pitbulls são gratuitos por assim dizer, enquanto dingos atacam a presa para se alimentar. 
"A partir de agora a Austrália não será capaz de dizer que dingos não são perigosos e apenas atacam se provocados," a Sra. Chamberlain-Creighton, disse antes de deixar o tribunal para onde fora com seu ex-marido e seus três filhos sobreviventes para pegar o certificado de óbito de Azaria. "Vivemos em um país bonito, mas é perigoso e gostaríamos de pedir todos os australianos para tomar cuidado com isso e tomar as devidas precauções," disse a mãe de Azaria.
Contudo, esse é o único caso registrado em que se provou a morte de um ser humano por um dingo sem este ter sido provocado.  Na verdade quem está sendo ameaçado de extinção pelo homem é o dingo. Hoje estima-se que a maioria dos modernos "dingos” são descendentes dos mais recentemente introduzidos cães domésticos. Esses híbridos continuam sendo chamados de dingos e têm aumentado significativamente nas últimas décadas, e o dingo original passou a ser classificado como em perigo de extinção.
Já fiz referências em outros textos sobre cães ao mais diversos, mas especialmente sobre o nobre vira latas, nosso tão conhecido cachorro de rua, animal que pelas características é o grande representante da espécie dos canídeos. Pois agora quero deixar aqui registrado: o magnífico dingo é um vira latas com upgrade, um vira latas dois ponto zero, com todas as melhores características do cão de rua, somadas a sua longevidade como raça, sua resistência em sobreviver em ambiente hostil e sua enorme adaptabilidade. Se houver chance de voltar em uma encarnação posterior, gostaria de voltar como um dingo, e entendo que com isso eu estaria sendo bonificado com uma bênção que nenhum ser humano merece. JAIR, Floripa, 20/07/12. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mais sandices!


Colorau! Vociferavam templários alhures. Mais que simples ebúrnea, previa-se que tal manifestação gestasse distúrbios gástricos no já malvo aparelho vesicular do Estado de espírito. Não era tão simples a política de toalhas molhadas a que se propunha o itinerante governo de ninguém representando nada, que se fazia sentir como o último recurso versátil para salvar o replublismo. Alguns apoiavam a terra arrasada que se avizinhava diante de tanta populeta disforme; de tanto calemburismo autocentrato visível nas medidas sobejantes já tão amplamente reconhecidas. Haja velino! Embrocações, profilaxia e justimentos era o mínimo que se podia esperar de tal situação, vestíbulos alumbrados já iam e vinham por conta do caotismo criado a partir das pressões méssicas aderentes.
No amplo campo das conjeturas apriorísticas ninguém arriscaria um níquel furado no futuro do pentimento, mesmo porque acreditava-se que se futuro houvesse estaria contaminado de soluções pretéritas semióticas, nada típico, portanto. Marx e Teresa de Calcutá, referências compulsórias para o ressurgimento de idéias sistemológicas, nada representavam se fôssemos adjudicar preâmbulo bestialógico ao que já se encontrava Non sequitur por antecipação. Ça va sans dire, é a forma mais elegante de demarcar o fosso existente entre leste e oeste, para não falar entre norte e sul dos hemisférios latentes de uma mesma ideologia presbítera.
De acordo com antropomorfismo residual, como antecipar um resultado de alocações espúrias já pressentidas? Nada a declarar! Não há precedente que justifique qualquer inferência locativa permanente. Melhor tergiversar, nos anódinos ditames da blogosfera é melhor adiar para sempre do que antecipar uma possível solução zerada de conteúdo. De acordo com Bruñuel: “Todos serão poucos se não forem acrescentados ao total”, não que ele pretenda encerrar o assunto e assumir que o Planeta gira em torno da Lua como é amplamente sabido por quase a totalidade dos habitantes da Somália equatorial. Mas, melhor que não saber, é saber que não se sabe, o que quer que não se saiba, se me fiz entender. Pósteros de T.G, Dalcin vaticinaram a vertente legítima de saibros e anteras primordiais, não há o que discutir, portanto.  
Vamos devagar para entender como a defesa dos entreveros e supérstites se fará a partir dos dados coletados in loco, após a débâcle anunciada. Se todos se ativerem a meros espectadores das dores alheias, já seria meio caminho percorrido para avultar a semiótica astrolábia do ecumenismo diletante. Porquerias, poderiam os adeptos do formalismo buromédico afirmarem. Porém, longe de assumir a dessemelhança audível entre estes e aqueles, é mais patente correr em prol da libertação dos epicuristas brânquios da Lapônia. Há quem afirme de pés juntos que os que assim procederam, tiveram assistência femoral quadrangular efetiva, e os que ignoraram o aviso de não flautear, perderam seus dedos antes dos anéis. Abominações se fizeram sentir nos primeiros albores da prosaica meta abominável, nada diferente do esperado diante de tal procedimento.
Vetustos bacharéis se arvoraram em defesa das gaivotas e tetréis albinos do longínquo Cazaquistão, mas nada indica que esse proceder vá interferir no andamento dos ligúrios classistas representativos de suas comunidades. Nada indica que uma política platônica rica em nuances fremológicas possa alterar o status quo alcançado após as últimas abluções vespertinas dos maçônicos. Haverá um impasse, portanto. Em defesa da verdade provecta e rubicunda há que se esclarecer todas a implicações arbóreas dos vícios anódinos, que se fizeram em consequência do problema dos dendrobatas que não perceberam a fragilidade dos fundos de pensão. Carpe diem!, é a maneira jocosa que eles encontraram para livrar-se da incômoda pecha de nada constarem nos autos. Nada consta! Não existe nada tão desprável desde que o mundo é mundo. É lamentável.
Escolásticos não tiveram a inteligência de formular com um mínimo de incoerência os roteiros helvéticos necessários ao bom desempenho das máricas do oceano austral. Assim, ficam completamente ultrapassados os conceitos anelados pelo Gorkismo fácil, o qual em tudo vê ideário anarquista, quando sabemos que a retribuição leminguista (com todo respeito a Pulo Leminski de saudosa memória) só se fará presente quando ligarmos os pontos cardeais aleatórios já ao alcance da vista de visionários de plantão. Haja pormenores!
E como ficam as firulas menstruais da minoria fermiciana?  Nada a declarar também? Duvidamos. O claro da história sempre está relacionado a hóstias degradadas encontráveis em esconsos vértices de escadas epistemológicas que levam a lugar nenhum, sempre. Remake de ideias para usar um eruditismo démodé como quase todas as citações amesquinhadas do vernáculo vis-à-vis da nossa malquerida e vergastada Pátria. Ah bom! Então é isso! O que quer que isso seja.
James Joyce, na sua caramélica obra “Dr. Ulisses” previu a defasagem conflituosa entre os menestréis e menestroas do abissal sistema gráfico orgástico das letras. Já que assim se ministrou saberes sobre astrolábios e fazedores de tempestades, nada custou extrapolar as aramaicas crostas de saponáceos esponjosos dentro das firulentas prebócides. Então que assim seja. Todos seremos mundialmente desconhecidos em algum momento de nossa existência, e isso não prêmio. Considerando que Joyce escreveu torto por linhas retas, não custa imaginar o que seria se nas avenças lhe tivesse ocorrido perpetuar batráquios e equinócios numa só paráfrase. Sonhar é de graça.
Parênquimas foram detectadas em plena florescência dramática nas entrelinhas efusivas do tomo um das memórias ulissianas, então, de nada adiantou continua persistindo no acabrunhamento das vestais. Pobres coitadas! O tríduo permitido pelas autoproclamadas autoridades permitiram, mais uma vez, tapar o sol com a pereira florida, parece até lugar comum, mas não é. Se fez necessário um prepúcio introdutório às fácies do monstro entrevisto nas sombras. A ninguém é permitido chorar o leito desarrumado, só vivemos uma vez, então rabotemos à vistoria demagógica! Não há uma segunda chance. Ainda bem, dizem alguns.
Festejar o quê? Festejar pelo simples fato de saber o sabível, ou comemorar fogos fátuos? Não haverá resposta fácil até que cheguemos ao fim do arco-íris que, neste caso, é a remoção pura e simples de tudo que se antepara ao bem servir a Pátria, seja esta reconhecida ou não, não nos cabe julgar. Ódio jamais, lateralidade não é opção, até porque Demócrito sempre teve razão. Floripa, 25/01/12. 

domingo, 15 de julho de 2012

Formigas verdes


Na região leste australiana, no estado de Queensland, existe uma espécie endêmica de formiga chamada de formiga verde porque possui o abdômen dessa cor. Talvez por existir apenas naquela região não é muito conhecida pelos entomólogos e não figura em destaque em quase nenhuma produção literária, aliás, nem mesmo os australianos de Queensland sabem muita coisa sobre ela.
Talvez nunca se viesse a conhecer qualquer coisa a respeito dessas formigas se não fosse o cineasta alemão Werner Herzog que fez um filme nem um pouco conhecido que tem como atração a fantasia mística que esses insetos exercem sobre o imaginário de tribos aborígenes que vivem no out back e têm as formigas como portadoras de bons augúrios. “Onde sonham as formigas verdes” é o nome da obra do diretor alemão. No coração selvagem da Austrália, um grupo de aborígenes de uma tribo em extinção defende um local sagrado contra o avanço dos tratores de uma companhia de mineração. É o local onde sonham as formigas verdes. Perturbar o seu sonho irá destruir a humanidade, eles acreditam. Os nativos entram em conflito com as leis da Austrália moderna, e a disputa é feita em um tribunal.
Não é caso de falar sobre as mensagens do filme onde há um confronto dos valores cultuados pelos nativos com o capitalismo selvagem que só vê lucro a tirar daquele pedaço de deserto. Mas, vale falar sobre como os australianos nativos incorporam as verdes formigas à sua cultura.
Em meados dos anos setenta, geólogos da Queensland Mines Ltd. se depararam com um pequeno sítio de terra numa região remota da Austrália, região norte de Nabarlek que acabou sendo o mais rico depósito de urânio do Planeta. O minério enterrado abaixo da paisagem encontra-se em formações altamente concentradas de fácil acesso, a menos de 18 metros de profundidade. Assumindo que os direitos de mineração poderiam ser facilmente obtidos a partir dos proprietários indígenas, a empresa australiana rapidamente assinou contratos para vender US $ 60 milhões de minério para empresas japonesas. O que os executivos de mineração não levaram em conta foi a relutância dos indígenas em perturbar as formigas verdes que vivem perto do local.
A formiga verde é um incômodo para os moradores de regiões urbanas e suburbanas da Austrália. As formigas geralmente constroem seus ninhos no subsolo sob a maioria dos tipos de gramíneas, ninhos que muitas vezes passam despercebidos até que alguém, ou às vezes algum animal, é mordido. A mordida da formiga em si é muitas vezes invisível, no entanto, o veneno que ela injeta através de uma picada, em seu abdômen, inicia uma forte sensação de queimadura segundos após a picada e permanecendo por um tempo de cinco minutos até duas horas ou às vezes mais. O veneno é geralmente inofensivo, mas se um grande número de mordidas for recebido de uma só vez, a enorme quantidade de veneno injetado no corpo às vezes pode tornar uma criança pequena doente por algumas horas ou mais, geralmente nada para se preocupar, exceto um choro perseverante que incomoda os adultos.
Contudo, para os australianos nativos que são místicos e cultuam a natureza com uma mãe benfazeja que tudo lhes dá sem nada pedir em troca, a existência das formigas verdes naquele pedaço de chão é um sinal de fartura e futuro tranquilo. Qualquer mudança no clima ou nas condições do terreno que prejudique ou impeça o sonho das formigas é um mau sinal que angustia suas mentes e traz desconforto social para todo o povo porque o mundo pode acabar. Elas fazem tudo para preservar o ambiente das formigas, equivale dizer, eles preservam a natureza e pouco modificam as condições em que elas vivem. 
Então, como entender que homens brancos, movidos por alguma coisa tão execrável como dinheiro, quisessem cavar o solo e desalojar as formigas que ali viviam por milhares de anos sem serem incomodadas e sem incomodar ninguém? Como entender que homens ditos civilizados pudessem matar as formigas para se apossar de um produto enterrado no solo que os nativos nem sabiam para que servia, e que, mesmo aqueles escavadores incréus não sabiam explicar exatamente qual era seu uso?
O conflito resultante da visão mística e até certo ponto ingênua dos aborígenes, e da fome de lucro dos capitalistas em explorar as jazidas de urânio, deu azo ao filme de Herzog. O que vemos na obra é o choque de cultura, o abismo enorme criado entre a visão natural dos nativos e a prepotência do homem branco. É um filme sobre as coisas pequenas e simples que vão além de qualquer ganância ou providência que o dinheiro pode tomar. Os nativos, mesmo seduzidos com a promessa de milhões de dólares a ser doados à sua comunidade em troca da exploração das minas, não aceitaram perturbar o sonho de suas amadas formigas, deitaram-se no solo e impediram que as máquinas iniciassem os trabalhos de escavação. A “disputa” entre esses liliputianos ecologistas, contra os gigantes operadores de máquinas famintas e poderosas, se estendeu por vários meses até que o capital irracional perdeu a luta e resolveu procurar urânio em paragens onde não moram nativos e tampouco existem formigas verdes.
Há que se notar que, a não ser pelo filme de Herzog, a imprensa mundial jamais publicou uma linha sequer sobre esse incidente em que uma comunidade, “selvagem” por definição, travou uma luta contra todo-poderosos empresários e saiu ganhando. Que o sonho das formigas verdes não seja perturbado jamais em nome daqueles que se preocupam com a sobrevivência da humanidade. JAIR, Canoas, 12/07/12.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Os gafanhotos


Na Bíblia, Êxodo 10, fala-se da praga de gafanhotos que teria assolado o Egito. Então, hoje quando grandes plantações são assaltadas por milhões desses insetos famintos, os quais em poucos dias conseguem devastar milhares de hectares de cultivo, ao imaginário popular é quase compulsório associar essas catástrofes com aquela da passagem bíblica. Quase todos os anos são veiculadas notícias de hordas gafanhotais, ora na África, ora na Austrália ou até nas Américas, porém, quase não se compara essas pragas com o desmatamento. Aquele desmatamento sistemático, continuado e nocivo que, em muitos lugares, detonam as florestas para sempre.
Nasci e vivi até aos dezessete anos em Palmeira, cidade do Paraná que naquele tempo era cercada de pinheirais por todos os lados. A Araucaria angustifolia, mais conhecida como pinheiro do Paraná é, talvez, a árvore mais bonita de nossa flora.  É uma sobrevivente, há provas fósseis que já existia há mais de 200 milhões de anos, quando sua população se disseminava do sul até o nordeste brasileiro. Essa bela conífera pode atingir até 50 metros de altura, com um diâmetro de tronco à altura do peito de 2,5 metros. Sua forma é única na paisagem brasileira, parecendo uma taça de champanhe com um longo e delgado cabo. Ocupando uma área original de 200 mil quilômetros quadrados, a partir do século dezenove foi intensamente explorada pelo alto valor econômico da madeira que produz. Também suas sementes são altamente nutritivas, e hoje seu território está reduzido a uma fração mínima, o que, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), coloca a araucária em perigo crítico de extinção.
Pois bem, uma notável concentração de árvores de grande valor comercial é natural que, como cultivares atraem gafanhotos, atraia pessoas, madeireiras e corporações interessadas na exploração de tal tesouro a céu aberto. Em Palmeira não foi diferente, nos anos quarenta do século passado atraiu gafanhotos famintos na forma de madeireiras administradas por gente tão gananciosa por lucros quanto estúpida. Por uma injunção maléfica do destino, os pinheiros de minha terra natal atraíram famílias de madeireiros descendentes de italianos: Malucelli, Cherubim (pronuncia-se Querubim) e Mansani, sobrenomes que podem lembrar aquelas famiglias mafiosas da Cecília e da península italiana.
A Araucária é uma espécie exclusiva da floresta ombrófila mista, isto significa que ela cresce em consórcio com outras tantas árvores desse tipo de floresta, daí, além de seu valor comercial intrínseco, as demais árvores também representam ganhos para os madeireiros. Imbuias, cedros, canelas e outras madeiras usadas na fabricação de móveis encontram-se em abundância entre os pinheiros. Os gafanhotos carcamanos que exploravam os pinheirais tinham como “bônus” as outras espécies a sua disposição, era mamão com açúcar.
Particularmente a Madeireira Malucelli começou suas atividades se estabelecendo na localidade de Três Morros, distante alguns quilômetros do centro urbano de Palmeira, que naquele tempo não passava de um aglomerado de casas de cinco mil habitantes, cuja economia baseava-se na extração de erva mate (Ilex paraguariensis) muito abundante na região. Pois tão logo os pinheiros escasseavam em Três Morros, os gafanhotos, digo, os Malucelli, mudaram sua madeireira para Pinheiral de Baixo, onde nasci. Claro que, também em Pinheiral, a abundância de Araucárias não foi suficiente para manter ocupadas as mandíbulas famintas das máquinas por muito tempo. Lá foram eles com suas serras, machados, tornos, caminhões e prensas para a sede do município. Com essa mudança da indústria vieram meus pais, meus dois irmãos e eu que era um bebê de dois anos.
Morávamos numa casinha de madeira à entrada principal da fábrica como a chamávamos, e de nossas janelas víamos o trânsito dos caminhões que traziam as toras brutas das florestas. Podíamos acompanhar todos os dias os carregamentos dos cadáveres das Araucárias e de outras árvores que adentravam a fábrica para saciar a fome das máquinas e encher os bolsos dos Malucelli. Qualquer pessoa minimamente esclarecida ou que quisesse enxergar, podia perceber que ao ritmo que se devastava, aquelas matas em pouco tempo deixariam de existir. Mas a fome de lucros fáceis era muito grande, as florestas que se explodam. Acrescente-se que os operários que labutavam na fábrica eram mal pagos e seus salários em decorrência de suas jornadas de trabalho traduziam quase trabalho escravo, em total desacordo com as Leis Trabalhistas. Sou testemunha de tal regime porque trabalhei lá. Em virtude de ser menor de idade ganhava metade de um salário mínimo mensal, mas a jornada e a brutalidade do trabalho eram iguais aos de adultos, minha audição está comprometida até hoje por ter trabalhado naquelas serras elétricas de ruído altíssimo sem qualquer proteção.
Bem, então lá estavam os Mansani, Cherubim e Malucelli devastando toda a mata ombrófila das cercanias de Palmeira sem qualquer preocupação com o futuro, talvez incapazes de perceber que estavam comprometendo o futuro de suas indústrias e deles próprios pelo desmatamento irracional. Há quem diga que aquelas atitudes anti ambientais eram necessárias e corretas para o “desenvolvimento” da região. Eu digo que não. Então qual é a solução? Simples demais: plantar. Se os mafiosos, digo, Malucellis e demais empresários, tivessem plantado mudas nos locais que retiravam a madeira, dali a alguns anos as florestas estariam recompostas, as terras continuariam valorizadas e as madeireiras funcionariam com as árvores replantadas, todos ganhariam. Como foi feito todos perderam. Os gafanhotos, digo, os mafiosos, ou melhor, os madeireiros hoje são pobres, indistinguíveis daqueles que eles exploraram, os que para eles trabalharam continuam paupérrimos e a cidade além de pobre não possui mais matas ombrófilas. Mas, como os insetos, os gafanhotos humanos se mudaram para outros locais onde possivelmente tentam explorar outros recursos não renováveis. JAIR, Floripa, 09/06/12. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

De volta ao passado


John DeLorean fundou a DeLorean Motor Company em Detroit, Michigan em 24 de outubro de 1975. Ele já era bem conhecido na indústria automobilística como um engenheiro capaz, inovador de negócios, e a pessoa mais jovem a se tornar um executivo da General Motors. John era um empreendedor sem grana, então o dinheiro para o empreendimento viera parcialmente de um programa inovador no qual os clientes adquiriam o carro “na confiança” é só o receberiam quando a empresa estivesse produzindo. Neste caso os compradores se tornavam acionistas da empresa.
DeLorean também buscou incentivos fiscais e ajuda econômica de várias organizações governamentais e privadas para pagar a construção das instalações da sua fábrica. Para obter esse subsídio, construiu sua primeira planta industrial em uma região onde o desemprego era particularmente cruel devido à desativação de outras fábricas de automóveis por causa da importação de carros melhores e mais baratos oriundos do Japão. Além disso, contou com alguns figurões de Hollywood que acreditaram em seu projeto, e convenceu o governo britânico que entrou com U$ 120 milhões dos U$ 200 milhões dos custos iniciais.
A ousadia de John levou-o a construir o primeiro carro com carroceria de aço inoxidável da história. O modelo que produziu - DeLorean DMC-12 carro esportivo com portas asa de gaivota, - ficou imortalizado pela trilogia “De volta para o futuro” de Spielberg, onde o carro ganhou fama mundial como uma máquina do tempo inventada e operada pelo excêntrico cientista Doctor Emmett L. Brown, (Christopher Lloyd), embora a empresa houvesse deixado de existir antes de o primeiro filme ser lançado. Em 1982 a DeLorean como empresa entrou em concordata e faliu, para decepção de seus acionistas e consumidores.
Em 1995, uma empresa nova usando o nome "DeLorean Motor Company" adquiriu o estoque de peças remanescente e o logotipo estilizado "DMC" da DeLorean original. A atual DeLorean localizada perto de Houston não é, e nunca foi associada com a empresa original, mas dá assistência técnica aos proprietários dos antigos veículos DeLorean.
Embora os novos DeLorean incorporem todas as tecnologias mais recentes aos seus modelos, o que se fez foi uma transcendental volta ao passado, pois o designe inovador e a ousadia da carroceria em aço inox escovado tornou os DeLorean originais ícones da indústria automotiva que jamais foram superados. Hoje os modelos clássicos usados podem ser encontrados em saites de vendas dos EUA por algo em torno de trinta mil dólares. JAIR, Canoas, 09/07/2012.