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sábado, 21 de julho de 2012

Dingo


A civilização aborígene australiana na verdade é oriunda da Polinésia de onde teria migrado para o continente australiano há quarenta mil anos. Pelas evidências arqueológicas sabe-se hoje que após as primeiras migrações sucederam-se outras há menos de trinta mil anos. Outras evidências fósseis demonstram que, junto aos polinésios que migraram um pouco mais tarde, vieram cães domésticos que serviam de companhia, guarda e até fonte de proteínas nos piores momentos.
Pois é, esses cães domesticados, aparentemente, ao chegarem ao continente australiano ficaram seduzidos pelas grandes extensões de terras selvagens desprovidas de predadores e supostamente repletas de presas fáceis. Então, fugindo do controle de seus parceiros humanos, tornaram-se selvagens, apesar do deserto inóspito que tiveram que encarar. Há que se notar que, por um capricho evolutivo, todos os mamíferos nativos da Austrália são marsupiais, ou seja, possuem um marsúpio (bolsa externa) onde o bebê se desenvolve depois de sair de dentro da mãe. E o dingo era o único mamífero placentário encontrado naquelas paragens quando os europeus colonizadores lá desembarcaram. Então o cão selvagem dingo se destacava na paisagem.
O dingo, ao contrário da maioria dos canídeos, não é animal de matilha, ele se comporta como um caçador solitário e só forma família por ocasião do acasalamento. Seus ancestrais devem ter chegado quando os cães ainda eram relativamente selvagens e mais perto de seus ancestrais asiáticos, lobos cinzentos, os Canis lupus. Desde então, vivendo em grande parte distante de pessoas e outros cães, juntamente com as exigências da austera ecologia australiana,  o dingo desenvolveu características e instintos que os distinguem de todos os outros caninos. O habitat natural do dingo pode variar de desertos, pradarias até beira de florestas, que no caso da Austrália são florestas de eucaliptos, pois lá existem mais de duzentas espécies dessa árvore. Normalmente esse bicho elegante e esquivo não pode viver muito longe da água, então costuma usar como abrigo tocas abandonadas ou troncos ocos nas margens dos rios e lagos.
Apesar de serem “estrangeiros” adaptados ao meio australiano, dingos desempenham um papel importante nos ecossistemas da Austrália, pois são predadores, na verdade os maiores predadores do continente, visto que a maioria dos marsupiais se contenta e comer folhas e frutos. Os dingos não são exatamente mansinhos, sua vida de livres caçadores os dotou de instintos apurados, força, agilidade e resistência de modo a serem sobreviventes num ambiente desértico como o Outback onde vivem em sua maioria. Por causa de sua suposta ferocidade e ataques a animais domésticos, esses cães selvagens são vistos como pragas pelos criadores de ovelhas que tendem a dizimá-los nas áreas de fazendas de ovinos. Os métodos de controle de suas populações normalmente são contrários aos esforços de conservação que os órgãos do governo tentam implantar. Tão burra é a caça a esses animais que os pecuaristas não percebem que podem se beneficiar da predação que os dingos exercem em coelhos, cangurus e ratos, bichos que disputam alimentos com os carneiros. Para minorar o possível ataque de dingos às criações de ovinos construiu-se, entre 1980 e 1985, uma cerca de 5600 quilômetros que isola o sudeste de Queensland onde se encontram os maiores rebanhos. Essa é maior cerca do Planeta que se tem notícia. 
Como disse acima, os dingos são selvagens e se viram para sobreviver, assim, é perfeitamente viável que, em algum momento um ou outro famélico cão desses tenha se aproveitado de algum ser humano indefeso para se alimentar. Agora, depois de 32 anos, está comprovado que um dingo abocanhou uma criança em uma barraca de acampamento e comeu-a. Resolução de um caso de 1980 que dividiu a nação, e levou a uma condenação por homicídio equivocada, um juiz australiano declarou que um dingo levou um bebê de um acampamento no Outback, assim como sua mãe disse que desde o início. Muitos australianos, inicialmente, não acreditaram que um dingo era forte o suficiente para agarrar o bebê Azaria com a boca e arrastá-lo. Nenhum ataque de dingo semelhante já havia sido documentado na época, mas nos últimos anos os cães selvagens foram responsabilizados por três ataques fatais a crianças. Ainda assim, algo infinitamente distante das centenas de ataques com ferimentos e mortes causados por pitbulls, por exemplo. sem contar que ataques de pitbulls são gratuitos por assim dizer, enquanto dingos atacam a presa para se alimentar. 
"A partir de agora a Austrália não será capaz de dizer que dingos não são perigosos e apenas atacam se provocados," a Sra. Chamberlain-Creighton, disse antes de deixar o tribunal para onde fora com seu ex-marido e seus três filhos sobreviventes para pegar o certificado de óbito de Azaria. "Vivemos em um país bonito, mas é perigoso e gostaríamos de pedir todos os australianos para tomar cuidado com isso e tomar as devidas precauções," disse a mãe de Azaria.
Contudo, esse é o único caso registrado em que se provou a morte de um ser humano por um dingo sem este ter sido provocado.  Na verdade quem está sendo ameaçado de extinção pelo homem é o dingo. Hoje estima-se que a maioria dos modernos "dingos” são descendentes dos mais recentemente introduzidos cães domésticos. Esses híbridos continuam sendo chamados de dingos e têm aumentado significativamente nas últimas décadas, e o dingo original passou a ser classificado como em perigo de extinção.
Já fiz referências em outros textos sobre cães ao mais diversos, mas especialmente sobre o nobre vira latas, nosso tão conhecido cachorro de rua, animal que pelas características é o grande representante da espécie dos canídeos. Pois agora quero deixar aqui registrado: o magnífico dingo é um vira latas com upgrade, um vira latas dois ponto zero, com todas as melhores características do cão de rua, somadas a sua longevidade como raça, sua resistência em sobreviver em ambiente hostil e sua enorme adaptabilidade. Se houver chance de voltar em uma encarnação posterior, gostaria de voltar como um dingo, e entendo que com isso eu estaria sendo bonificado com uma bênção que nenhum ser humano merece. JAIR, Floripa, 20/07/12. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Livros e cães



Certa vez quando eu tinha doze ou treze anos e cursava o antigo Ginasial, estava absorto lendo um livro na biblioteca quando minha professora de português, Maria Jamur, - a qual nunca desperdiçava uma única palavra, jamais jogava conversa fora – aproximou-se assim como não querendo nada, mas, olhando-me nos olhos com uma intensidade desconcertante, e, com uma reverência que eu a julgava incapaz de manifestar, falou-me algo que ficou gravado em minha mente e que , ainda hoje, continuo lembrando como se tivesse acabado de ouvir.
Embora se espere que os livros possam mudar ao longo dos tempos
(futurologia? os livros eletrônicos de hoje parecem corroborar essa previsão), assim como as pessoas também o fazem, a diferença está em que, as pessoas sempre se afastam quando percebem que não podem obter nenhuma vantagem, interação positiva, prazer, interesse ou pelo menos um momento aprazível em nossa companhia, um livro nunca nos abandona. Nós com certeza vamos abandoná-lo, algumas vezes por muitos anos, ou até para sempre talvez. Mas eles, os livros, mesmo traídos ou maltratados, nunca vão nos dar as costas: vão continuar esperando por nós silenciosos e humildes nas prateleiras ou nos cantos e porões onde foram deixados. E eles nos esperam por dezenas de anos, só sua destruição por traças, umidade ou fogo, impedirá que eles estejam à nossa espera. Não se queixam e não se cansam. Até que um dia qualquer, quando nós precisamos de um deles, quando sentimos necessidade de folhear suas páginas silenciosas e sábias, mesmo que seja numa noite chuvosa ou num dia frio, ou mesmo que seja um livro velho e maltratado que tenhamos jogado num canto sem qualquer cuidado, e que tenha ficado esquecido por muitos anos, ele não vai decepcionar-nos – descerá da prateleira poeirenta ou sairá de seu canto úmido e bolorento e virá conviver conosco como se nada tivesse acontecido. Não fará cobranças, não inventará desculpas e não perguntará se vale a pena, se ele nos merece, se nós o merecemos, se nós temos ainda algo a ver com ele, ou se tem algo a ver conosco, mas virá às nossas mãos no momento que nós quisermos, jamais fugirá ou nos trairá”.
Hoje, refletindo sobre isso, descobri porque gosto igualmente de cães e livros. Livros e cachorros são as duas faces da mesma moeda, a moeda da fidelidade. JAIR, Floripa, 24/09/11.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Cachorros II



Já publiquei vários textos sobre cães, desde considerações sobre os formidáveis vira-latas até algumas curiosidades a respeito dos cães selvagens brasileiros, passando por características de raças variadas e histórias de fidelidade canina. Gosto de cães e, independente de considerá-los, como reza o adágio, “os melhores amigos do homem”, tenho por eles uma admiração muito especial por causa de sua fidelidade. Quem assistiu ao filme “Sempre ao Seu Lado” (2009) com Richard Gere, percebeu a que grau de fidelidade ao dono pode chegar um cachorro, mesmo porque o filme foi baseado na história real de um professor japonês.
Mas, a relação homem-cão é muito antiga, remonta há dez mil anos quando as primeiras tribos humanas começaram a deixar o nomadismo de caçadores-coletores e passaram a se fixar na terra tornando-se pastores-agricultores, isto é, praticamente desde os primeiros alvores do que chamamos civilização. Sabe-se que esses homens primitivos domesticaram o lobo asiático e dele, através de seleção genética, foram criando as primeiras “raças” que acabaram dando a origem às centenas que conhecemos na atualidade.
Para nós pode parecer estranho que os Homo daquele tempo tenham domesticado o lobo, contudo, devemos lembrar que o animal – selvagem ou não – procura fundamentalmente duas coisas: alimento e segurança. Portanto é razoável supor que os primeiros aglomerados humanos produziam rejeitos que atraiam os animais, principalmente em épocas de escassez. Ossos e restos de comida deviam ser convidativos aos lobos famintos. Uma vez que os animais se aproximavam, os mais mansos podiam ser capturados e mantidos em cativeiro, ou mesmo apenas dentro do perímetro da aldeia onde recebiam alimentos, se sentiam seguros e podiam procriar sem problema. E, como não existe almoço grátis, os homens obtinham uma fonte de proteínas segura para os dias difíceis e usavam os animais como fonte de calor nas noites invernais, além de contar com eles como sentinelas de suas casas. Era uma simbiose perfeita em que ambos ganhavam e que continua existindo em certas sociedades primitivas até hoje.
Pois bem, sempre chamou-me a atenção a irresistível atração entre populações pobres e os cães. Onde existe gente pobre existe cachorros em quantidades significativas. Mendigos atraem cães e são atraídos por eles também. Morei aqui em Floripa num condomínio recém formado em um bairro de classe média baixa. Ao me mudar não havia muitos moradores no condomínio, de modo que havia bem poucos cachorros ainda. Fiquei observando como evoluiria a população canina então. Não foi preciso esperar muito, a comunidade tinha duzentas casas e quando umas cento e cinquenta estavam ocupadas já havia uma quantidade de cães que empatava com o número de ocupações. E daí para frente o número de cachorros só fez aumentar. Não sei como está hoje, porque de lá me mudei, mas garanto que quando saí havia mais cães que famílias.
Para contrariar minha assertiva que cães e pobres se atraem como pólos opostos de imãs, conto que quando estive em Cuba há cinco anos, esperava encontrar muitos cachorros nos bairros pobres de Havana, enganei-me. Apesar da extensa e visível pobreza das classes operárias de Cuba, pude observar que os canídeos eram quase inexistentes pelas ruas e casas. Sempre que visito outros países costumo escrever minhas impressões primeiras sobre o que vejo de peculiar, exótico, curioso ou mesmo comum na sociedade. Em virtude, produzi um texto meio jocoso: “Donde están los perros?” quando voltei daquela Ilha Caribenha. Confesso que não me atrevi a publicá-lo por que poderia parecer meio preconceituoso com as pessoas de lá, mas, principalmente, preconceituoso com os cachorros. Não tenho dúvidas que não sou habilitado a falar sobre o regime político da Ilha. E mais ainda, é impossível escrever qualquer coisa sobre Cuba sem acrescentar uma opinião política a tudo que disser, e política não é minha praia.
Mas, sem qualquer ranço ou viés político, os cães são os animais sem os quais a humanidade não teria tomado o rumo que tomou no decurso civilizatório que nos tornou o que somos hoje. Os cães sofreram um processo evolutivo artificial que os tornou, cada vez mais, seres adaptados às necessidades e idiossincrasias humanas em todos os níveis e consoantes todas nossas exigências do dia-a-dia. Desde o cãozinho ornamental cheio de fitinhas e laçarotes das madames até os cães pastores que contribuem para a segurança de rebanhos em qualquer parte do mundo, passando por sentinelas e condutores de deficientes visuais, ou, nas guerras onde eles foram condicionados a levar explosivos para baixo de tanques inimigos, como fizeram os russos, canídeos dão uma contribuição fundamental para quase tudo que fazemos. Até mais que isso, os cães são nossas companhias e nossos cúmplices em toda nossa história, nós e eles partilhamos uma vida comum e não há como referir-se a cultura dos povos e nações sem fazer referência a importância que eles tiveram e tem no rumo da civilização que construímos. Estejamos certos, se um dia o homem conquistar o espaço sideral e conseguir explorar outros planetas, o cão estará ao seu lado. Viva nossos fiéis companheiros de jornada! JAIR, Floripa, 21/09/11.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A SAGA DA FIDELIDADE




Publiquei um texto “A fidelidade” do qual extraí este trecho: Sobre as ‘grandes palavras’ do vernáculo como: amor, ódio, esperança, virtude, honestidade, patriotismo etc, sempre podemos encontrar exemplos edificantes na história da humanidade, mas, para fidelidade nada, ninguém, nenhuma coisa, nenhum bicho, nenhum homem encarna tão perfeitamente e com tanta justiça o significado dela como o Cão”.

É sobre essa virtude canina elevada ao mais alto grau que trata este texto, baseado em notícias de jornais do Oregon da época. Em agosto de 1923, o collie Bobbie perdeu-se de seus donos enquanto estes viajavam por Indiana, EUA. O cão e a família Smith viviam no Oregon, estado situado a distância de 3700 quilômetros. Em fevereiro de 1924, ou seja, quase cinco meses depois, Bobbie pulou na cama onde seu dono dormia e lambeu-lhe alegremente o rosto. Ele estava esquelético, com as patas tão machucadas que era possível ver os ossos através das almofadas, mas sobrevivera. A Sociedade Humanitária do Oregon acabou rastreando, através de testemunhas, a rota percorrida pelo bicho, e descobriu que ele havia viajado quase cinco mil quilômetros para chegar em casa. O cachorro havia cruzado as Montanhas Rochosas, atravessado o rio Missouri e até mesmo dividido um cozido com legumes com um bando de mendigos, na sua saga. Deduziu-se que Bobbie caçava e comia coelhos, - hábito que ele adquiriu quando vivia com seus donos - e conseguiu evitar a morte certa por ter fugido da carrocinha em pelo menos duas cidades. O mais espantoso, é que no decorrer de sua jornada, não seguiu exatamente a rota que seus donos haviam feito, mas, ao invés disso, atravessou territórios que nunca vira antes, e dos quais não possuía conhecimento algum. Acabou sendo homenageado com uma coleira de ouro simbólica pela sua façanha, e nunca mais se separou de sua família.

Histórias como esta existem às centenas, quase sempre não comprovadas mas, de qualquer forma, interessantes e com certo mistério a ser resolvido. Como os animais conseguem orientar-se nesses deslocamentos? Há quem acredite que animais, mais que humanos até, possuem uma percepção extra-sensorial. Os mais céticos, como eu, admitem que os animais, sejam domésticos ou não, têm uma capacidade de orientação geral, uma espécie tosca de GPS orgânico que se guia pelo sol ou pelas linhas magnéticas da Terra, do tipo: “desloquei-me para direita donde me encontrava, logo, para voltar, tenho que andar para a esquerda”. Feito isso, o bicho vai, grosso modo, no sentido que deve e, por tentativa e erro, acaba chegando em região conhecida, que, geralmente é onde os cheiros lhes são familiares, daí é só “fazer sintonia fina” e achar o local onde mora. E o que o move, o que determina sua vontade de chegar é a fidelidade que dedica a seu dono.

Para ilustrar, uma experiência própria: Quando eu tinha uns doze anos, lá na minha Palmeira natal, recebi a incumbência de abandonar um gato de minha mãe que supostamente estava comendo pintinhos de uma vizinha. Essa história de comer pintinhos não estava bem contada porque o gato gostava mesmo de camundongos, e degustava também lagartixas e até cobras de pequeno porte que encontrava pelas redondezas. Não obstante, lá fui eu, com uma caixa de papelão na garupa da bicicleta onde havia colocado o assustado bichano. Pedalei até onde estava sendo construída uma estrada nos arredores da cidade e, considerando que estava “longe” de casa, soltei o animalzinho. Ele escafedeu-se, ganhou umas moitas de guanxuma ali perto e sumiu, não mais o vi. De volta para casa, pedalando calmamente, fui informar que havia cumprido a missão. Ao chegar, para espanto de todos, lá estava o gato alegre e cheio de saúde lambendo-se todo, sem aparentar qualquer trauma ou desconforto. Pela esperteza, o bicho deixou de ser punido novamente e, para felicidade de todos, não mais almoçou os pintinhos. Provavelmente o meu “longe” era apenas o quintal da casa do felino, daí ele ter voltado com tanta facilidade. Neste caso, a fidelidade do animal seria apenas ao lugar no qual encontrava abrigo e alimento e não a seus donos. JAIR, Floripa, 28/03/10.

sábado, 9 de maio de 2009

CACHORROS DO BRASIL


Sempre fui fissurado por caninos, canídeos, cachorros ou cães, tudo a mesma coisa. Daí, interessei-me também pela história e origens desses animais junto aos humanos, como já escrevi em posts anteriores. O passo seguinte foi acrescentar algum conhecimento sobre canídeos brasileiros, ou seja, animais dessa família (Canidae) que vivem em estado selvagem no nosso país. Desde criança sempre soube por ouvir falar, que existiam “Guarás”, “Cachorros-do-mato” e um tal de “Graxaim”, animais que, mais ou menos, se enquadravam na categoria cachorral segundo a concepção meio simplória dos naturais da cidade em que nasci. Pois é, em todos os continentes, exceto na Antártida naturalmente, encontramos canídeos, seja sob a versão de lobos, raposas, coiotes, chacais ou outras denominações quaisquer. Na África, local onde é mais abundante a existência desses animais, temos as Raposas orelhudas, Raposas do Cabo, Cães selvagens de várias espécies, Chacais e um bicho chamado Feneco que seria o lobo africano. Existem lobos e raposas na Europa, na Ásia e na América do Norte onde também encontramos os coiotes. Na Austrália os canídeos estão representados por uma única espécie, o Dingo, que é considerado um cão que se tornou selvagem a partir de uma espécie doméstica trazida pelos imigrantes polinésios, vinte mil anos atrás. No Brasil foram descritas seis espécies de canídeos vivendo em nossas matas, campos, várzeas e cerrados. Todas essenciais ao equilíbrio do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia. Lamentavelmente todas em risco de extinção. O mais conhecido desses carnívoros é o Lobo-Guará (Chrysocyon Brachyurus), cujo adulto macho pode pesar até vinte quilos, costuma viver nos subsistema de campo, cerrado e mata ciliar, é de hábitos solitários. Noturno e crepuscular, repousa durante o dia em bosques espessos. Habita campos, cerrados e a caatinga de Rondônia e do Piauí ao Rio Grande do Sul e nordeste da Argentina, passando pelo Pantanal, Paraguai e Leste da Bolívia e margens da Floresta Atlântica na Bahia e Minas Gerais. Tem pernas muito altas e esguias, a cabeça alongada e as orelhas grandes, eretas e com o pavilhão aberto para diante. Sua cor geral é parda avermelhada, mais clara na região ventral e mais escurecida na dorsal. As patas são inteiramente negras. Parece-se mais com uma raposa de patas muito longas do que um lobo. Sua principal vocalização é um latido simples, que usa como chamado de longa distância; ameaçado, pode rosnar e os filhotes fazem pequenos gemidos. É um animal surpreendentemente arisco, furtivo e silencioso para o seu tamanho. Além de se alimentar de pequenos mamíferos e aves e, por isso, ser importante na manutenção do equilíbrio da cadeia alimentar, o lobo-guará come frutas e tem papel fundamental na dispersão de sementes de árvores e outras plantas. Este tímido animal é uma vítima da expansão da agricultura no Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do país. O Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) é um canídeo de porte médio, que costumava ocorrer em quase todo Brasil, agora só é encontrado em algumas partes do cerrado goiano e mineiro e nas matas de transição no Mato Grosso. É extremamente versátil por se adaptar a diversos ambientes, inclusive antropizados, (ocupados pelo homem) e utilizar uma grande variedade de alimentos. Está ameaçado de extinção pela destruição de seus habitats. O Cachorro-vinagre (Speothos venaticus) é um canídeo nativo da América do Sul, que habita as florestas e pantanais entre o Panamá e o norte da Argentina. Espécie de hábitos e aparência à altura do estranho nome que recebeu. Ninguém sabe exatamente por que ele recebeu esse nome, uma das hipóteses é porque sua urina tem um cheiro semelhante ao do vinagre, outra seria em razão do pêlo do indivíduo jovem ser de cor parecida à do vinagre. São animais noturnos, tímidos e semi-aquáticos que conseguem nadar e mergulhar com grande facilidade. Arredio, ele raramente se deixa ver, anda sempre rastejando sob a mata ou em tocas. Como quase nunca é visto, ganhou aura de lenda entre populações dos locais onde é encontrado. Originalmente, o animal existia em praticamente todo o país, exceto no Sul. Hoje, acredita-se que esteja extinto em grande parte do território nacional. Dos cães selvagens brasileiros, é o único exclusivamente carnívoro. Também apenas ele desenvolveu a sofisticada estratégia de caçar em matilha e compartilhar alimento. Membranas entre os dedos os ajudam a nadar e a pegar peixes, as vezes sua principal fonte de proteínas. O Guaraxaim-do-campo (Pseudalopex gymnocercus) habita os campos da Argentina, em direção ao norte, chegando ao Brasil até o estado de São Paulo. De acordo com biólogos, só existem pouquíssimos exemplares dessa espécie em cativeiro, em zoológicos e criadouros do Rio Grande do Sul. Tem corpo cinza-amarelado, com queixo preto, pêlo curto e orelhas eretas. Mede cerca de setenta centímetros de comprimento, e sua cauda, de trinta a quarenta centímetros, vai engrossando até a extremidade, o que o diferencia dos outros cães selvagens. De hábitos noturnos, alimenta-se de pequenos mamíferos, aves e lagartos. Recebe também os nomes de graxaim, guaraaim ou graaim e cachorro-do-mato. A Raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus) é um canídeo nativo do Brasil, que habita os campos e cerrados do Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A raposa-do-campo é classificada às vezes como Lycalopex vetulus ou Dusicyon Vetulus. É mais ativa à noite, mas também sai de sua toca durante o dia. Os animais dessa espécie vivem sozinhos. O corpo tem sessenta centímetros e a cauda mede trinta centímetros. É carnívora e caça aves, pequenos roedores e insetos (gafanhotos). A fêmea escolhe um local protegido, geralmente uma toca abandonada ou um buraco em um cupinzeiro. Após dois meses de gestação, dá à luz a quatro ou cinco filhotes e torna-se muito feroz quando precisa defender a prole. É um animal muito atento e percebe tudo o que ocorre ao seu redor. A visão, a audição e o olfato são bastante desenvolvidos. É um dos menores cachorros selvagens brasileiros. A cor de sua pele é cinzento-escura, com a barriga amarelada e a ponta da cauda negra. Tem o costume de atacar galinheiros e rondar casas e acampamentos em busca de comida. O menos conhecido dos canídeos brasileiros é o Cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis), da Amazônia. Há até dois anos, não se tinha sequer uma foto do animal. Não há nenhum indivíduo dessa espécie em cativeiro. Somente agora, uma equipe de pesquisadores brasileiros que trabalha na Amazônia peruana conseguiu localizar um grupo e colocar coleiras com rádio em alguns deles. A maior ameaça para os canídeos brasileiros (assim como para a maior parte de nossa fauna) é a destruição de habitats. Pouco resta da Mata Atlântica e o Cerrado está indo pelo mesmo caminho. Doenças normalmente transmitidas por cães domésticos e a caça, muitas vezes em retaliação à predação de animais domésticos, são outras grandes ameaças. Muitas vezes os animais levam fama injustificada de predadores de criações. Conhecer melhor os hábitos dos nossos canídeos, animais ainda tão misteriosos, é a única forma de salvá-los da extinção, para que as gerações futuras tenham a oportunidade de viver num planeta habitável. JAIR, Guarulhos, 09/05/09.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O VIRA-LATAS


Texto retirado pelo autor devido a erro involuntário. O autor pede desculpas a Alessando Martins autor de texto anterior sobre mesmo assunto publicado em: http://www.cracatoa.com.br/cachorro-vira-lata-um-ser-especial