quarta-feira, 17 de julho de 2013

Cores



Desde sempre, por menos que tenhamos noção do porquê, estamos imersos em milhares de cores. Sejam cores reais da natureza que nos cerca como o verdejar da flora; o cerúleo de um céu límpido; o azul profundo de águas misteriosas de oceanos abissais; a extrema brancura de cúmulos e cirros que flutuam sobre nossas cabeças; os muitos matizes amarronzados dos solos; ou o arco íris das borboletas e das flores que são seus campos de pousos regulares. Por outro lado, também cores imagéticas ou abstratas com as quais “tingimos” fenômenos ou eventos, - muitas vezes com certa dose de preconceito - como por exemplo: “Com essa inflação o futuro é negro”; “Como vai? Tudo azul?”; “Ficou amarelo de medo”; “Estou verde de fome”; “Estou roxo de vontade!”; “Ao tentar responder me deu um branco”; "Estamos gastando uma nota preta com a visita do papa" etc.
Fisiologicamente, com exceção de cegos e de pessoas com grau de daltonismo extremo que possivelmente só enxerguem em preto e branco com variações de cinza, todos estamos mergulhados num mundo colorido. Além disso, torna-se comum associarmos cores de objetos mais conhecidos com outros, como quando dizemos: verde-bandeira, azul-marinho, verde-oliva, amarelo-ouro, vermelho-romã e uma miríade de outras associações que visam rotular com exatidão a que cor, matiz ou tom nós nos referimos. Também atribuímos “qualidades” ou “poderes” às cores: verde é esperança; vermelho é paixão; cinza é tristeza. E convencionamos códigos de cores que, o mais das vezes, tem como escopo alertar sobre perigo ou algum evento que deve ser observado por qualquer pessoa, independentemente seja ela alfabetizada ou não. Neste caso os exemplos mais observáveis são os sinais de trânsito com suas três cores – vermelha, amarela e verde, nesta ordem de cima para baixo, sempre.
Essa convenção planetal vale para qualquer nação e, sob a égide da segurança de pedestres e motoristas, não deve jamais ser alterada. Seria risível se não fosse trágico o que ocorreu na China de Mao durante a chamada Revolução Cultural que devastou aquele país de 1960 a 1966. Cabeças pensantes do PC chinês, cheios de elã patriótico eivado de xenofobia idiota, estabeleceram que a partir de certa data o vermelho dos sinais de trânsito significaria EM FRENTE  e o verde PARE, foi um caos só comparável ao caos maior que já se tornara a sociedade chinesa, frente aos julgamentos e execuções sumárias a que eram submetidos os chamados “intelectuais” daquele país. Chegou-se ao extremo de considerar intelectual o cidadão que simplesmente tivesse curso superior, falasse algum idioma além do nativo ou que exercesse uma profissão liberal, por exemplo. Bem, não é finalidade deste texto falar da China, mas lá, naquele nefasto tempo, o vermelho era a cor do BEM, as demais eram em diversos níveis menos boas que o vermelho. Felizmente a lambança pseudo patriótica da troca de cores só permaneceu por seis meses, os apedeutas chineses, discretamente, voltaram à convenção universal dos significados depois que ocorreram dezenas de mortes e centenas de feridos.
Mas vem da China também algo que quero comentar aqui. Quando eu tinha por volta de dez anos em Palmeira, no Paraná, houve uma “onda” de migração para àquele município de um povo eslavo agricultor que até hoje ainda se encontra lá plantando, colhendo e mantendo seus costumes. O curioso, e de certa forma misterioso para mim, era que os emigrantes eram (e ainda são) chamados de “russos brancos”. Na minha virtual e santa ignorância eu me perguntava: será que os demais russos são não brancos? Vermelhos talvez? Vermelhos pela cor da pele ou pela ideologia comunista, já que estes que aqui estão não seguem a mesma cartilha ideológica dos que lá ficaram? Eu não sabia e ninguém que eu tenha timidamente perguntado sabia. Russos brancos eram russos brancos ora! Não há o que saber mais! Fim, tá bom?
Pois é, durante quase sessenta anos vivi numa incômoda ignorância que, vez ou outra, me assaltava e cutucava minha mente em busca de uma resposta que não vinha. Neste ponto devo confessar que sou meio obsessivo quando se trata desses mistérios que não têm relevância alguma para a vida prática cotidiana. Eventos que não cheiram nem fedem como esse. Então, estava eu lendo um livro sobre guerras históricas esta semana, quando me deparei com parágrafo interessante: “Alguns escritores dizem que os hunos brancos eram caucasianos. Isto é uma bobagem tão grande quanto defender que os turcos azuis eram marcianos (azul é cor do leste). O uso de cores para indicar direções se originou na China, que também usava preto para norte, vermelho para sul e amarelo ou dourado para centro. Esse simbolismo foi adotado pelos nômades da Ásia Central, e daí vem a Horda Dourada, reino central do império mongol, e os mares vermelho e negro, respectivamente ao sul e norte da Turquia”.  Então fica assim: Preto = norte; vermelho = sul; azul = leste e; finalmente, branco = oeste. Sei agora que os russos brancos de minha querida Palmeira são oriundos do ocidente da Rússia. Acabou-se o mistério e esta noite posso dormir tranquilo, sem que me assaltem o sono hordas intermináveis de imigrantes eslavos furiosos, indagando: Por que somos brancos? Por quê? Por quê? Por quê? JAIR, Rosário, Argentina, 17/07/13. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Espionagem



Durante a guerra fria muitos foram os affair entre as duas super potências, USA e URSS, envolvendo espiões e espionagem em ambos os lados da contenda, seja entre as potências diretamente envolvidas ou entre seus aliados. Ficou famoso o caso Philby, por exemplo:   Harold Adrian Russell "Kim" Philby ou H.A.R. Philby, cidadão britânico nascido na Índia, foi um membro do topo da hierarquia dos serviços secretos ingleses que espionava para a União Soviética. Philby era um dos membros do grupo conhecido como Cambridge. Foi desmascarado em 1963, pediu asilo à URSS e passou a viver lá até 1988 quando morreu de doenças decorrentes do alcoolismo.
Outro evento “clássico “ de espionagem que resultou em lambança e detonou uma crise séria entre os brigões foi o caso do U-2. O incidente do avião U-2 ocorreu durante a Guerra Fria, em 1 de maio de 1960, quando um avião dessa categoria de espionagem dos EUA foi abatido sobre a União Soviética. No início, o governo dos EUA negou a meta e missão da aeronave, que era invadir e espionar a URSS, mas foi forçado a admitir publicamente o seu papel na intrusão do espaço aéreo quando o regime soviético de Nikita Khrushchev mostrou os restos do avião (surpreendentemente preservados), e anunciou ainda que seu piloto (Francis Gary Powers) tinha sobrevivido à queda.
Pois bem, naquele tempo já eram raros esses desmascaramentos de espiões de filme de oliúde porque, por mais que a ficção crie esses personagem glamorosos a lá 007, na maioria dos casos não é assim que a espionagem entre nações funciona.
 Li a vida de Markus Wolf, espião a serviço da Alemanha Oriental antes da queda do muro de Berlim, onde ele desmonta esse falso charme de espiões que trocam mensagens em código, transmitem em rádios clandestinos e tem aventuras mirabolantes com loiras fatais. Segundo Wolf e alguns outros ex espiões, um bom espião lê jornais. A espionagem da Alemanha Oriental, por exemplo, não necessitava gastar fortunas mantendo agentes secretos em capitais importantes do Ocidente para se inteirar de fatos militares, políticos, estratégicos, econômicos ou quaisquer outros que fossem interessantes ao poder dos alemães orientas e, por tabela, dos russos. Bastava assinarem todos os jornais importantes em língua inglesa e alemã e manter equipes especializadas lendo as matérias e interpretando os fatos. E parece que assim é realmente, pois consta que a espionagem dos alemães do lado de lá foi extremamente eficiente.
Claro que não é privilégio de alemães se informarem através de publicações dos “inimigos”, os americanos também sempre usaram esse método como o mais barato e de melhor resultado que se conhece.
É só pensarmos por dez segundos e chegaremos a conclusão que absolutamente tudo está à disposição na imprensa. Hoje, muito mais que antes, com advento da internet, das redes sociais e da comunicação instantânea, é um absurdo a quantidade de informações que estão disponíveis para quem quiser xeretar. Qualquer “espião“ de qualquer nação poderá acessar milhões de informações através de se teclado, ninguém precisa viajar aos EUA, por exemplo, para saber sobre suas aeronaves de guerra, seus navios, seus mísseis, suas bombas e outras armas. Tudo está ao alcance da ponta dos dedos no teclado. Quem duvidar clique no Google e procure o que quiser, até como confeccionar uma bomba “A “,  e encontrará.
Não quero defender nem atacar Snowden que revelou um programa norte americano para “espionar” cidadãos comuns de dezenas de países, inclusive do Brasil. O que quero dizer é que essas informações, assim chamadas sigilosas, estão disponíveis nas redes sociais e nos mais variados saites da internet para quem estiver interessado. O inusitado nesse affair Snowden é o desenvolvimento de um programa “secreto” de xeretagem feito por uma nação cada vez mais paranoica que, desde 11 de setembro de 2001, vê agentes do mal embaixo da cama todos os dias. Como cidadão comum fico perplexo com  importância que se dá a existência desse tal programa. Tenho um amigo que conhece bastante de informática e que por mero ludismo  acessa dados sigilosos de quaisquer cidadãos deste país. Na minha frente ele mostrou como consegue saber, por exemplo, o CPF e outros dados pessoais de um cidadão qualquer. Ora, esse meu amigo é apenas um curioso não mal intencionado e não pratica qualquer ato mais reprovável além desses acessos. Imagine um nação como os EUA o que pode fazer com seus super computadores?
Não vou estranhar nem um pouco se no Brasil, lá em Brasília, existir uma agência governamental cheia de computadores de alta performance “espionando” nossos vizinhos fronteiriços e até os EUA, quem sabe. Sei que, mesmo em tempos de paz, militares se espionam através de seus adidos às embaixadas e missões em outros países. E, como todos praticam essa atividade, ninguém reclama. 
Contudo, no caso Snowden, para manter um certo respeito, o nação “espionada” põe a boca no trombone através da diplomacia e o nação “espionante” dá umas explicações meio furadas e tudo permanece como dantes no país de Abrantes.  JAIR, Floripa, 11/07/13. 

domingo, 30 de junho de 2013

Tornado de fogo



Em 1943, como estratégia para dobrar a espinha dorsal dos nazistas através do massacre da população civil e destruição da indústria de guerra germânica, as forças aliadas, através da RAF e da USAF, estabeleceram bombardear  as mais  importantes cidades alemãs de forma maciça. Assim, Hamburgo foi bombardeada por mais de 1600 bombardeiros em  03 março daquele ano causando a morte de mais de 50.000 civis.
O bombardeio criou o que se convencionou chamar de tempestade de fogo, um incêndio de proporções gigantescas e que se auto alimenta porque funciona com um imenso aspirador que suga absolutamente tudo – inclusive pessoas - que se encontra num raio de até três quilômetros. No centro desse colossal maçarico o fogo chega a mais de mil e quinhentos graus, queimando tudo que for combustível e derretendo a maioria dos metais. Se existir inferno é isso o que mais se aproxima dele aqui na terra. Esses bombardeios e os incêndios infernais que causaram, continuam conhecidos como um dos piores exemplos de sacrifício civil provocado por bombardeio estratégico, ocupando lugar de destaque entre as causes célèbres morais da Segunda Guerra.
Agora no mês de maio deste ano, um evento raro perto do Uluru, imenso bloco de arenito rosa no interior desértico da Austrália: Um cineasta perplexo testemunhou e filmou um dos mais raros fenômenos da natureza. Um tornado composto inteiramente de fogo, tal qual a tempestade de fogo causada em Hamburgo pelos bombardeios, só que neste caso, ao contrário do incêndio causado pelo homem, tem causas naturais conhecidas. Chris Tangey tinha saído de Alice Springs, para captar cenas para um novo filme. Depois de terminar a tarefa, ele se aproximou para ajudar os trabalhadores em uma estação de gado, quando foi confrontado por um dos espetáculos mais intimidantes da natureza, e algo que ele jamais imaginara encontrar.
Um tornado de fogo, também conhecido como um demônio de fogo, é causado quando uma coluna de quente, ar ascendente entra em contato com um foco de incêndio no chão.
Estes tornados de fogo são uma raridade natural, mas quando eles ocorrem, previsivelmente costumam causar danos significativos. Esses redemoinhos de fogo são conhecidos por durar cerca de poucos minutos nessas ocasiões muito raras que eles ocorrem. Mas o Sr. Tangey encontrou-se hipnotizada pelo tornado por mais de 40 minutos. Declaração do cineasta que 52 anos: O ar estava perfeitamente imóvel, não havia vento espécie alguma, a temperatura era cerca de 25 graus Celsius, um dia totalmente sem novidades. Nada predizia que algo interessante ou inusitado ocorresse, então, de repente, um dos vaqueiros está gritando: 'Que diabos é isso?', E eu me virei e vi uma coluna de fogo espiralada em forma de tornado de uns 30 metros de altura. Eu estava a cerca de 300 metros de distância e não havia vento, mas o furacão estrondou como um caça a jato. Meu queixo caiu. Mr Tangey, que dirige Alice Springs Film and Television, no centro da Austrália, descreveu-o como "dez vidas de experiência de uma vez só".
Felizmente, o tornado de fogo ocorreu no remoto interior australiano, e não houve registro de quaisquer vítimas. Ele acrescentou: Eu tenho filmado no interior por 23 anos, e nunca havia visto nada parecido. Nós já ouvimos falar sobre eles, mas eles se parecem com entidades fantasmas nunca são vistos. Se eu soubesse o que estava prestes a acontecer, eu teria pago alegremente US$ 1.000 para vê-lo. A qualquer momento, havia três tornados diferentes, só ficava indo e indo por cerca de 40 minutos. Toda a experiência foi surpreendente, e o tamanho e a variedade eram surpreendentes. Previsivelmente, estes espetáculos raros são extremamente perigosos.
Em 1923, um tornado de fogo surgiu no Japão durante o grande terremoto de Kanto, e matou 38 mil pessoas em apenas 15 minutos. JAIR, Floripa, 08/06/13.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pedra de raio



Quando eu era criança no interior do Paraná, algumas vezes ouvi minha mãe contar que quando caía um raio este conduzia uma pedra no seu interior e que, às vezes, era possível encontrar alguma pedra dessas. Corroborando essa história, minha mãe afirmava que certa ocasião quando ela se encontrava na roça colhendo milho, viu e ouviu um desses raios em pleno céu límpido sem chuva. Dias depois em outro trecho do roçado ela deparou-se com a pedra que teria caído com aquele raio. Guardou a pedra – negra, ligeiramente assemelhada com um machado sem cabo, com arestas arredondadas - por muitos anos, mas esta se extraviou por ocasião de alguma mudança ainda no seu tempo de solteira e nunca mais a encontrou. Obviamente eu acreditava na minha mãe, mas tinha acentuada dúvida quanto à origem daquela “pedra de raio” que ela guardou como uma relíquia por muito tempo
Pois bem, hoje lendo um despretensioso livro “Ontem, o Universo” que trata das origens do universo, do sistema solar e da terra, me deparei com um trecho sobre meteoritos bem interessante, do qual transcrevo parte:
“Em todos os tempos, os homens se impressionaram com a queda dos meteoritos. De fato, o espetáculo é grandioso: um rastro de luz atravessa a uma velocidade de dez a vinte quilômetros por segundo, acompanhado de um barulho de trovão prodigioso. Esse fenômenos, visíveis numa extensão de vários milhares de quilômetros quadrados, aterrorizavam as populações. Um acontecimento desses, evidentemente, não podia passar despercebido.
Na antiguidade, os homens conheciam a origem dessas pedras. Foram encontrados hieróglifos que uma delas era designada “pedra caída do céu”. Os egípcios, aliás, utilizavam alguns desses meteoritos que, as vezes, contém ferro em estado de metal quase puro. Encontraram-se armas e ferramentas forjadas com ferro proveniente desses meteoritos. Os gregos e os romanos também conheciam a origem extraterrena dessas pedras e, durante muito tempo, atribuíam um poder mágico a esses objetos. Em diversas civilizações alguns meteoritos eram até divinizados. É possível que famosa Pedra Negra de Meca, santuário do islamismo, seja um meteorito. Curiosamente, a atitude mudou na Idade Média, pois, se o mundo greco-romano nos deixou numerosos testemunhos de seu elevado nível cultural, a humanidade iria entrar, em seguida, em um longo período de obscurantismo.
Foi, então, preciso esperar até o século XIX para se verificar uma mudança de mentalidade: no dia 26 de abril de 1803, uma verdadeira chuva de pedras caiu nas cercanias de Aigle, França. Cerca de 3000 pedaços do meteorito foram encontrados sobre uma superfície de aproximadamente 50 quilômetros quadrados. E, desta vez, a Academia de Ciências enviou observadores que tiveram que se render às evidências: de fato, tudo aquilo tinha mesmo caído do céu!
A tradição popular ainda atribui um poder mágico a esses objetos. Em lugarejos do interior (Aqui lembro de minha mãe que vivia numa pequena localidade chamada Pinheiral de Baixo), são chamados “pedras de raio”. O que mostra simplesmente que sua queda se faz acompanhar de um clarão e um troar de trovão. Às vezes, são encontrados sobre esse nome objetos talhados pelo homem pré-histórico, e sua origem também era atribuída ao raio. “Seja como for, o camponês (minha mãe, novamente) que achasse tais objetos guardava-os como preciosidades, fixando-os na parte de cima da porta de entrada de sua habitação: a casa ficava, assim, protegida contra incêndios...”
À minha mãe, já falecida, peço perdão se em algum momento possa ter deixado de acreditar plenamente na origem da sua “pedra de raio” tão estimada e venerada. A crença dela estava em sintonia exata com o que a tradição popular de seu tempo entendia como verdade verdadeira. JAIR, Floripa, 23/04/2013. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Inteligência




Desde muito tempo os cientistas estiveram convencidos que inteligência e cérebro grande tinham relação biunívoca, isto é, um está intrinsecamente ligado ao outro. Se há cérebro grande existe inteligência, se há inteligência esta está relacionada ao tamanho de cérebro. Contudo, essa relação que a muitos parecia óbvia, estava eivada de preconceitos. Como eram europeus brancos que primeiro formularam a teoria, eles naturalmente se achavam mais inteligentes que outros – negros, asiáticos e não brancos de todos os matizes – então convencionaram que seus cérebros eram grandes e suas inteligências brilhantes. Eles tinham certeza que possuíam os maiores cérebros humanos e que as mulheres jamais seriam tão inteligentes quanto os homens porque seus cérebros eram menores. Santo preconceito!
O que a ciência acabou descobrindo efetivamente é que dentro de uma mesma espécie o tamanho cérebro tem pouca importância, porque a variação da inteligência de um indivíduo a outro é muito pequena. Já entre espécies, o tamanho do cérebro pode ser significativo apenas se for medido o peso do cérebro em relação ao corpo do animal, porque, uma parte enorme de qualquer cérebro é dedicada aos detalhes cotidianos da manutenção do corpo – coisas como contrair músculos, mover os intestinos, sentir sensações na pele, eriçar pelos. Amplie o animal e teremos mais território para administrar, mais músculos para acionar, mais pele para monitorar, necessitando, desse modo, mais matéria cinzenta para meramente funcionar. O fato que um veado tem cérebro maior que um rato não significa, necessariamente, que é mais inteligente, porque seu corpo pode pesar milhares de vezes mais, sendo, portanto, mais difícil de administrar.
Diz a ciência, subtraia as partes do cérebro relativas à manutenção do portador e o que resta é a única coisa que interessa, porque os neurônios “extras” podem integrar informações do mundo exterior em abstrações – capacidade que pode ser, grosso modo, uma definição de inteligência. A partir dessa premissa, fez-se um estudo completo do peso cerebral relativo dos vertebrados e descobriu-se que peixes, anfíbios e répteis formavam uma linha crescente num gráfico, mas que aves e os mamíferos formavam uma linha bem mais elevada. Para aqueles que costumam dizer que galinhas não são inteligentes foi um balde de água fria - talvez as galinhas sejam tão inteligentes que se neguem a demonstrar isso. Em outras palavras, um mamífero pode pesar o mesmo que um réptil, mas tem um cérebro dez vezes maior.
O tamanho relativo do cérebro é um indicador seguro do grau de inteligência entre as espécies, mas para definir com certa precisão a diferença entre os mamíferos é necessário apurar melhor essa medição. A ciência reuniu dados suficientes para estabelecer qual o tamanho ideal do cérebro para certa massa corporal. Ou seja, qual o peso médio “devia” ter um cérebro de um mamífero de determinado peso. Então todo peso cerebral que excedesse o peso médio de um animal era fatorado em que porcentagem encontrava-se acima ou abaixo, e a este índice deu-se o nome de QE (quociente de encefalização). Se um animal apresentar um QE de 1, por exemplo, significa que ele tem todo aparato intelectual para levar uma vida padrão de mamífero. Se o QE for maior que 1, ele dispõe de neurônios “livres” para ser “criativo”, se e quando este termo se aplicar àquele mamífero. Não é preciso dizer que o QE humano é de 7,06, índice muitos pontos acima do mamífero em segundo lugar - surpreendentemente o boto tucuxi com QE de 4,56. Quem diria, aquele animal que, segundo uma lenda amazonense, sai da água e engravida moças ribeirinhas é um carinha prá lá de inteligente!
Mas alguns pesquisadores assinalaram que simplesmente ter um conjunto de neurônios “sobrando” não produz automaticamente inteligência. As interações do animal com seu ambiente social são tão importantes quanto um QE alto. Assim, um animal que tenha que correr todos os dias atrás de sua caça tende a ser mais inteligente que aquele animal que simplesmente espera que o alimento chegue até ele. Um sapo contemplativo que espera a mosca entrar no raio de ação de sua pegajosa língua, por certo deverá ser menos inteligente que a lagartixa que embosca insetos na parede.
Contudo devemos lembrar um importante pormenor, os parâmetros que medem a inteligência são todos humanos, ninguém parece lembrar que a “inteligência” de outros animais pode obedecer a outros critérios que nem sequer imaginamos. Então, qualquer número inteligencial que possa surgir desses raciocínios humanos pode não ter qualquer validade quando se mede a inteligência de uma formiga, por exemplo. Já que formigas podem obedecer a medidas diferentes, a escalas métricas dos Himenópteros (olhaí meus estudos de entomologia entrando em ação). Para que as cogitações humanas possam ter verossimilhança, necessário é que o homem deixe de se julgar o centro do universo e admita que cada um no seu quadrado. Ou cada bicho com seu parâmetro. JAIR, Floripa, 22/04/2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

Eu vi



Lembro que mais do que realmente ver, eu sentia os eventos, era como um filme em 3D estivesse sendo projetado diretamente no meu cérebro. Era a História do Universo que se desenrolava ao alcance, se não dos meus olhos, pelo menos da minha mente ou de algum outro sentido que não sei definir. Era a história da matéria que despertava à minha frente quase ao alcance da mão. O Universo nascia num meio onde nada havia, um zero absoluto cercado de vazio. No início surgiram as partículas simples, sem estrutura. Como bolas de bilhar num movimento browniano, elas se contentavam em se deslocar e entrechocar-se. Depois, nas etapas seguintes, essas partículas se combinam e se associam. Começam a surgir as arquiteturas do que viria a ser matéria mais complexa e, talvez, atuante em algum sentido.
Sentia-me como sentado num gramado macio a beira de um bosque, olhando para o céu. Em meu campo de visão as árvores balançam ao sabor do vendo como a embalar seus frutos como filhos que se embalam para dormir. Eu escutava o tempo que, em absoluto silêncio, realizava sua grandiosa obra, transcendentalizava. Essa escuta aplicava-se ao todo, ao Universo. Pois é no fio do silencioso tempo que se desenrola a gestação cósmica. A cada fração o Universo se revela mais e mais complexo, as suas fímbrias, lentamente, perdem-se alhures, não há horizontes. Como espectador deste desenrolar dos acontecimentos primevos e primordiais, eu sabia que minha missão era testemunhar o aparecimento de novos elementos cósmicos e novos seres ao cabo.
Então aplaudi o nascimento dos primeiros átomos. Deixando os braseiros estelares, os núcleos recém nascidos “vestem-se” de elétrons e formam os primeiros átomos. Assim começa a evolução química. Os átomos se aliam em moléculas e poeiras interestelares, e essas poeiras, reunidas em torno de estrelas em formação dão origem aos planetas. Alguns desses planetas em convoluções adquirem mares e atmosfera; ali a evolução química, catalisada por essas novas condições, se acelera, criando moléculas que flutuam numa sopa primordial. De química a evolução torna-se biológica e produz células e seres vivos. Eu vi. 
Em alguns momentos me senti inquieto, havia crises e distorções nesta suposta ascensão. Não percebia eu que o Cosmo, como ser vivo que é, se contorce, se expande, se contrai e se acalma em vários movimentos quase sempre inexplicáveis. Em certos momentos especialmente instáveis, parecia que tudo era um grande engano e o frágil equilíbrio que existia implodiria em caos irremediável. Mas o Universo, apesar de hesitar e recuar algumas vezes, se reinventava e continuava seguindo adiante.
Eu me perguntava: onde nos levará esse caminho? Hoje a física nuclear nos permite conhecer a evolução nuclear. Ela nos explica como, a partir daquelas partículas nucleares que as vi nascerem, milionésimos de segundo após o que se convencionou chamar de Big bang, se formaram os primeiros núcleos atômicos no ventre incandescente das estrelas. Lançados como projéteis para o espaço pejado de partículas primordiais, os núcleos revestiram-se de elétrons. Atualmente a radioastronomia e exobiologia molecular nos permitem reconstruir as grande fases da evolução química das estrelas e o surgimento dos planetas primitivos. E, finalmente, seguindo as revelações de Darwin, somos capazes de percebermos, erguendo-se a nossa frente, a grande árvore da vida: a evolução biológica que nos leva à inteligência humana que permite deslindar esses mistérios da natureza.
Enquanto eu assistia esse drama como em uma tela panorâmica com imagens em 3D, me assaltava a pergunta: esse caminho rumo à extrema complexidade termina no homem? Santa ingenuidade. De sã consciência não há como afirmá-lo, não nos é permitido achar-nos o ápice da criação. O coração do Universo continua a bater no mesmo ritmo. A força inicial continua com impulso rumo ao vir a ser. O sentido inicial é o mesmo e o nível da complexidade não é possível de ser avaliado. É até viável que em outros planetas se tenham processado avanços muito maiores, e que em outros mais, o impulso vital só agora se faça sentir. Não nos é lídimo assegurar que somos únicos, como que privilegiados por uma natureza tão pródiga em outros misteres. Como em “2001 uma odisséia no espaço”, que futuro desconhecido a gestação cósmica prepara para nós? Que somos oriundos de primatas sabemos, mas o que nascerá do homem? JAIR, Floripa, 16/04/2013.