quinta-feira, 23 de maio de 2013

Interações





Nas minhas observações, por assim dizer, antropológicas das pessoas que me cercam, sempre olhei com bons olhos as “miscigenações”. Me deleito ao ver casais “mistos” em que um dos cônjuges ou um dos companheiros é diferente do outro, seja na cor, seja na etnia ou seja na nação de origem. Me amarro quando observo uma pessoa de cor negra junto a outra de pele branca, ou um aparente indígena com seu companheiro de características físicas distintas ou de cultura outra que não a sua. O mesmo vale para orientais e companheiros não orientais. Parece que casais mistos me fazem acreditar que a humanidade tem jeito, isto é, se pessoas de origens diferentes se unem e geram prole, estaremos mais próximos de abolir para sempre os preconceitos que criam desavenças culturais e guerras. Sonho que um dia a amálgama de todos com todos conduzirá a uma civilização solidária onde rusgas e desentendimentos raciais, religiosos, sociais, políticos, civilizatórios, culturais e entre nações serão coisa do passado.
Hoje participei aqui no Havaí do casamento de meu filho mais novo, Adriano. Ele casou com uma canadense. Falando assim nada de muito inusitado ou estranho, mas se levarmos em conta que ele mora na Austrália, ela no Canadá e casaram no estado norte americano mais longe do território continental daquela país, já começa a ficar interessante essa união.
Então vamos entender um pouco da cerimônia e suas interações culturais. A canadense Megan é filha de descendentes russos que vieram para o Canadá há quase 120 anos, mas conservam costumes de sua ancestral comunidade doukhobor. Os doukhobors são uma seita de cristãos russos que imigraram para o Canadá no fim do século 19 por terem sido perseguidos pelos imperadores russos que os queriam obrigar a servir nas forças armadas, atividade contrária ao seu pacifismo. Eles se instalaram no sudeste da Columbia Britânica, Alberta e Saskatchewan.
Entre os 41 convidados da festa havia uns vinte russos/canadenses, três ou quatro russos, uma ucraniana, cinco ou seis australianos, alguns norte americanos e quatro brasileiros, minha mulher, eu e os dois filhos, sendo que o nubente é cidadão australiano e o outro cidadão americano. Pois bem, por essa mixórdia já dá para perceber que existia certa amálgama de pessoas de origens diferentes. Falta dizer apenas que o pastor que realizou a cerimônia era havaiano nativo.
Para ilustrar bem como foi esse intercâmbio vale dizer que a cerimônia  foi realizada no idioma havaiano pelo pastor, em russo e inglês pelos parentes russos e canadenses e em português por mim e minha mulher. E um pouco de espanhol permeou as conversas de nós (minha mulher e eu) brasileiros com uns norte americanos que arranhavam o idioma de Cervantes. O francês de alguns canadenses francófilos também pontuou um pouquinho e o ucraniano da moça que o falava ficou dormente. O ritual em si foi um misto de casamento cristão, russo doukhoboriano e havaiano. As pessoas que lá se encontravam tinham olhos claros, exceto minha família e o oficiante havaiano. Vale contar que o pastor Lino, tem um antecedente longínquo português de sobrenome Lopes, o que nos fez quase aparentados e criou um clima de cordialidade cúmplice entre nós os brazucas e ele.
Essa união também torna-se interessante porque os doukhobors, por serem pacifistas extremados, escrutinaram o comportamento e a origem de meu filho para ter certeza que não estavam introduzindo um potencial cavalo de Tróia belicista ou adepto de armas e violência em sua comunidade. Os pais da Megan, Marilyn e Paul, estiveram até na Austrália conferindo in loco a vida do nosso filho. Para felicidade dos apaixonados Adriano e Megan nada desabonável foi encontrado em sua pacata vidinha de mineiro australiano. Aloha! JAIR, Mauí, 11/05/2013.


sábado, 18 de maio de 2013

Gatos e marinheiros



Todos sabemos que a evolução dos seres vivos deste Planeta se faz através de adaptações ao meio, de forma que o mais apto tem maior possibilidade de sobrevivência e de deixar descendentes. A lógica da evolução é muito simples. Em todos os seres vivos existem variações, assim como cores, tamanhos, aptidões e capacidades diversas, as quais são passadas de geração em geração. Nascem mais indivíduos do que são capazes de viver e procriar, o que equivale dizer que se o indivíduo morre cedo em geral não deixa descendentes. Em consequência, desenvolve-se uma batalha por permanecer vivo e encontrar um(a) parceiro(a). Nessa luta aqueles que possuem certas variantes (os mais aptos, no dizer de Darwin) prevalecem sobre os que não as têm. Tais diferenças passam para seus herdeiros pela capacidade de transmitir genes – seleção natural – significa que formas favoráveis tornam-se mais comuns com o passar das gerações.
Ocorre que a “disputa” pela sobrevivência opõe carnívoros e herbívoros, por excelência, de forma que uns e outros – gazelas e leões, por exemplo – disputam uma “corrida” evolutiva na qual vence o mais rápido, o mais ágil, o mais esperto. Também, nessa luta, os meios de propagação das espécies estão ligados a mecanismos que tornam isso possível. Assim, as plantas floríferas utilizam veículos que transportam seus pólens para fertilizar “parceiros” que transmitirão seus genes para a geração seguinte. Cada planta desenvolveu “parceria” com o vento, insetos e outros animais para se perpetuar.
O trevo vermelho é um caso que resulta numa boa estória. Até Darwin observou que o trevo vermelho é polinizado tão somente pela mamangaba, uma espécie de abelha grande, aliás, em alguns lugares chamada de abelhão. Este é único inseto que pelo seu porte é capaz de se introduzir no âmago da flor para retirar o néctar que lhe garante a sobrevivência e, desse modo, “sujar-se” do pólen que vai engravidar outra planta da mesma espécie. É tão completamente biunívoca essa relação trevo/mamangaba que um deixará de existir se o outro desaparecer, segundo entomologistas e botânicos.
Exemplo gritante dessa relação encontra-se na Nova Zelândia. Para lá foram transplantados trevos vermelhos que são alimentação excelente para o gado vacum. Como essa planta não é natural de lá, foi necessário importar os abelhões para tornar possível a perpetuação dos trevos naquelas bandas. Não havendo predadores das mamangabas na Nova Zelândia, os insetos se multiplicaram com facilidade de forma que os trevos tornaram-se abundantes e viçosos com nítida vantagem para a criação de gado. A carne de gado vacum é abundante, barata e de boa qualidade, de forma que concorre com facilidade com a carne produzida na Europa. A Nova Zelândia agora exporta carne para a Inglaterra, país que lhe forneceu o trevo e os abelhões.
Mas a estória é a seguinte. Na Inglaterra, notou-se, os ninhos dos abelhões naturais dos campos são mais abundantes nas proximidades das aldeias e pequenas cidades. E que essas mesmas aglomerações humanas têm muitos gatos domésticos. Como o predador natural dos abelhões é o rato, onde há gatos a população de ratos diminui e a das mamangabas aumenta, de modo que o trevo vermelho se beneficia da polinização que esse aumento propicia. Mais trevo disponível, gado mais gordo, sadio e abundante. E a estória continua. O trevo abundante graças aos gatos resulta em produção alentada de carne que é alimentação principal dos marinheiros. Há, portanto, a inferência que gatos fizeram da Inglaterra vitoriana a grande potência marítima que determinou o formato do mundo hoje. Em seguida, Thomas Huxley sugere que as solteironas britânicas com sua mania de adotar gatos, são responsáveis pelo poderio da marinha da Inglaterra.  
Para fechar o círculo, o francês Fischesser é de opinião que o poderio marítimo inglês ao privar de maridos as mulheres, estas se voltam para criação de gatos que, em última análise, são responsáveis por esse mesmo poderio marítimo. A sábia natureza com um empurrãozinho do não tão sábio Homo sapiens, pratica uma circunvolução evolucionista que dá um nó até na história moderna. JAIR, Floripa, 15/04/2013. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Havaí



Estou aqui no meio do Pacífico, no arquipélago do Havaí, ilha Maui, para onde vim, juntamente com minha mulher, para o casamento de nosso filho Adriano. Claro, para todo mundo que já viu no cinema aqueles filmes nos quais oliúde foca a excentricidade da cultura de um antigo povo polinésio que aqui aportou há milhares de anos, o Havaí é hula-hula; mulheres sensuais exbindo-se quase nuas para turistas excitados; sarongues e colares de flores.  Para os mais ligados aos novos tempos, Havaí é onde nasceu Barak Obama, único presidente norte americano a ter nascido neste arquipélago, ou grandes ondas dos sonhos de surfistas do Planeta inteiro.
Da história muito pouco se sabe. A maioria lembra que foi aqui que começou a guerra entre os EUA e os Japoneses depois que estes atacaram a chamada Frota do Pacífico no dia 07 de dezembro de 1941, afundando diversos navios, danificando muitos outros e matando cerca de 2400 militares que serviam na Base de Peal Harbor. Mas, não parece estranho que norte-americanos tenham um estado ilhéu extracontinental a mais de 3200 quilômetros do continente? Pois é, o arquipélago que possui 132 ilhas com oito delas habitadas desde que navegadores polinésios por aqui atracaram há milhares de anos e formaram uma  civilização sob regime de um rei, é estado norte americano.
Ao longo dos séculos vários navegantes ingleses, franceses, holandeses, portugueses e até alemães “descobriram” as ilhas por diversas vezes. Mas foi o comandante inglês James Cook o primeiro a desembarcar em 18 de janeiro de 1778. Portanto, a Cook é creditada a descoberta do arquipélago por ter sido o primeiro a registrar oficialmente o encontro, bem como o primeiro a fornecer as suas coordenadas geográficas. Cook nomeou o arquipélago de Ilhas Sanduíche, em homenagem ao Duque de Sandwich, um lorde britânico, nome este que por vezes ainda é utilizado em alguns atlas.
Depois dessas visitas não especialmente bem vindas, os europeus passaram a fazer das ilhas um ponto de abastecimento em  seus deslocamentos através do pacífico, dando assim oportunidade para que os ilhéus fizessem negócios com eles. Os havaianos então tornaram-se fornecedores de madeira, frutas e água para os navegantes. Passaram a ser exportadores de madeira até para o Japão, de modo que acabaram com as florestas das ilhas.
Geologicamente o arquipélago é relativamente novo, tem pouco mais de cinquenta milhões de anos e ainda está em formação. Está sendo “vomitado” do manto terrestre por vulcões que se formam no que os geólogos chamam de “ponto quente” no fundo do oceano. Na medida em que a placa oceânica se move para o noroeste o ponto quente vai formando as ilhas numa sequência. Hoje quem está em “construindo” a última ilha – Big Island - é o Kilauea, o vulcão mais ativo do mundo e um espetáculo que nos próximos dias vou conhecer de perto. Estou com uma excursão programada para visitá-lo.
Pois bem, então estavam os havaianos vivendo sua monarquia, vendendo seus produtos para os europeus, sendo visitados por missionários cristãos que os converteram em sua maioria, quando os EUA em 1898, depois de ter vencido a Espanha numa guerra na qual arrancou do inimigo as Filipinas, Porto Rico e Cuba, resolveu avançar um pouco mais nas suas ambições territorialistas e tomou posse do Havai donde não mais saiu.  Depois de algum tempo o conjunto de ilhas tornou-se estado dos EUA e passou a abrigar a maior base aeronaval extracontinental daquele país. A Base de Pearl Harbor tem um imenso significado estratégico para a segurança da Frota do Pacífico dos EUA.
Hoje a  população dessas ilhas é composta pelos descendentes dos antigos moradores, norte americanos migrados para cá ou aqui nascidos e um expressivo contingente de japoneses. Essa miscelânea de povos tão distintos marca indelevelmente a cultura e o estilo de vida deste estado que tem como produtos principais de exportação abacaxi, açúcar de cana e café, aliás, café de excelente qualidade o qual estou levando dois quilos na bagagem para o Brasil.
Pode-se afirmar que o Havaí é o único estado dos EUA com cara própria, o comportamento do povo daqui foge completamente dos jeitões quase estereotipados dos norte americanos continentais. O uso do idioma havaiano é tão difundido que existe até estações de TV e rádios transmitindo nessa língua full time. Contudo, ainda que o status de estado dê a estes pedaços de terra perdidos no mar o mesmo padrão de vida e as mesmas facilidades dos estados continentais, ainda existe um pequeno ressaibo de mágoa nos havaianos. Quando os “nativos” se referem aos EUA continental, dizem com certa ironia: Main land, de forma meio enfática estabelecendo que aqui eles são diferentes, cidadãos menores do império. Algo assim como o Brasil colônia se referia à matriz, Portugal. Aloha! JAIR, Havaí, 10/05/13. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O guarda-chuva



Quando eu tinha catorze anos comprei meu primeiro guarda-chuva. Comprei-o a prestações de uma mascate ambulante (Mascate ambulante? Não será todo mascate, ambulante?) de nome Germano, que passava periodicamente pela cidade vendendo “coisas”. Na verdade sua bagagem consistia de duas imensas malas cheias de cacarecos que não eram facilmente encontráveis no comércio de cidade pequena como Palmeira. Então, seu Germano fazia a festa. Foi assim que acabei comprando o tal guarda-chuva em suaves seis prestações, porque, apesar de já trabalhar duro numa madeireira, oque eu ganhava – meio salário mínimo – mal dava para ir ao cinema de vez em quando. Acrescente-se que era uma guarda-chuvinha bem furrepa, uma pancada mais forte e água em spray passava pelo pano quase transparente e molhava a roupa e os cabelos.
Porque estou contando essa tão pouco esfuziante história? Por que um dia destes, aqui em Floripa, despencou uma iracunda chuva de verão com rajadas fortes de vento bem na hora em que eu havia saído para almoçar. Esclarecendo, aqui em casa há mais de dez anos não fazemos almoço, comemos em restaurantes porque sai mais barato e é mais prático. Assim não precisamos lavar louças, fazer compras de gêneros alimentícios, não deixamos sobras de comida e não passamos tempo na cozinha. Bem, dizia eu que havia saído para almoçar e caiu uma tempestade implacável. O que me chamou atenção durante o curto percurso de meu apartamento ao restaurante ida e volta, foi a grande quantidade de guarda-chuvas abandonados na rua. Impressionante, nuns poucos quarteirões contei despreocupadamente seis ou sete desses objetos atirados fora em mau estado provavelmente em decorrência das rajadas de vento.
Então ficam algumas observações.  Quando adquiri com grande sacrifício meu primeiro e não tão bom guarda-chuva, este se tornou um objeto caro – lembremos que o comprei a prestações - de muita utilidade e que requeria grande cuidado, eu não podia me dar ao luxo de extraviá-lo ou danificar porque isso podia significar não poder comprar outro e ter que me molhar à menor chuvinha; hoje os guarda-chuvas vêm da China a um preço irrisório e os portadores não estão apegados a esse bem que, se perdido, pode ser reposto com grande facilidade; o meu primeiro guarda-chuva, apesar de ser de pouca qualidade para os padrões da época, era muito mais resistente que maioria dos atuais; naquele tempo objetos como guarda-chuvas não eram particularmente fáceis de encontrar, não havia muita disponibilidade, ainda mais em cidades pequenas como Palmeira.
Hoje a sociedade de consumo talvez não entenda como pode um simples guarda-chuva ser comprado a prestações. Em qualquer ponto de qualquer cidade podem ser adquiridos guarda-chuvas por até cinco reais. Veja bem, cinco reais! Dá prá imaginar fazer seis prestações mensais para comprar um objeto de cinco reais? A coisa é tão surrealista que parece que vivi minha experiência em outro século. Pensando bem, foi em outro século mesmo e eu é que estou velho e não posso negar. Abraços, JAIR, Floripa, 14/04/2013. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Fezes e flores



Na década de sessenta do século passado, em Nice, na França, numa área litorânea, com intuito de construir um conjunto residencial, faziam-se escavações quando os operários se depararam com o que parecia ser restos de edificações muito antigas. Foram então chamados paleontólogos e arqueólogos do Instituto Histórico Francês para fazer a identificação do sítio e pesquisas que determinassem o possível valor do achado.
Feitas escavações dirigidas e recolhidos diversos restos de cerâmica, armas e utensílios, depois de testes de carbono 14 nas cinzas de fogueiras que por lá havia, constatou-se que o acampamento pertencera a homens que viveram há 400 mil anos. Mas entre o que se recolheu para estudo havia uma “pedra” bastante peculiar. Após um exame minucioso constatou-se que a pedra era o que os paleontólogos chamam de coprólito. Pois é, esses tais coprólitos são fezes fossilizadas, excrementos que por ação do tempo e por mineralização se transformaram e objetos endurecidos como pedra e que contém informações valiosas sobre a dieta alimentar do ser que obrou aquele dejeto. Vale dizer que é possível fazer um exame de fezes de um animal que já tenha falecido há milhares de anos.
Tenho lido muito sobre botânica e encontrei num livro “A prodigiosa vida das plantas” um bocado de informações interessantes, entre elas, a que fala sobre pólen. O pólen, grosso modo, pode ser comparado ao gameta masculino (espermatozóide) dos animais, ele contém a mensagem genética do pai planta que irá fecundar o ovário da mãe planta e formar a semente. No Planetinha azul existem catalogadas em torno de 250 mil plantas que produzem flores, isto é que se utilizam da fecundação para reproduzir-se. Como os veículos que transportam o pólen – ventos, insetos, aves, roedores e morcegos - de uma flor a outra não o sabem que estão polinizando, foi necessário encontrar um meio seguro para evitar que o pólen de uma espécie polinize espécie diferente. Então cada uma dessas 250 mil plantas produz um grão de pólen absolutamente único, impossível de ser confundido com qualquer outro. Como nossas impressões digitais ou DNA dos seres vivos, com o pólen pode-se identificar a planta que o produziu sem qualquer erro. Imaginemos que se não existisse tal mecanismo, que na sua concepção é bem simples, haveria um caos no reino vegetal de tal forma que seria impossível a procriação sexuada das plantas.
Agora lembremos que os grãos de pólen são microscópicos, eles flutuam nos ares e nós os ingerimos involuntariamente pela boca e pelo nariz quando falamos, comemos, bebemos e até respiramos. Talvez neste momento tenhamos milhares de grãos de pólen no nosso interior sem que o percebamos. Existe até uma doença conhecida como “febre do feno” que semelha-se a uma alergia nas mucosas aéreas ou um resfriado associado à febre que é resultado da inspiração do pólen de gramíneas.
Pois então temos uma flora formidável em trânsito por nosso organismo e a possibilidade de identificar sem erro qualquer tipo de pólen das 250 mil plantas que o produzem. Impressionante, não é mesmo?
Depois do recolhimento dos objetos da escavação em Nice, os cientistas franceses especializados em coprólitos, utilizando os conhecimentos botânicos de seus congêneres especializados em flora, estavam com os pólens e as fezes na mão. Graças a esses cruzamentos de saberes, os homens de ciência, como detetives modernos, puderam estabelecer o flora que dominava a região na qual aqueles homens viveram há 400 mil anos.
Fecha-se o círculo, fezes como adubo fornecem os elementos essenciais à vida das plantas e, quando estas desaparecem, talvez para sempre, os mesmos dejetos podem trazer gravado em suas composições os sinais que identificam as plantas floríferas que viveram na região que o animal produtor daquelas fezes viveu. JAIR, Floripa, 15/04/2013.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O escravo

Caricatura feita através de fotografia por Cícero, grande cartunista de Brasília. 

Quaisquer definições que se deem à escravidão e escravo, estarão sempre se referindo a falta de liberdade de agir, ir e vir ou pensar, o trabalho sem ou com escassa remuneração ou aquelas condições políticas nas quais um déspota, sob qualquer linha ideológica, impõe sua vontade sobre outro(s) ser(es) humano(s). O regime da Coreia do Norte sob o jugo de Kim Jong-um é um exemplo típico de escravidão e seus cidadãos de escravos.
Pois bem, feito o prolegômeno, quero contar é que já fui escravo. Sim, é isso mesmo já fui escravo.
Nasci e vivi os primeiros dezessete anos de minha vida na cidade de Palmeira no Paraná. Como já escrevi antes, aquela cidade a partir dos anos quarenta até os anos setenta era eminentemente madeireira, isto é, empresários do ramo das madeireiras se travestiam de gigolôs de floresta e exploravam as abundantes matas de Araucárias existentes naquelas paragens. Palmeira, depois de ter passado por uma fase de algum progresso econômico com exploração da erva-mate, agora havia optado pelo desmatamento desmesurado dos pinheiros para que alguns enriquecessem ao preço do empobrecimento da região e a escravidão de gente pobre como meu pai e seus contemporâneos.
Todas as famílias de operários das madeireiras criavam um vínculo de dependência com seus patrões, de modo que não só os pais, mas os filhos quando atingiam quatorze anos também passavam a trabalhar naquelas empresas. Não foi diferente comigo. Quando completei quatorze anos meu pai incontinenti – sem se importar se eu queria ou não – inscreveu-me para me tornar operário braçal na Emilio Malucelli & Irmãos, madeireira na qual ele era empregado há mais de vinte anos. Trabalhei dos 14 aos 18 anos, quando então saí para servir na FAB e lá fiquei.
Até ai tudo bem, afinal como diz o ditado: ninguém morre de trabalhar. Ainda que se aceite isso como verdade verdadeira, talvez não seja bem assim. Operários das fábricas alemãs morriam de tanto trabalho escravo durante o regime nazista.
Bem, no meu caso foi um pouco diferente. Quando, muitos anos mais tarde precisei levantar meu anos de trabalho para fins de aposentadoria, descobri que não havia absolutamente nada provando que algum dia trabalhei na Madeireira Malucelli. Meus quatro anos lá trabalhados jamais foram registrados para fins de previdência, imagino que o produto $$$ do meu trabalho foi destinado a um caixa dois que aumentou os lucros daqueles patrões tiranos. Acresça-se a isso que minhas atividades no labor eram exatamente as mesmas que os adultos faziam, mas eu ganhava apenas metade do salário mínimo porque era de menor. Ainda mais, nunca me foram concedidas férias remuneradas. As possíveis horas extras que, por lei, deveriam ser pagas para trabalho noturno, nunca o foram, podia-se trabalhar a noite inteira – o que costumava acontecer com frequência – mas pagava-se horas normais. Além de tudo trabalhei em local insalubre onde o nível de ruído era algo terrível sem qualquer dispositivo de segurança – tampões de ouvido, por exemplo. Hoje tenho uma deficiência auditiva por traumatismo acústico que devo atribuir àquela maldita fábrica e seus ruídos ensurdecedores. O ambiente de trabalho além de insalubre era perigoso, todos os anos dezenas de menores se mutilavam nas máquinas mal projetadas e mal operadas por falta de segurança.
Resumindo. Trabalhar como adulto e receber metade de salário mínimo; trabalhar sem registro em carteira; trabalhar em local insalubre; não ter direito a férias. É ou não é trabalho escravo? Hoje sei o que sentem os cidadãos coreanos do norte. Hoje sei que aqueles algozes que se diziam empresários das madeiras ficaram ainda mais ricos com meu suor, meu tempo de vida e minha saúde. E eles ainda posavam de altruístas, pois que, segundo seu modo de ver as coisas, se eles não nos empregassem nós não teríamos onde trabalhar e possivelmente nos tornaríamos mendigos.
Como ilustração, coloquei uma caricatura de uma foto minha para lembrar que vivi uma caricatura de vida por alguns anos. Se houver justiça neste país, vou invocar a Lei Áurea e pedir indenização pelos danos a mim impingidos na minha adolescência. JAIR, Floripa, 14/01/2013. 

domingo, 14 de abril de 2013

Primeiro texto


De posse de um novíssimo MacBook Pro da Apple, que deverá substituir o Itautec bem anoso e super usado (está com tecla on/off quebrada) que tem aturado minhas idiossincrasias de escrevinhador por mais de cinco anos, faço aqui esta primeira tentativa de produzir um texto.
Somando às dificuldades inerentes a uma máquina a qual não tenho intimidade alguma; deixei de escrever qualquer coisa que preste em meados de novembro passado. Então não deverá ser surpresa se este primo textus, por assim dizer, sair sem qualquer qualidade, digamos, palatável.
Como acredito que o talento (ou a falta dele) não se perde por aí por falta de uso, coloco minhas fichas todas neste jogo: “o texto sairá tão bom – ou ruim – como os demais antes do recesso”. Então aí vai.
Depois que parei de escrever voluntariamente descobri que meu cérebro se recusa a ficar ocioso, ele exige de mim algum esforço que o desafie. Na falta desse esforço o cérebro vagabundo tende a tornar-se pernicioso, tende a insanidade. Vale o adágio, “cabeça vazia é oficina do diabo”, ou coisa semelhante.
Então, sobrando tempo, e certo espaço vazio no cérebro, me propus estudar entomologia, sim, resolvi adentrar o estranho mundo dos Tisanuros (traças), Odonatas (libélulas), Ortópteros (gafanhotos, grilos e baratas), Isópteros (cupins), Coleópteros (besouros), Lepidópteros (borboletas e mariposas) e milhares de outras famílias, gêneros e espécies que povoam o Planetinha azul desde muitos milhões de anos antes do Homo chamado sapiens sequer “pensar” em aparecer por aqui para encher o saco dos outros viventes.    
Tomada a decisão, adquiri livros didáticos sobre o tema e estou me enfronhando com empenho nesse novo metier. A coisa é particularmente medonha, a quantidade de representes dessa fauna é, para dizer o mínimo, piramidal, e  as dificuldades com o latim são indescritíveis, de modo que só depois de cinco anos estarei “formado” na matéria, acredito com otimismo.  
Se minha previsão se confirmar, faço nova incursão nas ciências e passo a estudar botânica, o qual é outro assunto que me fascina desde muito.
Posto isso, considero que minha reestreia está concluída e nada prometo daqui prá frente. JAIR, Floripa, 14/04/2013.