Caricatura feita através de fotografia por Cícero, grande cartunista de Brasília.
Quaisquer definições
que se deem à escravidão e escravo, estarão sempre se referindo a falta de
liberdade de agir, ir e vir ou pensar, o trabalho sem ou com escassa
remuneração ou aquelas condições políticas nas quais um déspota, sob qualquer
linha ideológica, impõe sua vontade sobre outro(s) ser(es) humano(s). O regime
da Coreia do Norte sob o jugo de Kim Jong-um é um exemplo típico de escravidão
e seus cidadãos de escravos.
Pois bem, feito o
prolegômeno, quero contar é que já fui
escravo. Sim, é isso mesmo já fui escravo.
Nasci e vivi os
primeiros dezessete anos de minha vida na cidade de Palmeira no Paraná. Como já
escrevi antes, aquela cidade a partir dos anos quarenta até os anos setenta era
eminentemente madeireira, isto é, empresários do ramo das madeireiras se
travestiam de gigolôs de floresta e exploravam as abundantes matas de
Araucárias existentes naquelas paragens. Palmeira, depois de ter passado por
uma fase de algum progresso econômico com exploração da erva-mate, agora havia
optado pelo desmatamento desmesurado dos pinheiros para que alguns
enriquecessem ao preço do empobrecimento da região e a escravidão de gente
pobre como meu pai e seus contemporâneos.
Todas as famílias de
operários das madeireiras criavam um vínculo de dependência com seus patrões,
de modo que não só os pais, mas os filhos quando atingiam quatorze anos também
passavam a trabalhar naquelas empresas. Não foi diferente comigo. Quando
completei quatorze anos meu pai incontinenti – sem se importar se eu queria ou
não – inscreveu-me para me tornar operário braçal na Emilio Malucelli &
Irmãos, madeireira na qual ele era empregado há mais de vinte anos. Trabalhei
dos 14 aos 18 anos, quando então saí para servir na FAB e lá fiquei.
Até ai tudo bem,
afinal como diz o ditado: ninguém morre de trabalhar. Ainda que se aceite isso
como verdade verdadeira, talvez não seja bem assim. Operários das fábricas
alemãs morriam de tanto trabalho escravo durante o regime nazista.
Bem, no meu caso foi
um pouco diferente. Quando, muitos anos mais tarde precisei levantar meu anos
de trabalho para fins de aposentadoria, descobri que não havia absolutamente
nada provando que algum dia trabalhei na Madeireira Malucelli. Meus quatro anos
lá trabalhados jamais foram registrados para fins de previdência, imagino que o
produto $$$ do meu trabalho foi destinado a um caixa dois que aumentou os
lucros daqueles patrões tiranos. Acresça-se a isso que minhas atividades no
labor eram exatamente as mesmas que os adultos faziam, mas eu ganhava apenas
metade do salário mínimo porque era de menor. Ainda mais, nunca me foram
concedidas férias remuneradas. As possíveis horas extras que, por lei, deveriam
ser pagas para trabalho noturno, nunca o foram, podia-se trabalhar a noite
inteira – o que costumava acontecer com frequência – mas pagava-se horas
normais. Além de tudo trabalhei em local insalubre onde o nível de ruído era
algo terrível sem qualquer dispositivo de segurança – tampões de ouvido, por
exemplo. Hoje tenho uma deficiência auditiva por traumatismo acústico que devo
atribuir àquela maldita fábrica e seus ruídos ensurdecedores. O ambiente de
trabalho além de insalubre era perigoso, todos os anos dezenas de menores se
mutilavam nas máquinas mal projetadas e mal operadas por falta de segurança.
Resumindo. Trabalhar
como adulto e receber metade de salário mínimo; trabalhar sem registro em
carteira; trabalhar em local insalubre; não ter direito a férias. É ou não é trabalho escravo? Hoje sei o que sentem
os cidadãos coreanos do norte. Hoje sei que aqueles algozes que se diziam
empresários das madeiras ficaram ainda mais ricos com meu suor, meu tempo de
vida e minha saúde. E eles ainda posavam de altruístas, pois que, segundo seu
modo de ver as coisas, se eles não nos empregassem nós não teríamos onde
trabalhar e possivelmente nos tornaríamos mendigos.
Como ilustração,
coloquei uma caricatura de uma foto minha para lembrar que vivi uma caricatura
de vida por alguns anos. Se houver justiça neste país, vou invocar a Lei Áurea
e pedir indenização pelos danos a mim impingidos na minha adolescência. JAIR,
Floripa, 14/01/2013.
