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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Grécia


Acrópole
Vulcão em Santorini 1950.

É meu costume tecer algumas impressões sobre as terras e povos que conheço em minhas viagens. Acabo de escrever sobre o Havaí e agora que estou em Santorini depois de passar por Atenas, impõe-se um registro em forma de pinceladas sobre esta que foi a pátria dos grandes filósofos que influenciam a cultura ocidental até hoje.
Tenho um conhecido grego muito especial que casou com uma amiga nossa – infelizmente falecida a poucos meses – o qual não estou visitando nesta viagem, mas que já esteve em minha casa no Brasil algumas vezes. Pois bem, esse grego, Panaiotis Dotsikas, médico cirurgião plástico, fala bem o português de modo que podemos desenvolver altos papos sem perda de qualidade de informações. Em certa ocasião, observei que o grande passado digamos, “civilizatório“ grego, devia ter algum peso no sentimento do homem helênico comum nos tempos atuais. Ele, o Panaiotis, concordou comigo e afirmou que esse alentado passado filosófico é tão significativo que, ao ser lembrado, coisa que acontece sempre, é sentido como uma pirâmide invertida sobre a cabeça dos gregos atuais. O passado deste povo é maior que o presente, seu peso é muito difícil de carregar em vista da vida comum, e porque não dizer medíocre, que os gregos vivem hoje. Ainda mais agora, aderidos a CEE, onde parceiros mais abastados dão as cartas no jogo e países como Espanha, Portugal e Grécia, o mais das vezes concordam de cabeça baixa, submissos.
Outro dia acabei de ler um interessante livro sobre a crise econômica mundial que assola especialmente a Europa e os EUA. No que se refere à Grécia o autor destacou que a insolvência do Estado está ligada à baixa arrecadação de taxas e impostos que incidem sobre grandes investidores, profissionais liberais e pessoas abastadas. Claro que para nós brasileiros não é tanta novidade observar que quem tem mais poder aquisitivo em geral paga menos impostos, mas parece que aqui na terra onde nasceram as Olimpíadas, não há necessidade de grandes obras públicas e eventos patrocinados pelo Estado para que os mais ricos se valham com mais assiduidade da “Lei de Gérson”. Contrário ao Patropi, onde a Receita Federal está sempre atenta às declarações e, às vezes, até mesmo às ostentações, na Grécia o rico, o especulador e o profissional liberal infrator podem ficar tranquilos, quem está no poder está tão atolado em sonegação que não toma qualquer atitude para não entornar o caldo. Mas os pobres e assalariados se parecem muito com nós brasileiros, continuam pagando a conta maior dos impostos. A Grécia é um Brasil dois ponto zero europeu quando se trata de impostos, não deverá sair do atoleiro sem um vassourada firme em forma de auditoria séria nas suas contas.
Então esse é o país arquipélago composto de centenas de ilhas onde se encontra Santorini, ilha que estou hospedado há alguns dias. Santorini, para quem é fascinado por geologia como eu, é um prato cheio. A ilha principal que tem forma de um “C” invertido com três outras ilhas menores no seu interior, foi formada por vulcões a partir de 600 mil anos atrás. Pela Wikipédia fico sabendo que Santorini é o vulcão mais ativo do denominado Arco Egeu, sendo constituída por uma grande caldeira submersa, rodeada pelos restos dos seus flancos. Esta forma atual da ilha deve-se, em grande parte, à violentíssima erupção que há aproximadamente 3.500 anos atrás explodiu mais de oitenta por cento do território da ilha. A erupção, citada pelos geólogos como a mais violenta dos tempos históricos, algo equivalente a um milhão de bombas atômicas de Hiroshima, criou a atual caldeira e produziu depósitos de cinzas, lavas e pedras com algumas centenas de metros de espessura que recobriram tudo o que restou da ilha e ainda atingiram grandes áreas do Egeu e dos territórios vizinhos. As camadas geológicas alternadas são perfeitamente visíveis nas encostas desmoronadas da ilha. Há indicações seguras que a erupção parece estar ligada ao colapso da fabulosa Civilização Minóica na ilha de Creta, distante de Santorini 110 km ao sul. Fora isso, há 63 anos atrás aconteceu a última erupção numa ilha que posso ver da minha janela a poucas centenas de metros. O que resultou de bom de toda essa atividade sismológica é que as terras vulcânicas de Santorini são extremamente férteis, aqui todo mundo planta uvas e produz vinho de excelente qualidade. As frutas e legumes produzidos pelos ilhéus - eles fazem questão de dizer - são vendidos em todos os supermercados e mercadinhos da ilha e nada devem em qualidade às melhores produções de qualquer parte do Planeta. Não tenho dúvidas que eles estão certos, comi as frutas locais e as considerei excelentes.
Feitas as contas, guardando respeito pelo passado esmagadoramente influente, a situação da Grécia atual está amparada na excelência do turismo que aproveita o potencial de seu arquipélago privilegiado de belezas naturais.  Independente de modismo, vale muito à pena visitar as ruínas do império na capital Atenas onde se pode ver a excelência das engenharias helênica e romana que construíram monumentos de tal ordem de grandeza e complexidade que é difícil imaginar como o fizeram há mais de dois mil anos atrás. Quando visitei a Acrópole vi o local tal uma praça denominado “Perypatus” e quase consegui enxergar Aristóteles andando, seguido de seus pupilos, versando pausadamente sobre botânica, biologia, lógica, música, matemática, astronomia, medicina, cosmologia, física, história da filosofia, metafísica, psicologia, ética, teologia, retórica, história política, do governo e da teoria política, retórica e as artes. Tudo que acabou sendo incorporado à nossa cultura ocidental e deu feição ao que hoje somos. Ευχαριστώ Ελλάδα! Obrigado Grécia! JAIR, Santorini, 19/05/13.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Havaí



Estou aqui no meio do Pacífico, no arquipélago do Havaí, ilha Maui, para onde vim, juntamente com minha mulher, para o casamento de nosso filho Adriano. Claro, para todo mundo que já viu no cinema aqueles filmes nos quais oliúde foca a excentricidade da cultura de um antigo povo polinésio que aqui aportou há milhares de anos, o Havaí é hula-hula; mulheres sensuais exbindo-se quase nuas para turistas excitados; sarongues e colares de flores.  Para os mais ligados aos novos tempos, Havaí é onde nasceu Barak Obama, único presidente norte americano a ter nascido neste arquipélago, ou grandes ondas dos sonhos de surfistas do Planeta inteiro.
Da história muito pouco se sabe. A maioria lembra que foi aqui que começou a guerra entre os EUA e os Japoneses depois que estes atacaram a chamada Frota do Pacífico no dia 07 de dezembro de 1941, afundando diversos navios, danificando muitos outros e matando cerca de 2400 militares que serviam na Base de Peal Harbor. Mas, não parece estranho que norte-americanos tenham um estado ilhéu extracontinental a mais de 3200 quilômetros do continente? Pois é, o arquipélago que possui 132 ilhas com oito delas habitadas desde que navegadores polinésios por aqui atracaram há milhares de anos e formaram uma  civilização sob regime de um rei, é estado norte americano.
Ao longo dos séculos vários navegantes ingleses, franceses, holandeses, portugueses e até alemães “descobriram” as ilhas por diversas vezes. Mas foi o comandante inglês James Cook o primeiro a desembarcar em 18 de janeiro de 1778. Portanto, a Cook é creditada a descoberta do arquipélago por ter sido o primeiro a registrar oficialmente o encontro, bem como o primeiro a fornecer as suas coordenadas geográficas. Cook nomeou o arquipélago de Ilhas Sanduíche, em homenagem ao Duque de Sandwich, um lorde britânico, nome este que por vezes ainda é utilizado em alguns atlas.
Depois dessas visitas não especialmente bem vindas, os europeus passaram a fazer das ilhas um ponto de abastecimento em  seus deslocamentos através do pacífico, dando assim oportunidade para que os ilhéus fizessem negócios com eles. Os havaianos então tornaram-se fornecedores de madeira, frutas e água para os navegantes. Passaram a ser exportadores de madeira até para o Japão, de modo que acabaram com as florestas das ilhas.
Geologicamente o arquipélago é relativamente novo, tem pouco mais de cinquenta milhões de anos e ainda está em formação. Está sendo “vomitado” do manto terrestre por vulcões que se formam no que os geólogos chamam de “ponto quente” no fundo do oceano. Na medida em que a placa oceânica se move para o noroeste o ponto quente vai formando as ilhas numa sequência. Hoje quem está em “construindo” a última ilha – Big Island - é o Kilauea, o vulcão mais ativo do mundo e um espetáculo que nos próximos dias vou conhecer de perto. Estou com uma excursão programada para visitá-lo.
Pois bem, então estavam os havaianos vivendo sua monarquia, vendendo seus produtos para os europeus, sendo visitados por missionários cristãos que os converteram em sua maioria, quando os EUA em 1898, depois de ter vencido a Espanha numa guerra na qual arrancou do inimigo as Filipinas, Porto Rico e Cuba, resolveu avançar um pouco mais nas suas ambições territorialistas e tomou posse do Havai donde não mais saiu.  Depois de algum tempo o conjunto de ilhas tornou-se estado dos EUA e passou a abrigar a maior base aeronaval extracontinental daquele país. A Base de Pearl Harbor tem um imenso significado estratégico para a segurança da Frota do Pacífico dos EUA.
Hoje a  população dessas ilhas é composta pelos descendentes dos antigos moradores, norte americanos migrados para cá ou aqui nascidos e um expressivo contingente de japoneses. Essa miscelânea de povos tão distintos marca indelevelmente a cultura e o estilo de vida deste estado que tem como produtos principais de exportação abacaxi, açúcar de cana e café, aliás, café de excelente qualidade o qual estou levando dois quilos na bagagem para o Brasil.
Pode-se afirmar que o Havaí é o único estado dos EUA com cara própria, o comportamento do povo daqui foge completamente dos jeitões quase estereotipados dos norte americanos continentais. O uso do idioma havaiano é tão difundido que existe até estações de TV e rádios transmitindo nessa língua full time. Contudo, ainda que o status de estado dê a estes pedaços de terra perdidos no mar o mesmo padrão de vida e as mesmas facilidades dos estados continentais, ainda existe um pequeno ressaibo de mágoa nos havaianos. Quando os “nativos” se referem aos EUA continental, dizem com certa ironia: Main land, de forma meio enfática estabelecendo que aqui eles são diferentes, cidadãos menores do império. Algo assim como o Brasil colônia se referia à matriz, Portugal. Aloha! JAIR, Havaí, 10/05/13. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Índia





Meu filho mais novo, Adriano, mora na Austrália e gosta imensamente de viajar pelo mundo. Numa dessas viagens conheceu Megan Markin, garota canadense que também é uma espécie de globetrotter. Hoje vivem juntos em Wolloogong, cidade próxima a Sydney e continuam viajando para ver o que há lá fora, principalmente pela Ásia e Oceania. Desse modo, estiveram em Siri Lanka, Maldivas, Indonésia e, por último, na Índia.
Já escrevi sobre esse exótico país em uma ocasião e a ele me referi assim: “Estou lendo o excelente livro “Criação” de Gore Vidal onde autor faz um retrato riquíssimo da sociedade indiana com suas castas, etnias, milhares de deuses e inúmeras religiões, e assisti ao filme ganhador de três Oscars, “Quem quer ser milionário” o qual exibe, com chocante previsibilidade, os contrastes sociais da Índia, nação onde as diferenças entre a maioria miserável e analfabeta e a elites ricas e poderosas, são milenares, aviltantes, astronômicas e sem quaisquer possibilidades de mudança num futuro previsível”.
Pois bem, nunca lá estive, portanto vou valer-me das palavras de minha nora para dar uma pincelada sobre aquelas impressões chocantes que uma sociedade tão exótica causa nas mentes ocidentais. Como disse, Megan é canadense e devemos lembrar que o Canadá é um dos países de melhor qualidade de vida do Planeta, então ela deve ter sentido com mais vigor os contrastes culturais com os quais se deparou. Vejamos suas “impressões de viagem”, obviamente com olhar primeiromundista:
Era tarde quando chegamos a Nova Delhi, no momento em que desembarcamos, Adri e eu ficamos impressionados com a fumaça no ar. Perguntamos ao motorista de táxi se havia um grande incêndio na área. Ele falava Inglês, mas parecia muito intrigado com a nossa pergunta. Era difícil respirar, o ar denso e pesado,desagradável na garganta e tóxico para os pulmões. Na manhã seguinte abrimos a janela de nosso hotel sob uma neblina espessa que cobria a cidade e não se podia ver muito longe no horizonte. Uau ... isso não é fumaça, é a poluição!”
Ela prossegue sempre surpresa: “Do nosso quarto de hotel, podíamos ouvir o ruído constante das buzinas na rua abaixo de nós. "Você está pronto para isso?". Perguntamos um ao outro. Eu havia passado semanas me preparando mentalmente para esta viagem. Bem, eu ainda estava chocada. Fomos a pé. Estradas não pavimentadas, esgoto aberto, pilhas de lixo, olhares incisivos dos habitantes locais, seguindo-nos ... perseguindo-nos como se tivéssemos $$ escrito em nossas testas. Todo mundo quer um pedaço de você na Índia”.
Abordagem: “Era sempre assim: De que país você é? Quanto tempo você está na Índia? Bastante inocente, mas quanto mais tempo você está lá, infelizmente, mais você percebe que eles estão apenas tentando passar a conversa com intuito de achacá-lo! Triste, mas verdadeiro”. Pobreza:
“A pobreza também é suficiente para mantê-lo acordado à noite. Fizemos uma prática de compra de sacos de arroz para entregá-los às crianças e aos desabrigados. Eu também acondicionei minhas sobras após cada refeição e dei o alimento para beggers na rua. Uma mulher rasgou a embalagem e começou a devorá-lo no local. Muito, muito triste”.
Taj Mahal: “Depois da caótica Nova Déli, fomos para Agra, que abriga o Taj Mahal. Fiquei surpresa ao ver que Agra não é tão turística em tudo, mas o lar de ruas ainda mais estreitas e esgoto a céu aberto. Talvez fossem os sacos de m* jogados pelas ruas (sim, literalmente, sacos cheios de m* humana, os cheiros tão intensos que eu quase vomitei por duas vezes), mas quando chegamos a nossa "pousada tradicional indiana", que eu registrei a propósito, acabei tendo uma pequena depressão”. Hotel e pousada
: “Não havia água quente para limpar-nos de toda poeira e fumaça que se infiltra no seu cabelo e roupas. O cobertor na cama também era meio pegajoso e cheirava engraçado. Uma coisa é experimentar o caos, sujeira e imundície nas ruas, mas quando você não pode sentir-se limpo no seu próprio quarto é quando a coisa realmente começa a ficar inconcebível”. “Felizmente, o hotel reservado em Jaipur era muito mais agradável. Talvez essa seja a maneira mimada de falar, mas crescendo no mundo ocidental, estamos acostumados a certos luxos e pode ser difícil ficar sem. Eu viajei para vários outros países sem água quente, cama limpa, etc, mas desta vez, devido ao sentimento tão sujo simplesmente andando pelas ruas infestadas de esgoto, eu tive o suficiente. Acho que estou oficialmente me aposentando de albergues. A Índia fez isso para mim.”
Adaptação
: “Na parte alta da cidade, compras em bazares é super divertido, tudo é tão barato (apesar de termos sido roubados o tempo todo), a comida é deliciosa. Eu acho que só levou alguns dias para nos acostumarmos com a intensidade das ruas. Então, depois de um pouco mais de uma semana na Índia, estamos nos ajustando ao barulho constante e cheiros. Nada mais que fases, que você acabou de aprender a aceitar as ocorrências bizarras como se fossem normais. Isto é, até chegarmos em Varanasi”.
“Com mais de 3000 anos, Varanasi é, aparentemente, a cidade mais antiga do mundo. Também é considerada um dos locais mais sagrados na Índia, onde peregrinos hindus vêm para lavar uma vida de pecados no rio Ganges, ou ser cremado e obter "moksha" (libertação do ciclo de nascimento e morte).
O que realmente sobressai na minha mente sobre Varanasi são as ghats de cremação às margens do rio Ganges. Os hindus consideram auspicioso morrer em Varanasi, portanto, as ghats são piras onde os corpos são cremados em plena vista, antes de suas cinzas serem jogadas no Ganges.
Essas visões e cheiros permanecerão para sempre comigo. Você só pode ser cremado aqui se morrer de causas naturais. As mulheres grávidas e crianças são consideradas karma livre, e seus corpos são amarrados a uma grande pedra e afundados no rio. O mesmo acontece com as pessoas acometidas da lepra, seus corpos também são afundados no rio. Isso me perturbou bastante, considerando-se que centenas de pessoas se banham no rio ao lado destas ghats todas as manhãs. Tenhamos em mente que este rio é também onde Varanasi tira sua água potável. Oh, o esgoto da cidade também vai para o rio.
Aqueles que se suicidaram ou não morreram de causas naturais, não são cremados nas ghats, seus corpos são apenas jogados no rio. O mesmo vale para as pessoas pobres que não têm dinheiro para comprar madeira. Isso gerou muitas epidemias no passado, mas ainda parece ocorrer nos dias atuais.
Também é importante notar que algumas partes do corpo não queimam muito bem: tórax dos homens e quadris das mulheres. As partes não queimadas do corpo são jogadas no rio, junto com as cinzas. Aparentemente, é bastante comum ver restos humanos flutuando. Felizmente, nós não testemunhamos isso durante nossa estadia.
Há um hospital localizado na ghat, onde as pessoas esperam morrer para que possam ser cremados e atirados no rio sagrado. Nós contratamos um guia para nos dizer sobre as ghats em chamas, e enquanto ele falava, eu simplesmente não conseguia escapar da fumaça ... o cheiro, sobretudo. Molhei as minhas roupas e cabelos. Muito perturbador.
Eu precisava de um minuto para refletir sobre o que eu tinha acabado de ver, então Adri e eu caminhamos até a rua para escapar da fumaça dos corpos queimados e beber um lassi. Como estávamos absorvendo tudo o que tinha a vista, um desfile de pessoas portadoras de um corpo morto passou junto a loja lassi. Eles estão no seu caminho para queimá-lo no ghat. E os moradores estão acostumados com isso. É tudo uma questão de você crescer com e onde o seu "normal" está localizado no espectro, eu suponho.
Tudo por tudo, eu estou realmente feliz por ter feito essa viagem. A viagem estava longe de ser um feriado, e deixou-nos completamente exaustos; tanto mental quanto fisicamente. No entanto, o país é o lar de mais de um sexto da população do mundo, e eu acredito que qualquer pessoa seriamente interessada em culturas do mundo deve considerar, portanto, a ver a Índia. Ela realmente abre nossos olhos para o que mais há lá fora, eu não tinha idéia. Lonely Planet India deve ser descrito como "um assalto aos sentidos"... isso resume tudo”.

Como podemos perceber, a Índia não só é mais estranha do que achamos, ela é mais estranha do que podemos conceber na nossa pasteurizada mente ocidental. A Índia não é para amadores, é para iniciados. Traduzi e adaptei partes do relato, mas para ler o texto original é só acessar o blogue: http://doukdownunder.blogspot.com/
JAIR, Floripa, 02/03/12.

sábado, 20 de agosto de 2011

Viagens



Parece que viajar, vencer distâncias, conhecer paragens novas, povos diferentes, outros costumes, descobrir coisas inusitadas, curiosas e estimulantes sempre fez parte do currículo do Homo sapiens. Desde as migrações iniciais as quais deram origem a novas povoações que acabaram ocupando a superfície habitável do Planeta, até as grandes navegações que, de certa forma, no sentido inverso, reintegraram aqueles povos que estavam separados por mares e extensões de terra antes intransponíveis, todos esses deslocamentos comprovam e suprem a irrevogável ânsia dos humanos de descobrir o que há além da linha do horizonte.
O formidável desenvolvimento dos meios de transporte e as inumeráveis agências de viagens que atraem o homem moderno em férias são afirmações que essa necessidade de deslocamento não cessou no atual estádio da civilização. O homem tornou-se gregário, mas mantém os olhos curiosos no quintal do vizinho, gasta suas férias instruindo-se com o que há de diferente além do seu jardim.
Contudo, ainda que navegar seja preciso, a verdadeira viagem se faz para dentro de nós mesmos, nossa imaginação nos permite viajar além fronteiras muito remotas, sem qualquer restrição de horário, distância, clima, disponibilidade de meios ou idade. A viagem real, da qual sempre retornamos com saldo positivo, é a que empreendemos para nosso interior, onde não precisamos de bilhetes, não há limitações geográficas nem alfândegas e podemos chegar desde o âmago do átomo até as galáxias mais distantes. Podemos ver e misturar todas as cores, sons e cheiros imagináveis ou não, púrpura, limão, lilás, ouro, laranja, carmim, escarlate, violeta, prata com os pios dos pássaros, marulho do mar, assoviar do vento e o silêncio da noite. Aroma suave da lavanda, cheiro ácido do limão, odor suave de folhas verdes e de terra molhada, e todas as fragrâncias extravagantes de lugares exóticos. Ou passear por lugares que fisicamente não existem, visitar pessoas ou tempos irreais e impalpáveis. Até entrar em lugares imaginários, que talvez não tenham tido oportunidade de existir, mas que são tão reais como nós mesmos quando lá estamos. Também, num viés metafísico e lúdico, encontrar a própria alma e passar por baixo do arco-íris. Viajar com a mente é uma experiência transcendental, não é à toa que indivíduos que fazem uso de substâncias químicas (drogas) para alcançar um estado alterado de consciência costumam dizer que estão “viajando”.
A poderosa mente humana é o melhor instrumento para sair das limitações de nossas, o mais das vezes mesquinhas vidas materiais, transpor a mediocridade do mundo que nos cerca e adentrar o universo mágico onde tudo é possível, não há julgamentos e a liberdade é muito mais que apenas uma palavra no dicionário. Podemos ver o universo, num átimo, ser criado do nada; presenciar, há quatro bilhões de anos, a vida surgindo no Planeta; sofrer quando os magníficos dinossauros se extinguiram depois que a Terra foi atingida por um asteróide; acompanhar a evolução de primatas que, após milhões de anos, acabaram dando origem o Homo sapiens; sobrevoar florestas úmidas, desertos inóspitos, terras perdidas, pântanos insalubres, mares revoltos e geleiras implacáveis; mergulhar no oceano profundo cheio de seres esquivos e misteriosos; poderemos trilhar a rota da seda e interagir com comerciantes de grande parte do oriente e da Europa; conviver com civilizações antigas na África, na Europa, na Ásia e na América; assistir a construção de pirâmides no Egito e a destruição de Herculano e Pompéia na Itália; cidades, como Roma e Cartago sendo erigidas na nossa presença; desembarcar nas praias da Austrália junto com detentores da cultura mais antiga do Planeta; ver religiões sendo criadas na Galiléia, no oriente e no ocidente; descobrir as nascentes do Nilo e do Amazonas, visitar continentes e ilhas distantes e conhecer povos e animais estranhos; tomar conhecimento da História e conviver com homens e mulheres importantes, cujas ideias influirão no rumo dos acontecimentos humanos; inteirar-nos das mazelas e dificuldades da vida de pessoas comuns em todo o Planeta; conversar com Platão, Aristóteles, Demócrito, Schopenhauer, Kant e Sartre; privar com Dante e Camões no ato de suas criações monumentais; temer guerras, massacres, pestes e catástrofes que dizimaram milhões; desembarcar com os soldados na Normandia e assistir estarrecidos a morte de milhares de jovens imbuídos de ideais; acompanhar conquistas da ciência e exultar com descobertas da medicina; aprender a refletir, emocionar-nos, fantasiar e cogitar imagens vivas de coisas que nunca vimos e de lugares que nunca estivemos; conceber utopias, sonhar sonhos impossíveis, construir castelos inverossímeis, imaginar mundos irreais; viajar rumo ao futuro voltar ou passado e deleitar-nos com o presente; abrir mente para ideias novas e conceitos originais; viver com intensidade e desfrutar tudo, dilatando, encolhendo ou até congelando o tempo de modo a aproveitar mais os prazeres e relegar ao ostracismo as misérias e sofrimentos.
Nossos neurônios são os bilhetes de entrada para o mais alucinante e formidável dos mundos, ninguém jamais deixou de sonhar e viver vidas paralelas que facilitam a convivência com esse mundo quase sempre hostil e implacável que nos cerca. O único espaço maior que o universo é o interior de nossa caixa craniana. JAIR, Floripa, 14/08/11.

sábado, 12 de junho de 2010

A fama da calçada


Na Calçada


Com franqueza, não se enquadra no meu perfil; não é o tipo de roteiro cultural que eu faria espontaneamente; nunca imaginei, nunca mesmo, ir a Los Angeles e, muito menos, visitar o caminho das famosidades, a tão decantada Calçada da Fama. Situada ao longo das ruas Hollywood Boulevard e Vine Street no bairro de Hollywood, Califórnia, EUA, onde o chão é constituído por mais de duas mil lajes com estrelas, onde estão gravados nomes de celebridades honradas pela Câmara do Comércio de Hollywood pelas suas contribuições para a indústria do entretenimento.

Bem de acordo com o espírito comercial de tudo que se faz em Hollywood, os homenageados na calçada são atores, atrizes, diretores e produtores, músicos, dramaturgos, cantores, escritores, roteiristas, coreógrafos e que tais, os quais trazem ou trouxeram alguma arrecadação para a cidade em função de suas atividades artísticas.

Como a atração é muito conhecida no Planeta todo, milhares de pessoas chegam a LA literalmente TODOS os dias para conhecer a calçada, tirar fotos do marco HOLLYWOOD pespegado no morro e conhecer Beverly Hills, bairro elegantérrimo onde moram os astros.

Pois é, como nem sempre mandamos no nosso destino, ainda mais quando se trata de turismo, acabei indo parar em Irajá, ou melhor, em LA em um curto passeio de menos de um dia.

Na mesma Hollywood Boulevard encontra-se o não menos conhecido Teatro Chinês que é onde a cerimônia de entrega do Oscar se realiza. Na frente desse teatro de arquitetura original, suntuosa e exagerada, encontra-se o pedaço de calçada onde as celebridades imprimem baixos relevos de seus pés e mãos no cimento fresco. Ao lado, o não menos conhecido e apreciado Museu de Madame Tussaud, onde os famosos estão reproduzidos em cera, com uma espetacular técnica de modo a representá-los, não só com aparência natural, mas numa atitude como se estivessem congelados um momento trivial de suas vidas cotidianas ou profissionais, nada de poses estudadas. As estátuas de cera são tão convincentes que é justo classificá-las como clones perfeitos das pessoas. Assim, John Wayne, Marilyn Monroe, Humphrey Bogart e James Dean, dividem espaço com Barack Obama, JFK e Bin Laden, numa mistureba eclética e interessante, vale a pena visitar o museu.

Como corolário, toda a frente do teatro e do museu é tomada por atores amadores – aqueles que vão a LA em busca de um lugar à sombra – fantasiados dos mais variados personagens de filmes, desde Cinderela, Shrek e Mikey Mouse até Edward Mãos de tesoura e Avatar. O perverso dessa “operação cinema” é que os atores fantasiados cobram – em geral cinco dólares – para serem fotografados. Os desavisados turistas, ao apontarem suas câmeras com o fito de registrarem o passeio, são forçados a posarem ao lado dos personagens e obrigados a pagar pela foto. Milhares de dólares por hora fluem dos bolsos dos visitantes para as mãos dos fantasiados. Calcula-se que cada um daqueles achacadores morde algo em torno de cem mil dólares, não declarados, ou mais por ano. É uma soma considerável, mesmo para os padrões de uma cidade cara como LA.

Então, lá estamos nós os brasileiros embasbacados, não pela calçada, mas sim pelo fluxo ininterrupto de turistas embasbacados pisando o solo sagrado onde os U$ são o Deu$ $upremo; onde mitos como Michael Jackson levantam do túmulo tantas vezes por dia quantas necessárias para fazer o “plim” na máquina registradora; onde um simples nome gravado no cimento é mais valorizado que um quilo de ouro; onde fama e dinheiro são sócios e fundem-se numa amálgama indiscernível que obnubila as mentes mais lúcidas dos passantes, os quais, literalmente, obnubilam o chão que, afinal, é apenas um piso sem maiores atrativos, contém apenas nomes gravados. Lá estávamos, quando recebi o insight: Na verdade, o que atrai os visitantes para cá não é a Calçada da Fama, e sim a fama da calçada, nada mais. JAIR, Floripa, 02/06/10.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Cassino


Meu crachá

Nos USA, em geral, as leis estaduais se sobrepõem às federais se a matéria não for constitucional, o que, aliás, é muito frequente, visto que a Constituição se compõe de apenas sete artigos e vinte e quatro emendas.

Essa “liberalidade” legislativa se deve, evidentemente, à forma confederada de Estado adotada, nada anormal. Comparando, aqui no Patropi, nossa formação federativa de Estado determina a submissão legislativa absoluta dos estados à Constituição e às leis menores, não se podem contrariar matérias federais quaisquer que sejam.

Então, lá no irmão do norte, como a Constituição é omissa com relação a jogos de azar e, segundo o princípio que tudo que não é proibido é permitido, os estados legislam ao sabor das vontades dos eleitores matérias referentes a cassinos e apostas de modo geral. Há estados que proíbem jogos e há estados que os permitem, na Califórnia os cassinos são legais, mas só em “Reservas Indígenas”.

Opa! Reservas Indígenas? Sim, caros leitores, Reservas Indígenas, mais do que espaços físicos áridos onde se confinam os americanos naturais, são “pessoas jurídicas” de direito público onde constam índios como integrantes de uma comissão, uma espécie de clube cuja diretoria é constituída de Navajos, Seminoles, Sioux, Moicanos, Dakotas etc. As Reservas gozam de certa autonomia administrativa e funcionam como se fossem “Zonas Francas”. Essa flexibilidade conceitual do que é uma Reserva Indígena permite que se construa um cassino em plena Downtown, sem contrariar a legislação, desde que o local pertença aos índios por aquisição.

Dentro do princípio legal e consoante à liberdade individual dos que querem jogar, e de acordo com o apetite de arrecadação do estado, existem pencas de cassinos na Califórnia. A economia de San Diego, não está submetida à exploração de cassinos como Las Vegas, mas lá existe uma meia dúzia deles.

Assim, o turista que vos escreve não poderia deixar de conhecer uma casa onde se explora a jogatina sob o falso pretexto de diversão. Fomos a um. Mas como funciona realmente um cassino? Lá no Sycuan Cassino, como na maioria das casas de jogos, você, o potencial jogador, o cara que vai deixar o dinheiro nas máquinas e nas mesas, tem que ser seduzido, conquistado, tem que sentir-se confortável e até paparicado se for o caso. Você será alvo de todas as atenções, se assim o desejar.

Para seu conforto, ao adentrar o ambiente, você tem duas opções. A primeira é ser um jogador anônimo que perde ou ganha e não precisa ter contato com nenhum funcionário da casa, joga a dinheiro e, se ganhar, as máquinas e as mesas fornecem um “vale” automático que lhe dá direito de trocar por dólares em caixas eletrônicas próprias para isso ali mesmo nas salas de jogos. Se perder, ninguém fica sabendo, o anonimato é respeitado. A outra opção é identificar-se e receber um crachá de “sócio” que lhe dá direito a certas regalias. Agora como “sócio” você tem direito a uma refeição, independente da hora. Não um lanchinho qualquer ou um tira-gosto, mas uma lauta refeição tipo self service, com dezenas de pratos quentes e frios, sobremesas, refrigerantes e sucos ao gosto do freguês e sem hora para terminar, significa que você pode passar o tempo quiser comendo sem ser incomodado.

Vejamos o jogo propriamente, por ser “sócio” você não é obrigado a jogar, mas se o fizer, poderá colocar o crachá no lugar apropriado da máquina e esta registrará quanto você jogou, quanto ganhou ou perdeu e vai somando pontos à sua conta, de modo que ao atingir certa cota você terá direito a nova refeição, a qualquer dia de sua existência. Essa “liberalidade” visa estimular seu retorno.

Quanto ao ambiente físico da casa, cabem algumas observações. Os imensos salões estão sempre abarrotados de máquinas e mesas, em qualquer direção que se vá, seja ao banheiro, ao bar ou à sala de estar as tentações estão presentes, não há como “desligar-se” da atmosfera de luzes e sons convidativos ao jogo e que estimulam o estado de vigília, não há como sentir sono. Nas máquinas se pode jogar a partir de um cent, é uma atrativa maneira de induzir os pobres ao jogo. O ar condicionado é perfeito, não há qualquer variação seja inverno ou verão, dia ou noite. Por falar em dia e noite, não há janelas, não há como se ter referências externas, fica-se confinado num agradável ambiente acarpetado onde inexistem relógios ou meios que permitam “sentir” o exterior.

Contam-se histórias de jogadores compulsórios que passam dias jogando, apenas comendo e bebendo, sem dormir. Pelos exageros que custaram saúde, fortunas e, às vezes vidas, o povo da Califórnia exigiu, e o poder público acolheu, agora não são permitidas caixas eletrônicas de bancos dentro dos cassinos, se você quer jogar leve seu dinheiro em cash, nada de cartões de crédito.

Pois é, antes de entrar no Sycuan, estabeleci que ia jogar no máximo vinte dólares, perdi dezesseis, me diverti muito e saboreei uma deliciosa refeição, minha mulher jogou três dólares e ganhou sessenta e dois. Custo-benefício positivo, mas voltar, talvez daqui a três anos, não é a minha praia. JAIR, Floripa, 09/06/10.


domingo, 6 de junho de 2010

México


Pagando mico em Tijuana

Dia primeiro de maio de 2010, passou a vigir resolução diplomática que deixa de exigir visto de brasileiros que queiram entrar no território mexicano, e tenham visto americano. Aliás, decisão inteligente, já que a exigência que se fazia de visto para aquele país era, justamente, para evitar que brasileiros atravessassem a fronteira mexicana com destino aos EUA. Se o indivíduo tem permissão para entrar nos EUA ou já está em seu território seria necedade proibi-lo de entrar no quintal do vizinho, não é mesmo?

Então, em seis de maio fomos, eu e minha mulher, a San Diego, Califórnia, ali pertinho do México, tão perto que parte da Califórnia e do Novo México, estados americanos, já foram territórios mexicanos.

Em 1853, depois de uma guerra cruenta, de 1846 a 1848 entre os EUA e o México, foi completada a anexação de territórios do México iniciada com a incorporação do Texas, motivo da guerra. Metade do território mexicano havia sido perdida para os Estados Unidos, (Remember Alamo!). Lázaro Cárdenas, presidente mexicano (1934-1940), comentou em relação ao imperialismo norte-americano: "Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"

Essa frase reflete o sentimento à época em que o México tinha perdido grandes porções do seu território para os EUA, por isso a alusão à proximidade com aquela nação, e a referência a Deus deve-se a fase de rebeliões com muitos crimes, muita insegurança que ocorria no México àquela época.

A frase tornou-se famosa e é evocada pelos mexicanos sempre que querem fazer alusão ao abismo econômico e social que separa os dois países de extensa fronteira comum. Fronteira que menos impede e mais estimula a migração de mexicanos em busca de uma vida supostamente melhor.

Então, estávamos ali em San Diego, onde existe um trolley elétrico que vai até às portas de Tijuana por apenas cinco dólares, e as restrições já não existiam, por que não ir? Fomos. Minha expectativa era que o México real de fronteira não fosse aquele estereótipo que vemos em filmes americanos: Ruas sujas e mal ajambradas com lojas humildes, operadas por gente feia e meio desonesta, vendendo tacos e tequila a turistas e tentando enganar os fregueses “ricos” como são todos os americanos. Minha esperança era que o México de fronteira fosse mais como Guadalajara, cidade bonita e organizada onde estive na década de noventa.

Bem, chegando ao fim da linha do trolley, adentramos o México por uma passarela toda fechada como se um túnel fosse. E daí a surpresa, ou falta dela se quisermos. Tijuana lembra exatamente aquele retrato feio que os americanos pintam, nada tem a ver com Guadalajara. Ruas ruins e gente esquisita querendo “assaltar” no bom sentido (às vezes no outro sentido também), os turistas. Dezenas de farmácias, umas coladas nas outras, com atendentes implorando para que você adquira remédios que necessitam de receitas nos EUA e aqui não.

Curiosidade, na rua principal de Tijuana, calle Ignacio Zaragoza, nos dois lados, em todas as esquinas, existe “zebras” vivas nas calçadas, sobre as quais o passante pode montar e tirar fotos a preço de dois dólares cada. Zebras? É possível isso? Na verdade, uma bizarria, burros brancos pintados com listras pretas à moda de zebras. Por incrível que pareça, vi turistas japoneses portando sombreros, montados nos bichos, tirando fotos. Não consigo imaginar como os japas vão justificar lá em casa tal excentricidade. Passei ao largo, eu hein!

Tijuana, guardadas as diferenças culturais, lembra Cidade de Leste no Paraguai junto à divisa com Brasil. Pergunto-me, não serão todas as cidades de fronteiras parecidas? Considerando que, segundo a ONU, os indicativos econômicos e sociais do México são muito melhores que os do Brasil, é de se supor que exista uma “síndrome de fronteira” (border effect, chique né!) que remete as cidades ali situadas a uma vala comum de dependência econômica do turismo e certa atmosfera de coisa não muito honesta, um ar meio conspiratório.

Explico, estávamos numa loja comprando lembran-cinhas, atendidos pelo dono muito simpático e falante. Fiz um teste: Perguntei-lhe como adentrar os EUA, e ele me indicou a direção da migração, a umas duas quadras adiante. Fiz cara de quem flatulou (existe verbo flatular?) na igreja e, baixando a voz, menti que não tinha visa, como fazer então? No mesmo instante o cidadão respondeu com voz normal, “esto no es posible!” e, baixando a voz e olhando para os lados assim como se procurasse algo ou alguém, acrescentou “acá no, pero...”. Em outra loja indaguei pela Marijuana, com jeito inocente de quem não sabe o que está falando. Imediatamente o clima conspiratório se estabeleceu. Interessante, não?

Bem, não quero rotular um país por apenas umas poucas impressões que tive, isso não é justo. Tento apenas entender porque as coisas são assim. O México é um ótimo país, me diverti muito e lá paguei um alentado mico que poderia ser monumental se tivesse montado nas tais “zebras”. Vale a pena conhecê-lo. JAIR, Floripa, 06/06/10.



sexta-feira, 24 de julho de 2009

UM OLHAR SOBRE BARILOCHE


Este texto, escrito na ocasião de uma viagem a Bariloche, eu o encontrei nos meus arquivos e, como não tinha sido publicado, resolvi fazê-lo, pois, a mim, parece que estendi um olhar menos “turístico” sobre uma região notadamente fequentada por pessoas que estão apenas determinadas a se divertir sem olhar ao redor.
BARILOCHE
Penso que a idade, se nos penaliza com a deterioração dos músculos, a flacidez da epiderme e o mau funcionamento dos órgãos, causando-nos males múltiplos, beneficia-nos com a acuidade dos sentidos e a exacerbação da sensibilidade, permitindo-nos desfrutar das pequenas coisas com mais prazer e intensidade. Assim, justifica-se que uma pessoa como eu vá a um lugar quase só freqüentado por “emergentes” e deslumbrados, visto que a idade me confere a capacidade de ver, olhar, perceber, sentir, gozar e curtir pequenas (e grandes) coisas com olhos de quem já viu muito, mas não tudo, e tem consciência que nada sabe. À parte a estação de inverno que nos negou uma nevada, a Patagônia mostrou-se quase outro planeta de tão diferente, fascinante e surpreendente. Fomos de ônibus de Foz do Iguaçu até Buenos Aires numa primeira etapa, e de Buenos Aires a São Carlos de Bariloche em seguida, numa viagem de mais de quarenta horas. Daí já dá para deduzir quanto foi possível observar da região. A cidade de Bariloche situa-se à margem de um lago de água doce com noventa e três quilômetros de comprimento e quatorze de largura na sua parte mais larga. Esse lago, cujo nome é Nahuel Huapi em idioma “patagonês”, que numa tradução livre significa Ilha do Tigre. Já que não existem tigres na região supõe-se que os primeiros exploradores confundiram o puma, desconhecido deles e muito abundante no lugar, com o tigre, e traduziram Nahuel por tigre, coisas da história. Esse lago, como todos da região, foi formado pelo degelo da última glaciação, cerca de dezesseis mil anos atrás, e é alimentado por degelos da primavera e chuvas que caem com grande intensidade durante o inverno. A profundidade média do lago é de duzentos e sessenta metros e sua maior profundidade conhecida é de quatrocentos e setenta e quatro metros. A temperatura média de suas águas situa-se em torno de doze graus, e no verão chega a dezessete, o que permite a muitos turistas audaciosos curtirem uma praia. É muito piscoso e foi repovoado com salmões e trutas européias, no começo dos anos trinta do século passado. A pesca só é permitida entre novembro e março, e assim mesmo só pesca esportiva com dois peixes, de certo tamanho mínimo, por pessoa por dia. Fizemos uma viagem de um dia por esse lago e mais um chamado Lago Frias, quando pudemos observar as paisagens de cartão postal, a flora e a fauna, constituída quase só por aves aquáticas como gaivotas e cormorões. Os lagos menores (dez quilômetros de extensão) como o Frias, costumam congelar no inverno, os maiores não. O passeio mais prazeroso foi a uma floresta chamada “Valdiviana” por ter seu epicentro na cidade de Valdívia no Chile. Por incrível que possa parecer, trata-se de uma “rain forest” em plena zona semi-antártida, é a floresta mais austral do mundo. Acontece que o encontro das massas de ar quente e úmido do continente colidem com a cordilheira fria, condensam e formam umas das maiores precipitações pluviométricas do planeta, cerca de 4000 mm, algo só comparável às monções da Ásia. Por ser uma floresta úmida, sua fauna e flora são muito variadas sendo possível encontrar muitas espécies de coníferas, algumas até produzem pinhões, e uma, em particular, parece uma sequóia com mais e sessenta metros de altura. Vimos uma dessas “sequóias” com mais de mil e quinhentos anos, devidamente comprovados através da contagem de seus anéis de crescimento. Uma variedade de “barba-de-velho” amarelo-ouro, nasce em uma conífera e lhe confere um visual bem destacado entre as demais árvores. É endêmico, como quase todas os vegetais ali encontrados, um nefasto cogumelo chamado “lau lau”, que “ataca” grandes árvores, causando-lhes uma espécie de câncer, chamados “nudos” pelos patagônicos. Esses nudos, depois das ávores mortas, são usados na confecção de artesanatos os mais variados como, cinzeiros, pés de abajures, estatuetas e pequenos objetos de decoração. Abundante e contraditória é a existência de uma espécie de bambu, gramínea que costuma crescer em florestas tropicais e temperadas, no meio das coníferas. Esse bambu, que até passado recente era usado para a confecção de “sticks” de esquis, é completamente amarelo, maciço e muito resistente. Pasmem, existem beija-flores na floresta! Apesar dos menos vinte graus centígrados, que às vezes acontecem no inverno, os beija-flores sobrevivem por que há uma espécie de arbusto que só floresce no outono e inverno. Outros animais ou migram ou hibernam durante o frio intenso. A floresta está situada dentro de um parque nacional criado em 1903, bem cercado de leis e bem protegido por guardas florestais. Foi muito interessante uma visita ao museu de história natural da Patagônia. O museu está impecavelmente montado, didática e cronologicamente. Desde fósseis da era pré cambriana, passando pelos artefatos como canoas, utensílios domésticos, armas, enfeites, instrumentos musicais, vestimentas de couro e objetos variados dos primeiros patagônicos, e indícios da chegada dos espanhóis como, contas de vidro e espelhos usados nas trocas com os nativos, armas de fogo, armaduras, lanças, elmos e vestimentas, até a recente integração, por volta de 1880, da região à Argentina atual. A flora e a fauna também estão muito bem representadas com bichos empalhados, descrições e amostras vegetais. Merece um registro especial a “integração” da Patagônia executada, principalmente, por Francisco Pascasio Moreno, conhecido por Perito Moreno, uma mistura de Barão do Rio Branco com Marechal Rondon, já que além de ser um demarcador de terras, atuava também na área diplomática, conciliando interesses fronteiriços da Argentina e Chile na contestada região. Perito Moreno tem hoje seu nome perpetuado em diversos acidentes topográficos como glaciares, lagos, rios, ilhas etc por sua destacada atuação, em meados do século dezenove, na demarcação dos limites territoriais dos dois países, e na forte influência que exerceu para a criação do primeiro parque nacional da Argentina. Parece que ele era um apaixonado pela natureza, pois expressou a vontade de ser sepultado numa pequenina ilha do lago Nahuel Huapi, que hoje ostenta uma cruz branca bem visível para os barcos que passam, e onde todos apitam três vezes e fazem um minuto de silêncio ao passar. Sente-se uma coisa mística, como se a alma do herói estivesse pairando sobre tudo, e seus atentos e amorosos olhos a todos observassem. Causou-me uma impressão estranha e duradoura. Como estou numa fase, digamos, botânica, aproveitei para trazer algumas mudas e sementes de plantas nativas da região para ver se as reproduzo nas condições floriaonopolitanas e as transformo em bonsais. É uma experiência que me vejo compelido a fazer. Como passeios mais fúteis, mais turísticos e menos comprometidos culturalmente, fomos a uma fábrica de chocolates caseiros ao estilo suíço, um restaurante com cantor de tango e a um cassino, vejam só!. O retorno foi feito por via aérea por que a via terrestre é muito longa. JAIR, Floripa, 15/06/04.