segunda-feira, 18 de julho de 2011

O lixo na história




Se há uma característica universal que define o ser humano é a produção de lixo. As pessoas sempre deixaram e deixam restos espalhados por onde passam, lixo é uma marca da civilização. Vemos a prova disso em todas as partes, nas ruas das cidades, nos rios e oceanos e nos depósitos apropriados, os chamados lixões. Aliás, existe até uma matéria de estudo, “lixologia”, que consiste em xeretar os restos de pessoas célebres para descobrir detalhes de suas vidas. Nossos museus exibem objetos salvos dos restos de outras épocas: moedas celtas, cerâmicas egípcias e marajoaras, porcelanas chinesas, tecidos astecas e incas, objetos de culto maias, armas e instrumentos de uso domésticos diversos. A lista é interminável, e as peças contam a mesma história genérica: os humanos fazem objetos, usam-nos e depois os descartam, jogando-os fora como coisas imprestáveis, ou ocasionalmente ofertando-os numa cerimônia fúnebre, como os sepultamentos de pessoas importantes, sepultamentos os quais os egípcios praticaram em grande escala.
Esse lixo, esses restos de culturas passadas são a base da arqueologia. Lembrando que arqueologia é a disciplina científica que estuda as culturas e os modos de vida do passado a partir da análise de vestígios materiais. É uma ciência social, isto é, que estuda as sociedades, podendo ser tanto as que ainda existem, quanto as já extintas, através de seus restos materiais, sejam estes objetos móveis ou imóveis. Incluem-se também no seu campo de estudos as intervenções feitas pelo homem no meio ambiente, como os canais de irrigação, as escavações para retiradas de minérios, as represas, os desmatamentos etc.
As moedas, os cacos de cerâmica, os ossos, os tecidos, os objetos de uso corriqueiro, as armas e as construções das eras passadas nos fornecem vestígios do comportamento de nossos ancestrais, de como geriam suas economias, de suas crenças, de seus níveis tecnológicos e do que era importante para eles. O que os arqueólogos recuperam em suas escavações são imagens de vidas passadas, mas essas imagens não são tiradas prontas do solo: elas são reconstruídas lenta e meticulosamente a partir de informações contidas nos objetos encontrados. A arqueologia é uma investigação policial, na qual todos os personagens estão ausentes e só sobreviveram alguns fragmentos desconexos de seus pertences. Contudo, tem sido possível, em muitos casos, preencher os detalhes da história. Muito conhecimento do que se faz e alguma imaginação combinados são ferramentas eficazes para completar as lacunas. É como um jogo onde, numa série, faltam alguns números e cabe ao desafiado encontrá-los. Os arqueólogos sabem, por exemplo, como os incas operavam sua economia altamente estruturada de bem estar feudal e como os romanos organizavam seu império expansionista.
Enquanto o trabalho de detetive envolvido na reconstrução dessas civilizações é intrincado, os arqueólogos que se interessam pelos primeiros estágio da evolução humana, olham com inveja a documentação abundante dos períodos mais recentes. Um dos aspectos mais evidentes da história humana é o aumento constante na produção de lixo, tais como artefatos, roupas e objetos de uso doméstico. À medida que a busca retrocede em direção às nossas origens, encontram-se registros arqueológicos cada vez mais escassos. Em algum momento entre dois e três milhões de anos atrás, os artefatos humanos desapareceram completamente dos registros arqueológicos. A tarefa de descobrir o que faziam nossos antepassados mais antigos torna-se uma tarefa mais difícil na medida em que se retrocede no tempo. Inferência: quanto menos “civilizado” menos lixo! Então, logicamente, quanto mais tecnologia o Homo adquire, mais lixo produz e mais “rastros” deixa, seus descartes são proporcionais ao nível tecnológico que desfruta. Se nossa civilização desaparecer e, depois de milhares de anos, algum alienígena aqui chegar, não teria a menor dificuldade em reconstruir a cultura de nossa era, o lixo que produzimos seria uma enciclopédia aberta para que eles lessem nossa história.
Assim, a despeito de estarmos entupindo o Planeta com nossos despejos, resta-nos o discutível consolo de estarmos deixando uma assinatura que servirá para mostrar para a civilização que vier depois da nossa, - em consequência de nossa extinção quando o asteróide chocar-se com a terra - como não fazer as coisas. Nosso lixo, escrito em forma de polímeros e restos industriais e domésticos que levam milhares de anos para degradar, é a Pedra de Roseta que deixamos para a posteridade! JAIR, Floripa, 05/07/11.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Réquiem para um aviador

Rivaldo e eu no B-707.

Num texto sobre aviões, escrevi: “Os aviões parecem sólidos, pétreos, firmes, mas na verdade são máquinas frágeis e elegantes. Não é à toa que os aviadores preferem chamá-los de aeronaves, nome feminino mais de acordo com sua natureza débil, seu perfil nobre e suas curvas suaves e, por que não dizer, sensuais. Mesmo aviões imponentes com turbinas enormes e de grande potência como o gigante de transporte militar Galaxy; ou o Airbus 380 com capacidade para mais de quinhentos passageiros, são máquinas meigas e femininas com aparências voluptuosas” Acrescento que as aeronaves não são perigosas, perigosos são os homens que as manejam, ou melhor, as atitudes dos homens que as manejam, desde o mecânico que as deixam prontas para o voo, passando pelo meteorologista que desvenda os mistérios dos fenômenos climáticos que elas deverão enfrentar, até aqueles que as conduzirão ao destino.
Ontem, meu amigo Rivaldo, aviador de tantos anos, cuja experiência e habilidade no comando de aeronaves o colocavam no extremo de excelência, foi vitimado por fatores adversos desconhecidos que lançaram a aeronave LET 410, a qual pilotava, ao solo. Faleceu meu amigo, próximo à praia de Boa Viagem, local que ele havia eleito como sua morada, e onde pretendia viver uma aposentadoria tranquila nos próximos anos. Faleceu um amigo que, apesar de já entrado nos sessenta e tantos, tinha uma alma jovem conduzida por um corpo bem cuidado à custa de exercícios e de alimentação saudável. Rivaldo era daqueles que, sem ser proselitista, apregoava o bom viver e uma vida ativa.
Hoje o mundo aviatório está um pouco menor e bem mais triste, Rivaldo, como disse um amigo meu, deve se juntar àqueles aviadores do passado que estão num local só deles, onde a conversa é boa e as recordações melhores ainda. Tive a fortuna de voar com Rivaldo alguns anos na empresa BETA e, além disso, de privar de sua amizade que se manteve até ontem apesar de morarmos em cidades distantes, costumávamos nos telefonar e na última vez que falamos ficamos acertados que eu e minha mulher iríamos a Recife onde nos encontraríamos. Agora fica só a saudade.
Rivaldo perdeu a esposa há alguns anos e acreditava que um dia ia encontrá-la lá onde estivesse, se existir essa possibilidade, hoje ele está feliz ao lado dela. Vai Rivaldo! Não te sintas amargurado, onde quer que tu estejas, ainda que te vejas triste por não poder contemplar um tapete de nuvens, sentir o aroma das flores ou ouvir o som de uma sinfonia, não chores! Os amigos que deixaste para trás lembrarão de ti como eras; alegre e de bem com a vida. JAIR, Floripa, 14/07/11.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O ovo da serpente




No dia-a-dia a vida na Terra pode parecer bem ordenada, estável e perene, mas, sob a perspectiva do tempo biológico é imperativo que se pense que um dia a humanidade desaparecerá. Racionais como somos é fatal que cheguemos a essa assertiva. A pergunta pertinente é: quando?
Na sua forma mais dramática, o fim da vida no Planeta poderá acontecer com um acidente cosmológico, - o esperado asteróide de meu amigo Leonel – que mergulhará toda a vida existente em condições tão adversas que se estinguirá. Contudo, se isso vier a acontecer poderemos debitar na conta de uma grande falta de sorte. Mais relevante é a pergunta: poderá a humanidade subsistir ainda por um considerável espaço de tempo sem ser destruída por seus próprios atos? A espécie a qual pertencemos, Homo sapiens tem, talvez, uns 50 mil anos – somos apenas crianças em termos de tempo biológico. É bem possível que o caminho evolutivo, que nos trouxe em tão pouco tempo para essa posição especial no reino animal, na qual nossa inventividade e inteligência nos permitem manipular o ambiente em escala sem precedentes, esteja para nos colocar num beco sem saída. Será que o passo evolucionário que conferiu a um animal tanto poder e controle sobre o seu destino e de todas as criaturas da Terra, poderá revelar-se o maior erro biológico de todos os tempos? Será possível que a criação da humanidade traga consigo as sementes da destruição final? Seremos nós o ovo da serpente?
O futuro da humanidade depende de duas coisas: de nosso relacionamento uns com os outros e de nossa interação com o meio ambiente. O estudo das origens humanas – supostamente somos o produto final oriundo de espécies humanóides distintas – poderá realçar o modo de encarar essas questões.
Em primeiro lugar, somos uma espécie, um povo. Todo indivíduo neste Planeta é um membro da espécie Homo sapiens, e as diferenças geográficas, perceptíveis na flor da pele por assim dizer, entre os seres humanos, são apenas variações biológicas do modelo básico. Já usei essa analogia, mas não custa lembrá-la: somos iguais a um terreiro de galinhas caipiras, variadas cores, tamanhos e formatos, mas, todas, galinhas. A capacidade humana para criar a cultura permite sua elaboração de modos amplamente diferentes e coloridos, sem falar que as condições geográficas determinam comportamentos e modus vivendi os mais variados. É só lembrarmos que um esquimó tem que ser radicalmente diferente de um bosquímano do Kalahari. Entretanto, as freqüentes e profundas diferenças entre as culturas não deveriam ser encaradas como divisão entre povos. Sei que é meio utópico, mas as culturas devem ser interpretadas pelo que elas realmente são: a declaração suprema e o orgulho de se pertencer a uma espécie tão criativa, a espécie humana!
É uma verdade banal dizer-se que a política é internacional, e é a política que determina a conduta das nações: “A guerra é a continuação da política por outros meios” (Clausewitz). Lembram-se? Assim, segue-se que qualquer tentativa para se alcançar uma estabilidade duradoura para a humanidade só pode ocorrer mediante uma vontade e uma determinação política globais (Puxa! Nunca pensei que chegaria a escrever isso!). Longe de mim ter a intenção de mostrar como uma política de âmbito planetal deveria ser conduzida. Pelo contrário, quero dizer que se não houver uma aceitação que somos todos “farinha do mesmo saco”, isto é, somos essencialmente iguais independente de nossas inclinações ideológicas, religião ou cor da pele, a política, por mais sofisticada que seja, não trará resultados positivos. A estultice é cristalina: como posso me entender com meus vizinhos se sou melhor que eles? Temos que entender que só a profunda inclinação humana à cooperação grupal (solidariedade) poderá vencer as barreiras da discriminação. O que temos que introjetar é que pertencemos à mesma tribo: a tribo humana. E, a partir do momento que olharmos para o lado e enxergarmos um irmão, nada justificará tentarmos destruí-lo em nome de ideologias ou preconceitos quaisquer. Entendendo que somos um só povo podemos todos perseguir um objetivo: a sobrevivência pacífica da humanidade, e, então, renascendo em nós mesmos, seremos virtualmente eternos. JAIR, Floripa, 08/07/11.

domingo, 10 de julho de 2011

A pedra

Esfera idêntica à que encontrei em Palmeira.



Quando eu tinha por volta de doze ou treze anos, meu primo Joel e eu, fazendo jus a nossa descendência Kaingangue, gostávamos de sentir-nos exploradores intrépidos e, para isso, costumávamos trilhar pelas matas periféricas de nossa cidade natal, Palmeira. Muitas matas ombrófilas, que para nossos propósitos eram perfeitas, circundavam a pequena cidade de modo que era fácil se embrenhar por elas a guisa de autênticos Jim das Selvas nas matas de Bornéu. Na direção da localidade de Quero-quero, dentro de uma mata particularmente fechada onde ninguém costumava frequentar, existia uma depressão na forma de vale onde encontramos uma estranha pedra. Ficamos emocionadíssimos, pois tratava-se de uma pedra na forma perfeita de uma esfera. Uma bola de um metro e meio de diâmetro, aparentando ser antiga e estar naquele lugar há muito tempo. Estava assentada num nicho de rochas areníticas, semi enterrada por galhos, folhas, terra e pedras carregadas por enxurradas que desciam o declive com as chuvas, de resto, a própria bola maciça parecia ter rolado encosta abaixo. Cavamos com as mãos ao lado dela e descobrimos sua redondês perfeita. Também era bastante lisa, mas, ao toque, parecia ser coisa feita pela mão do homem ou por meio não natural. Devia pesar muitas toneladas e percebia-se que não era dali, tratava-se, - depois vim a saber através de pesquisa, - de uma pedra de basalto, sendo que na região não existia basalto. Palmeira é conhecida pelas aflorações de arenito que é uma rocha metamórfica, sendo que basalto é uma rocha ígnea. As tão mundialmente afamadas formações rochosas de Vila Velha, próximas a Palmeira, são aflorações de arenito rosa, o mais comum do Planeta.
Pois bem, excitados corremos para informar nossos pais e tios sobre nossa descoberta, mas recebemos um balde de água fria, não houve interesse por parte deles em conhecer a enigmática esfera, eles tinham coisa mais importante para fazer do que se preocupar com pedras redondas. Assim, continuamos de vez em quando indo lá visitá-la e, em nossa imaginação, tentando entender como foi confeccionada e como foi parar naquele sítio. Mas isso não durou muito, estava em plena construção a estrada que ligaria o porto de Paranaguá a Assunção no Paraguai. Essa rodovia faz parte do acordo do Brasil e aquele país para permitir ao Paraguai um acesso ao mar e, num plano mais amplo, construir a hidrelétrica Itaipu binacional. Alguns meses mais e vieram as máquinas e caminhões e aterraram o vale onde a pedra se encontrava e esta foi soterrada para sempre. A história poderia terminar aqui simplesmente, mas não.
Em 1997 trabalhei alguns meses na Bolívia, voei no Loyd Aereo Boliviano quando essa empresa fora comprada por Wagner Canhedo. As tripulações brasileiras eram baseadas em Cochabamba e ficavam hospedadas num hotel cheio de estrelas naquela cidade. O hotel Herradura, de certo luxo, possuía em suas paredes, como elementos de decoração, quadros a óleo sobre tela pintados por um artista local de nome Patiño. Esse pintor era descendente do mundialmente conhecido Antenor Patiño, rei do estanho, o qual, a seu tempo, fora o homem mais rico do Planeta e, segundo a lenda, deu azo a criação do personagem Tio Patinhas de Walt Disney, mas isso é outra história.
Pois é, entre as tantas e tão originais telas, havia uma que me chamava atenção em particular: tratava-se de uma paisagem bucólica tipicamente cochabambense. Uma vista de pequena aldeia com minúsculas plantações de subsistência e, em segundo plano, meio deslocada do motivo central da tela, uma esfera de pedra. O quadro me fascinava e procurei o autor que eu sabia encontrar na feira de artesanato domingueira da cidade. Fui à feira conversar com Patiño que era um carinha bem simpático e falante. Conversamos bastante sobre arte em geral e quadros em particular, até que lhe perguntei de onde tirou a idéia de registrar a bola de pedra na tela. Ele me contou que a paisagem era de Tiquipaya uma pequena localidade a quinze quilômetros de Cochabamba, e que lá existiam vária pedras como aquela. Minha curiosidade aumentou e tratei de arranjar um mapa meio rústico da região, no qual pedi ao Patiño que assinalasse o local das pedras.
Munido do mapa e uma garrafa d’água ganhei a trilha no domingo seguinte. Sempre altiplano acima – lembrando que Cochabamba fica a oito mil pés de altitude – encontrei algumas lhamas e muitos campesinos aimarás que se deslocavam nos seus coloridos trajes dominicais. Em pouco mais de duas horas cheguei ao local assinalado por Patiño. Era uma aldeia com quatro ou cinco casas de pau-a-pique e, trinta metros à direita do caminho, a indefectível esfera! Fiquei emocionado, a pedra era exatamente igual àquela que encontrei em Palmeira a qual estava gravada indelével em minha mente! Apalpei, esfreguei, alisei, apertei, cheirei e constatei que a esfera era do mesmo material, aparentava o mesmo tamanho e mesma feitura da pedra de minha infância. E mais, em Tiquipaya, como em Palmeira, não existia basalto natural, as rochas da região eram vulcânicas de outro tipo. A 200 metros do primeiro globo existia outro um pouco maior, só que semi enterrado. O mistério da esfera de pedra continuava, só que agora acrescido de mais dois belos espécimes. E a história poderia acabar aqui mais uma vez.
Dia destes, assistindo ao History Channel um programa sobre mistérios que intrigam a história, me inteirei de que na Costa Rica existem pelo menos 300 esferas de pedra. Elas têm de poucos centímetros até dois metros de diâmetro e são confeccionadas de basalto, calcário e arenito, todas aparentam ser esculpidas por homens ou por meios não naturais. São encontráveis na selva e em praias. Também as há em algumas praias do Peru.
O enigma fica cada vez mais denso e, se eu quisesse dar asas à imaginação como Erich Von Daniken, diria que são confeccionadas por deuses vindos de galáxia distante que aqui vieram plantar seus genes nos nativos e deixaram uma marca de sua passagem. Mas, como assisti “Men in Black”, prefiro acreditar que crianças de 57 metros oriundas de outro planeta usaram a América do Sul para jogar bolinhas de gude e, numa tecada muito potente, espalharam algumas bolinhas que ficaram perdidas por aí. De qualquer forma, o enigma continua. JAIR, Floripa, 23/06/11.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Moa



Alguns leitores mostram alguma indignação, ainda que de baixo impacto, quando, em minhas diatribes, classifico o ser humano como uma espécie irresponsável cuja ação na face deste Planeta azul é deletéria e que, em virtude dessa falta de discernimento, um dia, ainda poderá causar a extinção da vida como a conhecemos. Sei que exagero na condenação que faço do Homo sapiens, contudo, a ênfase visa sensibilizar as mentes que me ouvem, se consigo meu intento não sei, mas continuo a fazê-lo porque quero ter a sensação de que “fiz a minha parte” e, se ainda durante minha existência se confirmar o pior, poderei dormir o sono tranquilo dos que estão isentos de culpa.
A maior carga de minha indignação se volta contra as ações gratuitas que o homem comete em nome da lei de Gérson. Desmatamento, caça contra animais indefesos só pelo prazer de matar, deterioração dos ambientes em troca de lucro discutível – desertificam-se extensões imensas de mata amazônica sob o pretexto de criar gado, mas o que se vê realmente é apenas a venda de madeira, por exemplo. Grande parte do quadro de extinção de animais que existe hoje pode ser debitado na conta do Homo exterminatus, essa facinorosa espécie que se arroga dono do Planeta, quando é apenas péssimo inquilino, contrário ao comportamento dos demais seres os quais respeitam uns aos outros e ao ambiente em que vivem.
Pois bem, na conta com saldo negativo que o homem mantém com a natureza, constam milhares de extermínios de animais que só queriam viver a vida e não atrapalhar ninguém. Aqui mesmo no Patropi o mico leão dourado estava no bico do corvo, só não foi extinto porque organismos internacionais, a custa de esforços piramidais, conseguiram cruzamentos em cativeiro e preservaram alguns espécimes até agora. Mas outros animais não tiveram tanta sorte: O maçarico-esquimó está extinto em território brasileiro desde os anos de 1930, e virtualmente extinto em nível mundial; o mutum-do-nordeste está oficialmente extinto na Natureza desde 2001; a perereca-de-santo-andré, está extinta desde os anos de 1920; o rato-candango foi considerado extinto em 2008; o rato-de-Fernando-de-Noronha não é visto desde o século XVI; e a ararinha azul foi considerada extinta na Natureza em 2002, pelo IBAMA. Além dessa lista, correm risco de extinção a Onça pintada pantaneira, o Puma ou onça parda, várias espécies de peixes fluviais e muitas aves como o tico-tico. Aliás, alguém tem visto algum tico-tico por aí? Pelo que lembro, eles eram abundantes na minha infância. Só tinham o temerário hábito de nidificar em arbustos bem rasteiros, o que deixava seus ovos e filhotes a mercê de predadores como cobras e ratos, além de facilitar a ação de humanos malvados que danificavam seus ninhos.
Só que hoje quero falar do moa, a maior e mais pesada ave que já cruzou à frente do homem moderno que se diz civilizado. O moa cujo nome científico é Dinornis novaezelandiae, atingia cerca de 3,7 m de altura com o pescoção estendido, e pesava cerca de 230 kg, era uma das onze espécies da ordem Struthioniformes que compreende espécies sem asas funcionais como o kiwi da Nova Zelândia também, a ema do Brasil, o avestruz da África e o emu da Austrália, além da nossa conhecida perdiz, uma das poucas que voa. A reconstituição de dezenas de esqueletos permitiu avaliar o que se sabe sobre a constituição física dessa imensa ave.
O moa vivia muito bem nas duas grandes ilhas neozelandesas só tendo como inimigo a águia haast, ave imensa que era predadora de seus ovos, filhotes e de adultos velhos ou feridos, até que, por volta de 1300 dC, o povo maori chegou e todos os gêneros moa logo foram levados ao risco de extinção pela caça e, em menor medida, pelo desmatamento. Por volta do ano 1400 quase todos os moa são considerados ​ extintos, juntamente com a águia haast que tinha confiado neles como alimento. Pesquisas recentes usando datação por carbono 14 sugerem fortemente que o moa levou menos de uma centena de anos para extinguir-se, em vez de um período de várias centenas de anos como se acreditava anteriormente.
Contudo, alguns relatos confiáveis têm confirmado que alguns espécimes continuaram persistindo nos cantos mais remotos da Nova Zelândia até os séculos 18 e mesmo 19, quando foram sistematicamente caçados pelos colonizadores brancos. O aparecimento do europeu “civilizado” deu fim a esses poucos indivíduos, e o último espécime, uma fêmea, foi morta por um fazendeiro irado que ainda esmagou com os pés os ovos do ninho que o mãe zelosa cuidava. Foi um fim ignominioso para tão formidável animal.
O moa, como o tilacino - (Thylacinus cynocephalus), comumente conhecido como lobo-da-tasmânia ou tigre-da-tasmânia, foi o maior marsupial carnívoro dos tempos modernos – e o pássaro dodô das Ilhas Maurício, é mais uma das vítimas inocentes da predação humana. Tudo que se fale contra o homem num caso como esse é pouco, o Homo sapiens é inqualificável quando se trata de transgredir as regras do ambiente ecológico em “seu favor”. A lei de Gérson aplicada na sua pior forma é quase uma segunda natureza desse energúmeno bípede. Não desejo viver o suficiente para ver como acabará esse desmando. Abraços, JAIR, Floripa, 19/06/11.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A inteligência



Pode parecer uma pergunta um tanto estranha de se fazer, mas, se quisermos entender nossa história evolutiva, temos que perguntar por que somos inteligentes? Por que somos tão criativos e bem sucedidos no mundo prático?
A resposta pode parecer tão óbvia quanto enigmática: porque isso faz de nós um animal tecnologicamente bem-sucedido. É claro, nosso domínio da tecnologia nos torna um animal destacado dos demais, nos coloca num patamar acima dos outros seres do Planeta. Mas esse é um argumento oblíquo, não responde o porquê de nossa inteligência superior. Também é igualmente fácil argumentar que somos tecnologicamente bem sucedidos porque somos inteligentes. A questão crucial que temos de responder em termos evolutivos é a seguinte: foi a vantagem indiscutível da sofisticada tecnologia a força propulsora primordial que criou o inteligente cérebro humano? Ou nós somos as potências tecnológicas de nosso Planeta devido a uma consequência fortuita da necessidade de sermos inteligentes por outras razões menos conhecidas? Em outras palavras, desejamos saber se os dons intelectuais que capacitam o homem moderno a lançar uma trapizonga espacial para fora do sistema solar, ou a escrever uma sinfonia para cantar esse fato, eram necessários, mesmo que apenas de forma embrionária, no dia-a-dia dos nossos antepassados caçadores-coletores? São indagações quase filosóficas que nos remetem ao dilema do ovo e a galinha e quem nasceu primeiro.
Exatamente como o conceito de que o homem ocupa o centro do universo permaneceu incontestável durante séculos – até que Copérnico e depois Darwin apareceram e afastaram essa visão antropocêntrica da criação - assim também nossa superior inteligência tem sido aceita como tão evidentemente elevada na evolução humana que poucas pessoas se importam seriamente em perguntar: por quê? A resposta afinal pode não ser tão declaradamente óbvia como poderia parecer: pode ser que durante nossa evolução tenhamos sido obrigados a aguçar nossa astúcia, não tanto a fim de superar desafios tecnológicos encontrados no mundo prático, mas de preferência para manejar as complexidades de uma vida social particularmente intrincada, relacionar-se com seus semelhantes era e ainda é muito mais complicado que desenvolver tecnologias ou resolver problemas matemáticos. A opção (ou necessidade) de viver em aglomerados humanos cada vez maiores pode ter exercido pressão para nosso cérebro se desenvolver em tamanho relativo, formato e ligações múltiplas entre neurônios. Portanto, o domínio da tecnologia pode ter sido resultante desse cérebro desenvolvido à custa de pressão social.
Basicamente, temos cérebros em nossa cabeça, quer sejamos humanos, macacos, ratos ou lagartos, para podermos criar nossa versão de “mundo real”, ou seja, aquele mundo que nos interessa. É razoável supor que no “mundo real” de um rato não exista a quinta sinfonia de Beethoven, por exemplo, ratos não estão preocupados com música por certo. Os animais, nas diferentes partes do espectro evolutivo, têm estilos de vida que são menos ou mais complicados. Se sua vida é muito simples como a de um sapo, por exemplo, então é possível prosseguir, dia-a-dia, com um mínimo de informações sobre o mundo exterior. Observando que o “mundo exterior” de uns pode não ser o mesmo de outros. Entretanto, caso se trate de um cão selvagem africano, o mundo que se pode criar dentro de sua cabeça deve ser muito mais rico (ter mais informações, em outras palavras) do aquele da cabeça de um sapo: isso ocorre devido a um apurado sentido de visão, audição e olfato e uma noção de comunidade em que deve cooperar com a matilha para a sobrevivência de todos; o que parece longe da atividade solitária de ficar sentado a beira de uma poça d’água atacando com a língua comprida os insetos que passam! Logo, não causa espanto que um cão selvagem tenha na sua cabeça uma quantidade maior de neurônios e uma complexidade maior de sinapses do que de um sapo; é compulsório que assim seja, caso contrário ele não seria um cão.
Então senhores, nossa complexidade cerebral com seus milhares de ligações entre os bilhões de neurônios; e sua relação entre tamanho e massa corporal, que nos distingue dos demais seres, é a marca registrada que nos faz Homo sapiens, e desenvolveu-se a partir de nossas interrelações sociais que pressionaram o cérebro no sentido de evoluir para além de um cérebro de primata. Sem essas pressões sociais seríamos apenas ratos, quem sabe? Ou seja, nosso “mundo real” (nossas interações sociais) é tão mais complexo e tão mais exigente, (assim como o do cão selvagem o é em relação ao do sapo) que não tínhamos opção a não ser nos tornarmos inteligentes ou desaparecermos para sempre. Infere-se que somos inteligentes porque necessitamos sê-lo e, em consequência, isto nos tornou o que somos: homens, mais precisamente, Homo sapiens. JAIR, Floripa, 13/06/11.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

David Rodrigues Cordeiro

A placa


Tudo que sei sobre meu avô veio de relatos e “causos” sobre ele que minha mãe e meus tios contaram, porquanto que não tive a ventura de tê-lo conhecido. Meu avô nasceu, por volta de 1880, nas matas Lapeanas, no seio de uma tribo dos orgulhosos índios Kaingangs, os quais, desde tempos pré-colombianos, viviam às margens do Rio Iguaçu, num local de corredeiras piscosas hoje conhecido como Caiacanga, onde existe, nos dias atuais, sub-explorada jazida de diamantes, a qual já foi objeto de texto “Pescarias e diamantes” que publiquei aqui.
O que se sabe com certeza é que em 1890, devido a inconseqüente ocupação, por parte de madeireiros, agricultores e caçadores, das terras onde viviam os Kaingangs, ocorreu um grave surto de gripe que atingiu as populações ribeirinhas, particularmente os índios, sendo que estes - cujos organismos ainda não tocados por bio-invasores alienígenas apresentavam baixa resistência ao vírus - quase foram dizimados. A morte assolou a taba com tal intensidade que os poucos adultos saudáveis se tornaram coveiros diuturnos, quase não lhes restando tempo para proporcionar aos falecidos os tradicionais rituais fúnebres inerentes a seus costumes atávicos.
A história oral conta que meu avô saiu do seu local de nascença e tornou-se nômade indo parar na Lapa. A cidade da Lapa foi fundada em 1731 pelos tropeiros que faziam o caminho do Rio Grande do Sul para Piracicaba onde iam vender seu gado. Os fundadores da cidade haviam participado da Revolução Farroupilha e da Guerra do Paraguai, daí, talvez, o espírito belicoso dos habitantes da Lapa. Consta que David, ao chegar à cidade, foi adotado por certo coronel Pôncio que lhe atribui um nome “cristão”: David Rodrigues Cordeiro, e que foi alfabetizado e tornou-se um membro integrado na família do coronel.
No meu conto biográfico “O pacote” vem o trecho descrevendo o que se convencionou chamar “Cerco da Lapa”, episódio da Revolução federalista que ocorreu no sul do Brasil logo após a Proclamação da República, e teve como causa a instabilidade política gerada pelos federalistas, que pretendiam "libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio Prates de Castilhos", então presidente do Estado. A luta armada atingiu as regiões compreendidas entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Veio o ano de 1894 e, com ele, as tropas federalistas comandadas pelo sanguinário Gumercindo Saraiva e seus “castilhanos” que, num ímpeto napoleônico, arrasavam tudo por onde passavam, tendo já derrotado o Coronel Adriano Pimentel em Tijucas do Sul. Havia, no ar, um cheiro de morte e aniquilação, porquanto os boatos davam conta que as tropas invasoras - mais de três mil homens - aos inimigos legalistas não costumavam dar trégua, assim como não a pediam também. Gurmercindo era famoso por degolar os prisioneiros que caíssem em suas mãos.
Meu avô, juntamente com o próprio coronel Pôncio e seus filhos, foi incorporado a tropa defensora do perímetro da cidade, ainda que, por sua pouca idade, não lhe tenha sido fornecido arma, ele passou a ser ajudante de cozinha.
Muitos anos depois, contava ela à minha avó, que tinha lutado deveras, havia empunhado uma manlincher e defendido, juntamente com outros soldados, uma posição crucial no centro da cidade onde a luta era ferrenha. Pois bem, minha avó desdenhava dessa atitude heróica, achava que era fanfarronice dele, e nós acabamos convencidos que a suposta luta armada só existia na imaginação do nosso avô. Estávamos errados.
Há pouco tempo, lendo o depoimento do major Custódio Clemente Pereira, do 17º Batalhão de Infantaria da Lapa, que havia lutado durante o “Cerco”, deparei-me com este trecho bastante interessante do texto dele: “No dia 7 [fevereiro de 1894], logo ao romper da aurora, atacaram-nos por todos os flancos com grande veemência, em número aproximado de três mil homens, entrando pelos quintais das casas da Rua Boa Vista, a qual estava em nosso poder, entrincheirando-se nas casas, fuzilavam nossas tropas a dez metros de distância, o combate tornou-se medonho em todas as frentes, chegando a estabelecer-se a arma branca. Tornou-se terrível principalmente na Rua Boa Vista, onde inimigos em número superior a 60 haviam penetrado na casa de Francisco de Paula, unida a uma trincheira onde se achava um Krupp (canhão de 75 milímetros de fabricação alemã) sob o comando do tenente Gustavo Lebon Régis. Neste momento, saídos das instalações de intendência que se encontravam a trinta metros do canhão, surgiram seis soldados, liderados pelo ajudante de furriel David Cordeiro, armados com manlinchers e, determinados, enfrentaram os invasores com tal ferocidade que estes recuaram com muitas baixas. Dos seis soldados, dois saíram feridos sem muita gravidade. O Krupp e sua guarnição haviam sido salvos pela coragem daqueles seis soldados”
Então ficou esclarecido, avô David realmente “pegou em armas”, e não só isso, a participação dele e de seus companheiros foi fundamental para salvar a vida dos operadores do canhão que estavam em perigo de morte frente aos inimigos. O Exército, reconhecido, deu a meu avô a promoção a sargento, conforme atesta placa com seu nome no Panteão dos Herois da Lapa. Descobri in loco numa planta que existe no monumento aos heróis, que da forma que o canhão estava colocado, sua guarnição ficara de costas para os atacantes na hora que meu avô os salvou. Ainda que a participação de David tenha se resumido àquela investida, sua atuação foi heróica, sem dúvida. Este relato visa resgatar a esquecida figura de David Rodrigues Cordeiro que foi um ser humano admirável, que viveu além e acima de sua época, aliás, de qualquer época. David Lapeano, ainda que não tenha vivido em dias atuais, onde lhe seria aplicado com a maior justiça título de herói da pátria, o foi sem qualquer dúvida. JAIR, Floripa, 01/07/11.